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Ser agência de rating é mais fácil que escrever neste blog

24 Jul

A receita é simples. Teorizar sobre banalidades para construir uma espécie de contexto. Procurar grandes verdades políticas na Wikipédia. Encontrar números grandes, daqueles que só 50 por cento da população lê. Não interpretar esses números. Usar um dicionário de sinónimos para substituir palavras que toda a gente entende por outras que ninguém conhece. Acrescentar meia dúzia de conceitos financeiros, económicos ou tecnocratas. Pôr um carimbo no canto da página, enviar às redacções e publicar online.

Et voilá, somos uma agência de rating.

A agência Moody’s colocou em perspetiva “negativa” o rating de AAA da Alemanha, da Holanda e do Luxemburgo, o primeiro passo para um eventual corte na notação que lhes é atribuída no gráfico de “bom comportamento económico”. O relatório, em que a agência de notação norte-americana explica porquê, tem 14 páginas.

Comportamento económico europeu (por Maria Inês Marques)

Ora, eliminem-se as banalidades, como “a Europa atravessa uma grave crise económica”. (A sério?!) Dispensem-se as lições disponíveis na maior enciclopédia do mundo virtual, como “a dívida soberana deve permanecer estabilizada frente ao PIB”. (Disse-me a Moody’s e disse-me a Wikipédia.) Interpretem-se os números, leiam-se as entrelinhas, pense-se nas consequências. Escreva-se para toda a gente (em vez de só para alguns). Tire-se o carimbo. E sem carimbo não há entrada nas redacções nem se azucrina a cabeça à Merkel, ao Juncker e ao Barroso.

Et voilá, somos um blog.

Desculpem-me a falta de humildade, mas basta-me ler os jornais para saber que houve um aumento geral da dívida pública na Zona Euro, divulgado pelo Eurostat esta semana, e que isso significa que mesmo as economias mais saudáveis da Europa estão menos “estáveis” e, portanto, sujeitas a perspectivas mais “negativas”.

Sabemos todos que se vive um período de  “incerteza na união monetária”; que a crise financeira teve “impacto em alguns dos Estados-membros”; que “a possível saída da Grécia da moeda única colocaria uma ameaça concreta ao euro”; que mesmo que a Grécia não saia da Zona Euro, os encargos assumidos pelos Estados-membros mais fortes aumentarão com o pagamento dos resgates das economias mais fragilizadas; que as coisas como estão – com cinco países a pedir ajuda externa – “poderão levar a uma série de choques, que poderão ganhar força com a persistência da crise”.

É isto, tal e qual, que diz o tal relatório complicadíssimo de 14 páginas que uma agência especializada escreveu esta madrugada.

Com este texto, a Moody’s pôs o presidente do Eurogrupo e primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, a fazer um controlo de danos e o Ministério alemão das Finanças (com mais meia-dúzia de políticos) a justificar o relatório com outras vulgaridades e a prometer que a Alemanha nos vai salvar a todos.

Por causa do relatório de uma agência de rating que mora do outro lado do Atlântico a Grécia foi imediatamente (leia-se, no mesmo dia em que o texto foi publicado) pressionada pela Alemanha para tomar medidas de austeridade mais duras, desistir das renegociações dos prazos para cumprir as metas do défice e esquecer a hipótese de receber mais dinheiro.

Um economista disse à Bloomberg que “a posição central da Alemanha na Zona Euro faz com que a ideia de que poderia ser, de alguma maneira, isolada da deterioração geral da área, não seja realista.” Por isso, “a descida parece lógica.” Lá está. Diria mais: óbvia.

Financial Times explica que as críticas da Moody’s podem agravar a posição pouco favorável que a Alemanha e outros países têm em relação às opiniões das agências de rating. Já vão tarde. Explica também que podem produzir um impacto negativo no público alemão, que está preocupado com o custo para o país, e consequentes esforços do seu povo, no fortalecimento da Zona Euro. Mas só agora, depois de uma agência de rating, em vez de um blog qualquer, lhes dizer que também lhes toca a eles…

Já se disse muita coisa em torno deste assunto, com análises muito mais complicadas e relevantes, neste blog. Mas nós não temos carimbo. Só de “agência de rating do povo”. E neste rating os países não têm medo de má figura.

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O mundo está cheio de nevoeiro!

18 Nov

Hoje está um daqueles dias tristes e envergonhados, que se esconde por detrás de uma capa de uma substancia cuja composição química não sei, mas que aprendi desde cedo que se chama nevoeiro.

Embalado pela sonolência mental que normalmente tal fenómeno me provoca, estranhei quando o meu cérebro organizou pensamentos e me pôs a cismar se, o mundo de hoje não está também envolto por uma capa bem espessa de nevoeiro.

Oiço pessoas com vozes cansadas dizerem que já não vêm noticiários. Eu também acho que se nos quisermos manter informados, temos que saber lidar com esta bruma em forma de mundo, que uma vez já o foi. Não que nós, aqueles que estão do lado de fora da cortina, não tenhamos acesso a tudo o que se passa no mundo. Temos acesso a tudo: noticias, opiniões, teorias da conspiração, et cetera, et cetera, et cetera, três pontinhos

O problema é que o nevoeiro começa nesta amalgama, enroupado de boas e más intenções, dando voz a pessoas que têm corações com vários metros de diâmetros, mas também a interesses mesquinhos e pouco claros. Quase sempre é difícil de descobrir onde começam uns e onde acabam os outros.

Quase todas as grandes crises (guerras incluídas) foram provocadas pela ganância e pela ignorância, por isso neste momento não estamos a inovar propriamente.

Alguns dias atrás, decidi ir pesquisar no dicionário o que significava a palavra “Tecnocrata”. Sei que há muitas pessoas, muito bem informadas que já o sabiam, mas eu porém não o sabia. Talvez ficasse melhor na ignorância.

Parece que a solução para as crises (todos os países têm uma, a diferença é que umas são mais histéricas do que outras), são os governos compostos de tecnocratas. Isto, segundo aquele senhor que todas as noites apresenta as noticias, e que de caneta em riste, me tem dado conta de todas essas mudanças de poder que se têm verificado na Europa. Antes de ter aberto o dicionário, quase que apostava comigo mesmo que tecnocrata deveria significar qualquer coisa como assumir o poder sem ser eleito.

À noite, antes de me deitar, irei rabiscar o meu dicionário. Acrescentarei ao lado de todas aquelas letras pequeninas: “Tecnocrata – Difícil de distinguir os contornos. Algo envolto numa névoa bem densa.”

É absolutamente necessário aumentar o salário mínimo

15 Nov

Nós, felizes privilegiados, que achamos que até temos sorte por termos um contrato de 3 meses aos 20 e poucos anos, que ganhar o ordenado mínimo a viver em casa dos pais é um luxo, mas que isto das medidas de austeridade é uma chatice e que o Governo está a prejudicar a nossa amaldiçoada “geração à rasca”, fazemos duas coisas com demasiada facilidade.

Metade de nós tem a triste mania de ter pena dos “pobres coitados” que estão desempregados, que perderam dois ordenados, que com o ordenado mínimo sustentam uma família inteira, que têm duas licenciaturas e trabalham no McDonald’s. Falamos nisto todos os dias, gritamos palavras de ordem sentados no café e escrevemos em blogues que quase ninguém lê.

E a outra metade compra assiduamente o Expresso, lê as notícias do Económico, às 20h00 vê o Telejornal em vez de mudar para a Fox, assiste aos espectáculos transmitidos no canal da Assembleia da República e, em vez de gritar palavras de ordem no café, grita com os que o fazem, garantindo, por A+B, que para todos os efeitos, e segundo não sei quantos relatórios de não sei quantas organizações, “o Governo até tem razão”.

Eu, pessoalmente, identifico-me mais com a classe pseudo-activa e condescendente, mas tenho um amigo (a quem admiro a inteligência) que se enquadra mais no grupo que “vá, não está contra as medidas de austeridade porque tem mesmo que ser”. Mas como tenho a mania que sou democrática (se bem que já nem saiba o que isso quer dizer) decidi fazer um exercício de abstracção, depois de ouvir, por duas bocas diferentes – uma delas a do Secretário de Estado do Emprego, Pedro Martins – que “o ordenado mínimo em Portugal não é realmente baixo”.

Esta declaração deixa-me em polvorosa. Obviamente. Tendo em conta que faço parte do grupo que só encontra erros no ditado do Governo… Mas, sabia que o meu amigo iria sentir uma necessidade incontrolável de justificar a afirmação do Doutor Pedro Martins com gráficos e números. Pedi-lhe esse favor e percebi perfeitamente a lição.

O Secretário de Estado do Emprego explicou que “o salário mínimo em si pode não ser elevado – e com certeza não é elevado”. O homem é esperto. O doutoramento em economia afinal também lhe deu habilidades de retórica. Continua: “Mas, em termos proporcionais, em termos daquilo que se encontra na realidade portuguesa – realidade essa que temos que enfrentar com objectividade para conseguir ultrapassar as limitações que agora nos colocam vários obstáculos -, o salário mínimo, em termos relativos, não é baixo em Portugal.”

Achei logo que isto era aldrabice. Pedi ao meu amigo economista, que se interessa por estes tecnicismos, que me esmiuçasse a questão. Trocou-me a expressão “relativos” por miúdos e disse-me que, por exemplo, o salário mínimo no Luxemburgo pode parecer um absurdo porque é elevadíssimo, no entanto estaríamos a pensar de acordo com o nosso poder de compra em Portugal, logo, se tivermos em conta o custo de vida lá, o ordenado mínimo deixa de ser “absurdo”, para ser “adequado”. E então? Um tipo normal no Luxemburgo, com o ordenado mínimo, vive melhor que um tipo normal a ganhar o ordenado mínimo em Portugal, certo?

“Certo”, diz-me o meu amigo economista. “Mas o que o Secretário de Estado defende é que, comparando com valores internacionais, tendo em conta os salários médios e os níveis de produtividade em Portugal, ou seja, o que representa a nossa competitividade (quanto conseguimos produzir por custo médio de hora de trabalho), o salário mínimo praticado em Portugal é, estatisticamente, superior aos praticados no resto do mundo.” E até me arranjou um gráfico para eu ver como ele tinha razão.

Dados da OCDE relacionam a proporção a que aumentou o custo da mão-de-obra (produtividade) com a proporção a que aumentaram os salários médios para o período de 2000 a 2010.

Depois ainda me explicou o drama do Secretário de Estado: “É que o salário mínimo deve ser subido gradualmente, acompanhando o crescimento económico de um país e o aumento da sua capacidade de produção, coisa que actualmente não está, claramente, a acontecer. E se aumentares o salário mínimo, aumentas o custo de produção porque és obrigado a pagar mais aos trabalhadores, logo, nesta conjuntura, pode sair o tiro pela culatra. Aumentar o salário mínimo faria aumentar o desemprego porque, para pagar mais a uns, os patrões teriam que despedir outros.”

Faz tudo sentido, do ponto de vista estatístico, matemático e da eficiência económica. Mas eu aprendi nos livros que a economia tem um lado mais bonito, o da solidariedade. E até o meu amigo economista concorda que “o salário mínimo tem que existir para proporcionar níveis de vida com dignidade às muitas pessoas que se encontram na base da pirâmide social e para proteger os trabalhadores de patrões abusadores.”

A meu ver, os 485 euros já não estão a cumprir esta função.  É que os preços e os impostos têm subido muito mais depressa em Portugal que, por exemplo, na Alemanha, por isso, o poder de compra do português tem diminuído. Muito. E a isto acrescentam-se as “tão necessárias” medidas de austeridade (e olhem que isto também são números e dados estatísticos e essas coisas que os Secretários de Estado gostam).

"Os pobres que paguem a crise", por lutecartunista.com.br

Claro que é muito fácil para mim – que ganho o ordenado mínimo – criticar o que o Doutor Pedro Martins e o meu amigo economista dizem. Pelo menos agora faço-o percebendo os números. Consigo fazer as contas às consequências do que pede a esquerda ao Parlamento. A meu ver, se também é da responsabilidade do Estado assegurar que a dignidade dos cidadãos é mantida, faz tanto sentido potenciar a eficiência quanto faz potenciar a solidariedade, as duas a cargo da economia.

Também é muito fácil, para o Doutor Pedro Martins, falar das estatísticas e debitar dados do alto de um ordenado “mínimo” superior a 5 mil euros. Contudo, efectivamente, com o salário mínimo, em Portugal, não se vive, sobrevive-se. E isto é um facto absoluto. Não é relativo.

Governar na Europa é como regatear na Feira do Relógio

8 Nov

É a sensação que me dá. Tenho lido as notícias sobre a “crise” política e económica (como toda a gente) e a única conclusão que me autorizo a tirar é que governar na Europa é como regatear na Feira do Relógio. Está bem que não é nenhuma novidade que a política assente no neocapitalismo liberal se sustenta em duas máximas principais: negociar com quem tem dinheiro e calar quem tem ideias. Estou conformada com isso e contorno a coisa como posso.

Mas ultimamente parece que entrámos num estado litúrgico, que sobrevive num qualquer limbo teórico que não reconheço nas sebentas da teoria política, em que as regras básicas e fáceis a que nos habituámos não se aplicam. É que, graças à “crise”, que desta vez é a sério e andamos todos a senti-la na pele em vez de só falarmos sobre isso, quem tem ideias não se cala. Ainda bem. Estão a acontecer coisas. Coisas a sério. Greves, manifestações, marchas, ocupações, ameaças de revoluções e outras confusões. Gosto.

Mas também graças à “crise” quem tem dinheiro está mais forreta, mais sovina, mais avarento, mais somítico. E quem não tem está mais sedento, mais ávido, mais sôfrego, mais desesperado. E, talvez por isso, quando leio os títulos dos jornais, lembro-me sempre da minha Avó na Feira do Relógio.

“ Três camisas 20 euros! 20 euros!”, grita uma mulher com voz de homem grande. “Dez e vai com sorte”, responde a minha Avó de 40 quilos com um ar desinteressado, de quem só ali está porque não tem nada melhor para fazer. “Não pode ser minha senhora, tenho que ter dinheiro p’ra dar de comer aos meus filhos”, responde a mulher vestida de preto e de carrapito no alto da cabeça. “Dez ou nada feito”, responde a minha Avó. A coisa dura uns dez minutos e as três camisas vão para casa por 15 euros no máximo. Agora comparem com o que se passou na Grécia a semana passada e com o que se está a passar hoje na Itália.

Em vias de extinção

O primeiro-minsitro grego, Georges Papandreou, não estava para vender o país à Troika e põe um referendo em cima da mesa para negociar com o povo e com quem manda na Europa. Dois coelhos de uma cajadada só. Aquilo assusta a Merkel e o Sarkozy que respondem com ameaças sobre a saída do país da Zona Euro. Papandreou desiste do referendo e, para não deixar mal o povo, apresenta demissão. O processo não leva dez minutos, mas resolve-se em dois dias.

O povo italiano quer pôr o primeiro-minsitro, Silvio Berlusconi, na rua. A oposição também, mas o homem está decidido a ficar. Votam-se as contas do Estado na Câmara dos Deputados e Berlusconi consegue a aprovação mas perde a maioria absoluta porque a oposição esteve presente mas não votou. Após a votação, Berlusconi diz ao Presidente Giorgio Napolitano que se demitirá quando forem aprovadas as medidas de austeridade propostas pela UE. É como quem diz: “Querem-me na rua? Votem a favor.”

Não me digam que isto não é, tal e qual, como regatear camisas na Feira do Relógio. Como disse numa qualquer entrevista o realizador Woody Allen, “eu acredito que há qualquer coisa a olhar por nós. Infelizmente, é o governo.” E parece que o nosso não tem jeito para o negócio…

O Crime Perfeito – Manual de Sobrevivência

6 Nov

Imaginem que podem ficar ricos, muito ricos, sem que para isso tenham de apostar as vossas poupanças. Agora imaginem que as outras pessoas depositam as economias da sua vida nas vossas mãos e que, por ordens superiores, têm carta branca para investir esse dinheiro como bem entenderem desde que, obviamente, apresentem lucros. E será sobre esses lucros que receberão os vossos bónus milionários. A vossa fortuna é feita ‘virtualmente’, milhões para vocês, um crescimento assegurado de 3% nas contas poupança dos clientes, aquilo que em inglês se designa por win-win situation.

Mas porquê parar por aqui?
Os créditos são também uma óptima opção. Apelemos às necessidades primitivas de cada ser humano, a procura de um determinado status quo, a necessidade de ter casa ou carro próprio. Claro que podem sempre alugar casa mas, porque não aplicar o que pagam mensalmente de renda em algo que daqui a 10, 20 ou mesmo 30 anos pode ser deles? Entretanto temos o dinheiro assegurado e os juros equivalentes.
E que me dizem a um crédito para consumo pessoal? Roupas de marca, viagens, telemóveis de última geração, computadores, o céu é o limite. Nós emprestamos e ganhamos um cliente que paga religiosamente durante 20 anos, e se cair em incumprimento confiscamos os bens que comprou.

Mas, perguntam vocês, se emprestarmos dinheiro para os clientes pagarem a pronto os bens de que necessitam, o risco de ocorrer um desfasamento entre o dinheiro vivo em caixa e o virtual –  aquele que, em teoria, ainda vai ser pago – é elevado. Podemos enfrentar um problema de liquidez ou seja, teremos ou não a capacidade de honrar os nossos compromissos a curto e longo prazo. E aí está a beleza do sistema, o Estado permite a chamada ‘alavancagem financeira’. Nos EUA, por exemplo, e graças à intervenção de governos desde Ronald Reagan até ao de Bill Clinton o tecto de alavancagem foi sendo consecutivamente aumentado. Alguns bancos americanos chegam a ter um rácio de 1/30 entre o dinheiro vivo e os investimentos ‘virtuais’. Caros futuros milionários podem riscar mais um problema da vossa lista.

Mas o Estado pode intervir, tentar regular o mercado financeiro, criar legislações que impeçam o abuso de poder. Não desesperem, até para isso há solução.
Ao aceitarmos 3% de défice e endividamento externo dos países como uma boa média estamos a aguçar os apetites nacionais por mais créditos e investimentos. Certo que com ligeiras reestruturações (sobretudo quando comparadas com as exigidas actualmente) o défice facilmente desceria ou seria mesmo anulado. Mas isso em nada serve a nossa causa.
E porque não incentivarmos o endividamento? Sobretudo se as grandes instituições financeiras dão o seu aval pois, naturalmente, o crescimento do país será superior ao da dívida contraída.  Quando se fazem os balanços domésticos no fim do mês, um défice de 3% implica uma conta a zero ou com saldo negativo, o crescimento de 3% nas poupanças do agregado familiar não é assim tão linear.  Mas assim como a publicidade agressiva manipula os apetites dos consumidores por produtos que não precisam realmente, também os governos são tentados. E é só esperar que mordam o anzol, fazendo investimentos acessórios, estabelecendo parcerias publico-privadas abusivas com contrapartidas graves para o défice e PIB. E quanto mais endividados mais dependentes estarão, e quanto mais endividados mais desesperados e aí os juros do empréstimo aumentam exponencialmente. Afinal estamos a emprestar dinheiro a países que de outra forma cairiam em incumprimento e subsequente bancarrota, o risco para nós é elevado logo as contrapartidas terão que ser maiores.

Justiça? Quantos governantes conhecem que tenham sido responsabilizados criminalmente por desvio de fundos ou gestão danosa?

O povo vem para a rua, exigem-se referendos, democracia, uma política participativa. Mas é tarde demais. Estão TODOS enleados em dívidas: indivíduos, companhias, estados…

CHEQUE-MATE!

A minha Solução para a Crise

4 Nov

Andamos ai todos a brincar à austeridade, aos bons e aos maus alunos, ao esconde-esconde com os mercados internacionais para nos estatelarmos assim num ápice, entre duas Avé-Marias da Sr.Merkel e uma conferência de imprensa do Sr.George Papandreou. Isto tinha tudo para ser um belo filme de Terror! Tínhamos os meninos mal comportados prontos a serem castigados por uma dupla de bullies interpretados por uma senhora muito feia e um senhor muito baixo. Tínhamos um espírito maligno chamado “mercados financeiros”, que pairava sobre tudo e todos, e cujas vontades tinham de ser saciadas para que não houvessem retaliações. Enfim tínhamos material para fazer o Federico Fellini revirar-se na tumba de inveja. O problema é que isto não foi escrito por alguém alucinado de regresso de uma viagem com a Lúcia-no-céu-com-diamantes, isto está a acontecer, não é apenas um sonho mau….
E tudo isto porque tivemos o caralho do azar da lua estar alinhada com Saturno, o que provocou que a Europa fosse governada nos últimos anos por mentecaptos desprovidos de uma coisa que para uns até não dá muito jeito mas que em caso de governação pode ser essencial, e que se chama – cérebro.
Bem sei.
Bem sei que exagero, e que estou a ser injusto, mas será assim tão difícil de perceber que se tem que acabar de vez com a especulação e com este sistema autofágico! O macaco que fazia o anúncio da reciclagem, não precisou de muito tempo para aprender que o papel era no azul…
Tivéssemos todos assumido um sistema de emissão de divida conjunta desde o inicio, e não estaríamos agora nesta situação. É que foi muito bonito a introdução do Euro obrigando Países que não tinham uma economia como a Alemã a se portarem como se da Alemanha se tratassem. Mas acontece que eu e os meus compatriotas chamamos Panado a um Schitzel, e não exportamos carros de alta cilindrada para economias emergentes! Temos uma economia frágil e potencializada por gerações de políticos que fazem inveja aos próprios Monty Python, e que, mais tarde ou mais cedo ia acabar por rebentar devido à disparidade entre a divisa e a economia real.
Façam um favor à Europa: deixem que voltemos a ser governados por políticos, filósofos, idealistas, sei lá bem o que mais… só vos peço uma coisa: peguem em todos os economistas que estão, estiveram ou estarão ligados a cargos de governação ou a centros de decisão, e coloquem-nos todos numa ilha bem bem longe, afastada da civilização.
É esta a minha solução para esta crise e para as outras que se seguirão a esta, mal as coisas estejam pontualmente resolvidas.

São as Eurobonds estúpido!

21 Out

Cartoon: Mike Mosedale

É óbvio que rigor nas contas públicas nunca fez mal a ninguém, e que a total rebaldaria que se foi verificando na Grécia ao longo de décadas só poderia levar ao descalabro. Existe no entanto uma grande diferença entre estar sempre muito perto do precipício, e, ser empurrado por aqueles que supostamente te ofereceram ajuda.

A Europa é desde há vários anos governada por um núcleo duro de direita que envergonhará muito certamente alguns célebres conservadores como Robert Schuman e Helmut Kohl. É uma direita velha, gasta, preconceituosa, de vistas curtas e profundamente eleitoralista, provinciana e demagógica. É a direita que provavelmente acabará com a própria União Europeia, ou que deixará tudo reduzido a cacos. Esta atitude Franco – Alemã terá consequências para a Europa quase tão profundas como aquelas que resultariam de um conflito bélico a nível Europeu. Senão vejamos: Um estado Europeu prestes a declarar falência com o povo a fazer sacrifícios que há muito já passaram o limite do razoável; outro que se precipita pelo mesmo caminho, onde o salário mínimo de 485 euros deverá dar para comprar, num futuro bem próximo, apenas adubos e sementes; uma escalada de repercussões que levarão quase todos os países do Euro a sucumbirem perante a crise da divida publica.

E tudo isto porquê? Para quê?

Para ensinar uma lição a esses indivíduos do sul que só querem praia o dia todo!

Para contentar as grandes massas eleitorais da Alemanha profunda!

A esquerda Europeia tinha-o dito bem antes deste eminente descalabro: Apenas mais austeridade levará a um aprofundamento dos problemas financeiros actuais.

A direita nem respondeu, porque toda a gente sabe que a malta de esquerda não sabe fazer contas e que o gene da mestria económica só se desenvolve em indivíduos que portem também o gene conservador.

A esquerda Europeia tinha já dito em 2008 que socorrer o sistema financeiro sem tomar fortíssimas medidas de fiscalização e regulação, seria como convidar a que futuras crises florescessem.

A direita respondeu com o clássico chavão de que o sistema é complexo demais para que se possa encontrar um mecanismo de controlo e fiscalização simples. Em 2008 paguei pelo descalabro do Fortis, a semana passada foi a vez do Dexia.

A esquerda Europeia insiste nas Eurobonds.

O nosso Passos acompanhado pela sua Ângela, disse-nos em livestream que a única solução era que cada um fosse responsável pelas suas próprias contas e que Portugal não encarava as Euro-Obrigações como solução. É óbvio que os Alemães não esquecerão tão cedo esta fanfarronice, e quando estivermos no lugar que a Grécia ocupa agora, tenho a impressão que estas declarações serão estampadas vezes e vezes sem conta.

Finalizo deixando a pergunta, que terá de ser feita de um ponto de vista macroeconómico e com alguma assertividade (caso contrario a plateia conservadora não pode levar a questão a serio): O que é que fica mais barato, subscrever as promiscuas Eurobonds pagando de facto juros ligeiramente mais elevados para se financiar, mas acabando de vez com este circo, ou continuar a injectar dinheiro em Países em risco de incumprimento sendo que o mais certo é que esse dinheiro nunca mais será reavido?

Fogo no quintal do vizinho

7 Out

A Sr. Ângela vivia no bairro há tanto tempo que era tida por todos como o último recurso em momentos de aflição. Com o seu grande quintal impecavelmente limpo e ordenado, dava conselhos e distribuía hortaliças frescas por toda a vizinhança de cada vez que a sua horta produzia em excesso – e isso acontecia frequentemente.

Ao seu lado viva o Sr. Nicolas – um velho reformado, casado com uma mulher mais nova, que por sinal – segundo o que o Sr. Sílvio dizia pelo bairro – tinha sido modelo para uma revista de moda. Nada que pudesse ser confirmado, mas isso também não era o cerne da questão. Ângela, Cristã convicta e apaixonada pela manutenção dos bons costumes, desaprovava por completo qualquer tipo relação que saísse fora dos parâmetros que ela tinha alfabeticamente ordenados na sua mente, e que, eram uma espécie de bíblia das boas maneiras.

Nicolas, sabia que a velha amiga reprovava a relação, mas dentro das quatro paredes da sua casa, outras razões existiam que lhe faziam rapidamente esquecer esse pormenor. Entre a casa de Ângela e a de Nicolas, havia uma pequena casa, com um pequeno quintal, de um casal que se desentendia constantemente. Dada a assiduidade das discussões, Ângela abriu uma vez um parêntesis mental chegando a dizer mesmo ao seu velho amigo reformado – “se calhar o melhor, era que estes dois se divorciassem. Qualquer dia ainda se acabam por matar um ao outro”.

Na parte de cima da rua, viviam uns casais muito simpáticos, mas muito pouco conversadores. Ângela achava que eram demasiado obcecados com o trabalho e que em geral não se preocupavam com o destino do bairro. Todavia, evitava qualquer comentário acerca deles com os restantes vizinhos, pois no geral não havia nada neles que pudesse ser verdadeiramente criticável Ao contrario daqueles que viviam no fundo da rua, bem a sul do bairro. Esses sim, “gente preguiçosa, e pouco disposta a limpar os quintais”. Dizia em tom de beato sofrimento, “Nicolas, já viu o estado a que chegaram aqueles jardins! As flores quase todas murchas, as hortas com as plantações todas cheias de bicho! Eu bem vejo a alegria quando lá lhes vou levar alguns legumes. Não fosse eu e aquela gente ainda morria de fome.” “Pois”, retorquia Nicolas enquanto mastigava um pedaço de biscoito, acrescentado depois, ainda com algumas migalhas nos lábios, “aquele outro, o Sílvio, a sorte dele é a fortuna que os Pais lhe deixaram, senão estaria já de certeza na miséria, tendo em conta o dinheiro que ele gasta em prostitutas e vinho!”. Mas, em apenas dois segundos Nicolas arrependera-se do que havia dito, não só pelo ar escandalizado de Ângela, mas também porque de cada vez que a palavra vinho ressoava nos seus pensamentos, temores antigos invadiam o seu subconsciente. Divagava já pelo sofrimento que foram todos aqueles dias de recuperação depois que abandonou a bebida, quando se apercebeu que Ângela prosseguia já com a conversa. “. “E então ele no outro dia bateu-me à porta”. “Ele quem?”, perguntou o velho reformado já perdido no enredo, “O Sílvio, não era dele que estávamos a falar! Bom, bateu a porta e muito educadamente perguntou-me se eu não tinha uns pepinos, umas courgettes e umas bananas, porque ia fazer uma receita que aprendera que se chamava… Deixa lá ver… Era um nome estranho…” “ BungaBunga?” perguntou Nicolas. “É isso, BungaBunga! Você conhecia a receita?” “Ah, a minha Carla costuma-me fazer lá em casa, mas normalmente leva muito menos vegetais, mas enfim, deve ser outra forma de preparar o prato.” “Bom”, continuou Ângela, “e enquanto eu estava a colher os legumes na horta, ele esteve-me a contar que os vizinhos dele estão muito mal a nível monetário”. Nicolas acrescentou sem qualquer tipo de relutância: “Pudera! Aquele, o do bigode branco, o Jorge, comprou carro novo, remodelou a casa TODA, deu carro aos filhos TODOS, vai de férias TODOS os anos, difícil era não estar endividado!”. “Pois”, exclamou Ângela, pensando se, apesar de lhes levar constantemente legumes da sua horta, não estaria a viver com mais dificuldades do que aqueles a quem prestava caridade. “Ele também me falou do outro vizinho, aquele muito simpático, o José Luís. Parece que também esta com dificuldades, ele e o outro do lado, o muito caladinho… o Pedro. Segundo o que o Sílvio me disse, todos eles pediram dinheiro emprestado a um agiota chamado Fernando Madeira Inácio Enfim, isso é lá com eles, eu só não quero é que me venham depois chatear com lamurias.”

O sol de fim de tarde, aquecia a alma caridosa de Ângela e fazia Nicolas se lembrar dos velhos tempos de adolescente, em que com os amigos faziam longas festas na praia, regadas com muito álcool Suspirou enquanto bebia o último trago de chá.

Esse momento de contemplação, quebrou-se com a chegada de David, um homem de negócios que vivia em frente numa casa com um enorme quintal e que pouco ou nada se envolvia nos assuntos do bairro. De forma pouco habitual, dirigiu-se aos dois, dizendo pausada e laconicamente: “O Quintal do Sr. Jorge, esta a arder. O melhor é chamarem os bombeiros.” E prontamente abalou, deixando sem reacção os dois vizinhos. “E eu que pensava que este aqui apenas sabia dizer bom dia e boa noite!” Dizia em tom jocoso Nicolas, enquanto Ângela se levantava olhando em direcção ao fundo da rua, procurando indícios de fogo.

(to be continued)

Eurobonds

21 Ago

Pontos positivos

  1. Prevenção das sucessivas crises financeiras que destabilizam a economia e ambiente político
  2. Maior segurança para investidores que queiram comprar acções da dívida uma vez que a dívida externa da UE é, na sua totalidade, controlável.
  3. As taxas de juros diminuiriam para vários países, potenciando uma maior destreza para abater a dívida em vez de serem sobrecarregados com o pagamento das taxas de juros
  4. Países financeiramente mais estáveis, e com poucos riscos de entrar em bancarrota, não precisariam de contribuir para pacotes de resgate.
  5. As medidas de austeridade para tentar conter a crise da dívida ameaçam criar uma nova recessão. Por exemplo, Itália corre o sério risco de uma segunda desaceleração econômica devido à especulação e medo dos investidores, que exigem um controlo de gastos de forma a evitar um possível aumento dos juros sobre a dívida (isto apesar de um excedente primário do PIB). As Eurobonds, que providenciam uma maior segurança nos mercados, permitiriam aos países como Itália ganhar mais tempo para reduzir a despesa pública sem sacrificar o crescimento económico.
  6. Desenvolvimento lógico da politica da moeda única. Uma politica monetária comum e moeda única requerem uma politica fiscal em consonância, de forma a assegurar uma harmonia económica na zona euro.
  7. Os países da Zona Euro não podem imprimir dinheiro para fazer face à falta de liquidez (veja-se o caso da crise económica da Argentina). A experiência recente sugere que a obtenção de empréstimos por parte dos países da Zona Euro se tornou mais difícil. A falta de um banco central independente que faça frente à falta de liquidez temporária torna os membros da UE muito mais vulneráveis a corridas desenfreadas à venda de acções .

Pontos negativos

  1. Medida negativa para países que evitaram a crise da dívida através de politicas de responsabilidade fiscal e controlo da contas públicas. Países como Alemanha e França vão assistir a um aumento significativo dos custos das taxas de juro, aproximando-se da média da Zona Euro. (ver imagem abaixo) A implementação das Eurobonds como medida para combater a crise europeia é extremamente impopular na Alemanha.
  2. Risco Moral. Se os países podem beneficiar da média da Zona Euro, serão menos os incentivos para reduzir gastos desnecessários e empréstimos. E porque a dívida estará segura, os países poderão mesmo sentir-se tentados a pedir mais do que o prudente.
  3. Se a disciplina fiscal faltar a dívida da zona Euro terá tendência a crescer podendo, inclusivé, fazer com que as próprias Eurobonds percam valor com o passar do tempo.
  4. A ideia de uma união fiscal torna-se complexa quando falamos de países com histórias politicas tão divergentes. A identidade europeia não é tão forte nem se sobrepõe às identidades nacionais. Para os eleitores nacionais será sempre complicado aceitar acções e medidas de contenção do défice e cortes salariais em prol de um bem maior.