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Quando o futebol controla a política

26 Jun

Ouvi um colega meu dizer que há uns anos um académico brasileiro o tinha avisado que a Seleção Nacional vencer jogos era um perigo, que dava espaço ao Governo para fazer asneira sem ninguém dar conta. Temos provas que é verdade. Senão vejamos…

No dia 9 de junho, Portugal perdeu uma bola a zero frente à Alemanha, no primeiro jogo da equipa das Quinas no Euro 2012. Foi nesse mesmo dia que se começou a falar das condições do (então eventual) resgate financeiro da Espanha.

No dia seguinte lia-se nos jornais que Cavaco acredita numa recuperação económica “não muito distante”, que alertava para os riscos de austeridade excessiva e que “é urgente adoptar novas políticas de emprego em Portugal”. Passos Coelho convocou logo uma conferência de imprensa para dizer que “não há nenhuma razão para pedir novas condições para Portugal”. Coitado do povo, que está deprimido com o resultado de ontem. Condescendência.

No dia 13 de junho, Portugal ganhou à Dinamarca e surgiu a esperança de fazer boa figura no Euro 2012. O país festejava. As conversas de café dos dias seguintes foram sobre o número de golos que Portugal precisava de marcar no jogo com a Holanda para garantir o apuramento para os quartos-de-final. No dia seguinte, o Executivo já podia trabalhar à vontade, que ninguém ligava nenhuma.

O Conselho de Ministros aprovava uma nova proposta de Lei de Bases do Ambiente que nenhum jornal discutiu, ao mesmo tempo que Portas anunciava oito contratos fiscais com a indústria para um investimento de 157 milhões de euros (de onde veio este dinheiro?), para além de uma linha de crédito de mil milhões de euros (a sério?) para pagamento de dívidas das autarquias .

O “centrão” veio anunciar um entendimento quanto à lista conjunta a apresentar ao Tribunal Constitucional, num acordo que incluiu o PS, o PSD e o CDS-PP. Cala-te, Esquerda! O antigo presidente do PSD, Rui Machete, veio à Antena 1 fazer uma “avaliação positiva” da aplicação do memorando de entendimento da troika por parte do Governo e ninguém contestou a opinião do senhor.

Dia 15 a oposição acorda da dormência futebolística e aparece a moção de censura do PCP ao Governo de Passos Coelho. Reinicia-se o jogo político português. Em força. Mas só até dia 17, que Portugal joga outra vez.

No dia 17 as coisas correm bem à Seleção, que venceu 2-1 à Holanda. Festa! Às 21h35 ouve-se o apito final e Passos Coelho envia uma SMS ao Presidente da República: “Oh Aníbal, aproveita lá amanhã que o povo está contente, parece que vamos aos quartos-de-final”. E assim foi.

Daqui a uns meses o 18 de junho será recordado como o fatídico dia em que Cavaco Silva promulgou o novo Código do Trabalho, o monstro que vai assombrar os trabalhadores portugueses nos próximos anos. Começa o jogo político outra vez, com a Direita a dizer que isto é bom para Portugal e a Esquerda a dizer que nem por isso. Como o povo está contente o Governo aguenta as críticas da oposição como se nada fossem. Além disso dia 21 há jogo outra vez.

Certo.

No dia do jogo, sai a anedótica deliberação da ERC sobre o caso de Miguel Relvas e do Público, mas a malta quer é saber quem são os titulares do jogo de logo à tarde. Portugal vence, no dia 21 de junho, com um único golo, o encontro com a República Checa. A seleção avança para as meias-finais. Será a melhor notícia do ano, a menos que avance para a final. Ou que ganhe o Euro. É exactamente nestas possibilidades que estamos todos a pensar. Não é?

Entretanto, no dia 22 de junho, como o povo está grogue outra vez, foi tempo de anunciar os novos números da execução orçamental. Há que aproveitar o bom humor da população que os resultados são fraquinhos.

Vem o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, admitir um “aumento significativo dos riscos e incertezas” quanto à execução orçamental e ficamos a saber que, apesar do aumento dos impostos, a receita fiscal caiu 3,5 por cento até maio. Noticia-se que a despesa do Estado com a função pública, os sacrificados do país pela recuperação económica, já caiu 7,2 por cento, sendo que a maior fatia foi cortada aos Professores, essa classe inútil.

Isto não chegava. É que ninguém – nem o Mourinho, nem o Paulo Bento, nem o Cristiano Ronaldo, nem os comentadores desportivos da televisão, nem os comentadores do café lá da rua – acreditava que Portugal chegasse tão longe no campeonato europeu.

Então pomos o Passos Coelho a dizer, em direto da Colômbia, para despachar o assunto enquanto a vitória é fresca, que “vai ser difícil”, mas que o “objectivo do défice ainda é possível de fazer cumprir”. E como toda a gente percebe que isto quer dizer “vamos atacar-vos com mais uma meia-dúzia de medidas de austeridade”, há que nos distrair com uma frase à publicista: “ainda é cedo para falar dessa hipótese teórica”.

Amanhã há jogo. Portugal defronta a Espanha nas meias-finais. Vencer significa que a Seleção vai à Final do Euro 2012 contra a Alemanha ou a Itália. Eu até estou a gostar de acompanhar o Euro, não perdi um jogo e, como qualquer mulher que se preze (perdoem-me o machismo), tenho cumprido o papel de quem só gosta de futebol quando é a Seleção que joga. Mas desconfio que é melhor para nós, os trabalhadores, os funcionários públicos, os aposentados e os estudantes, que Portugal perca contra nuestros hermanos. Pelo menos ficava tudo em família.

Mas na eventualidade de ganharmos (nós-Seleção, não nós-Portugal), estão preparados para o que vai ser anunciado na quinta-feira pelo Governo e discutido no debate quinzenal da Assembleia da República na sexta-feira? Eu não.

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Já não há heróis como King

31 Ago

Paradigma. A palavra da moda e que não sai de moda em ciências sociais, da sociologia à comunicação, passando pela filosofia e outras sofias. Vem isto a propósito de outra palavra do momento, lançada já não se sabe bem por quem e recuperada dos tempos bafientos de Salazar: o assistencialismo. Vem isto a propósito do novo programa “Plano de Emergência Social” do ministro Pedro Mota Soares, que até já li no Facebook ser “o melhor ministro da Segurança Social que Portugal já teve” (e viva a estreiteza de vistas e de perspectiva histórica).

Os críticos da coligação, que são cada vez mais, acusam a ideia do ministro, uma das pedras de toque propaladas pelo então candidato Fernando Nobre antes da campanha eleitoral, de cheirar a mofo e de ser uma caridadezinha cristã para com os pobrezinhos deste país. E por falar na Igreja, o padre Vítor Melícias, o tal que tem uma pensão de mais de sete mil euros, veio logo dizer: “Não podemos dar restos aos pobres; os restos dos medicamentos, por exemplo”.

A verdade é que algo tem que ser feito. O país está em desequilíbrio gritante, há muitos anos, e continuam a ser os mais pobres a pagar a balança que pende apenas para um lado. São de novo esses que vão sofrer mais com o aumento do gás, da electricidade, dos transportes, da água quando for privatizada, dos correios quando seguirem o mesmo caminho (começando pelo IVA que agora vai passar a ser cobrado). Tal como na Idade Média, em que o objectivo era manter os escravos vivos, com força para trabalhar, e apenas e só isso.

O tão chamado ataque à classe média, que a coloca em perigo de extinção, prende-se com uma determinada pose e estilo de vida que passa por ter LCD’s, férias no Brasil, Blackberry’s e BMW’s. A esses, que agora se queixam de dificuldades, não me parece que seja devida qualquer compreensão ou razão.

Este estilo novo-rico está também nas mentalidades. Parece que agora o governo decidiu que todos os exames médicos passam a existir apenas em formato informático. Sim senhor, muito bem, excelente ideia, somos os maiores e mais uma vez lideramos o mundo na inovação. Agora gostava de ver como explicar a tantos e tantos velhotes perdidos nas aldeias de Portugal, e mesmo em aldeias paradas no tempo no centro de Lisboa ou Porto, gostava de ver explicado a esses cidadãos que de repente já não podem ver o estado da sua saúde, simplesmente porque uns senhores sentados à secretária, nados e criados no mundos das novas tecnologias, decidiram que sim. Que vamos poupar dinheiro? Vamos sim. Que vamos desrespeitar muitos cidadãos? Vamos sim senhor.

Mas honra seja feita a este governo. Voluntarismo há muito, por exemplo em Assunção Cristas, que no entanto, candidamente numa entrevista ao Expresso, reconhece que “caíu de pára-quedas” e que “felizmente” tem secretários de Estado que percebem do assunto.

Na ordem do dia está também o imposto sobre grandes fortunas, que Vítor Gaspar parece estar a levar a sério. A ideia não é dele, veio de Warren Buffet e de milionários franceses, mas é bom que Gaspar comece a interiorizar uma medida que é lógica.

Uma palavra final para um político a sério, que a sério mudou mentalidades e que a sério lutou por um mundo melhor. A 28 de Agosto de 1963, Martin Luther King disse ter um sonho e não se coibiu de dizê-lo alto e bom som. Pagou com a vida tal ousadia mas as coisas agitaram-se. O racismo ainda existe e é uma doença provavelmente sem cura mas a verdade é que Barack Obama inaugurou um memorial em honra de King no passado Domingo no National Mall, a gigantesca esplanada a sul da Casa Branca, em Washigton, o primeiro não dedicado a um antigo presidente ou a uma guerra. Já não há heróis como King.

“Básica é a senhora e tem que beber mais chá para deixar de ser básica”

27 Jul

Mais uma semana, mais uma peixeirada entre Alfredo Barroso e Teresa Caeiro. O nível de debate (?) entre ambos no Frente-a-Frente da SIC Notícias tem tido episódios bastante truculentos, mas nunca como nesta semana. Teresa Caeiro esteve muito mal, Alfredo Barroso mal esteve, Mário Crespo pior que os dois. “A si custa-lhe ter um debate com elevação e sem tentar arrastar toda a gente para um lamaçal, que é onde o senhor gosta de se mover”, por Teresa Caeiro. “O senhor tem um discurso básico”, novamente Teggy. “Básica é a senhora e tem que beber mais chá para deixar de ser básica”, desta vez Alfredo Barroso. E Mário Crespo sem mão (ou sem vontade) de pôr termo a este decadente espectáculo.

Teresa Caeiro é deputada, vice-presidente da Assembleia da República, antiga secretária de Estado da Cultura. Alfredo Barroso é fundador do PS, antigo secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e antigo Chefe da Casa Civil da Presidência da República. Mário Crespo, um dos principais rostos da SIC Notícias, único jornalista português credenciado junto das presidências de George H. Bush e Bill Clinto. Não estamos a falar de zés-ninguéns sem responsabilidades ou sem currículo, e mesmo a esses a falta de educação e de nível seria censurável.

Tal como o programa está desenhado, os dois protagonistas representam a esquerda e a direita em Portugal, ou alguma esquerda e alguma direita, e não podem apresentar um chorrilho de disparates como aconteceu. Mário Crespo representará (e aqui o condicional não é ilusório) uma certa nata do jornalismo. Não pode embarcar, mais uma vez, em sectarismos e opções políticas, legítimas é certo, mas noutras esferas.

É por estas e por outras que o português comum (e o mais seleccionado, já agora) não se inibe e já chama à boca cheia de palhaços, chulos, energúmenos e outros bonitos apelidos quem nos governa. E também quem põe a falar quem nos governa. Repare-se na blague da SIC Notícias sobre a interpretação do novel ministro das Finanças, Vítor “primo de Francisco Louçã” Gaspar do composto de palavras “desvio colossal”.

Palavras para quê, parece que já não é (terá sido alguma vez?) para levar a sério.

Voltando à Teresa e ao Alfredo, bom, quem sabe não é tudo sintoma de quem precisa de ir de férias urgentemente. Mas não vão, porque o Orçamento Rectificativo já está aí à porta.

Quanto ao povo? É tudo uma questão de interpretação. Pá!