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Passos Coelho, David Lynch e a Final da Liga Europa

13 Maio

O Pedro Passos Coelho, deixou-me ontem uma cartinha na minha caixa de correio, onde me ensina como votar por correspondência, e em última análise onde colocar a cruz no PSD. Eu fico contente por ele se ter lembrado de mim, porque eu andava com sérias dúvidas se o papel se dobrava em dois ou em quatro – afinal é em quatro. E se tinha de usar cola para selar o envelope ou se saliva bastava – aqui ainda não obtive resposta.
O Pedro diz na sua carta à comunidade na Diáspora que está na hora de MUDAR. O que ele parece não ter percebido, é que a malta que vive no estrangeiro já há muito que mudou… de País! A malta que vive governada por outros políticos que não os Portugueses, sabe e bem que o grande problema político dos Portugueses é que estes, desde a instauração da Democracia em Portugal, não mudam o seu sentido de voto!
Vamos fazer um pouco de ficção. Imagine que viveu sempre governada(o) por apenas dois partidos, que foram alternando entre si o exercício do poder. Imagine agora que durante esses anos todos estes dois partidos levaram o País a um estado tal que apenas em 37 anos tivemos de pedir ajuda externa duas vezes de forma a evitarmos a bancarrota! Imagine agora (e esta parte é verdadeiramente ficção, pois parece de todo irrealista) que estes dois partidos concorreriam às eleições…
Imagine agora, que por exemplo, um primeiro-ministro teria governado entre 2005 e 2011 um País, que as suas políticas teriam levado o País quase à bancarrota, e que o seu calculismo eleitoral o teria levado a fazer um grande número de ficção, escondendo sempre a grave situação económica, esperando demasiado para formular um pedido de ajuda externa, incitando os partidos com pretensões a governar que o derrubassem, para que no final, pudesse ressurgisse como vítima de uma coligação negativa dos outros lideres partidários, mas como o salvador da Pátria. Imagine que um individuo assim se recandidataria a Primeiro-ministro novamente….

Vamos então a coisas mais sérias. Para mim a final da Liga Europa será extremamente táctica e as únicas hipóteses do Braga conseguir realmente a vitória estão dependentes do facto de marcar primeiro. Caso isso acontece, o Braga poderá jogar o seu jogo habitual. Caso o Porto marque primeiro, prevejo uma vitória azul e branca por 3-0.

Acho que tinha ainda que escrever acerca de mais qualquer coisa… Não é sobre a descida do preço dos iogurtes no Lidl, porque já falei disso na reunião do clube de caça, pesca e berlinde espanhol; nem sobre a vida sexual do macaco Pigmeu, porque acho que o Professor Marcelo também já falou acerca disso num programa, estabelecendo ao mesmo tempo uma correlação entre a as filhoses e os banhos matinais que ele dá no oceano… ah lembro-me agora: a carta do Pedro!
Passos Coelho disse-me na carta que escreveu que os meninos do PS foram maus com toda a malta que não vive em Portugal Continental. Que aqueles mauzões “desqualificaram” os postos consolares, que “ignoraram” o crescimento da emigração portuguesa, que “falharam” na reforma do Ensino do Português no Estrangeiro. Mas ele, e os seus amigos não nos vão abandonar também. E o Pedro apresenta tantas soluções que no final, a única coisa que nos lembramos ainda é de como dobrar correctamente o boletim de voto.
E é por isso que eu não percebo como uma pessoa tão simpática como o Pedro vem descendo tanto nas sondagens!
Mas o que importa afinal! Portugal passará a ser governado via WIFI a partir de Berlim, porque convenhamos, nos somos peritos em ficção cientifica ou dramas intemporais, os nossos “actores” são de serie C e os nossos “argumentos” fazem os do David Lynch parecer contos infantis. Com uma indústria “cinematográfica” deste nível, não admira que nem os Finlandeses se tenham emocionado com a nossa ultima obra-prima criativa: um filme em que lhes explicamos que eles nos devem emprestar dinheiro porque tivemos um passado grandioso e fizemos coisas verdadeiramente extraordinárias!
Este vídeo só me fez lembrar de uma anedota que alguém uma vez me contou, e em que um aluno pergunta ao professor de historia, porque é que nos chegamos a este estado, sendo nos descendentes de todos aqueles que partiram à descoberta do mundo, dando a conhecer novos mundos ao mundo! O professor apenas lhe respondeu que nos não somos descendentes dos que partiram, somos descendentes dos que ficaram!

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E ainda sobre o 25 de Abril

27 Abr

Relembrar datas importantes pode ter por vezes enorme importância e há alguns casos onde grandes acontecimentos surgem precisamente no contexto de celebração de datas carregadas de simbologia. Veja-se por exemplo a importância da celebração da Tomada da Bastilha e do 24 de Março para a eclosão da crise académica de 62, lançando o rastilho para a crise de 69 e para o 25 de Abril. Infelizmente estas coisas não acontecem todos os dias. Combinar condições objectivas e subjectivas, como dizia o Marx, não se faz assim do pé para a mão.

Deste 25 de Abril não se esperava, é certo, grande alteração no panorama político, os tempos são outros, claro. Não há guerra colonial, o país já não é profundamente analfabeto e subdesenvolvido e o regime já não é violentamente opressor. Toda a possibilidade de mudança é agora canalizada para umas eleições que provavelmente não trarão mudança alguma. Adiante.

Surgem contudo algumas surpresas. Afinal Otelo e talvez alguns outros capitães começam a pensar se valeu a pena o esforço. Por seu lado, Mário Soares que ao lado dos seus camaradas de partido parece um tolinho a falar de socialismo e de capitalismo selvagem, começa a pensar se terá valido a pena o esforço do projecto Europeu. No campo das confirmações ficamos deleitados com mais uma bela entrevista ao camarada Jerónimo de Sousa. O seu lado humano cativa, é verdade, agora o seu conteúdo político só consegue encher o olho aos seus fiéis militantes. Ficou por saber a resposta a uma pertinente questão: “afinal para que serve o Partido Comunista?” Mas isso creio que nunca ninguém conseguirá explicar.

O melhor desta época do ano é sem dúvida o revivalismo histórico. Rever por exemplo o debate entre Soares e Cunhal e imaginar um entre Sócrates e Passos Coelho é como comparar uma Kastell blonde com uma cerveja Cintra. Rever os discursos do primeiro de Maio de 74 e compará-los com as encenações propagandísticas que são os congressos partidários de hoje em dia é como comparar um Gouda velho e bem seco com um queijo fatiado do Pingo Doce.

Mas infelizmente as diferenças não ficam por aqui. Se antes a formação politica era feita na clandestinidade, no exílio ou no movimento estudantil, hoje em dia ela é feita maioritariamente nas juventudes partidárias. O que se aprende e a forma como as pessoas adquirem valores e competências políticas é completamente diferente e talvez isto possa explicar em parte porque é que estamos onde estamos. Os políticos do pós 25 de Abril aprendem a política de bastidor. Nas jotas fazem cacique, traficam influências, distribuem lugares e obedecem ao chefe para subir na hierarquia. Óbvio que quando chegam a uma posição de poder, estes políticos vão apenas reproduzir aquilo que aprenderam ao longo da sua subida, ou seja: oportunismo e o carreirismo.

Não quero com isto dizer que seja precisa outra ditadura para que a formação política seja feita com base em valores, princípios, espírito de sacrifício e dedicação, mas também não me conformo com o “estado a que chegamos” e sem dúvida que é preciso mudar muita coisa. Os partidos não são, ou não deviam ser, escolas de oportunismo. Os partidos são apenas grupos de pessoas que têm ideias e interesses em comum e que se candidatam a determinados lugares. A forma como estes se organizam é que precisa de ser profundamente alterada. Os partidos tal como a sociedade têm de premiar o mérito. Não há volta a dar. Como é que podemos acabar com o oportunismo e o clientelismo da sociedade portuguesa se os partidos que dominam o aparelho de estado são precisamente as escolas desse mesmo oportunismo e clientelismo?

Há quem defenda a entrada em massa nos partidos para os influenciar. Há quem rejeite terminantemente ter qualquer coisa a ver com qualquer partido. Há quem consiga trabalhar em conjunto com partidos e há quem se afaste mal veja o mínimo sinal de partidarismo. Tornou-se uma praga, é verdade. Mas isto é tema para uma próxima reflexão. O que é relevante de dizer agora é que apesar das óbvias diferenças de contexto e de natureza problemática, o “estado a que chegamos” em 2011 merece toda a nossa inconformidade, toda a nossa revolta e todo o nosso esforço para o alterar.

21 Abr

DR

Como diria Sérgio Godinho, hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar e quanto mais eu penso, mais eu vejo que esta grande obra de reconstrução parece mas é uma acção de despejo.

Nacionaliza-se a dívida e privatiza-se o lucro. Acha-se a entrada do FMI inevitável e um mal menor. Abana-se a cabeça quando se noticia que esse mesmo fundo monetário internacional irá lucrar 520 milhões com Portugal, assim como os países europeus irão lucrar outros 1060 milhões. Dá-se razão ao discurso normativo e irrealista que são os trabalhadores que vivem acima das suas possibilidades. Não se sai à rua para reivindicar direitos porque “não resolve nada”, e até se remata com um “ide mas é trabalhar”.

Este descrédito social face ao corrompimento do poder e ao abuso financeiro e económico por parte dos bancos chega-me a dar vontade de ir para a rua gritar contra o povo. Infelizmente, esse estigma de impotência e auto-flagelo não é novo, é quase inevitável e involuntário, é fruto desta crise política internacional que nos faz crer na culpa individual e colectiva dos cidadãos/ãs trabalhadores/as, estudantes, reformados/as, precários/as e desempregados/as. Senão, porque estaria um Estado, ou até uma cambada de reguladores financeiros internacionais que teoricamente percebem tanto do assunto, a tirar o dinheiro do bolso dos/as portugueses/as se não fomos nós a criar esta crise?

A verdade é que não fomos. Mas somos nós que pagamos pelos erros dos bancos. Porquê? Porque somos governados/as pelos mercados; já não somos pessoas, somos números, estatísticas, variáveis de um rating qualquer feito pelos maiores bancos mundiais.

Faz sentido pagarmos pela dívida portuguesa? Não. 75% da dívida externa pertence aos privados e 25% ao Estado. A culpa do decrescimento económico é nossa? Não. Os grandes grupos económicos portugueses pertencem a sectores não-transaccionais, isto é, sectores que impossibilitam exportações; por exemplo: luz, água, etc.

O FMI injectará dinheiro na banca, mas isso não combate o endividamento, como é lógico. O endividamento somente desaparecerá com um salto económico, o que acontece através de emprego e criação do mesmo, com evolução nas empresas nacionais e nas exportações, ao invés de importações.

Nunca se resolverá a situação desgastante da economia portuguesa retirando dinheiro aos/às portugueses/as. Mas isso até uma criança de 7 anos consegue perceber, não? Vejamos… Descemos os salários e aumentamos os preços, logo, descemos a procura e o poder de compra. Como cresce uma economia sem poder de compra? Não cresce. Aumenta a recessão. Aumenta a pobreza. Aumenta a precariedade. Aumenta a emigração. Perdemos crescimento económico. Perdemos poder de compra. Perdemos salários e ajudas sociais. Perdemos subsídios. Perdemos trabalhadores e postos de trabalho. Entramos numa crise política, económica e social sem fim.

Na Islândia, o povo disse “NÃO” ao pagamento da dívida da banca e está em processo a condenação a pena de prisão dos seus banqueiros. Na Grécia, o povo continua a lutar contra as políticas do FMI que os empurram para este novo panorama de trabalho que quase se consegue intitular como “nova escravatura”.

E nós, que fazemos? Vamos deixar que esta intervenção internacional nos sugue a vida e nos coloque sob uma política austera e autoritária onde o capital se protege mais que a vida humana?

Não podemos aderir à apatia, acabemos com ela! A realidade não é estática, nem inevitável. A realidade molda-se e revoluciona-se.

Eu amanhã posso não estar aqui mas também, para o que eu aqui repeti… É que eu não sou o único que acho que a gente o que tem é que estar unida.