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A crise é o ópio do povo

6 Nov

Em 1843, depois de Kant, Borne, Hess e outros falarem do seu poder narcótico, Marx escreveu que “a religião é o ópio do povo”. No tempo dos nossos avós surgiram os cientistas sociais e as suas teorias fatalistas sobre a alienação do povo pelo futebol. Depois, na altura dos nossos pais (que o mundo agora diz que evolui depressa), como afinal se descobriu que as mulheres também pensam, criam, são força de trabalho e até já votam, acrescentou-se à lista de hipnóticos malvados a televisão, que em vez de transmitir informação passava novelas.

A geração que está agora na casa dos 20 acusa a reality tv. Aqueles programas que encabeçam todas as noites a tabela de audiências, que vendem publicidade a preço de ouro e que toda a gente vê em segredo. E quando se é apanhado justifica-se que “é para perceber de que tanto se fala, ver o retrato deste país de ignorantes, descontrair, rir-me daqueles desgraçados e pobres de espírito, que toda-a-gente-sabe-que-o-Presidente-da-República-se-chama-Aníbal-e-que-‘África’-não-é-um-país-ora-essa!”.

Mas – corrijam-me se estiver errada -, a conversa de café, a tertúlia nos jantares de família, as palavras trocadas nas viagens de elevador e na pausa para cigarrinho e café a meio do dia de trabalho (para os poucos sortudos que ainda o têm), estão carregadinhas da palavra “crise”.

Não tento reinventar a roda, mas se há alguma coisa que me aliena neste momento, é a chata da crise. A crise pôs-me no desemprego, a crise tirou-me os subsídios, a crise pôs o país de tanga, a crise privatizou empresas públicas, a crise fechou empresas privadas, aumentou impostos e diminui o poder de compra.

Ai! A quantidade de vezes que dou por mim a fazer este raciocínio falacioso!

– “Bom dia, como está? E o seu filho?”

– “Oh, está desempregado, coitadito.”

– “Pois, é a crise…!”

Não é nada a crise. É o Estado. E o Estado somos nós. E nós, em vez de andarmos a pagar ao Estado, andamos a pagar ao Governo para nos ensinar o demónio que é a crise. Dizia Marx que “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”. E digo eu que o homem faz a crise, a crise não faz o homem.

Marx disse ainda que “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”. E o que tem sido esta crise se não uma entidade que nos castiga pelos nossos excessos e contra quem nos revoltamos pelas privações a que outros – os reais – nos obrigam?

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de uma situação sem alma. A religião é o ópio do povo.” escreveu Marx. A crise é o ópio do povo, escrevo eu.

Mas este povo já demitiu a crise, que afinal o mundo evolui depressa: vê-se gente na rua, marcam-se manifestações, inundam-se as redes sociais de críticas ao Governo, exige-se mudança. O povo aprendeu muito com a religião, o futebol, as telenovelas e os reality shows. Nem que seja a gritar!

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Prendam-nos sff!

21 Out

Olhámos à  nossa volta.

Vemos o País devastado.

Jovens na porta de embarque de um qualquer aeroporto nacional. Na mala apenas a esperança que nada seja mais negro do que o que estão a deixar para trás.

As famílias despedem-se entre lágrimas e abraços. Revolta.

Arde no peito a imagem da(o) filha(o) a embarcar rumo ao desconhecido, um salto na escuridão que ainda assim parece mais reconfortante do que isto em que nos tornámos. Alguma esperança é sempre melhor que nenhuma esperança.

Portugal já não será! Para o ser, precisa de futuro, e esse tem embarcado nas portas de embarque  14, 15, 16 por esse país fora.

Alimentámos durante anos a ganância de uma escumalha medíocre e criminosa, elegendo governos constituídos por abutres e abastecendo o parlamento com inválidos. Tudo porque ora votamos neles, ora nem sequer perdemos tempo a votar. De uma forma ou de outra, contribuímos para a catástrofe.

Auto-estradas, Pontes, Exposições Universais, enfim PPP’s, obras de engenharia financeira com um único intuito – empobrecer muitos de forma a enriquecer uns poucos.

A justiça envolta por neblina tão espessa que é mais fácil e produtivo perseguir uma senhora que vende azeitonas sem luvas do que um corrupto.

E nas televisões, que espectáculo tão degradante! Ex-políticos, agora comentadores iluminados, que nos cospem na cara quando se passeiam por esses ecrãs como se não tivessem qualquer tipo de responsabilidade no estado a que isto chegou.

Nojo, é o que sinto quando os vejo.

A única solução pacifica que antevejo para que a situação se inverta, é apelar a que os prendam a todos. Porque exportá-los será impossível uma vez que ninguém quer receber de bom grado lixo tóxico.

Os 800 homens de Otelo

16 Nov

A personagem Otelo Saraiva de Carvalho tem tanto de carismático e apaixonante como de misterioso e desconcertante. Os seus comentários e opiniões, para o bem e para o mal, produzem efeitos na sociedade portuguesa e adquirem algum eco mediático. O da semana passada onde lembrou que bastavam 800 para tomar o poder pela força não foi excepção.

As reacções mais mediáticas foram, como seria de esperar, de profunda crítica ao proferido. O sistema actual apesar de estar doente, lembrou Vasco Lourenço, possui os mecanismos necessários para que a sociedade se organize numa base igualitária e para que a riqueza seja relativamente bem distribuída. Mais, este sistema possui também mecanismos formais para que ele próprio seja melhor afinado. Não há dúvida quanto a isto, embora se tal acontece na prática ou não já pode ser motivo de discórdia.  

Apesar do seu carácter no mínimo desconcertante, creio que estas declaracões foram importantes na medida em que lembram ao país o quão frágeis podem ser os sistemas políticos. Nada está adquirido. Os sistemas políticos, os impérios e até os sistemas económicos nascem, vivem e morrem como tudo o resto. Seria muita arrogância da nossa parte pensar que este sistema político vai perdurar para a eternidade. Outros virão certamente. Melhores esperemos nós, mas também não é certo que assim seja.

Os sistemas políticos sobrevivem e prosperam essencialmente se garantirem dois elementos fundamentais às suas populações: liberdades e bem estar. Aqueles que não garantam os dois, ou mesmo um ou outro, tendem a colapsar mais cedo ou mais tarde. Por liberdades entende-se tudo o que compreende desde os direitos mais básicos de liberdade de expressão, de participação na vida pública ou de associação até questões mais complexas como por exemplo a adopção de crianças por casais homossexuais. Por bem estar entende-se tudo o que engloba bens ou serviços desde os mais essenciais como habitação digna ou acesso à saúde e à educação até aos não tão essenciais como o acesso à cultura.

Actualmente, o sistema político actual passa por uma fase de enorme turbulência. Por um lado, o bem estar das populações está a definhar a uma velocidade estonteante quer como consequência da crise em si quer como resultado da austeridade aplicada para a combater. Por outro lado, as liberdades começam a ser subrepticiamente colocadas em causa como consequência da influência dos mercados na política. Até quando a situação se vai manter minimamente calma? Ninguém sabe. Será que em 2012 e 2013 as coisas vão melhorar? Veremos. 

O que me parece certo é que não se aguentará muito tempo nesta situação. Caso não apareçam sinais positivos nos próximos 1 ou 2 anos o sistema político poderá estar seriamente em causa. O que poderá vir daí será naturalmente incerto, mas estarão criadas as condições para mudanças profundas.

Queria dar voz à revolução e deu

1 Nov

Sou jornalista. Escrevi uma história a que ninguém no mundo parece ter dado atenção tirando os jornalistas espanhóis da agência EFE que a descobriram. É uma lição sobre liberdade de expressão.

Um miúdo de 14 anos é o mais jovem jornalista da Líbia. Chama-se Mohamed Malek e criou um jornal no Facebook em junho passado, pouco depois da eclosão da revolta popular naquele país no início do ano. A revolução fê-lo decidir avançar com o seu sonho de ser jornalista. Pediu a carteira profissional ao Conselho Nacional de Transição (CNT) e recebeu o número 2571. Milagre. Vezes dois.

Primeiro porque, para falar do seu projecto como fala Malek e arriscar dar a cara por uma agência de informação a meio de uma revolução armada (e enquanto se atravessa a puberdade), é preciso ter uma consciência política que reconheço em meia dúzia de adultos brilhantes. Depois, porque obter uma carteira profissional aos 14 anos, mesmo que credenciada por uma organização de revolucionários que trabalham para depor um ditador, é um facto histórico internacional.

Confesso que não li o trabalho do rapaz, porque escreve em árabe e não confio no Google Translate. Por isso, quando um leitor perguntou, nos comentários à notícia, “será que sabe escrever?”, fiquei sem resposta. Mas sabe do que fala, garanto-vos. E é, de certeza, jornalista.

Na entrevista que deu logo após cobrir uma conferência em que discursou Mustafa Abdulyalil, o presidente do CNT, Malek disse, como qualquer jornalista com menos de um ano de carreira, que queria ser “repórter internacional” e, logo de seguida, refilou com a velocidade da internet que usava para trabalhar. Típico.

Mas agora a sério… Diz no código deontológico que “o jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão”, que “os factos devem ser comprovados” e que “as opiniões devem ser sempre atribuídas”. O rapaz tem 14 anos e disse aos jornalistas da EFE: “uma vez um jornalista estrangeiro disse-me que eu era o mais novo director de um jornal do mundo. Não sei se é verdade”. Atribuído e ressalvado. Mandam as regras que o jornalista “combata a censura”. A primeira coisa que o jovem jornalista diz é que quis “dar voz à revolução”.

Também está estipulado que “o jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar”. Malek responde: “Em vez de pegar em armas, como muitos dos meus compatriotas, comecei a contar o que se passava ao mundo”. E segundo contam os espanhóis, o pequeno repórter não tem medo de passar por entre as pernas dos jornalistas mais altos para chegar perto da sua fonte e fazer as perguntas que acha pertinentes.

O código responsabiliza o jornalista por “actos que violentem a sua consciência” e, claro, ainda há o dever de “rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidade ou sexo”. Malek escreve claramente nas informações da página do Facebook que afinal é a primeira agência de comunicação rebelde da Líbia, que esta “é independente” e que “pertence a todos os líbios, sem restrições”, referindo as rivalidades locais que surgiram após a revolta popular naquele país.

Outro leitor comentou: “Aqui teria de completar o 12º ano, fazer o mestrado, tirar uma ou duas pós-graduações e um doutoramento e lá para os 35 anos tirar a senha para receber uma proposta de emprego num call-center.” É quase assim. Falta-nos um Malek que nos mostre como é isso de ser jornalista sem condições. A Líbia – aliás, o mundo – precisa de gente assim.

De visita a Portugal com uma rápida passagem pelo Rossio

25 Maio

Passei esta última semana em Portugal e amanha por volta das 6 da manhã apanharei o avião de volta ao norte. Passei uns dias no Porto, outros em Lisboa, desenterrei projectos antigos e deixei outros em lume brando à espera de melhores oportunidades. Visitei amigos, poucos pois o tempo foi curto, e familiares. Os regressos a Portugal após temporadas mais ou menos longas noutras paragens são sempre um misto de emoções e de pensamentos. Por um lado é sempre bom rever e reviver as vicissitudes do nosso país. Mal ou bem há algo que nos pertence e por mais longe que esteja nunca deixo de acompanhar o que por aqui se passa. Por outro lado parece-me sempre que há uma nuvem pesadíssima de pessimismo e de desesperança que mal o avião aterra recai sobre os meus ombros. Acontece-me frequentemente sempre que cá volto e às vezes indago-me se serei eu que vivo noutra realidade ou se serão todos os outros que vivem em pessimismo constante. Há razões para esse pessimismo como é óbvio, mas mesmo assim, se se pensar bem, a maioria dos países do mundo estão em iguais ou piores condições e não me parece que esta onda de derrotismo se estenda a todos esses locais.

Estamos em crise? Pois claro que estamos. Ainda assim, desde que eu me lembro, o país nunca esteve de outra forma. No tempo do Guterres descobrimos o pântano. Mais tarde com Durão Barroso entramos na fase da tanga. Durão emigrou e foi substituído por Santana Lopes que sem ter tempo para grandes aventuras não se livra do estatuto de campeão da incompetência. E agora com José Sócrates o país afunda-se na bancarrota. A minha experiência de vida não me permite ir mais longe no raciocínio. Creio que a minha primeira grande memória política foi a vitória de António Guterres. Tinha 10 anos e lembro-me de ver umas senhoras vestidas de rosa na televisão a festejar o fim do Cavaquismo. Acho que me foi indiferente na altura. Pouco percebia do que se estava a passar e só uns anos depois viria a perceber as razões de tal festejo.

Mas voltando ao presente e à minha visita a Portugal, destaco com alguma satisfação o movimento que inspirado no protesto de Madrid se estendeu a várias cidades Europeias, entre elas Lisboa e Porto. Foi talvez um dos poucos rasgos de inconformismo que assisti. Quando deixei Portugal, em meados de Fevereiro, o momento político prometia alguma mudança. Os Deolinda faziam furor com o Parva que eu sou e o que mais tarde se viria a chamar Movimento 12 de Março começava a preparar-se nos bastidores pouco antes do boom na comunicação social. Tive alguma pena de me ir embora nessa altura. Quando ouvi pela primeira vez a música dos Deolinda percebi logo que aquilo era a faísca que precisávamos para lançar a questão da precariedade para a ordem do dia e quem sabe organizar um movimento genuinamente oriundo da sociedade civil com capacidade para influenciar politicamente. Daí até aos primeiros contactos foi uma questão de dias e os burburinhos que se ouviam aqui e ali há já muitos meses ganharam substrato e consistência. Foi neste contexto que deixei Portugal em Fevereiro e ao voltar 3 meses depois esperava sinceramente ver muito mais. A História tem destas coisas. Para haver mudança real não basta haver apenas momento político, é preciso um pouco mais. Mas bem, não vou aqui nem agora reflectir sobre as causas desta aparente atrofia social. Não seria honesto da minha parte apresentar qualquer reflexão profunda baseada em poucos dias de experiência in loco e de umas quantas conversas soltas.

Nos dias em que estive em Lisboa tive a oportunidade de presenciar duas “Assembleias Populares”. Fiz questão de marcar presença independentemente de não saber bem o que se queria fazer daquilo, aliás como é muito hábito em situações semelhantes. Das RGAs do secundário às Assembleias Magnas da AAC, dos Conselhos de Repúblicas de Coimbra às assembleias de acampamento de manifestações anti-G8 ou da política mais formal à organização de campanhas eleitorais sempre fui presença assídua, umas vezes mais interventivo outras vezes mais na expectativa. E foi precisamente na expectativa que assisti a estas duas sessões populares no Rossio. Vi imensa coisa e não vi muitas outras coisas que esperava ver e reencontrei velhos e novos amigos e conhecidos destas andanças.

No plano simbólico vi a praça inundada de sorrisos e corações cheios de esperança, de ambições desmedidas de se falar desta revolução e de humildade na hora de se cozinhar para a comunidade ou de se assegurar a limpeza do acampamento. Vi profundo comprometimento e dedicação de muitos, mas também vi arrogância de alguns outros. Vi figuras solidárias como Garcia Pereira, Jorge Costa, Daniel Oliveira e alguns capitães de Abril e outros veteranos do associativismo, mas vi também figuras menos solidárias como Helena Roseta. Vi generosidade nos contributos financeiros (mais de 500€ nesses dois dias) e vi algum apoio popular. Vi curiosidade nos turistas e vi interesse duvidoso nos carteiristas e traficantes do Rossio. Ouvi gente muito batida a falar e ouvi gente nova nervosa e insegura a pegar no megafone. Vi alguma organização ao se montar um equipamento de som alimentado a gerador e também vi esforço em se tentar regulamentar a assembleia.

No plano político notei a ausência de muita gente partidarizada e notei também a ausência de muita gente que sido presença assídua nos vários movimentos da última década. Os primeiros talvez estejam demasiado ocupados com as eleições e as respectivas campanhas eleitorais. Os segundos talvez estejam emigrados, talvez se tenham reformado ou talvez achem tudo isto folclórico demais para merecer a sua presença. Como é hábito e também muito característico nestes palcos, tradição é tradição, assisti ao feminismo encazinante e semi-organizado basear a sua intervenção num suposto novo acordo ortográfico que tem em conta a diferenciação do género. E, novidade das novidades, aprendi que agora se utilizam xx em vez de @@ nas palavras com género feminino e masculino para incluir também sexualidades alternativas.

Assisti a muitas outras coisas que não vale agora a pena referir. Deixo apenas a minha opinião, agora que me preparo para partir, de que infelizmente este movimento não trará nada de novo e dificilmente conseguirá vingar. A sua profunda colagem ao anarquismo e esquerdismo, com umas pitadas de bloquismo aqui e ali, nunca conseguirá atrair apoios significativos fora deste campo. Um movimento que se acantona em forma e em conteúdo neste espectro está condenado ao fracasso. É assim. Por outro lado esta simbiose entre precariedade e intervenção externa fragiliza e divide muita da força que se poderia criar. A primeira batalha tem tudo para vencer como movimento. Tem ainda algum momento político e tem amplo apoio na sociedade entre os mais variados sectores. Reforçando e extendendo a organização do movimento no plano nacional e no espectro político e apresentando propostas concretas e credíveis, acredito que se poderíam alcançar vitórias históricas.  

Quanto à segunda batalha, não me parece que se consiga chegar a algum lado. Já se sabe que a dívida vai ser reestruturada mais cedo ou mais tarde, seja em prazo de pagamento seja em taxa de juro. Contudo, ninguém até hoje conseguiu apresentar nenhuma proposta alternativa que consiga responder aos problemas do país no curto-prazo. Há imensas mudanças que terão de ser feitas a longo-prazo, principalmente a nível europeu, mas enquanto não existir nenhuma alternativa credível e exequível para responder aos problemas actuais, qualquer movimento não passará de mera contestação.

Fica a ideia engraçada e criativa de se levar a democracia à rua. Fica a experiência de muitos dos seus participantes que pela primeira vez adquiriram alguma formação política. Fica o sonho e o espírito de sacrifício de muita gente que não se conforma com este estado das coisas. E fica principalmente a ideia que a democracia representativa tal como a temos hoje está muito longe de corresponder aos anseios e às necessidades de um país e de uma Europa em profunda crise social, económica e política.

Pra não dizer que não falei das flores

24 Abr

 

Inauguro esta secção fazendo referência a uma canção que é para mim a melhor ou seguramente uma das melhores canções de protesto de sempre, Prá não dizer que não falei das flores de Geraldo Vandré. Optei por este vídeo, com uma versão ao vivo, porque quando o vi pela primeira vez chamou-me imediatamente a atenção para o Festival Internacional da Canção, um festival que marcou os anos 60 no Brasil. Esta gravação corresponde à edição de 68, na qual Geraldo Vandré, contra todas as expectativas, perdeu o primeiro lugar para Sabiá de Chico Buarque e Tom Jobim .

O momento social e político na época exigia aos cantores que se exprimissem politicamente e que representassem na sua música as esperanças e os sonhos do movimento estudantil e da luta contra a ditadura. Qualquer coisa que fugisse deste caminho, por mais qualidade que pudesse ter, não poderia seria aceite “nas ruas”. Tanto que a revolta do público foi bem ruidosa, como se pode ver no vídeo: é marmelada, é marmelada! Um brasileirismo engraçado que quer dizer que o júri foi comprado ou obrigado pelo regime a não dar a vitória ao Geraldo Vandré. Mesmo não tendo vencido o festival esta canção ficou para a história como o hino da resistência à ditadura no Brasil.

Retirado da série Anos Rebeldes, que retrata brilhantemente este período e é um documento obrigatório para quem gosta de história do Brasil, acrescento este vídeo que revisita o momento exacto em que se passou. Nele estão presentes todas as visões sobre a história desde os idealistas emocionados aos pragmáticos despolitizados, o hippie alienado, o pai conservador e a mãe em trabalho doméstico. Simplesmente genial!

Preconceitos de Abril

23 Abr

Na próxima segunda feira celebramos mais um aniversário da Revolução dos Cravos de 1974, desta vez sem cerimónia na Assembleia da República dada a sua dissolução.

Ao longo dos anos habituei-me a assistir a essa cerimónia pela TV. Entendo a sua importância como uma forma de imortalizar Abril e honrar os heróis da revolução e tantos outros que combateram a ditadura ao longo dos anos.

De Humberto Delgado a Aristides de Sousa Mendes, de Norton de Matos a Álvaro Cunhal, de Mário Soares e Salgado Zenha a Sá Carneiro e os seus colegas da Ala Liberal, muitos foram os que se bateram contra o Estado Novo, ousando desobedecer e lutar contra a ditadura e tudo o que de injusto ela acarretava: a censura, a opressão, a miséria, os presos políticos, a Guerra Colonial, etc..

Cansados da guerra e do “estado” a que tínhamos chegado, um grupo de jovens das forças armadas ousou avançar até Lisboa contra aqueles que durante 50 anos se acharam donos do destino de um país e das suas gentes. O falhanço desta ousadia implicaria consequências muito graves. De entre todos, sobressaiu um nome: Salgueiro Maia. A sua bravura, a sua coragem e a sua determinação foram os ingredientes principais para o sucesso da operação que permitiu devolver ao povo o poder que era seu por direito: o poder de decidir o seu próprio futuro.

Sem motivações políticas ou pessoais foi esse o seu único propósito e é isso que o torna também num símbolo mais puro de um dos momentos mais bonitos da nossa História recente.

Pergunto-me sobre o que pensaria Maia acerca “estado” a que chegamos. O que pensaria acerca da actual classe política. O que pensaria das cerimónias de fachada do 25 de Abril na Assembleia da República onde em vez de se exaltar o momento de libertação que foi a Revolução, se procuram fazer ataques partidários ou capitalizar, de forma oportunista, o descontentamento das pessoas e até mesmo os símbolos de Abril.

Posso dar o exemplo do cravo: nas sessões parlamentares, a nossa ala direita rejeita-o e procura afastá-lo indecentemente. A ala esquerda trata-o como sua propriedade privada (curioso!), muito provavelmente pela simbologia da cor vermelha, obviamente conotada com o socialismo e o comunismo.

Seria talvez importante perceber como o cravo se tornou no símbolo da Revolução. Naquele dia, o povo juntou-se ao Movimento das Forças Armadas nas ruas de Lisboa com um enorme sentido de solidariedade e de agradecimento pelo momento histórico que viviam. Foi então que num sentimento de alegria e de generosidade várias pessoas ofereceram aquilo que tinham. Maia conta numa entrevista que naquele dia foram oferecidos cravos vermelhos e brancos pelas muitas floristas que estavam nas ruas e houve até um senhor que veio para a rua com um presunto e uma faca para oferecer a toda a gente. No entanto, houve um qualquer fotógrafo comunista que decidiu apenas ressaltar o vermelho dos cravos para que a revolução fosse conotada com essa ideologia.

A revolução não foi feita para o partido A ou B. Sem ela, nenhum partido da extrema-direita à extrema esquerda existiria. A revolução foi feita para todo um povo que foi privado da sua liberdade durante meio século, independentemente das suas convicções políticas. Tentativas de capitalizar ou menosprezar algo que é de todos e para todos só podem ser encaradas como um preconceito que em nada contribui para a concretização dos mais altos ideais de Abril.

O ano passado, José Pedro Aguiar Branco fez um discurso muito oportuno acerca destes preconceitos que provocou risos irónicos e muitos incómodos em todas as bancadas parlamentares. Pena que o tenha feito com o objectivo de defender uma futura proposta de revisão constitucional que se veio a revelar despropositada e desadequada.

Que os partidos tenham diferentes princípios e diferentes concepções ideológicas é de salutar e só enriquece o país. Mas que  continuem a pôr os seus interesses partidários à frente dos interesses dos portugueses apenas porque tudo o que não é por nós é contra o país, isso é que já não é aceitável.

O tempo que vivemos exige compromissos e cedências mútuas que não impliquem a perda dos princípios que norteiam as nossas vidas. Sem vaidades pessoais ou interesses que não sejam os do próprio povo português. Tal como Salgueiro Maia nos mostrou há 37 anos atrás.

21 Abr

DR

Como diria Sérgio Godinho, hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar e quanto mais eu penso, mais eu vejo que esta grande obra de reconstrução parece mas é uma acção de despejo.

Nacionaliza-se a dívida e privatiza-se o lucro. Acha-se a entrada do FMI inevitável e um mal menor. Abana-se a cabeça quando se noticia que esse mesmo fundo monetário internacional irá lucrar 520 milhões com Portugal, assim como os países europeus irão lucrar outros 1060 milhões. Dá-se razão ao discurso normativo e irrealista que são os trabalhadores que vivem acima das suas possibilidades. Não se sai à rua para reivindicar direitos porque “não resolve nada”, e até se remata com um “ide mas é trabalhar”.

Este descrédito social face ao corrompimento do poder e ao abuso financeiro e económico por parte dos bancos chega-me a dar vontade de ir para a rua gritar contra o povo. Infelizmente, esse estigma de impotência e auto-flagelo não é novo, é quase inevitável e involuntário, é fruto desta crise política internacional que nos faz crer na culpa individual e colectiva dos cidadãos/ãs trabalhadores/as, estudantes, reformados/as, precários/as e desempregados/as. Senão, porque estaria um Estado, ou até uma cambada de reguladores financeiros internacionais que teoricamente percebem tanto do assunto, a tirar o dinheiro do bolso dos/as portugueses/as se não fomos nós a criar esta crise?

A verdade é que não fomos. Mas somos nós que pagamos pelos erros dos bancos. Porquê? Porque somos governados/as pelos mercados; já não somos pessoas, somos números, estatísticas, variáveis de um rating qualquer feito pelos maiores bancos mundiais.

Faz sentido pagarmos pela dívida portuguesa? Não. 75% da dívida externa pertence aos privados e 25% ao Estado. A culpa do decrescimento económico é nossa? Não. Os grandes grupos económicos portugueses pertencem a sectores não-transaccionais, isto é, sectores que impossibilitam exportações; por exemplo: luz, água, etc.

O FMI injectará dinheiro na banca, mas isso não combate o endividamento, como é lógico. O endividamento somente desaparecerá com um salto económico, o que acontece através de emprego e criação do mesmo, com evolução nas empresas nacionais e nas exportações, ao invés de importações.

Nunca se resolverá a situação desgastante da economia portuguesa retirando dinheiro aos/às portugueses/as. Mas isso até uma criança de 7 anos consegue perceber, não? Vejamos… Descemos os salários e aumentamos os preços, logo, descemos a procura e o poder de compra. Como cresce uma economia sem poder de compra? Não cresce. Aumenta a recessão. Aumenta a pobreza. Aumenta a precariedade. Aumenta a emigração. Perdemos crescimento económico. Perdemos poder de compra. Perdemos salários e ajudas sociais. Perdemos subsídios. Perdemos trabalhadores e postos de trabalho. Entramos numa crise política, económica e social sem fim.

Na Islândia, o povo disse “NÃO” ao pagamento da dívida da banca e está em processo a condenação a pena de prisão dos seus banqueiros. Na Grécia, o povo continua a lutar contra as políticas do FMI que os empurram para este novo panorama de trabalho que quase se consegue intitular como “nova escravatura”.

E nós, que fazemos? Vamos deixar que esta intervenção internacional nos sugue a vida e nos coloque sob uma política austera e autoritária onde o capital se protege mais que a vida humana?

Não podemos aderir à apatia, acabemos com ela! A realidade não é estática, nem inevitável. A realidade molda-se e revoluciona-se.

Eu amanhã posso não estar aqui mas também, para o que eu aqui repeti… É que eu não sou o único que acho que a gente o que tem é que estar unida.