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Ser agência de rating é mais fácil que escrever neste blog

24 Jul

A receita é simples. Teorizar sobre banalidades para construir uma espécie de contexto. Procurar grandes verdades políticas na Wikipédia. Encontrar números grandes, daqueles que só 50 por cento da população lê. Não interpretar esses números. Usar um dicionário de sinónimos para substituir palavras que toda a gente entende por outras que ninguém conhece. Acrescentar meia dúzia de conceitos financeiros, económicos ou tecnocratas. Pôr um carimbo no canto da página, enviar às redacções e publicar online.

Et voilá, somos uma agência de rating.

A agência Moody’s colocou em perspetiva “negativa” o rating de AAA da Alemanha, da Holanda e do Luxemburgo, o primeiro passo para um eventual corte na notação que lhes é atribuída no gráfico de “bom comportamento económico”. O relatório, em que a agência de notação norte-americana explica porquê, tem 14 páginas.

Comportamento económico europeu (por Maria Inês Marques)

Ora, eliminem-se as banalidades, como “a Europa atravessa uma grave crise económica”. (A sério?!) Dispensem-se as lições disponíveis na maior enciclopédia do mundo virtual, como “a dívida soberana deve permanecer estabilizada frente ao PIB”. (Disse-me a Moody’s e disse-me a Wikipédia.) Interpretem-se os números, leiam-se as entrelinhas, pense-se nas consequências. Escreva-se para toda a gente (em vez de só para alguns). Tire-se o carimbo. E sem carimbo não há entrada nas redacções nem se azucrina a cabeça à Merkel, ao Juncker e ao Barroso.

Et voilá, somos um blog.

Desculpem-me a falta de humildade, mas basta-me ler os jornais para saber que houve um aumento geral da dívida pública na Zona Euro, divulgado pelo Eurostat esta semana, e que isso significa que mesmo as economias mais saudáveis da Europa estão menos “estáveis” e, portanto, sujeitas a perspectivas mais “negativas”.

Sabemos todos que se vive um período de  “incerteza na união monetária”; que a crise financeira teve “impacto em alguns dos Estados-membros”; que “a possível saída da Grécia da moeda única colocaria uma ameaça concreta ao euro”; que mesmo que a Grécia não saia da Zona Euro, os encargos assumidos pelos Estados-membros mais fortes aumentarão com o pagamento dos resgates das economias mais fragilizadas; que as coisas como estão – com cinco países a pedir ajuda externa – “poderão levar a uma série de choques, que poderão ganhar força com a persistência da crise”.

É isto, tal e qual, que diz o tal relatório complicadíssimo de 14 páginas que uma agência especializada escreveu esta madrugada.

Com este texto, a Moody’s pôs o presidente do Eurogrupo e primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, a fazer um controlo de danos e o Ministério alemão das Finanças (com mais meia-dúzia de políticos) a justificar o relatório com outras vulgaridades e a prometer que a Alemanha nos vai salvar a todos.

Por causa do relatório de uma agência de rating que mora do outro lado do Atlântico a Grécia foi imediatamente (leia-se, no mesmo dia em que o texto foi publicado) pressionada pela Alemanha para tomar medidas de austeridade mais duras, desistir das renegociações dos prazos para cumprir as metas do défice e esquecer a hipótese de receber mais dinheiro.

Um economista disse à Bloomberg que “a posição central da Alemanha na Zona Euro faz com que a ideia de que poderia ser, de alguma maneira, isolada da deterioração geral da área, não seja realista.” Por isso, “a descida parece lógica.” Lá está. Diria mais: óbvia.

Financial Times explica que as críticas da Moody’s podem agravar a posição pouco favorável que a Alemanha e outros países têm em relação às opiniões das agências de rating. Já vão tarde. Explica também que podem produzir um impacto negativo no público alemão, que está preocupado com o custo para o país, e consequentes esforços do seu povo, no fortalecimento da Zona Euro. Mas só agora, depois de uma agência de rating, em vez de um blog qualquer, lhes dizer que também lhes toca a eles…

Já se disse muita coisa em torno deste assunto, com análises muito mais complicadas e relevantes, neste blog. Mas nós não temos carimbo. Só de “agência de rating do povo”. E neste rating os países não têm medo de má figura.

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Soltas

29 Fev

«Devemo-nos concentrar no pagamento daquilo a que nos comprometemos. Quanto mais depressa pagarmos a dívida que temos, mais depressa mais podemos reclamar a parcela exacta da nossa soberania, que nos dá credibilidade e nos afirma de corpo inteiro na Europa». Palavras de Nuno Melo depois da audiência de preparação do Conselho Europeu desta semana com Passos Coelho.

Parece-me que a palavra-chave é soberania. Afinal há um assumir de posição que de facto estamos a ser governados por outrém e que não somos soberanos. Ao menos isso, e Nuno Melo não tem meias palavras. Quem manda é Merkel, Thomsen ou o novo lacaio, Abebe Selassie, curiosamente um especialista em economia… africana. Ou seja, das três uma, ou a troika acredita que Portugal não tem solução e envia quem estava mais à mão, ou a troika tem fé que Portugal está no bom caminho e pode aliviar a supervisão, ou a troika já considera Portugal como fazendo parte de África.

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«As chances da Grécia de se restabelecer e se tornar mais competitiva são certamente maiores fora da união monetária do que se permanecer na zona do euro (…) Não estou a dizer que a Grécia deveria ser expulsa, mas que sejam criados incentivos aos quais ela não possa dizer ‘não’». Quem o diz é Hans-Peter Friedrich, ministro alemão do Interior. A frase em si representa um sentimento que muitos já expressam à boca pequena e em surdina mas que pela primeira vez um político com responsabilidades vem assumir. Ouvi a notícia na TSF. O mais grave, e a declaração é gravíssima, foi o remate da jornalista, que referiu que a eventual saída da Grécia da zona euro seria uma catástrofe para a Alemanha, para o euro e para a União Europeia. Será que se esqueceu de pensar nas consequências que teria para a Grécia? É verdade que qualquer uma das hipóteses parece um desastre, a manutenção do euro em Atenas ou o regresso ao dracma, mas o que assusta sobretudo é a frieza e a desfaçatez com que se trata o país helénico.

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A título pessoal, como português e como trabalhador (em pausa é verdade) da área, chocam-me cada vez mais os oráculos, os tickers e demais gráficos com palavras das televisões portuguesas. São erros clamorosos de sintaxe, de concordância, de sentido ou simplesmente de omissão de palavras. ‘O negócio eSpandiu-se’, ‘O Sporting joga (esta?) noite em Varsóvia’, ‘Os passageiros (vão?) chegar às Seychelles’ são apenas alguns exemplos. O aperto nas redacções e o estrangulamento de recursos começa a ser demasiado óbvio e coloca em causa o (bom) trabalho de muitos.

Governar na Europa é como regatear na Feira do Relógio

8 Nov

É a sensação que me dá. Tenho lido as notícias sobre a “crise” política e económica (como toda a gente) e a única conclusão que me autorizo a tirar é que governar na Europa é como regatear na Feira do Relógio. Está bem que não é nenhuma novidade que a política assente no neocapitalismo liberal se sustenta em duas máximas principais: negociar com quem tem dinheiro e calar quem tem ideias. Estou conformada com isso e contorno a coisa como posso.

Mas ultimamente parece que entrámos num estado litúrgico, que sobrevive num qualquer limbo teórico que não reconheço nas sebentas da teoria política, em que as regras básicas e fáceis a que nos habituámos não se aplicam. É que, graças à “crise”, que desta vez é a sério e andamos todos a senti-la na pele em vez de só falarmos sobre isso, quem tem ideias não se cala. Ainda bem. Estão a acontecer coisas. Coisas a sério. Greves, manifestações, marchas, ocupações, ameaças de revoluções e outras confusões. Gosto.

Mas também graças à “crise” quem tem dinheiro está mais forreta, mais sovina, mais avarento, mais somítico. E quem não tem está mais sedento, mais ávido, mais sôfrego, mais desesperado. E, talvez por isso, quando leio os títulos dos jornais, lembro-me sempre da minha Avó na Feira do Relógio.

“ Três camisas 20 euros! 20 euros!”, grita uma mulher com voz de homem grande. “Dez e vai com sorte”, responde a minha Avó de 40 quilos com um ar desinteressado, de quem só ali está porque não tem nada melhor para fazer. “Não pode ser minha senhora, tenho que ter dinheiro p’ra dar de comer aos meus filhos”, responde a mulher vestida de preto e de carrapito no alto da cabeça. “Dez ou nada feito”, responde a minha Avó. A coisa dura uns dez minutos e as três camisas vão para casa por 15 euros no máximo. Agora comparem com o que se passou na Grécia a semana passada e com o que se está a passar hoje na Itália.

Em vias de extinção

O primeiro-minsitro grego, Georges Papandreou, não estava para vender o país à Troika e põe um referendo em cima da mesa para negociar com o povo e com quem manda na Europa. Dois coelhos de uma cajadada só. Aquilo assusta a Merkel e o Sarkozy que respondem com ameaças sobre a saída do país da Zona Euro. Papandreou desiste do referendo e, para não deixar mal o povo, apresenta demissão. O processo não leva dez minutos, mas resolve-se em dois dias.

O povo italiano quer pôr o primeiro-minsitro, Silvio Berlusconi, na rua. A oposição também, mas o homem está decidido a ficar. Votam-se as contas do Estado na Câmara dos Deputados e Berlusconi consegue a aprovação mas perde a maioria absoluta porque a oposição esteve presente mas não votou. Após a votação, Berlusconi diz ao Presidente Giorgio Napolitano que se demitirá quando forem aprovadas as medidas de austeridade propostas pela UE. É como quem diz: “Querem-me na rua? Votem a favor.”

Não me digam que isto não é, tal e qual, como regatear camisas na Feira do Relógio. Como disse numa qualquer entrevista o realizador Woody Allen, “eu acredito que há qualquer coisa a olhar por nós. Infelizmente, é o governo.” E parece que o nosso não tem jeito para o negócio…

Que futuro para o Bloco de Esquerda?

15 Jun

Muito se tem escrito e falado sobre o Bloco de Esquerda desde o desaire eleitoral de 5 de Junho. Há de tudo um pouco. Pela esquerda, os que defendem a revolução socialista, critica-se entre outras coisas o aburguesamento parlamentar que o Bloco adquiriu com o seu rápido crescimento eleitoral. Pela direita, os que defendem um partido com pendor governativo, critica-se entre outras a ausência de um programa político diferente do comunista. Pelo meio ainda há apelos à demissão de Louçã e à renovação da estrutura do partido e muitas teses e análises sobre o seu presente e futuro.

Costuma-se dizer que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. E talvez assim seja. O BE não é hoje um partido assim tão diferente daquele que surpreendeu nas legislativas de 2009. Veja-se por exemplo que os candidatos a deputados eram, com uma ou outra excepção, os mesmos que em 2009 e que o programa político tirando a actual questão da ajuda externa era sensivelmente o mesmo. Então como se entende este desaire eleitoral? Antes da reflexão deixo algumas notas introdutórias.

1 – O BE foi sem dúvida a grande novidade do sistema político português dos últimos 20 anos ao conseguiu abrir caminho num espectro simétrico e quadrático de 4 partidos parlamentares. Tentar penetrar neste sistema aparentemente fechado não se afigurava tarefa fácil. No entanto o BE conseguiu-o, e apesar deste desaire, consegui-o muito bem. O BE rompeu com a ortodoxia do PCP por um lado e com a deriva liberal do PS por outro e apesar das origens de esquerda radical posicionou-se entre estes dois. Mesmo sem conseguir encostar muito o PCP para canto, o BE conseguiu empurrar o PS para a direita e conquistou um espaço que, apesar de se ter reduzido agora, não deixa de ser significativo.

2 – Como toda a gente sabe, o BE tem origem na comunhão de esforços e de interesses de pequenos partidos e grupos de esquerda que resultaram das imensas cisões e contra-cisões que dominaram a história da extrema esquerda, arriscar-me-ia eu a dizer, desde sempre. Sozinhos estes grupos pouco valiam. O resultado mais forte do PSR tinha sido em 1991 com pouco mais de 60 mil votos e a UDP apenas elegeu um deputado nessa legislatura por estar nas listas do PCP. Surpreendentemente, estes partidos conseguiram assegurar uma plataforma de entendimento minimamente consistente e pela primeira vez à esquerda o pragmatismo venceu a pureza ideológica. Este trabalho não tardou a produzir resultados. Em termos de estrutura o BE tornou-se um pólo de atração de militantes quer com o regresso de muitos descontentes e desacreditados da política quer com a entrada de muitos jovens que se sentiram atraídos pelo ar fresco que o partido representava. Em termos eleitorais o BE não mais parou e de eleição para eleição foi aumentando a sua força, a sua presença nos media e a sua representação. 

3 – Foi o partido da moda durante uns anos. Retomou os valores de esquerda que pareciam esquecidos pelo PS e que eram maltratados pelo PCP. Pareceu um partido livre de preconceitos e de agendas ocultas e aparentemente respirava-se liberdade e democracia no seu seio. Apresentou bandeiras importantes que na altura pareciam impensáveis mas que fizeram o seu caminho na sociedade e que hoje, muito graças ao BE, são realidades. Falo da IVG e falo do casamento homossexual entre outras que entretanto caíram. Bandeiras estas que contribuíram muito para a aproximação e adesão de muitos activistas sociais o que fez com que o BE se identificasse como o tal partido-movimento.

Contudo, nem tudo poderiam ser rosas neste percurso ascendente e algum dia haveria de chegar a hora da verdade. O BE vive hoje uma fase determinante da sua curta história e apresenta enormes problemas que podem até colocar em causa a própria sobrevivência do partido. Para mim, mais do que a análise conjuntural que se fez deste desaire pondo a culpa nesta ou naquela posição, o problema do BE assenta em pelo menos duas grandes contradições.

1 – Ser um partido de base radical e de eleitorado moderado. Tem sido falado aqui e ali e sem dúvida que este ponto faz do BE um partido algo esquizofrénico. Por um lado as suas bases, mesmo apesar das divergências, defendem um programa político de carácter mais revolucionário. Veja-se por exemplo como são defendidas a saída de Portugal da NATO e a nacionalização de determinados sectores da economia. Por outro lado o seu eleitorado, pelo menos o mais volátil, apoia medidas mais moderadas e social-democratas* (no sentido verdadeiro da social democracia). Este fenómeno faz com que o BE viva num equilíbrio instável que conseguiu disfarçar no tempo das vacas gordas, mas que agora vem ao de cima. Não é uma situação fácil pois pode romper a corda de qualquer um dos lados. Se vai demasiado ao encontro dos anseios das bases perde eleitorado e por outro lado se vai demasiado em contra os anseios do eleitorado perde a estrutura.

2 – Querer ser o tal partido movimento numa era em que os movimentos são quase anti-partidos. Não tem sido falado, mas não deixa de ser curioso que um partido que está na sua origem bastante ligado aos movimentos sociais e que beneficiou muito da sua incorporação seja agora repelido pelos novos movimentos que entretanto surgiram. Actualmente qualquer aproximação partidária a um movimento é vista como uma espécie de lepra. Aliás um movimento só vinga se conseguir manter uma distância razoável face aos partidos e isto observa-se nos movimentos que surgem no seio do BE que mal conseguem sair da marginalidade política e social (ex: FERVE, Precários Inflexíveis, entre outros). Isto torna a posição do BE semelhante à de um pai que é rejeitado pelos filhos e que olha para eles à distância com um sentimento de frustração por não poder estar perto.

Para além das suas próprias contradições o BE sofreu também uma espécie de síndrome Jorge Jesus desde as eleições de 2009. Não percebeu que o resultado que teve nessa altura foi claramente conjuntural e deve ter pensado que de um dia para o outro mais de meio milhão de revolucionários disciplinados e organizados estavam cegamente prontos a apoiar o BE e a fazer a revolução. Faltou humildade, e nem o péssimo resultado das autárquicas deve ter servido de aviso a uma direcção que só lhe faltou dizer que ia ganhar a Liga dos Campeões na próxima época. O resultado é visível e agora a depressão interna pode ser bem longa e penosa. Mais, as divergências internas podem ganhar imensa força e desestabilizar o partido por muito tempo. Se em tese se poderia dizer que com o tempo e com o crescimento do partido as tendências internas iriam perder força e iria surgir uma nova geração de militantes de formação puramente bloquista pouco ou nada importados com as divergências clássicas do esquerdismo. Aparentemente esse processo falhou ou pelo menos está a demorar muito mais tempo do que seria desejável.

Quanto à troika de razões apontadas ao fracasso eleitoral penso que o seu peso não terá sido assim tão significativo. Simplisticamente, há duas grandes alternativas de caminho para o BE, ser um partido de poder ou um partido de oposição. Nesta linha de raciocínio não se podem colocar os três aspectos normalmente referidos, o apoio a Alegre, a moção de censura e a recusa em negociar todos no mesmo saco. O apoio a Manuel Alegre não me parece um erro na perspectiva de transformar o BE num partido de poder. Sendo o espaço lógico de crescimento a esquerda do PS e além disso tendo em conta que há muita gente que defende uma aliança com o PS, nada melhor do que ensaiar uma aproximação. Claro que à posteriori é muito fácil dizer que foi um tiro no pé e claro que isto causou algum desconforto aos sectores mais à esquerda pois viram-se obrigados a tolerar o apoio de José Sócrates. Os resultados dessas presidenciais por vários factores óbvios não podem ser transpostos para eleições legislativas portanto ainda está por testar a possibilidade de coligação PS/BE.

Por seu lado, a moção de censura foi uma imbecilidade por todos os motivos e mais alguns. Nem numa perspectiva de poder, nem numa de oposição faria sentido algum apresenta-la naquela altura. Creio que a razão de Louçã o ter feito foi tentar ganhar algum espaço na oposição de esquerda ao PCP o que pareceu bastante infantil. Quanto ao terceiro aspecto, a recusa em sentar-se à mesa das negociações, não me parece um erro na perspectiva do BE como partido de protesto. Claro que com isso perdeu eleitorado moderado e na perspectiva de poder ficou claramente a perder. O BE não resistiu ao preconceito esquerdista face ao FMI. Acontece que ao contrário de 74/75 a população está mais interessada em que lhe resolvam os problemas do que em discutir ideologias e como o BE não apresentou alternativas credíveis, votar BE seria sempre uma forma de resistir ao avanço liberal e nunca uma alternativa de poder.

A grande questão será agora ver para que lado cairá o BE. Pode optar por ser um partido de protesto mais próximo da sua origem, mantendo com isso a sua natureza anti-capitalista mas dificilmente conseguindo aumentar a sua base de apoio. Ou pode avançar para o lado governativo, podendo assim ter algum poder de mudar a realidade mas correndo o risco de ver desaparecer grande parte da sua base de apoio ao mínimo compromisso com o capitalismo e ser assim acusado de traição à esquerda. Difícil caminho este. Não creio também que o partido necessite assim tanto de renovação de quadros porque a maioria dos actuais estão ainda frescos e também não me parece que hajam assim tantos mais à espera de oportunidade. Como li por aí o BE não é propriamente um partido de boys onde a cada desaire eleitoral se faz o ajuste de contas e se reestrutura a relação de poder interna com vista ao próximo assalto ao pote. Quanto a Louça a questão é diferente e talvez seja tempo de deixar o lugar. Talvez Pureza fosse uma boa opção.  

* Na formação do plural em adjectivos compostos, como é o caso em apreço, a regra geral indica que apenas o último elemento torna a forma do plural. De acordo com a regra gramatical afigura-se como certa a designação “os social-democratas”.

Fevereiro 2021 – Uma história de ficção científica, ou talvez não…

6 Maio

Fevereiro  2021,

Após vários meses de indecisões, Portugal recorre ao FMI pela terceira vez na sua história. Foram avanços e recuos que fizeram apenas agravar as taxas de juro. Depois de um longo braço de ferro com os mercados, e a demissão do Governo Português por parte de Durão Barroso – recém eleito Presidente da República – Portugal formalizou hoje ao final da tarde o pedido de ajuda financeira ao FMI. Vários Jornais internacionais perguntam nas suas edições de hoje, como foi possível chegar mais uma vez a este ponto! Importa fazer uma recapitulação histórica:

Em Abril 2011, ou seja há 10 anos, o Governo Português então liderado pelo Eng. José Sócrates, foi forçado pelos seus parceiros Europeus e pela elevada pressão dos mercados a pedir ajuda externa. Nesse período conturbado, foi formada uma Troika composta pelo FMI, BCE e representantes da – há alguns anos extinta – “Comissão Europeia”. Nessa altura foram negociadas uma série de medidas, que aplicadas levariam o País a reduzir o seu défice orçamental, operando também uma série de reformas que preveniriam Portugal de voltar a cair numa situação destas. Após as eleições de Junho de 2011, que o PS ganhou com 33% dos votos contra 32% do PSD, 15 % do CDS-PP, 8% CDU, e 7% BE, o Presidente da República insistiu numa formação de um Governo de Unidade Nacional composto pelos 3 partidos mais votados, visto que seriam precisos consensos para aplicar as recomendações feitas pela Troika, mas também porque houve uma abstenção que rondou os 45% (a maior de sempre numas eleições legislativas até aquela data)! Paulo Portas que sempre recusou fazer parte de um governo com José Sócrates, e que obteve um grande ganho eleitoral graças a um discurso mais direccionado ao centro durante toda a campanha, tornou-se durante meses no seu maior aliado, fazendo de ponte na negociação para um entendimento governativo a três, com os Sociais-democratas, que correram com Passos Coelho de líder, após este em cinco meses ter passado de futuro primeiro ministro de Portugal, a grande derrotado nas eleições!
Com a escolha de Aguiar Branco para liderar o PSD, após a recusa de Paulo Rangel em fazer parte de um Governo em que não fosse ele o primeiro-ministro, o trio Governativo (PS-PSD-CDS) começou a pôr em prática o programa de governo escrito pelo FMI e os seus parceiros Europeus.
Em 3 anos o País reduziu o défice para 3% e tudo pareceria perfeito não tivessem sido as constantes clivagens e demissões que foram acontecendo ano-após-ano no governo. Como todas as grandes decisões políticas eram tomadas a partir de Bruxelas, restava apenas como divertimento à classe política Portuguesa as pequenas querelas e as mudanças ministeriais entre partidos. Aguiar-Branco demitiu-se em 2012, devido à contestação interna de que vinha sendo alvo por parte de alguns notáveis do PSD, como Marcelo Rebelo de Sousa, que insistiam que o estilo de diálogo que Aguiar Branco estabelecera com o resto dos parceiros de governo, não punha os interesses e a visibilidade do partido em primeiro plano. Com Sócrates muito desgastado no final de 2012, após mais alguns escândalos noticiados por alguns jornais relativos à sua vida profissional antes da sua carreira política, mas que não chegaram a ser devidamente provados, Paulo Rangel assumiu o controlo do PSD provocando uma crise política, derrubando o Governo. As eleições de Janeiro de 2013 em que o PSD venceu com 33% dos votos, contra 30% do PS que passara a ser liderado por Francisco Assis, 15% do PP (que abandonaria definitivamente a sigla CDS, devido a um discurso mais fundamentado sobre os valores da direita), e 15% da Coligação de esquerda CDU-BE, que haviam unido forças após as eleições de 2011. Paulo Rangel entendeu que haveria necessidade de um novo governo alargado e convidou apenas o PP para um entendimento governativo. Esta atitude não foi contrariada pelo Presidente da República, e os próprios parceiros europeus não mostraram nenhum sinal de discordância, uma vez que o Governo Português era apenas o veículo de implementações das decisões tomadas por Bruxelas e o FMI.
No início de 2014, e com a economia a crescer 2,4%, um bom resultado mas ainda assim abaixo da média Europeia, a Troika abandonara definitivamente o País deixando-o numa situação que se poderia considerar de estabilidade e recuperação económica. Paulo Rangel fazia então uma declaração ao País onde dizia que os sacrifícios estavam prestes a terminar e que o futuro só poderia sorrir a Portugal nos anos vindouros. A sua popularidade estava em alta e nada parecia capaz de esmorecer esse sentimento de confiança.
Mas, no final de 2014 a Alemanha anunciou a sua decisão de acabar com o Euro e de voltar à sua antiga moeda. Justificava-o dizendo que seria melhor para todos os envolvidos, uma vez que todos poderiam voltar a controlar a sua moeda, tornando a Europa mais flexível em termos cambiais, escapando aos sucessivos ataques de que o Euro fora sempre alvo.
A França recusou esta proposta e abriu uma guerra diplomática com Berlim. Dominique Strauss-Kahn, entretanto eleito Presidente Francês, jurava bater-se até às últimas consequências pela manutenção do Euro. Mas a intransigência de Berlim e a confirmação de outros países, tais como a Finlândia e a Áustria, de que pretendiam também abandonar a moeda única, levou a que no final de 2015 viesse a ser assinado o Tratado de Bruxelas.
Em Bruxelas, antiga capital da Bélgica que em 2013 se dividira em Flandres e Valónia-Bruxelas, foi assinado um acordo entre os diversos países Europeus em que não só era decretado o fim do Euro (como a pedido da Alemanha), como também o fim da própria União Europeia, a pedido da própria França, em clara retaliação a Berlim. Diziam os Franceses que se a União Europeia nascera não só para evitar conflitos bélicos na Europa como também para criar um grande bloco económico, a inexistência de nenhuma destas condições naquele momento, era razão mais do que suficiente para a sua dissolução.
Assim sendo, foram negociadas formas de ressarcir os mais prejudicados com esta decisão, o que equivale dizer que a Alemanha foi pagando ao longo dos anos sucessivos uma série de indemnizações aos denominados países pequenos.
Esta crise Europeia criou em 2015 e 2016 uma grave crise económica que levou quase todos os países Europeus a uma recessão. Portugal não escapou e em apenas dois anos o défice derrapou de 3% para 9%, levando a que Paulo Rangel – cada vez mais criticado pelo próprio partido e pelo seu parceiro de coligação no Governo Paulo Portas – viesse a público apresentar duras medidas de contenção orçamental; anunciando subidas de impostos e cortes nas pensões. Com a vitória de António Guterres contra Durão Barroso nas Presidenciais, a situação de Paulo Rangel tornava-se cada vez mais delicada, e em Fevereiro de 2017 o seu governo caiu, muito por culpa de Paulo Portas, mas também de muitos elementos do seu partido, tal como Marcelo Rebelo de Sousa que o criticava abertamente no seu programa televisivo de Domingo à noite. O PS que voltaria ao poder após anos na oposição, elegeria António José Seguro como primeiro-ministro com 40% dos votos, contra 30% do PSD, 8 % da CDU (que entretanto se havia separado do BE), 6% do PED (Partido Esquerda Democrática – criado por uma série de insurgentes da coligação CDU-BE que apostavam num discurso de esquerda não tão radical e que propunham entre outros, entendimentos com o PS), 6 % do PP e 5% do BE que tentava novamente se recompor da coligação falhada com o PCP.
Depois de estabelecida uma coligação com o PED, o PS passou a dispor de uma maioria absoluta. O novo Governo após assumir funções, anunciou que não iria baixar os impostos que Rangel havia aumentado, de forma a conter o aumento da dívida pública. Apesar dos mercados estarem mais descansados face a este entendimento, os parceiros de governo (PED) mostravam-se cada vez mais descontentes com aquilo a que chamavam de “políticas de direita de um governo supostamente de esquerda”. Para acalmar os seus parceiros de coligação, António José Seguro; aconselhado por António Guterres, anunciava um programa de grandes obras públicas e aumentos de salários na função pública, por forma a promover o crescimento económico e o consumo. Entre 2017 e 2018, Portugal registou um crescimento económico na ordem dos 2%, mas quando no início de 2019 foi anunciado que o défice de 2018 era de 7,5%, a desconfiança dos mercados e as críticas dos partidos da oposição aumentaram. No final de 2019 o País registava um crescimento pouco acima de 0,5%, mas a opinião pública era animada pela discussão em torno do duplo referendo acerca do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, leis que Paulo Rangel havia revogado em 2015.

Com uma nova vitória do “sim” no duplo referendo, o ano de 2020 começaria calmo, mas tornar-se-ia tumultuoso a partir de Junho. Com a aproximação das Presidenciais de 2021 e com as péssimas execuções orçamentais que o Governo de José Seguro vinha acumulando, o clima de clivagem política começava-se a instalar. Os mercados cobravam taxas de juro cada vez mais insustentáveis, em Julho o PED abandonaria a coligação de Governo, deixando José Seguro com um Governo minoritário, e em Novembro, Durão Barroso novamente candidato às Presidenciais ameaçava que, se fosse eleito demitiria o governo e promoveria uma coligação alargada com os maiores partidos, por forma a fazer face a uma crise cada vez mais profunda. O orçamento passaria com muita dificuldade, após longas negociações na Assembleia da República tendo luz verde por parte do PED, quando já tudo pareceria perdido. Mas, com a derrota de Guterres nas Presidenciais após uma campanha em que os candidatos trocaram acusações e calúnias, o País entrou num novo ciclo político. Durão Barroso numa longa declaração ao País anunciava que iria demitir o Governo, promover eleições antecipadas, e pedir ajuda financeira externa, pois o País já não tinha capacidade nem condições para se financiar nos mercados.
Foi assim que vimos esta tarde o Presidente da República anunciar ao País e ao Mundo o recurso ao FMI, para ajudar a resolver uma situação que a continuar levaria o País à bancarrota.

É do aiémefe?

20 Abr

Está? Está? O quê? Fale lá português homem que eu cá não percebo nada de estrangeiro… Ah, bom dia, óptimo, vê como consegue quando quer. Vocês, os estrangeiros, pensam que toda a gente vos deve entender na vossa língua. Eu cá não gramo essas coisas, querem falar comigo, que falem em português, pois quando fui a Espanha ninguém tentou compreender o que eu dizia. É assim, olho por olho, dente por dente. Quem é que os estrangeiros pensam que são? Prontos, diga lá… Quer falar com o Sr. Ministro? Está com azar, ele está em reunião. Não, não pode atender, quer deixar recado? É urgente? Ora que coisa, você sabe para onde está a ligar? Aqui quem decide a urgência somos nós. Ah, já tentou ligar várias vezes antes? Olhe, paciência, é que tive de sair. A minha nora esta desempregada coitadinha e fui tomar café com ela para a consolar. É uma pena sabe, ver estes jovens assim nesta situação… Que país o nosso… Não sei como é no seu país. Já agora, de onde é que fala? É do aiémefe? Não sei onde isso fica. Isso é um país? Não conheço, nunca fui boa a geografia… Está cá para ajudar? Óptimo, isso é que é preciso, sabe que as coisas por aqui não estão nada fáceis e toda a ajuda é bem-vinda. Principalmente para os mais novos, coitadinhos, sabe no meu tempo não era nada assim. Eu entrei aqui com a 4 classe. O meu pai era amigo de uma pessoa influente e conseguiu-me este trabalhinho. Não ganho mal e tenho a reforma garantida, coisa que parece que é para acabar pelo que ouvi nas notícias. O chato aqui é que às vezes obrigam-nos a ir a uns cursos… Mas eu não quero saber disso, vou lá porque me obrigam e porque subo na carreira, mas nem sequer ouço, mesmo que quisesse acho que nem compreenderia, computadores, línguas, que complicação… Agora hoje em dia já não é assim. Aparecem aí muitos jovens a pedir trabalho e não há nada para ninguém. Até aparecem alguns bem-vestidos e bem-falantes a dizer que têm um douto qualquer coisa. É uma pena sem dúvida. E depois têm de ir para fora e só ficam cá os poltrões, gente que não sabe trabalhar, que não se esforça, que só arranja trabalho com cunhas. Os que não têm cunhas fazem manifestações. Onde é que já se viu… Sabe, ainda outro dia estava aqui uma confusão porque parece que o governo tombou e havia muita gente para meter antes que corressem com eles daqui… Eu não me preocupo, qualquer que seja o governo eu apoio-o. Pois, não podemos cuspir em quem nos dá a mão… Eu cá voto no Senhor Engenheiro, mas se o outro ganhar também não me importo, tem boa cara o mocinho e dizem que é de uma família humilde. Espere! Que falta de respeito, não vê que estou ao telefone? Desculpe, estava aqui alguém, estava eu a dizer… Quando pode falar com o Sr. Ministro? Já lhe disse que está em reunião, vai ter de aguardar. Prontos, ligue mais tarde que eu agora tenho de sair, não posso passar o meu tempo todo ao telefone, tenho hora marcada no cabeleireiro. Sim, eu deixo o recado. Urgente, urgente, não lhe posso garantir, toda a gente diz o mesmo, se eu fosse a ligar a isso estava feita, mas eu garanto-lhe que faço uma forcinha. Bem, bom dia, tudo de bom para si e para os seus e haja saudinha… Diga lá, não viu que eu estava ao telefone? Esta gente… Outro a falar estrangeiro? Que mania, isto aqui não há nada para ninguém, não percebo este interesse todo em Portugal, desculpe lá mas eu cá só falo na minha língua. Da União Europeia? Vê como consegue quando quer. Sabe, um dia fui a Espanha… Esta cá para falar com o Sr. Ministro? Lamento mas vai ter de aguardar, ele está em reunião. Sabe…