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É preciso mais?

14 Dez

A semana na Europa começou agitada, com dois incidentes pouco habituais no Velho Continente. Primeiro chegaram notícias de Liége, na Bélgica, onde Nordine Amrani abriu fogo sobre a multidão e depois lançou granadas na principal praça da cidade. Morreram pelo menos quatro pessoas. Mais a sul, em Florença, Itália, um extremista de direita de nacionalidade italiana matou dois vendedores ambulantes senegaleses e feriu gravemente outros três, em dois mercados. Ambos os atiradores suicidaram-se em seguida.

Grande choque e incredulidade iniciais, mas depois algum alívio por não se tratarem de ataques terroristas. O mesmo aconteceu com os ataques de Anders Behring Breivik, na Noruega, no Verão. Com certeza que é um mal menor não ser de novo um ataque terrorista em larga escala (como o 11-M em Madrid ou o 7/7 em Londres), mas não deixa de ser assustador que tal tenha acontecido. Morreram pessoas. Loucos andaram à solta. E aqui ao nosso lado, nas ruas de cidades europeias, ditas evoluídas.

Talvez por acaso, ou não, em países, especula-se, que vão ser os próximos alvos de ajuda financeira do FMI, Bélgica e Itália. Temos vivido, na Europa, na calmaria e no descanso que nada de muito grave vai acontecer, que os ricos hão-de ser sempre muito ricos e os pobres hão-de ser sempre muito pobres. Que os europeus, manso povo, não iam importar-se se as desigualdades aumentassem, se a classe média sofresse perdas, se as dificuldades aumentassem, se os direitos adquiridos desaparecessem, enfim, ninguém pensou que o medo de empobrecer e de viver muito pior do que a que se estava habituado, de voltar a níveis que se imaginavam vencidos para sempre, ninguém ponderou que a coisa pudesse rebentar.

Será que estes indícios já são suficientes?

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Governar na Europa é como regatear na Feira do Relógio

8 Nov

É a sensação que me dá. Tenho lido as notícias sobre a “crise” política e económica (como toda a gente) e a única conclusão que me autorizo a tirar é que governar na Europa é como regatear na Feira do Relógio. Está bem que não é nenhuma novidade que a política assente no neocapitalismo liberal se sustenta em duas máximas principais: negociar com quem tem dinheiro e calar quem tem ideias. Estou conformada com isso e contorno a coisa como posso.

Mas ultimamente parece que entrámos num estado litúrgico, que sobrevive num qualquer limbo teórico que não reconheço nas sebentas da teoria política, em que as regras básicas e fáceis a que nos habituámos não se aplicam. É que, graças à “crise”, que desta vez é a sério e andamos todos a senti-la na pele em vez de só falarmos sobre isso, quem tem ideias não se cala. Ainda bem. Estão a acontecer coisas. Coisas a sério. Greves, manifestações, marchas, ocupações, ameaças de revoluções e outras confusões. Gosto.

Mas também graças à “crise” quem tem dinheiro está mais forreta, mais sovina, mais avarento, mais somítico. E quem não tem está mais sedento, mais ávido, mais sôfrego, mais desesperado. E, talvez por isso, quando leio os títulos dos jornais, lembro-me sempre da minha Avó na Feira do Relógio.

“ Três camisas 20 euros! 20 euros!”, grita uma mulher com voz de homem grande. “Dez e vai com sorte”, responde a minha Avó de 40 quilos com um ar desinteressado, de quem só ali está porque não tem nada melhor para fazer. “Não pode ser minha senhora, tenho que ter dinheiro p’ra dar de comer aos meus filhos”, responde a mulher vestida de preto e de carrapito no alto da cabeça. “Dez ou nada feito”, responde a minha Avó. A coisa dura uns dez minutos e as três camisas vão para casa por 15 euros no máximo. Agora comparem com o que se passou na Grécia a semana passada e com o que se está a passar hoje na Itália.

Em vias de extinção

O primeiro-minsitro grego, Georges Papandreou, não estava para vender o país à Troika e põe um referendo em cima da mesa para negociar com o povo e com quem manda na Europa. Dois coelhos de uma cajadada só. Aquilo assusta a Merkel e o Sarkozy que respondem com ameaças sobre a saída do país da Zona Euro. Papandreou desiste do referendo e, para não deixar mal o povo, apresenta demissão. O processo não leva dez minutos, mas resolve-se em dois dias.

O povo italiano quer pôr o primeiro-minsitro, Silvio Berlusconi, na rua. A oposição também, mas o homem está decidido a ficar. Votam-se as contas do Estado na Câmara dos Deputados e Berlusconi consegue a aprovação mas perde a maioria absoluta porque a oposição esteve presente mas não votou. Após a votação, Berlusconi diz ao Presidente Giorgio Napolitano que se demitirá quando forem aprovadas as medidas de austeridade propostas pela UE. É como quem diz: “Querem-me na rua? Votem a favor.”

Não me digam que isto não é, tal e qual, como regatear camisas na Feira do Relógio. Como disse numa qualquer entrevista o realizador Woody Allen, “eu acredito que há qualquer coisa a olhar por nós. Infelizmente, é o governo.” E parece que o nosso não tem jeito para o negócio…