Tag Archives: austeridade

Mas afinal qual é o caminho?

28 Nov

Aprovado o Orçamento mais austero de que há memória, com um ‘aumento fortíssimo’ de impostos, mas com ‘ética na austeridade’, pegaremos nas calculadoras para rapidamente fazermos contas para daqui a um mês, mas também nos questionamos se tudo isto era mesmo necessário. De um lado temos aqueles que, envolvidos numa fé inabalável, dizem que sim, que não podia ser de outra forma, mas que são, uma e outra vez, desmentidos pelos resultados. Por outro temos aqueles que dizem que não, que há outro caminho, que basta de nos tentarem convencer que vivemos acima do que podíamos.

Sobre as nossas possibilidades e as nossas realidades, apenas duas notas. É verdade que houve quem aforrasse, vivesse de acordo com o que podia, sem grandes loucuras, com conta peso e medida. Até pode ter sido a maioria dos portugueses. Mas quando vemos duas reportagens com poucos dias de distância, uma sobre as promoções do Freeport (em que, ufanos, os entrevistados confessaram gastar 150 euros de cada vez que lá iam, o que presumimos seja mais que uma), outra sobre uma feira de casamentos (em que a casadoira parece não ter problemas em revelar que vai gastar 1500 euros num vestido), dá que pensar ‘safa, há quem mereça mesmo os apertos que tem que fazer’.

Quanto ao outro caminho, aquele que faria com que não tivéssemos que apertar o garrote até ficar quase sem pinga de sangue, quantas vezes o Partido Socialista tem repetido, até à exaustão, que tem outro caminho, uma alternativa? Mas, passado um ano e meio de governo passista, que alternativa é essa? Que caminho é esse? António José Seguro sabe explicar por A + B porque razão há que seguir esse trilho e não outro? Penso que falo por muitos quando também eu desejo outro caminho que não obrigue a este esbulho (como cortar ainda mais em salários pornográficos de 500 ou 600 euros?). Mas eu não sou economista, não sou político, não sou gestor, não fui chamado a governar ou a representar os portugueses. Espera-se que quem ocupa estas premissas tenha algo concreto para dizer e não apenas desejos, esperanças e manifestações de interesse. António José Seguro, qual é então o caminho alternativo? François Hollande também prometeu que o tinha mas parece que deu o dito pelo não dito e fez aprovar o que o próprio apelidou de ‘orçamento mais austero dos últimos 30 anos’. Afinal não tinha caminho? Ou foi obrigado por quem manda mais que ele a seguir pela austeridade pura e dura?

Ver o debate do Orçamento do Estado nos últimos dias foi de uma tristeza atroz. Insultos, birras, faltas de respeito e educação, insensibilidade, enfim, um degredo humano no palco da Assembleia da República. E é esta gente que, por uma lado, diz que este é o caminho e que não há outro, e que por outro propõe que haja outro trilho, mas não diz qual é porque não sabe ou não o tem?

 

Anúncios

Amadurecendo

14 Nov

Escrevo umas horas depois de Angela Merkel ter voltado para a Alemanha. Para além da espuma do dia, do folclore, dos discursos mais ou menos vazios do país dos Descobrimentos, ou mais ou menos iguais do nein mais tempo nein mais dinheiro, do relato ao minuto, do papão de ovos e outras coisas que tais, ficam algumas reflexões.

A preocupação real e que não deve ser negligenciada do apelo aos portugueses de considerarem a desobediência civil. Foi hoje no Largo de Camões em Lisboa, feito por pessoas aparentemente pacíficas, mas que pelos vistos já dizem abertamente que podem partir para agressão. Que não é mais que o recurso dos pobres de espírito. Eu percebo a revolta, todos percebemos. A angústia, a raiva até. Mas violência nunca. Nada de bom vem da guerra e da agressão. Chamem-nos de brandos costumes (uma grande treta histórica). Chamem-nos de patós. Chamem-nos de moles e de fracos. Mas um gesto de violência é prova de descontrolo e de falta de razão.

Quem me conhece e quem comigo convive todos os dias sabe que sou muito crítico de Passos Coelho, de Vítor Gaspar, da troika, da austeridade excessiva e de Angela Merkel. Não participei em nenhuma manifestação mas demonstro o que penso e como vejo as coisas e o mundo de várias formas. Chegado o dia de Merkel, que os gregos apelidaram de Dia da Raiva quando a chanceler alemã lá foi, um exagero mas que nós, no nosso canto apesar de tudo protegido não devemos julgar, vesti-me de negro. Chamaram-me radical, ridículo até. Conversei com algumas pessoas sobre a visita de Merkel e sobre como acho que a Alemanha nos anda a tratar. Reafirmei que Angela é demasiado intransigente, que a Alemanha nos está a castigar em demasia, e que acho que falta espírito de solidariedade aos alemães. Portugueses, e muitos outros povos, perdoaram à Alemanha as dívidas de Guerra, sentimento solidário que levo à construção da União Europeia, mas que Merkel parece esquecer. Houve quem me dissesse que se perdoámos o problema é nosso, não o tivéssemos feito e não venhamos agora reclamar a benesse em troca. Solidariedade? Só no Bairro do Amor, na Terra dos Sonhos, diria eu. Houve também quem me dissesse que não se pode comparar um país devastado pela Guerra com um país que escolheu fazer auto-estradas e estádios de futebol. Pois bem. Eu diria, se calhar de forma, exagerada, que a Alemanha também escolheu a guerra. E que a Polónia, a Grécia, a Hungria, a Roménia, a Itália, mas também Paris e Londres ficaram destruídas pela guerra.

Chegados aqui, deu-me para pensar: Merkel, devemos agradecer a quem nos está a emprestar dinheiro? Ou devemos questionar porque é que a quem perdoamos as dívidas da II Guerra não tem agora o mesmo gesto de solidariedade, uma das traves-mestras da União Europeia? E foi este o pensamento que dominou o meu dia. Respostas não tenho. Apenas que aprendi mais uma lição hoje, a de ‘desradicalizar-me’ e a de ‘pragmatizar-me’.

++++++++++++++

Duas notas ainda, muito rápidas.

Isabel Jonet. Em tempos desesperados precisamos de heróis mas precisamos também de bruxas para queimar nas fogueiras e de criminosos para colocar na cruz. Isabel Jonet está a ser alvo de todas as acusações e campanhas difamatórias, algumas de mesmo muito mau gosto. Isabel Jonet disse coisas acertadas, mas num tom errado. Temos que repensar como vivemos sem dúvida. Mas viver com restrições não pode ser encarado como castigo que temos que pagar. Trata-se de uma consequência, até que possamos de novo, um dia, viver de novo em melhores condições. O facto de ter sido Isabel Jonet, uma dondoca que nunca teve nem terá que fazer contas à bolsa pessoal, e ainda bem para ela, é que levou a que muitos se indignassem. Mas não é pela bitola dos outros que nos devemos medir. Isabel Jonet sabe que há pobreza, sabe que há miséria em Portugal, e cada vez mais. Mas preferiu mudar o discurso do reaprender a viver. Claro que num tom de caridadezinha cristã, que aliás é o tom do Programa de Emergência Social do governo, mas esse sempre foi o tom de Isabel Jonet. Há que moderar a sensibilidade à flor da pele e retirar o que é bom de retirar, discernir o trigo do joio do que é dito.

Convenção do Bloco de Esquerda. É triste e lamentável ver gente do PS e do PSD no Facebook a gozarem com o BE. Uns dizem que não são um partido a sério e não são para ser levados a sério (esta atitude de condescendência já provou ser errada por várias vezes ao longo da História), outros dizem que a Convenção mostrou porque é que o consumo de produtos de higiene pessoal diminuiu em Portugal. Enfim, MRPP, meninos rabinos que pintam paredes? Eles ou os outros?

É muito simples

27 Jun

‘Qual o papel da Alemanha para aumentar as exportações desses países?’

Logo que estes produtos se tornem mais baratos, a Alemanha compra.  É muito simples.

 

Esta singela resposta pertence a Roland Berger, presidente honorário da Roland Berger Strategy Consultants e antigo conselheiro do anterior chanceler alemão, Gerhard Schröder, numa entrevista a Nicolau Santos, publicada no caderno de Economia do expresso do passado Sábado. O que Berger diz pode desconcertar mas é a mais pura das verdades. Esta Alemanha comandada por Angela Merkel não está na União Europeia pelo lado solidário da comunidade. O que conta é o dinheiro e as vantagens que um mercado aberto pode garantir, como se o mais barato, qual produto da Indonésia ou da China, não significasse mão-de-obra a preços de saldo e em condições pouco dignas.

Angela Merkel parece esquecer-se que a solidariedade foi uma das fortes vertentes que presidiu à constituição da então Comunidade Económica Europeia em 1957, numa perspectiva até de ajuda e estender de mãos a uma Alemanha devastada pela guerra e humilhada pelos julgamentos de Nuremberga. Mas a actual chanceler, austera luterana, parece acreditar que o metal conta mais que o espírito de união e que a mesquinhez do dinheiro lucrado é superior ao sentimento de ajuda partilhada. Há até quem diga que Merkel está enganada e que não é a Grécia a dever a Alemanha mas sim o contrário, devido a dívidas da II Guerra Mundial, quando os nazis ocuparam Atenas. Mas isso são contas de outro rosário.

Roland Berger diz também que não acha que ‘este países (em dificuldades) precisem de mais dinheiro. Do que podem precisar é de crescimento económico. Os países que precisam de recuperar a sua competitividade devem fazer estas reformas, o que significa uma desvalorização interna, reduzindo os custos, porque estavam a crescer excessivamente nos últimos dez anos em comparação com a Alemanha.’ Será que Berger quer dizer que nenhum país pode crescer mais que a Alemanha na União Europeia? Depois de Ave Caesar temos Ave Merkel?

Num aspecto Berger tem toda a razão. Relata a certa altura o consultor que ‘estive de férias na Grécia e paguei tanto como em Tóquio. Estes tipos são loucos. Posso dizer-lhe que a filial grega da Deutsche Telekom paga mais aos seus empregados de escritório do que em Bona. Enquanto existirem estas disparidades óbvias entre a realidade e, neste caso, salários e preços, isto não funciona.’ Pois não funciona não senhor. Há que reequilibrar o que está torto. Mas que não se pense que é apertando ao máximo o nó que estava desfeito que o trapezista vai andar na corda sem cair. Afinal não é assim tão simples.

 

Quando o futebol controla a política

26 Jun

Ouvi um colega meu dizer que há uns anos um académico brasileiro o tinha avisado que a Seleção Nacional vencer jogos era um perigo, que dava espaço ao Governo para fazer asneira sem ninguém dar conta. Temos provas que é verdade. Senão vejamos…

No dia 9 de junho, Portugal perdeu uma bola a zero frente à Alemanha, no primeiro jogo da equipa das Quinas no Euro 2012. Foi nesse mesmo dia que se começou a falar das condições do (então eventual) resgate financeiro da Espanha.

No dia seguinte lia-se nos jornais que Cavaco acredita numa recuperação económica “não muito distante”, que alertava para os riscos de austeridade excessiva e que “é urgente adoptar novas políticas de emprego em Portugal”. Passos Coelho convocou logo uma conferência de imprensa para dizer que “não há nenhuma razão para pedir novas condições para Portugal”. Coitado do povo, que está deprimido com o resultado de ontem. Condescendência.

No dia 13 de junho, Portugal ganhou à Dinamarca e surgiu a esperança de fazer boa figura no Euro 2012. O país festejava. As conversas de café dos dias seguintes foram sobre o número de golos que Portugal precisava de marcar no jogo com a Holanda para garantir o apuramento para os quartos-de-final. No dia seguinte, o Executivo já podia trabalhar à vontade, que ninguém ligava nenhuma.

O Conselho de Ministros aprovava uma nova proposta de Lei de Bases do Ambiente que nenhum jornal discutiu, ao mesmo tempo que Portas anunciava oito contratos fiscais com a indústria para um investimento de 157 milhões de euros (de onde veio este dinheiro?), para além de uma linha de crédito de mil milhões de euros (a sério?) para pagamento de dívidas das autarquias .

O “centrão” veio anunciar um entendimento quanto à lista conjunta a apresentar ao Tribunal Constitucional, num acordo que incluiu o PS, o PSD e o CDS-PP. Cala-te, Esquerda! O antigo presidente do PSD, Rui Machete, veio à Antena 1 fazer uma “avaliação positiva” da aplicação do memorando de entendimento da troika por parte do Governo e ninguém contestou a opinião do senhor.

Dia 15 a oposição acorda da dormência futebolística e aparece a moção de censura do PCP ao Governo de Passos Coelho. Reinicia-se o jogo político português. Em força. Mas só até dia 17, que Portugal joga outra vez.

No dia 17 as coisas correm bem à Seleção, que venceu 2-1 à Holanda. Festa! Às 21h35 ouve-se o apito final e Passos Coelho envia uma SMS ao Presidente da República: “Oh Aníbal, aproveita lá amanhã que o povo está contente, parece que vamos aos quartos-de-final”. E assim foi.

Daqui a uns meses o 18 de junho será recordado como o fatídico dia em que Cavaco Silva promulgou o novo Código do Trabalho, o monstro que vai assombrar os trabalhadores portugueses nos próximos anos. Começa o jogo político outra vez, com a Direita a dizer que isto é bom para Portugal e a Esquerda a dizer que nem por isso. Como o povo está contente o Governo aguenta as críticas da oposição como se nada fossem. Além disso dia 21 há jogo outra vez.

Certo.

No dia do jogo, sai a anedótica deliberação da ERC sobre o caso de Miguel Relvas e do Público, mas a malta quer é saber quem são os titulares do jogo de logo à tarde. Portugal vence, no dia 21 de junho, com um único golo, o encontro com a República Checa. A seleção avança para as meias-finais. Será a melhor notícia do ano, a menos que avance para a final. Ou que ganhe o Euro. É exactamente nestas possibilidades que estamos todos a pensar. Não é?

Entretanto, no dia 22 de junho, como o povo está grogue outra vez, foi tempo de anunciar os novos números da execução orçamental. Há que aproveitar o bom humor da população que os resultados são fraquinhos.

Vem o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, admitir um “aumento significativo dos riscos e incertezas” quanto à execução orçamental e ficamos a saber que, apesar do aumento dos impostos, a receita fiscal caiu 3,5 por cento até maio. Noticia-se que a despesa do Estado com a função pública, os sacrificados do país pela recuperação económica, já caiu 7,2 por cento, sendo que a maior fatia foi cortada aos Professores, essa classe inútil.

Isto não chegava. É que ninguém – nem o Mourinho, nem o Paulo Bento, nem o Cristiano Ronaldo, nem os comentadores desportivos da televisão, nem os comentadores do café lá da rua – acreditava que Portugal chegasse tão longe no campeonato europeu.

Então pomos o Passos Coelho a dizer, em direto da Colômbia, para despachar o assunto enquanto a vitória é fresca, que “vai ser difícil”, mas que o “objectivo do défice ainda é possível de fazer cumprir”. E como toda a gente percebe que isto quer dizer “vamos atacar-vos com mais uma meia-dúzia de medidas de austeridade”, há que nos distrair com uma frase à publicista: “ainda é cedo para falar dessa hipótese teórica”.

Amanhã há jogo. Portugal defronta a Espanha nas meias-finais. Vencer significa que a Seleção vai à Final do Euro 2012 contra a Alemanha ou a Itália. Eu até estou a gostar de acompanhar o Euro, não perdi um jogo e, como qualquer mulher que se preze (perdoem-me o machismo), tenho cumprido o papel de quem só gosta de futebol quando é a Seleção que joga. Mas desconfio que é melhor para nós, os trabalhadores, os funcionários públicos, os aposentados e os estudantes, que Portugal perca contra nuestros hermanos. Pelo menos ficava tudo em família.

Mas na eventualidade de ganharmos (nós-Seleção, não nós-Portugal), estão preparados para o que vai ser anunciado na quinta-feira pelo Governo e discutido no debate quinzenal da Assembleia da República na sexta-feira? Eu não.

O cúmulo da política de austeridade – o exemplo alemão – das deutsche Beispiel

23 Nov

Os alemães são pessoas porreiras mas no que toca a dinheiros reza o senso comum, muitas vezes comprovado pela realidade, que não são flor que se cheire. Já se sabe que o compasso de espera para sacar a carteira do bolso e pagar a conta é normalmente muito maior num alemão. Isto resulta, claro está, que nacionalidades com outra forma de ver o mundo e talvez menos paciência para este tipo de impasses acabem por arcar com a dita cuja. Também se sabe que não convém muito ser lesto a pagar rodadas quando há alemães ao barulho. O risco de quando chegar a vez do alemão pagar a rodada ser hora de ir embora é enorme.

Alguns dizem que é por isto que a Alemanha é o que é. Talvez seja. Mas não só. Recentemente uma interessante troca de correspondência entre um alemão e um grego veio pôr a nu algumas nuances e colocar em causa verdades ditas absolutas. Vale mesmo a pena ler.

Mas tudo isto não é nada comparado com o caso que vou agora relatar. Fiquei boquiaberto. Reinhilt Weigel é uma rapariga alemã de 38 anos. Em 2003 decidiu meter a mochila às costas e foi parar à Colombia. Juntamente com mais sete companheiros de viagem foi raptada pelo ELN quando passava a noite na Cidade Perdida em Serra Nevada de Santa Marta. Passou ao todo 76 dias de cativeiro  (brilhantemente relatados no filme My Kidnaper) até ser finalmente libertada. Uns tempos depois, após voltar a casa, recebeu um presente inesperado: o estado alemão apresentou-lhe a factura da viagem de helicóptero alugado para a ir buscar! O caso foi parar à justiça e após vários avanços e recuos, a mais alta instância da justiça alemã condenou Reinhilt ao pagamento de 12,640.05 Euros alegando que foi decisão dela viajar para um país com elevado risco de sequestro. 

Bizarro, não? Mas talvez isto nos diga muito sobre a tal Europa que os alemães querem liderar.