Por tudo isto e muito mais.
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Quis o calendário que o meu texto desta semana calhasse a 25 de Abril, ‘o dia mais feliz da minha vida’, dizem muitos que o viveram. Aos 30 hoje, nasci uns anos mais tarde que a Revolução. Gostava de ter vivido esse dia, essa madrugada, que descrevem como a do alívio, do respirar, do renascer e do reviver. Faz-me confusão quem se refere com cara enjoada ao 25 de Abril, o ’25 do 4′, como lhe chamam, mas cada um terá as suas razões, e aliás também foi para isso que existiu a Revolução, para que cada um se pudesse exprimir livremente.
Este ano o 25 de Abril é mais triste. Triste porque o país está de joelhos esfolados, o desemprego descontrolado, a economia parada, a confiança dos consumidores a zeros, o crescimento uma miragem e o sentimento geral descolorido de um cinzento amargo. E ao início da noite de 24 chegou a notícia da morte do Miguel. Foi mais um soco no estômago. Por se tratar de uma morte. Por se perder alguém para uma doença tão cruel como o cancro. Por ser o Miguel.
No ano passado, enquanto jornalista do i, acompanhei a campanha eleitoral do Bloco de Esquerda para as eleições legislativas. Criámos um grupo muito castiço entre os enviados das várias televisões, rádios e jornais e fomos recebidos pela equipa do Bloco de forma calorosa. Durante duas semanas lá andámos, para norte e para sul, de escola em estação de correio, de fábrica em feira, de bar em restaurante, numa gincana animada. Francisco Louçã, Fernando Rosas, Luís Fazenda, João Semedo, Daniel Oliveira, José Manuel Pureza, Marisa Matias, só para referir os mais óbvios, fizeram parte daqueles dias. E, claro, o Miguel. Sempre bem disposto, nunca negando um sorriso, sempre com piadas de algibeira e não só, com chapéus e sandálias que só ele. Contacto fácil com as populações e com os jornalistas, deixou-nos a todos uma lembrança muito positiva. E são essas memórias que hoje temos partilhado, quase todos em choque.
Lembro-me que na altura uma colega na redacção do i me acusou todos os dias de estar comprado pelo Bloco e de estar a fazer ‘o jogo deles’. O que ela não percebeu, e que muitos não percebem, é que na política há politiquices, mexericos e coisas sem a mínima importância. E depois há pessoas como o Miguel.
PS: E por falar em politiquices, que falta de elegância, mais uma vez, as acusações de Passos Coelho a Mário Soares, Manuel Alegre e aos Capitães de Abril por faltarem às comemorações oficiais. Haja gente que ainda tem espinha dorsal e se recusa a estar ao lado daqueles que estão a afundar o que outros conquistaram.
O GABINETE
Quem o ocupava, tinha o poder.
Revestido com peças de cara extravagância, aquele espaço era um museu onde outras governações haviam deixado a sua marca. Um lastro bem mais visível do que aquela que haviam deixado no País.
O gabinete do Primeiro-Ministro, qual árvore genealógica democrática, começava-se a redesenhar com os primeiros e irreverentes raios de sol, que as grandes janelas não podiam evitar. Sobre o pesado sofá, um corpo despertava rendido àquela inconveniente intrusão luminosa. O governante máximo acordava de um sonho ligeiro, feito de matérias isentas de qualquer tipo de preocupação. Um revitalizador de uma consciência que, em breve voltaria a despertar arrastando consigo a leveza, que arduamente e a custo aquelas horas de descanso haviam conquistado.
O vulto levantou-se, e com ele, o peso do País. Assim descrito a todos os conselheiros e colegas de governo, com enfatização sonora para aqueles nos quais via brilhar na retina a esperança na sua sucessão.
A porta mal deu conta de si e das três pancadas que se fizeram sentir. O autor, entrou relutante, tão confiante quanto o martelar infligido na madeira que mal se ouvira no interior do gabinete. O governante perguntou-lhe inclusive porque tinha entrado sem bater.
Ele bateu Sr.Primeiro-Ministro, nós que daqui vos observamos, e com palavras relatamos este nascer do dia, podemos confirmar que ele bateu.
O Sr.Primeiro-Ministro não nos ouve, é certo. Primeiro porque isso é geralmente uma condição inerente à sua função. Depois, porque existe uma barreira temporal e espacial criada entre o narrador e a personagem. Apesar de neste caso se mostrar desvantajosa, tem geralmente grandes mais-valias, nomeadamente quando um personagem se revolta pelo destino a que é sujeito pelo narrador e decide passar à violência física.
O que não será este o caso, visto que coisas mais importantes ocuparão neste momento a mente do governante máximo. Ou pelo menos assim esperamos.
Continuemos então a narração, deixando de parte este desvio egoísta e claramente estranho, pois diz o manual que, não só o narrador se deve focar exclusivamente na historia, como também deverá perder este hábito bizarro de falar na terceira pessoa – coisa observada algumas linhas acima, e que não beneficia de forma alguma a fluidez narrativa.
Deixámos à pouco o Sr.Primeiro-Ministro irritado com a intrusão do jovem serviçal politico. Não se pense no entanto que este governante é alguém de difícil trato. Antes pelo contrário. Acontece porém que pequenas coisas insignificantes, tomam geralmente dimensões desmesuradas quando absorvidas por um espírito ainda em processo sonolento.
É essa a particularidade das manhãs. Se lhes escapamos, por culpa do corpo que rejeita a evidência de que o dia nasceu, é como se perdêssemos uma parte da vida, não apenas uma parte do dia. Como se saltássemos etapas na pressa de chegar a uma meta – que neste caso mais não seria do que a noite. Este fast-forward quotidiano deixa o corpo, que abraça o dia mais tarde do que o aconselhável, envolto num limbo de acidez estranha, sensível ao palato da mente.
Se em cada manhã nasce o dia, a perda deste parto astral – se consumida em exageradas doses – pode levar à perda de ligação com o mundo onde se habita.
Menos trágicas foram certamente as perguntas inúteis que o inseguro jovem foi disparando: acerca da qualidade do descanso, da dureza do sofá, do sol que aparecia mais cedo anunciando a chegada da estação quente. Aborrecido pelo conteúdo ou pelo tom da voz, quem sabe pela irreversível manhã que não se pode perder – como previamente foi evangelizado – o político mandou calar o aspirante a governante.
Pobre criança. O seu Pai havia-o avisado do mau génio do Primeiro-ministro, no entanto isso era o preço a pagar por uma futura ascensão política, pelo menos ele assim o pensava. Contudo a observação partia de um pressuposto errado – o carácter inflamável do governante máximo. Um mito que surgiu num dia em que um incompetente fora tratado como um incompetente. Reacção em cadeia, outros incompetentes foram passando a mensagem, no intuito de prevenir que um futuro tratamento igual pudesse ser desresponsabilizado pelo aparente mau feitio do governante. O jovem assessor acedia, receoso, calando-se, respondendo apenas quando interrogado, mergulhado na triste confirmação do que ouvira dos seus pares.
Após pesados minutos de silêncio o governante, recuperado pela evidência de que o dia impunha acção, pôs em prática aquela extraordinária capacidade que os seres humanos têm – a de transformar palavras perdidas nas encruzilhadas da mente em sons entendiveis a uma outra mente.
Sim senhor, tenho os dossiers comigo. Não, ela não está cá. Porquê, ora porque hoje é sábado Sr.Primeiro-Ministro, ela não trabalha aos fins-de-semana.
Curto e directo. O aspirante mostrava que aprendia rápido. Pena que o governante não prestasse a mínima atenção a esse facto.
Ela não trabalha aos fins-de-semana, repetiu para si mesmo o receptor das palavras. E tu, que fazes aqui então?
Eu, gaguejou o assessor procurando palavras em somas e subtracções mentais, eu…. eu sacrifico-me pelo meu País assim como o meu caro Primeiro-Ministro. Se o senhor não descansa, eu também não tenho o direito de descansar.
Foi de difícil construção, mas havia conseguido elaborar uma frase que o deixava orgulhoso. É óbvio que observada a esta distância, que nos separa daquele espaço onde político e aspirante respiram o mesmo ar, tudo soe a uma pieguice de difícil digestão. A verdade é que o autor daquele pedaço prosaico e determinista sentiu-se crescer alguns centímetros após espirrar tais palavras, e o Sr.Primeiro-Ministro – o líder por quem se deveria sacrificar – uma certa comoção por tamanho espírito de missão.
Estavam feitas as pazes entre o jovem assessor, agora confiante e sorridente mas que se fartara de mingar desde que entrara na sala, e o máximo governante.
Eu durmo no gabinete porque a minha mulher não me deixa dormir em casa, partilhou em tom de mútua comunhão, fixando depois os olhos no pavimento.
O jovem, pouco interessado no que navegava na alma do Primeiro-Ministro – a menos que a ele lhe dissesse respeito – balbuciou qualquer coisa imperceptível como que tentando desviar o assunto.
Irritado pelo desabafo com um simples assessor, o governante tentou recuperar a pose e o discurso mais rígido.
Secamente, pediu para que saísse, e, em coerência com o tom das próprias palavras, virou costas dirigindo-se à janela. Confuso se aquele momento, em por instantes tocara a intimidade do seu chefe de fila, tinha sido positivo ou negativo, o assessor saiu do gabinete fechando a porta, abrindo depois uma outra na sua cabeça. Reveria durante todo o resto do dia aquela situação matinal.
O Governante endireitou as costas, mas o peso não se soltou. Da Janela a vida corria em tons de primavera precoce, pois o Inverno ainda estava marcado nos calendários.
O telefone tocou. Por várias vezes e sem mostrar qualquer tipo de desistência perante a indiferença a que era vetado. Por fim o governante cedeu.
Do outro lado a voz do Vice-Primeiro-Ministro.
Estava explicada a insistência. Só ele conhecia os seus problemas matrimoniais, e só ele suspeitava do seu refúgio nocturno.
Muito bem, trabalhando até tarde em prol da nação. Em tom jocoso, como usualmente, o amigo dava-lhe os bons dias.
Perante a ausência de resposta, e para evitar silêncios constrangedores, a voz do outro lado encarreirou pelo que realmente interessava.
Tens visto as notícias?
Sim, ele via as noticias todos os dias. Em formato de papel ou em formato de um apresentador televisivo lendo um teleponto.
A menos que tenha acontecido algo de extraordinário ontem à noite, disse, posso-te confirmar aquilo que já sabes, que sim, que tenho visto as notícias.
Escapou-te a homilia de sexta-feira à noite.
Silêncio novamente. Ser por vezes espirituoso bem cedo de manhã, pode levar a um desperdício inútil de munições. Nada que desencoraja-se o Vice-Primeiro-Ministro.
E então, viste a homilia?
O Primeiro-Ministro mostrava-se impaciente. Aquela voz para além de o começar a irritar, falava-lhe por palavras nas quais ele se sentia perdido.
Antecipando o perigo, o amigo acrescentou que algo havia acontecido no programa do jovem comentador político.
Qual deles?
Aquele do ar impoluto, o que constantemente fala de corrupção e que vasculha na porcaria que a nossa máquina política por vezes vai deixando para trás!
Esse miúdo ainda tem tempo de antena!
Sim, muito! E depois de ontem…
Irritado com a frase em suspenso, o governante pediu que lhe explicasse então o que havia perdido, ao trocar o sofá pela televisão nocturna.
Tradicionalmente, poderiam ser referidos uma série de aspectos que, prolongando a acção, incorreriam num efeito muito pretendido por escritores, pretendentes e argumentistas – o de criar uma tensão até ao momento em que a personagem revela algo substancialmente interessante à narração. No entanto, dada a falta de detalhes – e na verdade a falta de paciência para os descrever – avançaremos para a conclusão deste capítulo – pois na verdade o primeiro-Ministro já nós olha furioso de lado, tal a demora que se vem verificando nesta espécie de epílogo telefónico.
Foi então com prontidão e temor, com a aparentemente boa disposição inicial encerrada em qualquer parte de si, que o Vice-Primeiro-Ministro explicou a razão de tão aflita chamada, uma revolução meu caro, uma revolução em marcha!
Foi a 17 de Abril de 1969 que a Universidade de Coimbra decidiu inaugurar o edifício das Matemáticas. O que seria apenas uma sessão solene com a visita do Presidente da República e de algumas das mais altas personalidades do Estado Novo logo se transformou num dos momentos mais marcantes da contestação ao fascismo e servou de rastilho para a chamada Crise Académica de 69.
A história é conhecida de muitos. O clima nas Universidades e em especial na Universidade de Coimbra estava efervescente. A crise de 62 tinha lançado o mote para a contestação. O Maio de 68 em França, a Primavera de Praga e as restantes mobilizações, nesse ano que abalou a história do séc. XX, inspiraram toda uma geração. A nível local, as Repúblicas – organizadas em torno do Conselho de Repúblicas – tinham vencido a batalha para as eleições da Associação Académica de Coimbra e mostravam grande capacidade de mobilização.
A faísca aconteceu quando Alberto Martins, então presidente da AAC, pede a palavra em nome dos estudantes. O receio de que algo pudesse acontecer foi tal que a palavra lhe foi negada. Falou o Ministro das Obras Públicas e logo toda a comitiva saiu de rompante da sala. Os estudantes tomaram então o edifício e o discurso inflamou-se. Nessa mesma noite a Direcção Geral da AAC foi toda detida pela PIDE. Seguiram-se meses de forte contestação, de greve aos exames, de inflamadas Assembleias Magnas e de inúmeras iniciativas locais. Coimbra esteve a ferro e fogo como nunca se tinha visto e o regime tremeu. Os principais dirigentes acabaram por ser enviados para África e foi também por aí que muita da politização das Forças Armadas se fez e que veio a contribuir para o 25 de Abril uns anos mais tarde.
Numa época de enormes desafios, onde muitas vezes se perde a noção do poder que as pessoas podem ter, nunca é demais lembrar que ao longo da nossa história sempre foram nos momentos de maiores dificuldades que surgiram as grandes mudanças.
Fica aqui um documentário para quem tiver curiosidade.
ELE
Ele era pequeno, de aspecto frágil e por vezes pouco cuidado. Tinha inveja dos vizinhos, mas sabia ser impossível viver ser eles. Era praticamente desconhecido pelos demais, mas nem sempre tinha sido assim. Houve tempos em que era associado a grandiosidade. Nos dias que corriam, as poucas referências ao seu nome vinham quase sempre acompanhadas por adjectivos pouco desejáveis.
Ele vivia dentro de um parêntesis do tamanho de uma fronteira, sendo que o essencial parecia-lhe por vezes acessório.
Ele arrastava-se entre aparentes espasmos de incontrolável euforia, e uma densa camada de pessimismo crónico.
Ele vivia em dívida.
Consigo próprio e com os que o rodeavam.
Ele queria ser bem mais do que a sua própria sombra projectada no chão.
Ele era um País.
BOA NOITE
O apresentador das notícias encerrava aquela meia hora de trágica homilia para dar lugar aos analgésicos que socorreriam as poucas mentes que, ainda acordadas pelos trinta minutos de carnificina noticiosa, ousariam talvez questionar o destino do País, entre dois anúncios a pensos higiénicos e um outro a uma cadeia de supermercados. A medicação consistia em doses irreais de lixo televisivo, empacotado em forma de miúdas magras e enredos mais básicos do que a mais pobre Franciscana história infantil.
O Industrial desligou a televisão.
Sincronizados, a última palavra do jornalista e o seu dedo sobre o telecomando.
Não há sofrimento necessário!
No mesmo instante, o Comentador-Político preparava-se para entrar em cena, em todas aquelas televisões que estivessem solidariamente sintonizadas para o receber.
No espelho a sua imagem reflectida. Alto, bem vestido, confiante. Ajeitar os cabelos era apenas uma formalidade sem sentido, mas repetida como se o seu desempenho dependesse dessa ligação espiritual estabelecida com o foro capilar.
O seu público escutava-o religiosamente nos dias em que o seu programa era emitido. Era como uma droga, chegara-lhe a dizer uma vez um espectador atento. E ele, era o traficante dessa matéria feita de palavras. Influenciar, através de uma ideia plantada bem no fundo de quem o escutava, era uma forma de poder extraordinária. Limpa, sem desgaste, corrosiva para as suas vítimas, mas tonificante para si mesmo.
Todavia naquela noite tudo seria diferente.
Fora incumbido de uma missão.
A contagem decrescente para o início do programa, através da voz rouca do produtor, assinalava que esta estava prestes a ser cumprida.
O Industrial manuseava papeis e números, numa espécie de transe que muitos chamariam de trabalho. Ele chamava-lhe religião.
Adoptara a designação que o seu amigo escultor um dia lhe transmitira. Um artista que detestava artistas, que nunca aparecia nas inaugurações das suas exposições, que nunca aparecera numa revista ou concedera uma entrevista a um jornal. Um amigo, das poucas pessoas a quem tinha paciência para escutar, que um dia lhe dissera que o que ele fazia não se designava por trabalho. Isso é algo que as pessoas comuns fazem, numa rotina de fazer inveja à constante passividade das estações, onde um verão nunca surgiu antes de uma primavera, mas sempre depois. Tu transformas, dizia-lhe, uma ideia em matéria. Adormeces a pensar em soluções, e acordas desperto por novos problemas. Dentro de ti, não é o sangue que corre nas veias, assim como não é de comida que te alimentas. Sentes o ar rarefeito de cada vez que as barreiras parecem intransponíveis, e só respiras melhor quando te encontras já do outro lado do obstáculo. E aí, em vez de alcançares com a vista o que ficou para trás, em acto de mero regozijo pessoal, olhas apenas em frente, à procura da próxima barreira a ser transporta. Isso, concluiu, não se chama certamente trabalho. No entanto, as minhas limitações como escultor não me permitem encontrar a palavra que defina esse estado de espírito. Mas se quiseres mesmo que lhe dê uma rotulagem, chama-lhe religião. Grande mal não deverá advir de tal assombro semântico!
Uma noite.
E o Industrial possuído por essa força sem designação, alheio do ambiente que o rodeava, flutuando em si mesmo, fora de si mesmo.
Na caixa de voz do seu telemóvel, uma mensagem tão confusa, quanto o tom de voz do emissor. O Escultor dizendo que se um estranho o visitasse, que perdesse tempo a escuta-lo pois ele mesmo o enviara.
No estúdio de televisão o Comentador chegava ao fim da sua missão. O apresentador, ainda não refeito do choque que aquelas palavras haviam provocado, bebia sofregamente água tentando libertar o nó que na sua garganta se formara. A equipa de produção entreolhava-se incrédula. Os telefones começavam a tocar frenéticamente.
Antes que alguma palavra lhe fosse dirigida, o Comentador levantou-se, saudando os demais, dirigindo-se em direcção à porta.
O Estranho a quem praticamente não vira a cara na noite anterior, deveria estar naquele momento feliz com a conclusão da missão de que o havia incumbido. Das sombras, que haviam encoberto o seu rosto, apenas as palavras interessavam. E essas, haviam sido agora repetidas em pleno horário nobre perante todo o País. Ele que sempre se orgulhara da sua capacidade intelectual e poder de dissuasão, havia sido arrebatado por quinze minutos de conversa, com alguém a quem nem sequer vira o rosto. E para quem se tornava agora, no mais fiel soldado.
No seu apartamento, o Industrial via porém o rosto do Estranho que se apresentava, não sobre as trevas, mas sim debaixo da luz incandescente que iluminava todo aquele espaço.
Um rosto duro e pesado, incapaz de encerrar em si a profundidade daquilo que a sua boca se preparava para dizer.
O Industrial esperava curioso.
Apenas um pequeno detalhe o deixava constrangido.
Sem explicação aparente o individuo que se encontrava à sua frente e debaixo da mesma luz, não projectava nenhuma sombra.
Foi quando não se esperava que o inevitável aconteceu. Rick Santorum anunciou que desistiu de tentar a nomeação republicana para as eleições presidenciais norte-americanas marcadas para Novembro.
Santorum sofreu um duro revés na semana passada, quando perdeu o Wisconsin, o que a juntar às derrotas copiosas em Maryland e District of Columbia, reforçou ainda mais a posição já avassaladora de Mitt Romney. Mas o ultra-conservador jurou que ia continuar na corrida e manteve os ataques ao candidato mórmon. Aliás, durante o fim-de-semana, houve movimentações no comité republicano do Texas de forma a tornar aquele estado em ‘winner take all’, ao invés de distribuição proporcional dos 155 delegados (o maior, apenas superado pela Califórnia, feudo de Romney). Desta forma, e ambicionando ainda vitórias na Carolina do Norte, Arkansas, Kentucky, Indiana, Dakota do Sul e Nebraska, a campanha de Santorum manteria a esperança viva. Isto, claro, dando por adquirido que a Pennsylvania estava ganha. Pois não estava e as últimas sondagens até indicavam que Romney podia muito bem conquistar o estado natal do ultraconservador. Foi tendo isto em consciência que levou Rick a abandonar a corrida. Já perdera uma eleição local em 2006 de forma humilhante e não podia arriscar fazê-lo outra vez (e desta vez a derrota significaria um sério revés para as primárias de 2016). Cai o pano. Rick Santorum vai agora preparar-se para daqui a quatro anos.
Acontece que o agora ex-candidato teve uma saída amarga. Não declarou o apoio a Mitt Romney, o mais que certo candidato (contrastando com Newt Gingrich, que já disse que lutaria por Romney da mesma forma que o faria por ele próprio), e embarcou num silêncio ruidoso. As agendas pessoais falam mais alto, ao que parece. Não é o silêncio que fica mal (uma das filhas de Santorum viu o seu estado de saúde agravado e é essa a prioridade de Rick). É o não apoio expresso. O caminho a sós que o ultra-conservador escolheu só prova, mais uma vez, que o quadro de candidaturas republicanas em 2012 é dos mais fracos da memória recente.
Barack Obama, muito vulnerável, agradece, e perante o ‘bluff’ que tem sido o seu mandato, talvez venha a conseguir uma vitória pouco merecida a 6 de Novembro. There is no room for Romney.
Uma tarde de um fim-de-semana normal, tranquilo, de início de Primavera. Um café combinado no Bairro Alto para ir visitar uma amiga que conseguiu desencantar um emprego numa altura em que eles escasseiam. Está a trabalhar num café com um salário pequenino (pouco mais que o ordenado mínimo nacional), seis dias por semana. Mas está a trabalhar.
Retomando a essa tarde, combinámos em frente à Brasileira, no Chiado. Pelo caminho o aviso que se estava atrasado devido a uma manifestação na Avenida. E no meu percurso dei de caras com um comício no Largo de Camões, da CGTP-Interjovem, com intervenção de Arménio Carlos. Trabalho, emprego, remuneração, um futuro, eram as palavras de ordem. Também é o que peço, um irónico ‘deixem-nos trabalhar’. Enquanto esperava, soam o hino da CGTP, ‘Unidade do Trabalho contra o Capital’, a Internacional, ‘De pé ó vítimas da fome’, e o Hino Nacional, ‘Heróis do Mar, Nobre Povo!’.
Entretanto chega o resto do grupo. Comparadas impressões sobre as manifs, afinal não eram as mesmas. Na Avenida desfilaram autarcas contra a reforma do poder local e a fusão de freguesias. Isto uma semana depois de mais uma greve geral convocada pela CGTP, com os lamentáveis incidentes com a PSP. E algum tempo depois da manifestação dos Anonymous. E ainda a demonstração um ano depois do 12-M, da Geração à Rasca. E esta. E aquela. E aqueloutra.
As manifestações parecem fazer agora parte do quotidiano de Lisboa. Ainda não passou um ano desde o início da aplicação da receita troikiana mas já estamos de rastos. O desemprego está fora de controlo (e o próprio Governo o admite), a Economia não cresce nem dá sinais que o vá fazer, começam a surgir notícias alarmantes na área da Saúde (sobretudo no que diz respeito aos medicamentos oncológicos), o preço dos combustíveis aumentou 38 vezes desde 1 de Janeiro (sim, 38 vezes, embora isto não tenha necessariamente que ver com o programa de ‘auxílio’), as previsões fiscais não batem certo com a realidade (não há consumo, não há actividade económica, logo não há impostos a receber, crescem os pagamentos sem factura para fugir ao IVA, enfim, não era preciso ser mago para calcular que isto iria suceder) e, o mais assustador, é o primeiro-ministro vir transmitir a Judite Sousa numa entrevista na TVI, sereno, que depois de batermos no fundo só podemos subir (La Palisse não diria melhor).
Cada dia é mais um dia e vamos sentindo, pouco a pouco, as areias movediças do pântano a subir-nos pelas plantas dos pés, pelos tornozelos, pelas canelas, pelos joelhos e por aí adiante. Mas não há que estar preocupado! Quando chegar ao lábio superior e ameaçar o nariz, por golpe de magia, vamos voltar a crescer. O que é preciso é fé! Assunção Cristas rezou para que chovesse… e choveu. Passos Coelho diz que depois de bater no fundo isto resolve-se. Mais descansados portanto. E quando isso acontecer…
A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação. É só isto.

Eu e a minha Companheira descíamos do autocarro. Atrás de nós, uma longa viagem, que consumiu todas as horas da nossa primeira noite, no País em forma de bota. O primeiro avião, havia aterrado na Capital das miúdas magras . O segundo avião, que nos levaria à Capital do Renascimento, onde deveríamos passar um ano das nossas vidas, nunca chegou a levantar. Foi um autocarro, em forma de arca cheia de esperanças e expectativas, que nos transportou ao destino, sem que antes se perdesse em pequenos incidentes, que todos juntos, levaram a que uma viagem de 3 horas, demorasse 6.
Toda esta introdução para dizer que, que na primeira hora em que pisamos um chão diferente daquele da casa dos Pais, após uma viagem em que a noite rapidamente se transformou em dia, tínhamos à nossa espera um amigo, amigo de um amigo, amigo de um amigo. No essencial, um estranho, de quem praticamente nem sabíamos bem o nome, acolhia-nos e abria-nos a porta de sua casa. O meu alarme suou logo em tons de negro. A minha brilhante mente havia logo ali, num primeiro relance, descortinado toda aquela tramóia. “O gajo”, devem ter sido estas as palavras que cruzaram o meu pensamento, “é larilas, e vai-nos acolher em sua casa até que encontremos uma. Tou fodido!”.
A minha educação num lugar onde a religião ainda tem um papel importante, como filtro de um mundo que aparentemente somos incapazes de apreender por nós próprios, traçou claramente o meu plano de acção para as próximas horas – sair dali para fora o mais rápido possível. Ele mostrou-nos o quarto onde nos instalaríamos, disse para descansarmos, e fechou a porta desejando-nos uma estadia feliz. Fixei a minha Companheira, que não parecia minimamente afectada pelo quadro em que estávamos envoltos.
Dei-lhe a entender a minha preocupação.
Ela mandou-me dormir.
Soltei mais duas ou três palavras.
Ela ignorou.
Fui dormir.
Acordei algumas horas depois.
A minha Companheira ainda dormia, e levantando-me para ir à casa de banho vi o nosso anfitrião que dormia no chão do corredor, num pequeno colchão que parecia tão desconfortável quanto o próprio pavimento em si.
Foi nesse momento que compreendi.
Ele tinha-nos deixado o seu próprio quarto.
Senti um soco no estômago, do tamanho de toda a porcaria que me havia consumido a mente desde o primeiro momento que o conhecemos.
Mais tarde, todos de olhos bem acordados, quisemos reverter a situação. Ele deveria voltar ao seu quarto e nós arranjaríamos outra solução. Eu não queria ficar em dívida.
Não, éramos jovens, primeira vez fora da casa dos Pais, num País desconhecido, tínhamos de estar pelo menos confortáveis, para superarmos todos esses factores negativos. Assim insistia. E assim continuou a dormir no corredor. Segundo soco no estômago.
Levou-nos a conhecer a cidade, ajudou-nos no que pedíamos e no que não pedíamos, pois no fundo sendo Portugueses, a herança genética obriga-nos a tentar incomodar o menos possível. Ele deve-se ter apercebido disso, pois diluía toda a trabalheira que tinha connosco, numa espécie de aura que não nós levava a sentir o estorvo, que afinal éramos.
Foi cinzento o dia em que nos mudámos para o novo apartamento.
Ele tinha sido um irmão, um Pai, uma Mãe, acima de tudo um amigo que transformou toda aquela avalanche cultural tão distinta da nossa, num lugar onde por muitas vezes nos sentimos em casa. Continuamos a nos encontrar, infelizmente sem a mesma frequência que outrora. Nunca nos cobrou pelas mensagens que nos esquecemos de responder, ou pelas vezes em que tivemos que cancelar um jantar, ou pelas vezes em que nos esquecemos do seu aniversário, ou simplesmente quando nos esquecíamos de dizer obrigado.
Um ano mais tarde, quando voltei numa outra missão escolar, embora por um curto período de tempo, lá estava à nossa espera, com o mesmo sorriso nos lábios, com a mesma vontade de nos fazer sentir felizes e aconchegados.
Por isso, meus caros, sempre que vejo alguém negar a um homossexual o acesso aos mesmos direitos básicos que um heterossexual tem, é a ele, ao meu amigo, a quem vejo isso ser renegado. Quando oiço vozes carregadas de ódio e medo, de hipocrisia e mesquinhez, sei que é a ele que os cobardes atacam.
Sei que é o rosto dele que é martirizado de cada vez que um crime é cometido com base numa descriminação sexual.
Sei que é ele que é perseguido, enquanto que nós, mesmo que no fundo nos sintamos indignados, temos dificuldade em o verbalizar, não vá também a sociedade nos rotular.
Sei que ele é a base das piadas com que por vezes me rio.
Sei que basta!
Basta de olharmos para o lado e nos fazermos passar por tolerantes, mas mesmo assim não movermos um dedo sequer para apontar a quem ainda ousa se reger por valores e ideias pré-históricas.
Basta deste receio de interromper o discurso a quem se baseia em ideias, que no fundo e de forma racional podem ser consideradas criminosas.
Ninguém deixaria a que um irmão lhe fossem negados os direitos mais básicos, nem ninguém permitiria que o maior amigo fosse alvo de chacota.
Eu pelo menos não o permitiria, nem permitirei.
Se o futebol fosse um jogo justo, estaria triste como estou, mas poderia estar um pouco menos do que o que efectivamente acontece.
O Benfica, o Glorioso, perdeu 0-1 com o Chelsea na primeira mão dos ‘quartos’ da Champions. O todo poderoso Chelsea, representante da toda poderosa Inglaterra, com os todos poderosos rublos/dólares provenientes do petróleo e outras riquezas minerais da Rússia do todo poderoso Abramovich. O Benfica, remediado, para não dizer pobrezinho, de um país coxo, em regime de intervenção pelo FMI, sem jogadores portugueses em campo, visto como patinho feio do futebol europeu há quase duas décadas, desde a última final na então Taça dos Campeões Europeus em 1990.
Perdemos, com um golo contra a corrente do jogo, já que o Benfica estava com sinal mais, fraquinho, mas positivo. Aliás o resultado final que encaixava melhor era um zero a zero, e a haver vencedor, seria o Benfica, por margem mínima. Mas não. O árbitro, cabeleireiro de profissão, resolveu dar umas tesouradas no Benfica, daquelas que não matam mas moem, e a pastilha elástica de Jorge Jesus lá levou umas valentes ferroadas.
Nesta Europa do futebol, nas fases mais avançadas, o dinheiro parece contar muito. Não interessa ter um clube de um país falido a vencer outro de um país dominante. Claro que podem alegar que o APOEL do Chipre também chegou aqui e até venceu os franceses do Olympique de Lyon, mas até tem uma certa graça um colorido étnico.
Se o Benfica tivesse sido pior e tivesse merecido perder, hands down, já que não sou daqueles adeptos que acha que o seu clube jogou sempre melhor que o adversário. Mas até nos desenrascámos bem, muito provavelmente devido à posição provinciana do ‘vem lá o bicho-papão’, ‘um colosso da Europa’! É verdade que o Jesus fez duas substituições que mataram o Benfica, deram o golo ao Chelsea e se calhar resolveram a eliminatória. É verdade que o Emerson não tem qualidade para jogar na Luz. É verdade que os adeptos não ajudaram ao claramente apontarem ainda mais as fraquezas do brasileiro. Mas jogámos bem! Por isso perder assim custa mais, dói mais, até porque o dia foi difícil.
Visto isto, carrega Benfica! Vamos acreditar que é possível dar a volta daqui a uma semana. Não vamos perder a esperança, vamos ter razão e vamos ter coração. Vamos ignorar a dança da galinha do Drogba e os comentários jocosos de sportinguistas e portistas, deliciados com a derrota do Benfica.
Somos Benfica, somos Paixão. Somos a Glória, a Voz mais Alta de uma Nação!
Numa notícia publicada no Jornal Público de hoje (Ter 27 Mar 2012), o título diz tudo
– Obama apanhado a prometer ‘flexibilidade’ a Medvedev após reeleição.
Mais do que estranheza pela relação cordial entre os dois (em que até Medvedev diz que “iria passar a mensagem a Vladimir Putin”, aquando da concretização do jogo de cadeiras entre ambos), muito oposta à tensão histórica recente Rússia-EUA, estranho a falta de consciência da classe política dirigente no Mundo. (E eu faço parte daquele grupo de portugueses que põe o nosso País no lugar cimeiro da lista dos que mais confiam no Presidente Americano).
Já não é um episódio novo: Bush era rei neste jogo e até o nosso Vítor Gaspar já pôde dar mostras do seu Inglês fluido (mais do que o Português até, dizem) em agradecimentos a um Ministro Alemão. A única pergunta que parece surgir é
– mas será que eles não percebem mesmo que estão a ser ouvidos?
Que as cimeiras e reuniões internacionais são sempre muito atarefadas, já o sabemos. Que não deixem tempo sequer para que se fale sem ser em frente de câmaras e microfones parece ser um dado novo. Ou temos uma liderança pouco esclarecida acerca do “Big Brother” mediático que os rodeia (e que pode facilmente levar ao esquecimento sobre a sua presença tal é a contínua cobertura) ou a temos com uma completa indiferença face ao que possa ser divulgado ou não (mostrando aí uma certa insensibilidade quanto ao que é a diplomacia e os efeitos da sua má gestão corrente). Qualquer uma das hipóteses não me agrada.
Eu, por cá, fico incrédulo com este tipo de situações e penso por vezes como é possível estas situações ocorrerem sem darmos (darem) por elas. A propósito, podem não ter notado mas é Dia Mundial do Teatro. Resta-me um forte
– muita merda,
se me permitem a expressão.
P.S.: No mesmo jornal vale a pena ler a crónica da página 51 “Convém lembrar que o teatro vem da Grécia…”, escrita pelo encenador Castro Guedes.