Tag Archives: Estado

A crise é o ópio do povo

6 Nov

Em 1843, depois de Kant, Borne, Hess e outros falarem do seu poder narcótico, Marx escreveu que “a religião é o ópio do povo”. No tempo dos nossos avós surgiram os cientistas sociais e as suas teorias fatalistas sobre a alienação do povo pelo futebol. Depois, na altura dos nossos pais (que o mundo agora diz que evolui depressa), como afinal se descobriu que as mulheres também pensam, criam, são força de trabalho e até já votam, acrescentou-se à lista de hipnóticos malvados a televisão, que em vez de transmitir informação passava novelas.

A geração que está agora na casa dos 20 acusa a reality tv. Aqueles programas que encabeçam todas as noites a tabela de audiências, que vendem publicidade a preço de ouro e que toda a gente vê em segredo. E quando se é apanhado justifica-se que “é para perceber de que tanto se fala, ver o retrato deste país de ignorantes, descontrair, rir-me daqueles desgraçados e pobres de espírito, que toda-a-gente-sabe-que-o-Presidente-da-República-se-chama-Aníbal-e-que-‘África’-não-é-um-país-ora-essa!”.

Mas – corrijam-me se estiver errada -, a conversa de café, a tertúlia nos jantares de família, as palavras trocadas nas viagens de elevador e na pausa para cigarrinho e café a meio do dia de trabalho (para os poucos sortudos que ainda o têm), estão carregadinhas da palavra “crise”.

Não tento reinventar a roda, mas se há alguma coisa que me aliena neste momento, é a chata da crise. A crise pôs-me no desemprego, a crise tirou-me os subsídios, a crise pôs o país de tanga, a crise privatizou empresas públicas, a crise fechou empresas privadas, aumentou impostos e diminui o poder de compra.

Ai! A quantidade de vezes que dou por mim a fazer este raciocínio falacioso!

– “Bom dia, como está? E o seu filho?”

– “Oh, está desempregado, coitadito.”

– “Pois, é a crise…!”

Não é nada a crise. É o Estado. E o Estado somos nós. E nós, em vez de andarmos a pagar ao Estado, andamos a pagar ao Governo para nos ensinar o demónio que é a crise. Dizia Marx que “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”. E digo eu que o homem faz a crise, a crise não faz o homem.

Marx disse ainda que “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”. E o que tem sido esta crise se não uma entidade que nos castiga pelos nossos excessos e contra quem nos revoltamos pelas privações a que outros – os reais – nos obrigam?

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de uma situação sem alma. A religião é o ópio do povo.” escreveu Marx. A crise é o ópio do povo, escrevo eu.

Mas este povo já demitiu a crise, que afinal o mundo evolui depressa: vê-se gente na rua, marcam-se manifestações, inundam-se as redes sociais de críticas ao Governo, exige-se mudança. O povo aprendeu muito com a religião, o futebol, as telenovelas e os reality shows. Nem que seja a gritar!

Anúncios

Parabéns, Passos Coelho

17 Jul

Muito boa tarde!

Estou a escrever este post num sábado, dia 16, após uma semana completa de quase ausência de noticiários no meu quotidiano, exceptuando os que consegui ir acompanhando pela rádio. No entanto, houve uma notícia que me surpreendeu pela positiva e pela negativa: a dispensa, no Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, do uso de gravata. Pela positiva, pois é algo que me parece bastante inteligente e um daqueles cortes simples mas que, juntando a outro tipo de medidas, cria um bom impacto. Pela negativa porque não se compreende como é que esta medida não foi tomada há mais tempo, juntamente com outras que enumerarei nesta crónica.

Apesar de me parecer ligeiramente populista (toda a medida política é populista na medida em que pretende agradar ao povo que elege os seus representantes – umas mais que outras), não me parece um mau populismo. Fala-se deste termo como se fosse uma diabolização

– aí estão eles a querer medidas só para agradar às pessoas

– está-se mesmo a ver por que é que fizeram isto, são todos iguais

entre outras expressões, são algo comum de ouvir na nossa sociedade. Não vejo, no entanto, mal nenhum em se ser populista desde que se seja também profissional no que se faz e não se vise apenas e só a satisfação dos cidadãos, mas também a sustentabilidade das medidas. Baixar o IVA para 0% seria uma medida populista mas que acabaria com o Estado num ápice se não viesse acompanhada de mais nenhuma medida que cortasse na despesa ou aumentasse a receita, por exemplo.

O Estado deve liderar pelo exemplo, como qualquer liderança em qualquer tipo de organização. Só assim se pode credibilizar novamente junto dos Portugueses, só assim pode explicar como agir, só assim teremos um bom Estado – aqui ou na China.

Estranho é que esta medida não tenha sido tomada mais cedo. A juntar à troca de bilhetes de avião de executiva para económica e ao corte nas regalias do Governo, temos um bom começo no que toca a dar o exemplo. São gastos supérfluos que já podiam ter sido banidos há mais que muito tempo e que, habitualmente, ficam escondidos sem passar para a opinião pública, curiosamente. Mais curioso é que os tenha mantido um Governo socialista e que os venha cortar um Governo social-democrata, mas isso são outras histórias.

Poder-se-á argumentar que não é suficiente, que a medida de Assunção Cristas deveria durar todo o ano (engenheiros de topo são conhecidos muitas vezes pela camisa desfraldada e ar pouco cuidado), que as despesas de representatividade ainda são imensas (porquê andar em Mercedes e BMW e não em Fiat ou até em carros eléctricos portugueses – que existem!), que se deveriam alargar estas medidas a todos os contextos e Ministérios. Concordo, mas compreendo também a precaução – estão-se a mexer em regalias que os deputados têm e que costumam defender acerrimamente desde há décadas, não é fácil de engolir este tipo de decisões no meio político. Espero ansiosamente que prossigam neste caminho e que a falta de força inicial para derrubar barreiras deste tipo se transforme numa enorme bola de neve que possa derrubar muitas mais, com um ímpeto cada vez maior.

Este tipo de medidas é de aplaudir, pois só assim – com a nossa intervenção activa em todos os passos – a democracia pode ser exercida e um Governo pode ganhar força em medidas que considero positivas. Todos têm direito à crítica construtiva ou destrutiva, mas lamento que neste País o primeiro coro que se venha fazer ouvir seja constantemente o das críticas destrutivas. Assim, ser-nos-á difícil avançar em qualquer direcção, em que época seja.

Para já, e apesar de não ter votado neste senhor (tornaria a não votar nele se houvesse hoje nova votação), tenho a dizer apenas um

– Parabéns, Passos Coelho.