Tag Archives: esquerda

Quando o futebol controla a política

26 Jun

Ouvi um colega meu dizer que há uns anos um académico brasileiro o tinha avisado que a Seleção Nacional vencer jogos era um perigo, que dava espaço ao Governo para fazer asneira sem ninguém dar conta. Temos provas que é verdade. Senão vejamos…

No dia 9 de junho, Portugal perdeu uma bola a zero frente à Alemanha, no primeiro jogo da equipa das Quinas no Euro 2012. Foi nesse mesmo dia que se começou a falar das condições do (então eventual) resgate financeiro da Espanha.

No dia seguinte lia-se nos jornais que Cavaco acredita numa recuperação económica “não muito distante”, que alertava para os riscos de austeridade excessiva e que “é urgente adoptar novas políticas de emprego em Portugal”. Passos Coelho convocou logo uma conferência de imprensa para dizer que “não há nenhuma razão para pedir novas condições para Portugal”. Coitado do povo, que está deprimido com o resultado de ontem. Condescendência.

No dia 13 de junho, Portugal ganhou à Dinamarca e surgiu a esperança de fazer boa figura no Euro 2012. O país festejava. As conversas de café dos dias seguintes foram sobre o número de golos que Portugal precisava de marcar no jogo com a Holanda para garantir o apuramento para os quartos-de-final. No dia seguinte, o Executivo já podia trabalhar à vontade, que ninguém ligava nenhuma.

O Conselho de Ministros aprovava uma nova proposta de Lei de Bases do Ambiente que nenhum jornal discutiu, ao mesmo tempo que Portas anunciava oito contratos fiscais com a indústria para um investimento de 157 milhões de euros (de onde veio este dinheiro?), para além de uma linha de crédito de mil milhões de euros (a sério?) para pagamento de dívidas das autarquias .

O “centrão” veio anunciar um entendimento quanto à lista conjunta a apresentar ao Tribunal Constitucional, num acordo que incluiu o PS, o PSD e o CDS-PP. Cala-te, Esquerda! O antigo presidente do PSD, Rui Machete, veio à Antena 1 fazer uma “avaliação positiva” da aplicação do memorando de entendimento da troika por parte do Governo e ninguém contestou a opinião do senhor.

Dia 15 a oposição acorda da dormência futebolística e aparece a moção de censura do PCP ao Governo de Passos Coelho. Reinicia-se o jogo político português. Em força. Mas só até dia 17, que Portugal joga outra vez.

No dia 17 as coisas correm bem à Seleção, que venceu 2-1 à Holanda. Festa! Às 21h35 ouve-se o apito final e Passos Coelho envia uma SMS ao Presidente da República: “Oh Aníbal, aproveita lá amanhã que o povo está contente, parece que vamos aos quartos-de-final”. E assim foi.

Daqui a uns meses o 18 de junho será recordado como o fatídico dia em que Cavaco Silva promulgou o novo Código do Trabalho, o monstro que vai assombrar os trabalhadores portugueses nos próximos anos. Começa o jogo político outra vez, com a Direita a dizer que isto é bom para Portugal e a Esquerda a dizer que nem por isso. Como o povo está contente o Governo aguenta as críticas da oposição como se nada fossem. Além disso dia 21 há jogo outra vez.

Certo.

No dia do jogo, sai a anedótica deliberação da ERC sobre o caso de Miguel Relvas e do Público, mas a malta quer é saber quem são os titulares do jogo de logo à tarde. Portugal vence, no dia 21 de junho, com um único golo, o encontro com a República Checa. A seleção avança para as meias-finais. Será a melhor notícia do ano, a menos que avance para a final. Ou que ganhe o Euro. É exactamente nestas possibilidades que estamos todos a pensar. Não é?

Entretanto, no dia 22 de junho, como o povo está grogue outra vez, foi tempo de anunciar os novos números da execução orçamental. Há que aproveitar o bom humor da população que os resultados são fraquinhos.

Vem o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, admitir um “aumento significativo dos riscos e incertezas” quanto à execução orçamental e ficamos a saber que, apesar do aumento dos impostos, a receita fiscal caiu 3,5 por cento até maio. Noticia-se que a despesa do Estado com a função pública, os sacrificados do país pela recuperação económica, já caiu 7,2 por cento, sendo que a maior fatia foi cortada aos Professores, essa classe inútil.

Isto não chegava. É que ninguém – nem o Mourinho, nem o Paulo Bento, nem o Cristiano Ronaldo, nem os comentadores desportivos da televisão, nem os comentadores do café lá da rua – acreditava que Portugal chegasse tão longe no campeonato europeu.

Então pomos o Passos Coelho a dizer, em direto da Colômbia, para despachar o assunto enquanto a vitória é fresca, que “vai ser difícil”, mas que o “objectivo do défice ainda é possível de fazer cumprir”. E como toda a gente percebe que isto quer dizer “vamos atacar-vos com mais uma meia-dúzia de medidas de austeridade”, há que nos distrair com uma frase à publicista: “ainda é cedo para falar dessa hipótese teórica”.

Amanhã há jogo. Portugal defronta a Espanha nas meias-finais. Vencer significa que a Seleção vai à Final do Euro 2012 contra a Alemanha ou a Itália. Eu até estou a gostar de acompanhar o Euro, não perdi um jogo e, como qualquer mulher que se preze (perdoem-me o machismo), tenho cumprido o papel de quem só gosta de futebol quando é a Seleção que joga. Mas desconfio que é melhor para nós, os trabalhadores, os funcionários públicos, os aposentados e os estudantes, que Portugal perca contra nuestros hermanos. Pelo menos ficava tudo em família.

Mas na eventualidade de ganharmos (nós-Seleção, não nós-Portugal), estão preparados para o que vai ser anunciado na quinta-feira pelo Governo e discutido no debate quinzenal da Assembleia da República na sexta-feira? Eu não.

Anúncios

É absolutamente necessário aumentar o salário mínimo

15 Nov

Nós, felizes privilegiados, que achamos que até temos sorte por termos um contrato de 3 meses aos 20 e poucos anos, que ganhar o ordenado mínimo a viver em casa dos pais é um luxo, mas que isto das medidas de austeridade é uma chatice e que o Governo está a prejudicar a nossa amaldiçoada “geração à rasca”, fazemos duas coisas com demasiada facilidade.

Metade de nós tem a triste mania de ter pena dos “pobres coitados” que estão desempregados, que perderam dois ordenados, que com o ordenado mínimo sustentam uma família inteira, que têm duas licenciaturas e trabalham no McDonald’s. Falamos nisto todos os dias, gritamos palavras de ordem sentados no café e escrevemos em blogues que quase ninguém lê.

E a outra metade compra assiduamente o Expresso, lê as notícias do Económico, às 20h00 vê o Telejornal em vez de mudar para a Fox, assiste aos espectáculos transmitidos no canal da Assembleia da República e, em vez de gritar palavras de ordem no café, grita com os que o fazem, garantindo, por A+B, que para todos os efeitos, e segundo não sei quantos relatórios de não sei quantas organizações, “o Governo até tem razão”.

Eu, pessoalmente, identifico-me mais com a classe pseudo-activa e condescendente, mas tenho um amigo (a quem admiro a inteligência) que se enquadra mais no grupo que “vá, não está contra as medidas de austeridade porque tem mesmo que ser”. Mas como tenho a mania que sou democrática (se bem que já nem saiba o que isso quer dizer) decidi fazer um exercício de abstracção, depois de ouvir, por duas bocas diferentes – uma delas a do Secretário de Estado do Emprego, Pedro Martins – que “o ordenado mínimo em Portugal não é realmente baixo”.

Esta declaração deixa-me em polvorosa. Obviamente. Tendo em conta que faço parte do grupo que só encontra erros no ditado do Governo… Mas, sabia que o meu amigo iria sentir uma necessidade incontrolável de justificar a afirmação do Doutor Pedro Martins com gráficos e números. Pedi-lhe esse favor e percebi perfeitamente a lição.

O Secretário de Estado do Emprego explicou que “o salário mínimo em si pode não ser elevado – e com certeza não é elevado”. O homem é esperto. O doutoramento em economia afinal também lhe deu habilidades de retórica. Continua: “Mas, em termos proporcionais, em termos daquilo que se encontra na realidade portuguesa – realidade essa que temos que enfrentar com objectividade para conseguir ultrapassar as limitações que agora nos colocam vários obstáculos -, o salário mínimo, em termos relativos, não é baixo em Portugal.”

Achei logo que isto era aldrabice. Pedi ao meu amigo economista, que se interessa por estes tecnicismos, que me esmiuçasse a questão. Trocou-me a expressão “relativos” por miúdos e disse-me que, por exemplo, o salário mínimo no Luxemburgo pode parecer um absurdo porque é elevadíssimo, no entanto estaríamos a pensar de acordo com o nosso poder de compra em Portugal, logo, se tivermos em conta o custo de vida lá, o ordenado mínimo deixa de ser “absurdo”, para ser “adequado”. E então? Um tipo normal no Luxemburgo, com o ordenado mínimo, vive melhor que um tipo normal a ganhar o ordenado mínimo em Portugal, certo?

“Certo”, diz-me o meu amigo economista. “Mas o que o Secretário de Estado defende é que, comparando com valores internacionais, tendo em conta os salários médios e os níveis de produtividade em Portugal, ou seja, o que representa a nossa competitividade (quanto conseguimos produzir por custo médio de hora de trabalho), o salário mínimo praticado em Portugal é, estatisticamente, superior aos praticados no resto do mundo.” E até me arranjou um gráfico para eu ver como ele tinha razão.

Dados da OCDE relacionam a proporção a que aumentou o custo da mão-de-obra (produtividade) com a proporção a que aumentaram os salários médios para o período de 2000 a 2010.

Depois ainda me explicou o drama do Secretário de Estado: “É que o salário mínimo deve ser subido gradualmente, acompanhando o crescimento económico de um país e o aumento da sua capacidade de produção, coisa que actualmente não está, claramente, a acontecer. E se aumentares o salário mínimo, aumentas o custo de produção porque és obrigado a pagar mais aos trabalhadores, logo, nesta conjuntura, pode sair o tiro pela culatra. Aumentar o salário mínimo faria aumentar o desemprego porque, para pagar mais a uns, os patrões teriam que despedir outros.”

Faz tudo sentido, do ponto de vista estatístico, matemático e da eficiência económica. Mas eu aprendi nos livros que a economia tem um lado mais bonito, o da solidariedade. E até o meu amigo economista concorda que “o salário mínimo tem que existir para proporcionar níveis de vida com dignidade às muitas pessoas que se encontram na base da pirâmide social e para proteger os trabalhadores de patrões abusadores.”

A meu ver, os 485 euros já não estão a cumprir esta função.  É que os preços e os impostos têm subido muito mais depressa em Portugal que, por exemplo, na Alemanha, por isso, o poder de compra do português tem diminuído. Muito. E a isto acrescentam-se as “tão necessárias” medidas de austeridade (e olhem que isto também são números e dados estatísticos e essas coisas que os Secretários de Estado gostam).

"Os pobres que paguem a crise", por lutecartunista.com.br

Claro que é muito fácil para mim – que ganho o ordenado mínimo – criticar o que o Doutor Pedro Martins e o meu amigo economista dizem. Pelo menos agora faço-o percebendo os números. Consigo fazer as contas às consequências do que pede a esquerda ao Parlamento. A meu ver, se também é da responsabilidade do Estado assegurar que a dignidade dos cidadãos é mantida, faz tanto sentido potenciar a eficiência quanto faz potenciar a solidariedade, as duas a cargo da economia.

Também é muito fácil, para o Doutor Pedro Martins, falar das estatísticas e debitar dados do alto de um ordenado “mínimo” superior a 5 mil euros. Contudo, efectivamente, com o salário mínimo, em Portugal, não se vive, sobrevive-se. E isto é um facto absoluto. Não é relativo.

São as Eurobonds estúpido!

21 Out

Cartoon: Mike Mosedale

É óbvio que rigor nas contas públicas nunca fez mal a ninguém, e que a total rebaldaria que se foi verificando na Grécia ao longo de décadas só poderia levar ao descalabro. Existe no entanto uma grande diferença entre estar sempre muito perto do precipício, e, ser empurrado por aqueles que supostamente te ofereceram ajuda.

A Europa é desde há vários anos governada por um núcleo duro de direita que envergonhará muito certamente alguns célebres conservadores como Robert Schuman e Helmut Kohl. É uma direita velha, gasta, preconceituosa, de vistas curtas e profundamente eleitoralista, provinciana e demagógica. É a direita que provavelmente acabará com a própria União Europeia, ou que deixará tudo reduzido a cacos. Esta atitude Franco – Alemã terá consequências para a Europa quase tão profundas como aquelas que resultariam de um conflito bélico a nível Europeu. Senão vejamos: Um estado Europeu prestes a declarar falência com o povo a fazer sacrifícios que há muito já passaram o limite do razoável; outro que se precipita pelo mesmo caminho, onde o salário mínimo de 485 euros deverá dar para comprar, num futuro bem próximo, apenas adubos e sementes; uma escalada de repercussões que levarão quase todos os países do Euro a sucumbirem perante a crise da divida publica.

E tudo isto porquê? Para quê?

Para ensinar uma lição a esses indivíduos do sul que só querem praia o dia todo!

Para contentar as grandes massas eleitorais da Alemanha profunda!

A esquerda Europeia tinha-o dito bem antes deste eminente descalabro: Apenas mais austeridade levará a um aprofundamento dos problemas financeiros actuais.

A direita nem respondeu, porque toda a gente sabe que a malta de esquerda não sabe fazer contas e que o gene da mestria económica só se desenvolve em indivíduos que portem também o gene conservador.

A esquerda Europeia tinha já dito em 2008 que socorrer o sistema financeiro sem tomar fortíssimas medidas de fiscalização e regulação, seria como convidar a que futuras crises florescessem.

A direita respondeu com o clássico chavão de que o sistema é complexo demais para que se possa encontrar um mecanismo de controlo e fiscalização simples. Em 2008 paguei pelo descalabro do Fortis, a semana passada foi a vez do Dexia.

A esquerda Europeia insiste nas Eurobonds.

O nosso Passos acompanhado pela sua Ângela, disse-nos em livestream que a única solução era que cada um fosse responsável pelas suas próprias contas e que Portugal não encarava as Euro-Obrigações como solução. É óbvio que os Alemães não esquecerão tão cedo esta fanfarronice, e quando estivermos no lugar que a Grécia ocupa agora, tenho a impressão que estas declarações serão estampadas vezes e vezes sem conta.

Finalizo deixando a pergunta, que terá de ser feita de um ponto de vista macroeconómico e com alguma assertividade (caso contrario a plateia conservadora não pode levar a questão a serio): O que é que fica mais barato, subscrever as promiscuas Eurobonds pagando de facto juros ligeiramente mais elevados para se financiar, mas acabando de vez com este circo, ou continuar a injectar dinheiro em Países em risco de incumprimento sendo que o mais certo é que esse dinheiro nunca mais será reavido?

Parabéns, Passos Coelho

17 Jul

Muito boa tarde!

Estou a escrever este post num sábado, dia 16, após uma semana completa de quase ausência de noticiários no meu quotidiano, exceptuando os que consegui ir acompanhando pela rádio. No entanto, houve uma notícia que me surpreendeu pela positiva e pela negativa: a dispensa, no Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, do uso de gravata. Pela positiva, pois é algo que me parece bastante inteligente e um daqueles cortes simples mas que, juntando a outro tipo de medidas, cria um bom impacto. Pela negativa porque não se compreende como é que esta medida não foi tomada há mais tempo, juntamente com outras que enumerarei nesta crónica.

Apesar de me parecer ligeiramente populista (toda a medida política é populista na medida em que pretende agradar ao povo que elege os seus representantes – umas mais que outras), não me parece um mau populismo. Fala-se deste termo como se fosse uma diabolização

– aí estão eles a querer medidas só para agradar às pessoas

– está-se mesmo a ver por que é que fizeram isto, são todos iguais

entre outras expressões, são algo comum de ouvir na nossa sociedade. Não vejo, no entanto, mal nenhum em se ser populista desde que se seja também profissional no que se faz e não se vise apenas e só a satisfação dos cidadãos, mas também a sustentabilidade das medidas. Baixar o IVA para 0% seria uma medida populista mas que acabaria com o Estado num ápice se não viesse acompanhada de mais nenhuma medida que cortasse na despesa ou aumentasse a receita, por exemplo.

O Estado deve liderar pelo exemplo, como qualquer liderança em qualquer tipo de organização. Só assim se pode credibilizar novamente junto dos Portugueses, só assim pode explicar como agir, só assim teremos um bom Estado – aqui ou na China.

Estranho é que esta medida não tenha sido tomada mais cedo. A juntar à troca de bilhetes de avião de executiva para económica e ao corte nas regalias do Governo, temos um bom começo no que toca a dar o exemplo. São gastos supérfluos que já podiam ter sido banidos há mais que muito tempo e que, habitualmente, ficam escondidos sem passar para a opinião pública, curiosamente. Mais curioso é que os tenha mantido um Governo socialista e que os venha cortar um Governo social-democrata, mas isso são outras histórias.

Poder-se-á argumentar que não é suficiente, que a medida de Assunção Cristas deveria durar todo o ano (engenheiros de topo são conhecidos muitas vezes pela camisa desfraldada e ar pouco cuidado), que as despesas de representatividade ainda são imensas (porquê andar em Mercedes e BMW e não em Fiat ou até em carros eléctricos portugueses – que existem!), que se deveriam alargar estas medidas a todos os contextos e Ministérios. Concordo, mas compreendo também a precaução – estão-se a mexer em regalias que os deputados têm e que costumam defender acerrimamente desde há décadas, não é fácil de engolir este tipo de decisões no meio político. Espero ansiosamente que prossigam neste caminho e que a falta de força inicial para derrubar barreiras deste tipo se transforme numa enorme bola de neve que possa derrubar muitas mais, com um ímpeto cada vez maior.

Este tipo de medidas é de aplaudir, pois só assim – com a nossa intervenção activa em todos os passos – a democracia pode ser exercida e um Governo pode ganhar força em medidas que considero positivas. Todos têm direito à crítica construtiva ou destrutiva, mas lamento que neste País o primeiro coro que se venha fazer ouvir seja constantemente o das críticas destrutivas. Assim, ser-nos-á difícil avançar em qualquer direcção, em que época seja.

Para já, e apesar de não ter votado neste senhor (tornaria a não votar nele se houvesse hoje nova votação), tenho a dizer apenas um

– Parabéns, Passos Coelho.

Que futuro para o Bloco de Esquerda?

15 Jun

Muito se tem escrito e falado sobre o Bloco de Esquerda desde o desaire eleitoral de 5 de Junho. Há de tudo um pouco. Pela esquerda, os que defendem a revolução socialista, critica-se entre outras coisas o aburguesamento parlamentar que o Bloco adquiriu com o seu rápido crescimento eleitoral. Pela direita, os que defendem um partido com pendor governativo, critica-se entre outras a ausência de um programa político diferente do comunista. Pelo meio ainda há apelos à demissão de Louçã e à renovação da estrutura do partido e muitas teses e análises sobre o seu presente e futuro.

Costuma-se dizer que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. E talvez assim seja. O BE não é hoje um partido assim tão diferente daquele que surpreendeu nas legislativas de 2009. Veja-se por exemplo que os candidatos a deputados eram, com uma ou outra excepção, os mesmos que em 2009 e que o programa político tirando a actual questão da ajuda externa era sensivelmente o mesmo. Então como se entende este desaire eleitoral? Antes da reflexão deixo algumas notas introdutórias.

1 – O BE foi sem dúvida a grande novidade do sistema político português dos últimos 20 anos ao conseguiu abrir caminho num espectro simétrico e quadrático de 4 partidos parlamentares. Tentar penetrar neste sistema aparentemente fechado não se afigurava tarefa fácil. No entanto o BE conseguiu-o, e apesar deste desaire, consegui-o muito bem. O BE rompeu com a ortodoxia do PCP por um lado e com a deriva liberal do PS por outro e apesar das origens de esquerda radical posicionou-se entre estes dois. Mesmo sem conseguir encostar muito o PCP para canto, o BE conseguiu empurrar o PS para a direita e conquistou um espaço que, apesar de se ter reduzido agora, não deixa de ser significativo.

2 – Como toda a gente sabe, o BE tem origem na comunhão de esforços e de interesses de pequenos partidos e grupos de esquerda que resultaram das imensas cisões e contra-cisões que dominaram a história da extrema esquerda, arriscar-me-ia eu a dizer, desde sempre. Sozinhos estes grupos pouco valiam. O resultado mais forte do PSR tinha sido em 1991 com pouco mais de 60 mil votos e a UDP apenas elegeu um deputado nessa legislatura por estar nas listas do PCP. Surpreendentemente, estes partidos conseguiram assegurar uma plataforma de entendimento minimamente consistente e pela primeira vez à esquerda o pragmatismo venceu a pureza ideológica. Este trabalho não tardou a produzir resultados. Em termos de estrutura o BE tornou-se um pólo de atração de militantes quer com o regresso de muitos descontentes e desacreditados da política quer com a entrada de muitos jovens que se sentiram atraídos pelo ar fresco que o partido representava. Em termos eleitorais o BE não mais parou e de eleição para eleição foi aumentando a sua força, a sua presença nos media e a sua representação. 

3 – Foi o partido da moda durante uns anos. Retomou os valores de esquerda que pareciam esquecidos pelo PS e que eram maltratados pelo PCP. Pareceu um partido livre de preconceitos e de agendas ocultas e aparentemente respirava-se liberdade e democracia no seu seio. Apresentou bandeiras importantes que na altura pareciam impensáveis mas que fizeram o seu caminho na sociedade e que hoje, muito graças ao BE, são realidades. Falo da IVG e falo do casamento homossexual entre outras que entretanto caíram. Bandeiras estas que contribuíram muito para a aproximação e adesão de muitos activistas sociais o que fez com que o BE se identificasse como o tal partido-movimento.

Contudo, nem tudo poderiam ser rosas neste percurso ascendente e algum dia haveria de chegar a hora da verdade. O BE vive hoje uma fase determinante da sua curta história e apresenta enormes problemas que podem até colocar em causa a própria sobrevivência do partido. Para mim, mais do que a análise conjuntural que se fez deste desaire pondo a culpa nesta ou naquela posição, o problema do BE assenta em pelo menos duas grandes contradições.

1 – Ser um partido de base radical e de eleitorado moderado. Tem sido falado aqui e ali e sem dúvida que este ponto faz do BE um partido algo esquizofrénico. Por um lado as suas bases, mesmo apesar das divergências, defendem um programa político de carácter mais revolucionário. Veja-se por exemplo como são defendidas a saída de Portugal da NATO e a nacionalização de determinados sectores da economia. Por outro lado o seu eleitorado, pelo menos o mais volátil, apoia medidas mais moderadas e social-democratas* (no sentido verdadeiro da social democracia). Este fenómeno faz com que o BE viva num equilíbrio instável que conseguiu disfarçar no tempo das vacas gordas, mas que agora vem ao de cima. Não é uma situação fácil pois pode romper a corda de qualquer um dos lados. Se vai demasiado ao encontro dos anseios das bases perde eleitorado e por outro lado se vai demasiado em contra os anseios do eleitorado perde a estrutura.

2 – Querer ser o tal partido movimento numa era em que os movimentos são quase anti-partidos. Não tem sido falado, mas não deixa de ser curioso que um partido que está na sua origem bastante ligado aos movimentos sociais e que beneficiou muito da sua incorporação seja agora repelido pelos novos movimentos que entretanto surgiram. Actualmente qualquer aproximação partidária a um movimento é vista como uma espécie de lepra. Aliás um movimento só vinga se conseguir manter uma distância razoável face aos partidos e isto observa-se nos movimentos que surgem no seio do BE que mal conseguem sair da marginalidade política e social (ex: FERVE, Precários Inflexíveis, entre outros). Isto torna a posição do BE semelhante à de um pai que é rejeitado pelos filhos e que olha para eles à distância com um sentimento de frustração por não poder estar perto.

Para além das suas próprias contradições o BE sofreu também uma espécie de síndrome Jorge Jesus desde as eleições de 2009. Não percebeu que o resultado que teve nessa altura foi claramente conjuntural e deve ter pensado que de um dia para o outro mais de meio milhão de revolucionários disciplinados e organizados estavam cegamente prontos a apoiar o BE e a fazer a revolução. Faltou humildade, e nem o péssimo resultado das autárquicas deve ter servido de aviso a uma direcção que só lhe faltou dizer que ia ganhar a Liga dos Campeões na próxima época. O resultado é visível e agora a depressão interna pode ser bem longa e penosa. Mais, as divergências internas podem ganhar imensa força e desestabilizar o partido por muito tempo. Se em tese se poderia dizer que com o tempo e com o crescimento do partido as tendências internas iriam perder força e iria surgir uma nova geração de militantes de formação puramente bloquista pouco ou nada importados com as divergências clássicas do esquerdismo. Aparentemente esse processo falhou ou pelo menos está a demorar muito mais tempo do que seria desejável.

Quanto à troika de razões apontadas ao fracasso eleitoral penso que o seu peso não terá sido assim tão significativo. Simplisticamente, há duas grandes alternativas de caminho para o BE, ser um partido de poder ou um partido de oposição. Nesta linha de raciocínio não se podem colocar os três aspectos normalmente referidos, o apoio a Alegre, a moção de censura e a recusa em negociar todos no mesmo saco. O apoio a Manuel Alegre não me parece um erro na perspectiva de transformar o BE num partido de poder. Sendo o espaço lógico de crescimento a esquerda do PS e além disso tendo em conta que há muita gente que defende uma aliança com o PS, nada melhor do que ensaiar uma aproximação. Claro que à posteriori é muito fácil dizer que foi um tiro no pé e claro que isto causou algum desconforto aos sectores mais à esquerda pois viram-se obrigados a tolerar o apoio de José Sócrates. Os resultados dessas presidenciais por vários factores óbvios não podem ser transpostos para eleições legislativas portanto ainda está por testar a possibilidade de coligação PS/BE.

Por seu lado, a moção de censura foi uma imbecilidade por todos os motivos e mais alguns. Nem numa perspectiva de poder, nem numa de oposição faria sentido algum apresenta-la naquela altura. Creio que a razão de Louçã o ter feito foi tentar ganhar algum espaço na oposição de esquerda ao PCP o que pareceu bastante infantil. Quanto ao terceiro aspecto, a recusa em sentar-se à mesa das negociações, não me parece um erro na perspectiva do BE como partido de protesto. Claro que com isso perdeu eleitorado moderado e na perspectiva de poder ficou claramente a perder. O BE não resistiu ao preconceito esquerdista face ao FMI. Acontece que ao contrário de 74/75 a população está mais interessada em que lhe resolvam os problemas do que em discutir ideologias e como o BE não apresentou alternativas credíveis, votar BE seria sempre uma forma de resistir ao avanço liberal e nunca uma alternativa de poder.

A grande questão será agora ver para que lado cairá o BE. Pode optar por ser um partido de protesto mais próximo da sua origem, mantendo com isso a sua natureza anti-capitalista mas dificilmente conseguindo aumentar a sua base de apoio. Ou pode avançar para o lado governativo, podendo assim ter algum poder de mudar a realidade mas correndo o risco de ver desaparecer grande parte da sua base de apoio ao mínimo compromisso com o capitalismo e ser assim acusado de traição à esquerda. Difícil caminho este. Não creio também que o partido necessite assim tanto de renovação de quadros porque a maioria dos actuais estão ainda frescos e também não me parece que hajam assim tantos mais à espera de oportunidade. Como li por aí o BE não é propriamente um partido de boys onde a cada desaire eleitoral se faz o ajuste de contas e se reestrutura a relação de poder interna com vista ao próximo assalto ao pote. Quanto a Louça a questão é diferente e talvez seja tempo de deixar o lugar. Talvez Pureza fosse uma boa opção.  

* Na formação do plural em adjectivos compostos, como é o caso em apreço, a regra geral indica que apenas o último elemento torna a forma do plural. De acordo com a regra gramatical afigura-se como certa a designação “os social-democratas”.

A Culpa da Esquerda

10 Jun

Domingo passado fica marcado como um dos maiores desastres eleitorais de sempre da esquerda em Portugal. E os responsáveis são 2: o descaracterizado Partido “Socialista” de José Sócrates e o “não-sei-bem-já-como-o-caracterize” Bloco de Esquerda.
Imagino o quanto angustiante tenha sido esta campanha para qualquer socialista com um Q.I. superior a 65. Ver o candidato do seu partido, que uma vez disse que nunca governaria com o FMI, concorrer a umas eleições que serviriam apenas para escolher quem iria pôr em prática o compromisso assinado com a Troika, deve ter sido difícil. Como se isso não bastasse, teve ainda que bater palmas aos discursos deste mesmo líder, validando assim toda uma teoria Kubrickiana de que se não fora a crise mundial tudo estaria perfeito, e de que o principal partido da oposição (por sinal sociais-democratas) iria privatizar tudo desde a saúde, o ensino, passando pelo ar que respiramos. Não via argumentos de tanta substância desde aquela velha história de que os Comunistas comiam criancinhas…
Lunático, não encontro outra palavra para classificar José Sócrates e os seus assessores. Respiremos por agora um pouco, e lembremo-nos deste jovem político, como o brilhante estadista, nada agarrado ao poder, fluente em Inglês e Espanhol, que nos levaria a um futuro brilhante, não fosse aquilo que já todos sabemos de cor, que começa por “c”, acaba num “e” e tem “ris” lá pelo meio. Descansemos por enquanto, porque ele vai voltar para as Presidenciais, daqui a 10 anos…
Focando novamente a atenção naquele militante Socialista, o tal com mais de 65 de Q.I., está na hora de lhe dizer que já pode voltar a sair de casa, ver os telejornais, ler a imprensa escrita e já pode mesmo resgatar o cartão de militante, o tal que ficou escondido naquela velha arca no sótão Não que a governação do PS tenha sido um acumular de erros, houve momentos positivos. Graves, foram os dois últimos anos, a ausência de ideias, soluções e até mesmo de algum pudor. A falta de diálogo entre o Governo e os partidos à sua esquerda, e a inocência na presunção de que o maior partido da oposição iria continuar a fazer vista grossa a todos os PEC’s que foram sendo sucessivamente apresentados, a ideia de que se a coisa levasse o selo de “interesse nacional” nunca iria ser chumbado, era digamos, qualquer coisa para lá do Naïve…
Defendi na altura que a trapalhada em torno da apresentação e aprovação do último PEC, só poderia ser propositada. Que ninguém era tão politicamente inocente ao fazer as coisas daquela forma, ainda para mais para um calculista tão agarrado ao poder quanto José Sócrates. Disse-o e escrevi que o intuito era a vitimização perante uma situação que supostamente a oposição havia criado (pena que hoje em dia haja tantas estatísticas, e que não é só o Paulo Portas que tem acesso a gráficos). Esta floribelização ou calimerização era a última oportunidade para se manter no poder alguém, que em 2 anos destruiu toda a confiança possível em si para ocupar esse mesmo… Poder.

O Bloco de Esquerda acordou segunda-feira para uma nova realidade: a pura e simples sobrevivência. A estrada agora passa por uma redefinição total do seu campo de acção, ou seja, por uma profunda refundação: ou o Bloco se assume como uma esquerda que possa e queira governar, ou então desce de divisão, futebolisticamente falando.
Um dos grandes azares do Bloco, foi o facto de que à medida que ia ganhando mais deputados eleição após eleição, mais gente começou a ler os seus programas eleitorais. Nacionalização da EDP e da GALP, subjugação da Banca aos interesses do Estado (qualquer coisa como transformar a banca privada em várias Caixas Gerais de Depósitos) entre outros, não assusta apenas banqueiros e grandes capitalistas, assusta-me a mim e a muitos milhares de Portugueses.
Outro factor de desgaste do Bloco, foi a repetição exaustiva daquela ideia de que o Bloco era a “Esquerda”. De um momento para o outro, eu, que sempre me bati pelo sim no referendo ao aborto, defendi o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que sou a favor da escola e de um sistema de saúde públicos, passei a ser de direita, se tivermos em conta a equação: se não és Comunista ou do Bloco, então não és de Esquerda. Muitos destes descriminados revoltaram-se no domingo passado nas urnas!
Vejo agora muitos bloquistas a defenderem que o apoio a Manuel Alegre foi um desastre, que a moção de censura não teve nenhuma lógica de acção ou substância, que a recusa em falar com Troika foi um erro… Eu oiço e leio esta gente e pergunto-me onde é que eles estiveram nos últimos 2 anos, é que toda esta clarividência face ao próprio partido, passou-me ao lado!
É sério o momento para o Bloco. Agora que a verdadeira matriz ideológica foi chegando ao conhecimento do cidadão comum, desde a tasca do bairro ao táxi mais próximo, mesmo apesar dos seus programas eleitorais passarem a ser mais pequeninos e muito discretos, já não foi possível passar por entre as gotas de chuva. Acredito que muita gente no Bloco chegou mesmo a pensar que face aos brilhantes resultados eleitorais passados, Portugal estava cheio de Trotskistas, Marxistas, Maoístas eoutros istas! Não foram precisos 2 anos para demonstrar o contrário.
Cada vez mais me parece que quem anda nas máquinas partidárias se deixa facilmente embriagar com resultados eleitorais, subjugando muitas vezes o próprio pensamento ao chicote disciplinador do partido!
Muito mais poderia escrever acerca do Bloco, mas vou deixar isso a todos aqueles bloquistas que têm vindo a despertar nos últimos dias.

E agora?

7 Jun

Legislativas concluídas, novo governo na calha, formação e tomada de posse urgentes em face da também urgente situação do burgo. Adivinham-se muitas mudanças, quer de forma, quer de conteúdo. Desta vez, há um guião já previamente estabelecido que não permite grandes desvios, dado que de contas se trata. Pode ser consultado aqui. A elaboração deste acordo significou, para muitos, mais uma investida à soberania portuguesa, funcionando agora o país como um protectorado de uma União Europeia que afinal sabe pouco de Finanças Públicas. Para mais ainda, a democracia e sobretudo o voto para formação de um governo passou a mero formalismo.

No passado domingo ficamos então a saber que teremos à direita da direita no governo, coligada com a matriz securitária e fala-barato do centro-direita. Uma vénia ao Obama de Massamá por representar o único partido que, com clareza, mostrou ao que vinha através de um programa eleitoral explícito e bem elaborado. Tal guião pode ser consultado aqui. Uma vénia, ainda, por falar demais. Essa é a forma de sabermos o que pensa e ao que vem. Temos agora um barítono a comandar o governo, a música será certamente outra, quanto à afinação, veremos. É inútil discutir o nível de experiência. Suponho que o cargo de Primeiro-Ministro não seja tarefa iminentemente individual, a maior ou menor experiência dependerá, sobretudo, da equipa governativa em si. De qualquer forma, num país nada dado a velhos, ficamos a saber que se pode ser considerado jovem aos quarentas, mas não se pense que este qualificativo terá aplicabilidade em termos de mercado de trabalho.

Não esquecer, acima de tudo, que quem ofereceu uma maioria absoluta ao menino Zé foi, nem mais, nem menos, que o próprio PSD coligado com o CDS, depois de uma grande euforia democrática também. Acresce que o menino Zé foi um comentador de TV sofrível juntamente com outro personagem, o Menino Guerreiro, este com muitos mais dotes de oratória, ainda assim insuficientemente efectivos para nos governar por muito tempo. Nessa altura, só em sonhos alguém veria ali não um, mas dois futuros primeiros-ministros de Portugal, quais estadistas reunidos num mesmo espaço para actuação também conjunta e a fazerem ver que, afinal, também há espaço para números de variedades em política. Portanto, temos que aguardar, só podemos mesmo esperar para ver, na certeza que a base de comparação é manifestamente má. Agora que o menino Zé deixou de mandar, não faltarão críticos naturalmente.

Dizem-nos, com clareza, que vem aí o liberalismo. Não sei se já não anda aí há muito. Não sei até se não faz faltas em muitas esferas de um Estado que é gordo e precisa de, como se diz, ginástica localizada. Tudo dependerá é do tipo de liberalismo que aí vem – essa é a questão. Por exemplo, se for liberalismo à portuguesa, em que não há propriamente um mercado e concorrência, em que as negociatas se fazem com os amigos e se prejudica o interesse geral, então estamos, mais uma vez, fritos. O mesmo é dizer que, nestas coisas de esquerda e direita, quem se centrar nos rótulos, provavelmente vai errar nalgum ponto. Por exemplo, pensar em quinze anos de governação PS como política realmente de esquerda e socialista, é exercício impossível.

De facto, o socialismo esteve na gaveta na maior parte do tempo. Um dos riscos de ausência de uma ideologia é exactamente a possibilidade de “contaminação” com opções que, à partida, pertencem a outra facção. Isso, o menino Zé fez inúmeras vezes, cavalgando cada onda, por vezes mudando de opinião por mais de uma vez num mesmo dia. Portanto, a vários níveis, não é surpresa que o PS tem sido muito direitista. Pior de tudo, foi terem sido tomadas demasiadas decisões manifestamente erradas. Para já e quanto ao novo governo, resta-nos esperar. Esperar, desde logo para conferirmos se desta um programa eleitoral é cumprido ou se representa mais uma declaração de interesses apenas. Menos trapalhadas, mais verdade, mais competência, será o que certamente cada eleitor terá em mente para os difíceis anos vindouros.

“Whenever you think you are facing a contradiction, check your premises. You will find that one of them is wrong.”

27 Maio

Podemos ser de esquerda e pensar que a renegociação da dívida trará mais problemas do que soluções?

Podemos ser de direita e achar errado que Angela Merkel governe a Europa como se governasse a Alemanha?

Podemos ser de esquerda e achar que o memorando da Troika, apesar de muito penalizador para a economia Portuguesa, surgiu como uma resposta realista a uma crise que nós, sozinhos, não somos capazes de enfrentar?

Podemos ser de direita e desconfiar que as agências de rating têm uma agenda obscura que gira em torno dos interesses dos grandes grupos económicos?

Podemos ser de esquerda, e aceitar que o mau momento que vivemos não é apenas consequência da ganância do “grande capital”, mas também da nossa própria incapacidade de ter uma economia saudável?

Podemos ser de direita e achar que o combate ao défice não é Tudo?

Podemos ser de esquerda e duvidar dos efeitos práticos da nacionalização da banca?

E ser de direita e apoiar incondicionalmente a forte regulação dos mercados?

Faz sentido ser de esquerda e acreditar que a direita também se preocupa com os pobres, os desempregados e os desprotegidos?

Podemos ser de direita e apoiar os protestos do movimento M19 em Espanha?

Podemos ser de esquerda e achar que os de direita não são todos um bando de conservadores, preconceituosos, sexualmente frustrados e aduladores de grandes tiranos fascistas?

Podemos ser de direita e aceitar que os de esquerda não são todos um aglomerado de anarquistas drogados, promíscuos, com sérios problemas de higiene e bajuladores de grandes tiranos comunistas?

Podemos ser de esquerda e admirar Churchil?

Ou então ser de direita e ter um poster do Che Guevara?

Acho que a grande reflexão hoje em dia não é se devemos ser de esquerda ou de direita. A questão é se precisamos mesmo de o ser?

N.B: A Frase é da Ayn Rand;

N.B.2: Eu tinha verdadeiramente a intenção de escrever uma brilhante dissertação sobre a dicotomia esquerda/direita. Como não fui capaz, e como apesar de tudo estamos em plena campanha eleitoral, acabei por escrever uma série de banalidades, que apesar de tudo não destoam da falta de conteúdo que se vem observando neste período;