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A crise é o ópio do povo

6 Nov

Em 1843, depois de Kant, Borne, Hess e outros falarem do seu poder narcótico, Marx escreveu que “a religião é o ópio do povo”. No tempo dos nossos avós surgiram os cientistas sociais e as suas teorias fatalistas sobre a alienação do povo pelo futebol. Depois, na altura dos nossos pais (que o mundo agora diz que evolui depressa), como afinal se descobriu que as mulheres também pensam, criam, são força de trabalho e até já votam, acrescentou-se à lista de hipnóticos malvados a televisão, que em vez de transmitir informação passava novelas.

A geração que está agora na casa dos 20 acusa a reality tv. Aqueles programas que encabeçam todas as noites a tabela de audiências, que vendem publicidade a preço de ouro e que toda a gente vê em segredo. E quando se é apanhado justifica-se que “é para perceber de que tanto se fala, ver o retrato deste país de ignorantes, descontrair, rir-me daqueles desgraçados e pobres de espírito, que toda-a-gente-sabe-que-o-Presidente-da-República-se-chama-Aníbal-e-que-‘África’-não-é-um-país-ora-essa!”.

Mas – corrijam-me se estiver errada -, a conversa de café, a tertúlia nos jantares de família, as palavras trocadas nas viagens de elevador e na pausa para cigarrinho e café a meio do dia de trabalho (para os poucos sortudos que ainda o têm), estão carregadinhas da palavra “crise”.

Não tento reinventar a roda, mas se há alguma coisa que me aliena neste momento, é a chata da crise. A crise pôs-me no desemprego, a crise tirou-me os subsídios, a crise pôs o país de tanga, a crise privatizou empresas públicas, a crise fechou empresas privadas, aumentou impostos e diminui o poder de compra.

Ai! A quantidade de vezes que dou por mim a fazer este raciocínio falacioso!

– “Bom dia, como está? E o seu filho?”

– “Oh, está desempregado, coitadito.”

– “Pois, é a crise…!”

Não é nada a crise. É o Estado. E o Estado somos nós. E nós, em vez de andarmos a pagar ao Estado, andamos a pagar ao Governo para nos ensinar o demónio que é a crise. Dizia Marx que “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”. E digo eu que o homem faz a crise, a crise não faz o homem.

Marx disse ainda que “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”. E o que tem sido esta crise se não uma entidade que nos castiga pelos nossos excessos e contra quem nos revoltamos pelas privações a que outros – os reais – nos obrigam?

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de uma situação sem alma. A religião é o ópio do povo.” escreveu Marx. A crise é o ópio do povo, escrevo eu.

Mas este povo já demitiu a crise, que afinal o mundo evolui depressa: vê-se gente na rua, marcam-se manifestações, inundam-se as redes sociais de críticas ao Governo, exige-se mudança. O povo aprendeu muito com a religião, o futebol, as telenovelas e os reality shows. Nem que seja a gritar!

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Prendam-nos sff!

21 Out

Olhámos à  nossa volta.

Vemos o País devastado.

Jovens na porta de embarque de um qualquer aeroporto nacional. Na mala apenas a esperança que nada seja mais negro do que o que estão a deixar para trás.

As famílias despedem-se entre lágrimas e abraços. Revolta.

Arde no peito a imagem da(o) filha(o) a embarcar rumo ao desconhecido, um salto na escuridão que ainda assim parece mais reconfortante do que isto em que nos tornámos. Alguma esperança é sempre melhor que nenhuma esperança.

Portugal já não será! Para o ser, precisa de futuro, e esse tem embarcado nas portas de embarque  14, 15, 16 por esse país fora.

Alimentámos durante anos a ganância de uma escumalha medíocre e criminosa, elegendo governos constituídos por abutres e abastecendo o parlamento com inválidos. Tudo porque ora votamos neles, ora nem sequer perdemos tempo a votar. De uma forma ou de outra, contribuímos para a catástrofe.

Auto-estradas, Pontes, Exposições Universais, enfim PPP’s, obras de engenharia financeira com um único intuito – empobrecer muitos de forma a enriquecer uns poucos.

A justiça envolta por neblina tão espessa que é mais fácil e produtivo perseguir uma senhora que vende azeitonas sem luvas do que um corrupto.

E nas televisões, que espectáculo tão degradante! Ex-políticos, agora comentadores iluminados, que nos cospem na cara quando se passeiam por esses ecrãs como se não tivessem qualquer tipo de responsabilidade no estado a que isto chegou.

Nojo, é o que sinto quando os vejo.

A única solução pacifica que antevejo para que a situação se inverta, é apelar a que os prendam a todos. Porque exportá-los será impossível uma vez que ninguém quer receber de bom grado lixo tóxico.

Ser agência de rating é mais fácil que escrever neste blog

24 Jul

A receita é simples. Teorizar sobre banalidades para construir uma espécie de contexto. Procurar grandes verdades políticas na Wikipédia. Encontrar números grandes, daqueles que só 50 por cento da população lê. Não interpretar esses números. Usar um dicionário de sinónimos para substituir palavras que toda a gente entende por outras que ninguém conhece. Acrescentar meia dúzia de conceitos financeiros, económicos ou tecnocratas. Pôr um carimbo no canto da página, enviar às redacções e publicar online.

Et voilá, somos uma agência de rating.

A agência Moody’s colocou em perspetiva “negativa” o rating de AAA da Alemanha, da Holanda e do Luxemburgo, o primeiro passo para um eventual corte na notação que lhes é atribuída no gráfico de “bom comportamento económico”. O relatório, em que a agência de notação norte-americana explica porquê, tem 14 páginas.

Comportamento económico europeu (por Maria Inês Marques)

Ora, eliminem-se as banalidades, como “a Europa atravessa uma grave crise económica”. (A sério?!) Dispensem-se as lições disponíveis na maior enciclopédia do mundo virtual, como “a dívida soberana deve permanecer estabilizada frente ao PIB”. (Disse-me a Moody’s e disse-me a Wikipédia.) Interpretem-se os números, leiam-se as entrelinhas, pense-se nas consequências. Escreva-se para toda a gente (em vez de só para alguns). Tire-se o carimbo. E sem carimbo não há entrada nas redacções nem se azucrina a cabeça à Merkel, ao Juncker e ao Barroso.

Et voilá, somos um blog.

Desculpem-me a falta de humildade, mas basta-me ler os jornais para saber que houve um aumento geral da dívida pública na Zona Euro, divulgado pelo Eurostat esta semana, e que isso significa que mesmo as economias mais saudáveis da Europa estão menos “estáveis” e, portanto, sujeitas a perspectivas mais “negativas”.

Sabemos todos que se vive um período de  “incerteza na união monetária”; que a crise financeira teve “impacto em alguns dos Estados-membros”; que “a possível saída da Grécia da moeda única colocaria uma ameaça concreta ao euro”; que mesmo que a Grécia não saia da Zona Euro, os encargos assumidos pelos Estados-membros mais fortes aumentarão com o pagamento dos resgates das economias mais fragilizadas; que as coisas como estão – com cinco países a pedir ajuda externa – “poderão levar a uma série de choques, que poderão ganhar força com a persistência da crise”.

É isto, tal e qual, que diz o tal relatório complicadíssimo de 14 páginas que uma agência especializada escreveu esta madrugada.

Com este texto, a Moody’s pôs o presidente do Eurogrupo e primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, a fazer um controlo de danos e o Ministério alemão das Finanças (com mais meia-dúzia de políticos) a justificar o relatório com outras vulgaridades e a prometer que a Alemanha nos vai salvar a todos.

Por causa do relatório de uma agência de rating que mora do outro lado do Atlântico a Grécia foi imediatamente (leia-se, no mesmo dia em que o texto foi publicado) pressionada pela Alemanha para tomar medidas de austeridade mais duras, desistir das renegociações dos prazos para cumprir as metas do défice e esquecer a hipótese de receber mais dinheiro.

Um economista disse à Bloomberg que “a posição central da Alemanha na Zona Euro faz com que a ideia de que poderia ser, de alguma maneira, isolada da deterioração geral da área, não seja realista.” Por isso, “a descida parece lógica.” Lá está. Diria mais: óbvia.

Financial Times explica que as críticas da Moody’s podem agravar a posição pouco favorável que a Alemanha e outros países têm em relação às opiniões das agências de rating. Já vão tarde. Explica também que podem produzir um impacto negativo no público alemão, que está preocupado com o custo para o país, e consequentes esforços do seu povo, no fortalecimento da Zona Euro. Mas só agora, depois de uma agência de rating, em vez de um blog qualquer, lhes dizer que também lhes toca a eles…

Já se disse muita coisa em torno deste assunto, com análises muito mais complicadas e relevantes, neste blog. Mas nós não temos carimbo. Só de “agência de rating do povo”. E neste rating os países não têm medo de má figura.

Quando o futebol controla a política

26 Jun

Ouvi um colega meu dizer que há uns anos um académico brasileiro o tinha avisado que a Seleção Nacional vencer jogos era um perigo, que dava espaço ao Governo para fazer asneira sem ninguém dar conta. Temos provas que é verdade. Senão vejamos…

No dia 9 de junho, Portugal perdeu uma bola a zero frente à Alemanha, no primeiro jogo da equipa das Quinas no Euro 2012. Foi nesse mesmo dia que se começou a falar das condições do (então eventual) resgate financeiro da Espanha.

No dia seguinte lia-se nos jornais que Cavaco acredita numa recuperação económica “não muito distante”, que alertava para os riscos de austeridade excessiva e que “é urgente adoptar novas políticas de emprego em Portugal”. Passos Coelho convocou logo uma conferência de imprensa para dizer que “não há nenhuma razão para pedir novas condições para Portugal”. Coitado do povo, que está deprimido com o resultado de ontem. Condescendência.

No dia 13 de junho, Portugal ganhou à Dinamarca e surgiu a esperança de fazer boa figura no Euro 2012. O país festejava. As conversas de café dos dias seguintes foram sobre o número de golos que Portugal precisava de marcar no jogo com a Holanda para garantir o apuramento para os quartos-de-final. No dia seguinte, o Executivo já podia trabalhar à vontade, que ninguém ligava nenhuma.

O Conselho de Ministros aprovava uma nova proposta de Lei de Bases do Ambiente que nenhum jornal discutiu, ao mesmo tempo que Portas anunciava oito contratos fiscais com a indústria para um investimento de 157 milhões de euros (de onde veio este dinheiro?), para além de uma linha de crédito de mil milhões de euros (a sério?) para pagamento de dívidas das autarquias .

O “centrão” veio anunciar um entendimento quanto à lista conjunta a apresentar ao Tribunal Constitucional, num acordo que incluiu o PS, o PSD e o CDS-PP. Cala-te, Esquerda! O antigo presidente do PSD, Rui Machete, veio à Antena 1 fazer uma “avaliação positiva” da aplicação do memorando de entendimento da troika por parte do Governo e ninguém contestou a opinião do senhor.

Dia 15 a oposição acorda da dormência futebolística e aparece a moção de censura do PCP ao Governo de Passos Coelho. Reinicia-se o jogo político português. Em força. Mas só até dia 17, que Portugal joga outra vez.

No dia 17 as coisas correm bem à Seleção, que venceu 2-1 à Holanda. Festa! Às 21h35 ouve-se o apito final e Passos Coelho envia uma SMS ao Presidente da República: “Oh Aníbal, aproveita lá amanhã que o povo está contente, parece que vamos aos quartos-de-final”. E assim foi.

Daqui a uns meses o 18 de junho será recordado como o fatídico dia em que Cavaco Silva promulgou o novo Código do Trabalho, o monstro que vai assombrar os trabalhadores portugueses nos próximos anos. Começa o jogo político outra vez, com a Direita a dizer que isto é bom para Portugal e a Esquerda a dizer que nem por isso. Como o povo está contente o Governo aguenta as críticas da oposição como se nada fossem. Além disso dia 21 há jogo outra vez.

Certo.

No dia do jogo, sai a anedótica deliberação da ERC sobre o caso de Miguel Relvas e do Público, mas a malta quer é saber quem são os titulares do jogo de logo à tarde. Portugal vence, no dia 21 de junho, com um único golo, o encontro com a República Checa. A seleção avança para as meias-finais. Será a melhor notícia do ano, a menos que avance para a final. Ou que ganhe o Euro. É exactamente nestas possibilidades que estamos todos a pensar. Não é?

Entretanto, no dia 22 de junho, como o povo está grogue outra vez, foi tempo de anunciar os novos números da execução orçamental. Há que aproveitar o bom humor da população que os resultados são fraquinhos.

Vem o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, admitir um “aumento significativo dos riscos e incertezas” quanto à execução orçamental e ficamos a saber que, apesar do aumento dos impostos, a receita fiscal caiu 3,5 por cento até maio. Noticia-se que a despesa do Estado com a função pública, os sacrificados do país pela recuperação económica, já caiu 7,2 por cento, sendo que a maior fatia foi cortada aos Professores, essa classe inútil.

Isto não chegava. É que ninguém – nem o Mourinho, nem o Paulo Bento, nem o Cristiano Ronaldo, nem os comentadores desportivos da televisão, nem os comentadores do café lá da rua – acreditava que Portugal chegasse tão longe no campeonato europeu.

Então pomos o Passos Coelho a dizer, em direto da Colômbia, para despachar o assunto enquanto a vitória é fresca, que “vai ser difícil”, mas que o “objectivo do défice ainda é possível de fazer cumprir”. E como toda a gente percebe que isto quer dizer “vamos atacar-vos com mais uma meia-dúzia de medidas de austeridade”, há que nos distrair com uma frase à publicista: “ainda é cedo para falar dessa hipótese teórica”.

Amanhã há jogo. Portugal defronta a Espanha nas meias-finais. Vencer significa que a Seleção vai à Final do Euro 2012 contra a Alemanha ou a Itália. Eu até estou a gostar de acompanhar o Euro, não perdi um jogo e, como qualquer mulher que se preze (perdoem-me o machismo), tenho cumprido o papel de quem só gosta de futebol quando é a Seleção que joga. Mas desconfio que é melhor para nós, os trabalhadores, os funcionários públicos, os aposentados e os estudantes, que Portugal perca contra nuestros hermanos. Pelo menos ficava tudo em família.

Mas na eventualidade de ganharmos (nós-Seleção, não nós-Portugal), estão preparados para o que vai ser anunciado na quinta-feira pelo Governo e discutido no debate quinzenal da Assembleia da República na sexta-feira? Eu não.

“Vivemos como os javalis”

31 Jan

Ouvi esta manhã uma reportagem do jornalista Afonso de Sousa sobre a possibilidade do encerramento do Tribunal de Vinhais, conselho do distrito de Bragança, lá bem no Norte do país.

O que me despertou o interesse não foram as declarações do presidente da autarquia, Américo Pereira, a garantir que o fecho do tribunal local poderá levar a população a querer fazer justiça pelas próprias mãos.

Nem a caracterização do acontecimento como «convite à violência e à impunidade», nem a tão pertinente acusação de «desresponsabilização completa do Estado relativamente às suas obrigações» numa altura de «grande crise económica e dificuldades, onde o crime está a aumentar e estão a aparecer novas tipologias de crime, nomeadamente furtos em zonas rurais».

Foi a voz do Sr. Manuel Assunção, habitante da vila:

“Já nos tiraram o Centro de Saúde, já nos tiraram a EDP, agora querem tirar-nos o tribunal. O melhor é que fechem logo tudo!  Ponham umas cancelas numa entrada e na outra e ficamos isolados, vivemos como os javalis.”

É que, para variar, fala-se em números, financiamento, buracos no orçamento, défice, ruptura financeira.

Sabemos que em 2010 havia 145 autarquias em desequilíbrio financeiro estrutural ou conjuntural e 38 estavam em ruptura financeira. O sector empresarial local apresentava, no final de 2011, 2,4 mil milhões de défice. O Orçamento de Estado de 2012 apresenta um corte de 5% nas transferências das verbas do poder central para as autarquias nacionais. E sabemos que o Governo apresentou o Livro Branco do Sector Empresarial Local para reformar o poder local, o que, segundo a ANAFRE, significará que das 4.262 freguesias existentes, 2.458 não cumprirão os requisitos exigidos na Reforma e estarão condenadas à extinção. Miguel Relvas estimou em 675 milhões o esforço de contenção exigido aos autarcas.

Só que mesmo para quem não percebe nada de indicadores económicos, políticas de contenção e balanças de pagamentos, há uma consequência muito óbvia, e arrisco dizer, perigosa, que é tangível para qualquer pessoa que não esteja habituada aos “luxos” de viver numa grande cidade. Esta Reforma, que poderá (talvez, não sabemos bem, mas esperemos que sim) solucionar o problema dos números, deixa as populações com um acesso cada vez mais difícil aos serviços públicos.

O conselho de Vinhais fica a mais de 35 quilómetros de Bragança e tem a seu cargo 35 freguesias, com cerca de 10.650 habitantes espalhados por mais de 690 km2. Se experimentar pedir direcções ao Google Maps de qualquer ponto da autarquia para a cidade de Bragança, verá que só há uma hipótese: conduzir. Também pode tentar ir a pé, bicicleta ou trotineta. Autocarros e comboios não há. E no site da Câmara Municipal a sugestão disponível é uma lista de contactos telefónicos de taxistas locais.

O que se passa em Vinhais passa-se na maioria do território do interior português, cujo drama da desertificação, necessidade de revitalização e reorganização, e a milagrosa chave do desenvolvimento do turismo, têm sido alvo de debate e, supostamente, investimento, nos últimos 10 anos. Agora a torneira fechou. A seu tempo, o senhor Manuel vai viver isolado, sem Escolas, nem Centro de Saúde, nem Tribunal, nem posto dos Correios, nem Bombeiros Municipais, nem Centro Recreativo da Junta de Freguesia. Entre duas cancelas feitas de dívidas e burocracia. Enclausurado como javalis num curral.

Importa-se de repetir?

11 Jan

«Se se verificar uma incapacidade acima de 60 por cento aí o utente pode BENEFICIAR da isenção das taxas moderadoras», dizia uma sorridente dirigente hospitalar numa reportagem da RTP na semana passada, depois de enquadrar um caso de cancro sujeito a tratamentos de radioterapia e quimioterapia (e que podia, ou não, BENEFICIAR de isenção de taxas moderadoras, conforme o grau de incapacidade). E, sublinho, com um sorriso na cara, se calhar porque estava a aparecer na televisão.

Como juntar na mesma frase incapacidade física, benefício e ainda um sorriso? Foi a este estado que chegou e com estas pessoas que está o Serviço Nacional de Saúde? Uma cambada de insensíveis que olham para o lucro, para o número e para a forma como exigir mais dinheiro a quem está debilitado? Parece que passámos do 8 ao 80, num esfregar de olhos, entregue a um ministro, no mínimo, desconhecedor dos corredores de hospitais que não a CUF, os Lusíadas ou Luz.

Com isto não quer dizer que Portugal não tenha estado mal habituado. Os utentes fazem exames (caros) a mais, por tudo e por nada. Estão sempre no médico e nas urgências. Estão encharcados em comprimidos e remédios. Exigem tudo do SNS e não estão dispostos a dar nada.

E este Governo (será que não posso mesmo escrever com minúscula?), qual medida simplista, decide que se acabam, para todos, as benesses. É dador de sangue? Obrigadinho, pode passar para o fim da fila. É bombeiro voluntário e tem ajudado a salvar florestas? Agradecidos, pode sentar-se aí. Está desempregado? Pois, é chato, junte-se aí ao dador de sangue e ao bombeiro voluntário.

E assim vamos, cantando e rindo, de mal a pior.

PS: Mitt Romney venceu ontem a segunda primária republicana consecutiva, no New Hampshire, e ganha alento. Barack Obama que tenha cuidado…

Pérolas a portugueses

19 Out

Na semana passada o jornal Público avançou que o Governo estava a pensar taxar com portagens troços junto a Lisboa e Porto que sempre foram de utilização universal. Como exemplos, os lanços Sacavém-Alverca da A1, Ponte 25 de Abril-Fogueteiro na A2 e vários ao redor da Invicta. Se a esta intenção (que se transpirou para os jornais é porque é para ser concretizada) juntarmos os preços exorbitantes dos combustíveis, é de facto um luxo, mas daqueles mesmo caros, andar de automóvel nos dias que correm. Quanto a gasolinas e gasóleos, já é tarde mas não demasiado para finalmente apostarmos a sério nas energias renováveis, sejam as viaturas eléctricas, sejam as movidas a sol, seja o que fôr. Petróleo é que não e parece que não aprendemos, nenhum de nós, a lição.
Já no que diz respeito às auto-estradas, mas afinal quem é que pediu para ter um via desde género a ligar Alguidares de Cima a Alguidares de Baixo? Porque é que tudo o que é estrada nova tem que ser construída com perfil de auto-estrada? O resultado é óbvio e em alternativa ao novo riquismo do betão com portagens (sim senhor, é justo pagar pelo topo de gama), temos uma via de terceira categoria, cheia de semáforos e buracos, com curvas perigosas, que obviamente vai ser a escolha daqueles que, mesmo que quisessem, não as pode pagar diariamente. Vamos passar a ter as nacionais (ainda mais) a abarrotar, enquanto nas auto-estradas não vai passar nem uma mosca.

Uma pequena nota para mais uma ideia brilhante da dupla Passos/Portas (embora me cheire que esta seja mais do primeiro do que do segundo): mais meia hora de trabalho para os trabalhadores do privado. Pois sim senhor, como diria Guterres, é fazer as contas. 30 minutos vezes cinco dias por semana dá 2.30h a mais para cada trabalhador. Juntando três, dá 7.30h. Resultado óbvio? Deixa cá ver? Ah! Três trabalhadores fazem as mesmas horas que quatro! É isso! E querem ainda melhor? Afinal já não temos de contratar ninguém, mesmo que o volume de trabalho esteja a rebentar pelas costuras! É isso! Tudo no melhor dos mundos. Estímulo ao emprego? Give me a break.

Independentes

5 Jul

Eça e os Indenpendentes

Estamos numa maré de atenção ao simbólico. O simbólico é importante e usualmente o recurso ao mesmo não surge por acaso. O simbólico é ainda mais importante numa altura de aparente crise de valores. Portanto, um saque aos contribuintes assume maior ou menor destaque ou implica maior ou menor aceitação consoante o enquadramento simbólico efectuado. Para o bem e para o mal, a carga simbólica de determinada acção pode acarretar consequências e com essas coisas se ganham e perdem eleições.

Acresce que a generalidade de nós é pouco dada a surpresas e gosta de saber com o que conta, mesmo que seja manifestamente mau. Assim se explicam hábitos instituídos que provavelmente serão mesmo difíceis de alterar. Por exemplo, para alguém que desempenha o cargo de ministro, não será importante a sua própria avaliação. Será uma questão de maior ou menor ruído na imprensa e de forma temporária apenas. Nas redacções e na imprensa em geral, há cada vez menos memória. No final, pelo menos um regresso à ocupação profissional de partida é garantida. Aliás, as pessoas são de tal forma cruciais para tantas organizações que as mesmas se limitam a esperar pelo regresso. É a flexisegurança à portuguesa, que como tantas outras coisas, é só para alguns. Nada de mais, há exemplos bem mais dramáticos. Por exemplo, o comum dos cidadãos portugueses sabe de antemão que poderá trabalhar se sol-a-sol toda a vida que, só por muita sorte ou apenas por mero acaso, não deixará de ser pobre. Está nos manuais. Em situações de crise, pode contar que haverá pobreza para redistribuir e que, com maior ou menor grau de simbolismo, terá de pagar uma série de desvarios. Essa é a vida real que o simbólico pretende impressionar tanta vez.

Ora, existem campos em que é atribuído valor simbólico a determinada iniciativa e tal atribuição não faz sentido. Portanto, nalgumas matérias o simbolismo deve ser de valor zero para que, objectivamente, a multiplicação daí resultante ser nula também. Um exemplo disto é a muito falada nomeação de “independentes” para o cargo de ministros. Temos agora vários independentes no governo e estamos felizes por isso, é, como dizem, um “sinal” de uma abertura que há tanto tempo é pedida.

Esqueçam o simbólico, o significado de independente tem amplitude limitada: independente neste caso é um indivíduo que não está filiado num partido. Ponto final e parágrafo. Nalgum momento terá havido um namoro, uma aproximação, mas o independente simplesmente não pertence formalmente à estrutura partidária que o cooptou, não adianta efectuar qualquer extrapolação prévia. Nada mais. É um pouco como aquela ideia do católico não praticante, mas adaptada à política. É algo que, em definição, sabe-se que não pode existir. De qualquer forma, valoramos o espaço dado aos independentes porque sabemos que o oposto, isto é, um partido em que só conta a voz do dono e em que se restringe a liberdade de pensamento e acção, não é algo que forneça grandes resultados.

Poderá dar-se o interessante caso do independente não depender da política, ter vida própria, uma fonte de rendimentos autónoma – esse poderá revelar-se um ganho significativo para a coisa pública e para a democracia e acrescentar alguns graus de liberdade à tal “independência”. Diz-se ainda, do independente, que tem as suas próprias ideias, que pensa pela sua cabeça. É verdade, mas até certo ponto, porque se a dissonância fosse grande, o namoro teria terminado abruptamente muito antes. Assim, há a hipótese de redundar em casamento, isto é, haverá a possibilidade de o independente integrar um governo com base, obviamente, na sua competência técnica – só isso, pelo que nos dizem.

Se formos pela via do simbólico, somos tentados a pensar que esta é uma grande conquista. Se pararmos para pensar, poderemos chegar à conclusão que esta é mais uma graçola de quem nos governa. Para se atribuir tanta ênfase aos “independentes”, é necessário pôr a hipótese de termos a complexa estrutura orgânica de um ministério a ser realmente comandada por uma única pessoa, que decide efectivamente de forma quase autónoma, por si só e depois de reunida a informação necessária. É também pôr a hipótese de os secretários de estado serem literalmente secretários, malta para agendar reuniões, dactilografar documentos, atender telefones, servir cafés, tirar fotocópias e criar um bom ambiente num ministério, distribuindo cuidadosamente os arranjos florais. Nem uma nem outra hipóteses parecem prováveis. A comprovar isso mesmo, verifique-se as recentes nomeações (todas!) que constituem o executivo actual para se testar onde começa e acaba a dita independência. Será que os secretários de estado não terão uma agenda? Será que deixarão um ministro “independente” em roda livre? Outra hipótese será tentar perceber se existe algum partido disposto a compartilhar o poder e a ceder parte do controlo a quem quer que seja. Para já, deixem-nos governar para verificarmos se se confirma o estatuto ou se há toda uma máquina que os condiciona. De todo em todo, ainda que todos os novos ministros fossem “independentes”, nem nesse caso haveria uma matéria do foro do simbólico unicamente.