“More four years”

7 Nov

Há grandes líderes que mudaram a História. Há política e há políticos que inspiram e inspiraram gerações pelo seu exemplo e pelo seu carisma. Há grandes homens e mulheres que nos seus respectivos sectores marcam a diferença. Há tudo isto e há Obama. Obama é impressionante. Simplesmente impressionante.Obama está para a política como Maradona está para o futebol. Há ele e depois há tudo o resto.

“No tempo em que Cavaco falava” via Ana Sá Lopes

6 Nov

Numa altura em que Cavaco SIlva volta à ribalta pela sua eventual incapacidade de exercer o cargo de Presidente da República, Ana Sá Lopes vai ao fundo do baú desenterrar as “Crónicas de uma Crise Anunciada”, um livro publicado em 2001 que junta vários artigos do então Prof. de Economia e Finanças Públicas, Cavaco Silva.

Sobre Cavaco já quase tudo se disse, no entanto estas declarações conseguem ainda surpreender. Afinal reduzir a despesa pública em situação de crise é uma proposição errada? Então o Prof. andou a ensinar aos seus alunos que quando o crescimento económico de um país abranda, a política correcta é precisamente deixar que a receita fiscal baixe automaticamente e não cortar na despesa pública? Afinal em que ficamos? Estamos no caminho certo ou estas medidas vão apenas agravar a crise?

A crise é o ópio do povo

6 Nov

Em 1843, depois de Kant, Borne, Hess e outros falarem do seu poder narcótico, Marx escreveu que “a religião é o ópio do povo”. No tempo dos nossos avós surgiram os cientistas sociais e as suas teorias fatalistas sobre a alienação do povo pelo futebol. Depois, na altura dos nossos pais (que o mundo agora diz que evolui depressa), como afinal se descobriu que as mulheres também pensam, criam, são força de trabalho e até já votam, acrescentou-se à lista de hipnóticos malvados a televisão, que em vez de transmitir informação passava novelas.

A geração que está agora na casa dos 20 acusa a reality tv. Aqueles programas que encabeçam todas as noites a tabela de audiências, que vendem publicidade a preço de ouro e que toda a gente vê em segredo. E quando se é apanhado justifica-se que “é para perceber de que tanto se fala, ver o retrato deste país de ignorantes, descontrair, rir-me daqueles desgraçados e pobres de espírito, que toda-a-gente-sabe-que-o-Presidente-da-República-se-chama-Aníbal-e-que-‘África’-não-é-um-país-ora-essa!”.

Mas – corrijam-me se estiver errada -, a conversa de café, a tertúlia nos jantares de família, as palavras trocadas nas viagens de elevador e na pausa para cigarrinho e café a meio do dia de trabalho (para os poucos sortudos que ainda o têm), estão carregadinhas da palavra “crise”.

Não tento reinventar a roda, mas se há alguma coisa que me aliena neste momento, é a chata da crise. A crise pôs-me no desemprego, a crise tirou-me os subsídios, a crise pôs o país de tanga, a crise privatizou empresas públicas, a crise fechou empresas privadas, aumentou impostos e diminui o poder de compra.

Ai! A quantidade de vezes que dou por mim a fazer este raciocínio falacioso!

– “Bom dia, como está? E o seu filho?”

– “Oh, está desempregado, coitadito.”

– “Pois, é a crise…!”

Não é nada a crise. É o Estado. E o Estado somos nós. E nós, em vez de andarmos a pagar ao Estado, andamos a pagar ao Governo para nos ensinar o demónio que é a crise. Dizia Marx que “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”. E digo eu que o homem faz a crise, a crise não faz o homem.

Marx disse ainda que “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”. E o que tem sido esta crise se não uma entidade que nos castiga pelos nossos excessos e contra quem nos revoltamos pelas privações a que outros – os reais – nos obrigam?

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de uma situação sem alma. A religião é o ópio do povo.” escreveu Marx. A crise é o ópio do povo, escrevo eu.

Mas este povo já demitiu a crise, que afinal o mundo evolui depressa: vê-se gente na rua, marcam-se manifestações, inundam-se as redes sociais de críticas ao Governo, exige-se mudança. O povo aprendeu muito com a religião, o futebol, as telenovelas e os reality shows. Nem que seja a gritar!

O SPORTING CP é o retrato do nosso País

31 Out

Sinceramente por várias pensei escrever sobre o estado a que chegou o Sporting, mas sempre o evitei fazer porque tinha a convicção que qualquer crítica seria sempre entendida como uma pavloviana resposta aos maus resultados, típica de um adepto que gosta do seu clube. E assim me mantive, guardando na gaveta os factos – aqueles que muitos Sportinguistas já conhecem, mas que à maioria parecem insignificantes.

No entanto, o que me faz escrever, não são nem os factos – evidentes de má gestão desportiva – nem os resultados. Passo então a explicar.

No dia do jogo Porto – Sporting, Godinho Lopes ao visitar um núcleo Sportinguista no norte do País, foi assobiado por uma série de adeptos. A sua escolta (constituída em parte por elementos de uma determinada claque), decidiu ameaçar esses mesmos usurpadores (afinal não existem razões para assobiar, o clube tem sido magnanimamente gerido). Mais tarde, em pleno estádio, alguns destes indivíduos que ousaram contestar Godinho Lopes foram ameaçados e em alguns casos, mesmo agredidos por elementos da claque.

Perante isto, não basta apenas denunciar este caso, como muitos Sportinguistas o têm feito. Perante isto é preciso acordar.

Para alguns, 100 milhões de prejuízo em dois anos perpetrados por uma equipa de supostos gestores profissionais e bem pagos, não é suficiente.

Para alguns, 3 treinadores – e respectivas folhas salariais – em menos de uma época e meia, não é preocupante.

A alguns, o facto de a Academia – o nosso maior tesouro – e o Estádio terem sido passados para a SAD e já não pertencerem ao clube, não os faz dormir pior, e a ameaça futura que paira sobre nós de cada vez que o passivo aumenta, são apenas fait-divers dos jornais.

Para alguns, a SAD é o Sporting.

Mas a SAD não é o Sporting. A SAD é o BES e todos aqueles que nos emprestaram dinheiro, e cujo único interesse é reaver esse mesmo investimento.

Para alguns, o facto de sermos governados hà mais de 15 anos por uma espécie de máfia organizada que vendeu o clube a privados e o depena a cada dia que passa da relevância que sempre teve a nível nacional, é apenas algo normal, assim como normal é sermos sempre governados neste País pelos mesmos 3 partidos.

É pois normal que todos os que se seguiram a Roquette, Roquettes o são. Cada presidente é escolhido a dedo pelo clã e imposto aos Sportinguistas como única alternativa viável. Todos eles, pessoas de enorme valia e acima de tudo respeitados pela banca (em nome da SAD, do Ricciardi e do Espírito Santo, Ámen!)

Para alguns, a fraude das últimas eleições é apenas conversa de café e maledicência.

Para alguns, ouvir Rui Oliveira e Costa fazer constantemente apologia de uma direcção que envergonha e arruína desportiva e financeiramente o clube, não causa nenhuma estranheza, assim como tê-lo ouvido a fazer campanha por Godinho Lopes nas últimas eleições, em horário nobre com a conivência da RTP, não levanta qualquer tipo de objecção moral.

Para a maioria, o que ficou das últimas eleições não foi nem a vergonha, nem a afinação levada a cabo por alguns indivíduos nas mesas eleitorais. Foi o Futre, e o sócio, e o concentradissimo!

Para alguns, o enorme contingente de estrangeiros que chegaram nos últimos dois anos, tirando lugar aos nossos jovens, é apenas a consequência de um modelo que se tinha de adoptar para se poder voltar a rivalizar com os outros grandes. Se bem que algumas mais valias foram adicionadas, pergunto para que serviram as contratacções de Bojinov, Rodriguez, Luís Aguiar. Talvez os agentes e os intermediários possam responder a esta pergunta.

Alguns riram-se quando Godinho, em plena campanha falou nos 100 milhões. Pois aqui está a prova viva – 100 milhões, mas de prejuízo. De qualquer das formas já conseguimos rivalizar com o Braga, o que me parece que sempre foi o objectivo inicial do seu triénio.

Para a maioria, não causa estranheza que os rostos do nosso clube sejam sempre os mesmos, descendentes de uma velha aristocracia balofa que prosperou num País onde ainda há 30 anos atrás a maior parte da população era iletrada.

O Sporting Clube de Portugal, é um triste retrato deste mesmo País. O nosso passivo é tal e qual o nosso défice. A nossa SAD, nada mais do que uma grande Parceria Público – Privada, e o nosso glorioso passado é cada vez mais irrelevante, pois cada vez menos temos o poder para desenhar o nosso próprio futuro. A classe que dirige o nosso clube, é tão qualificada quanto aquela que arrastou o País para a ruína em apenas 30 anos.

Parece quase irónico que o único clube de relevo em Portugal que ostenta no seu nome a referência ao País, seja o retrato e a caricatura do mesmo.

 

 

É sempre a somar meu caro Durão

26 Out

Após a atribuição do prémio Nobel da Paz de 2012 à União Europeia, Durão Barroso prepara-se para acrescentar (desta vez a solo) mais dois títulos à sua já longa lista de medalhas, insígnias, Honoris Causa, prémios e outros que tais.

Hoje, este grande defensor da paz mundial, vai colocar ao peito nada mais, nada menos do que a medalha de Primeiro-Grau da Ordem Amílcar Cabral, o mais alto reconhecimento da Nação Crioula. Mais tarde, irá também receber a Chave da Cidade do Mindelo, uma distinção atribuída pelo respectivo Município.

Sobre estas distinções duas questões me vêem à cabeça:

Como se sentiria Amílcar Cabral ao saber que o seu nome iria ser associado a personalidades deste gabarito?

Tendo em conta o exemplo da Grécia que em Abril de 2009 atribuiu a Medalha de Cidadão Honorário e a Medalha de Ouro do Parlamento Helénico a esta personalidade e depois foi o que se viu. Será inteligente da parte de Cabo Verde atribuir títulos semelhantes a Durão Barroso?

Prendam-nos sff!

21 Out

Olhámos à  nossa volta.

Vemos o País devastado.

Jovens na porta de embarque de um qualquer aeroporto nacional. Na mala apenas a esperança que nada seja mais negro do que o que estão a deixar para trás.

As famílias despedem-se entre lágrimas e abraços. Revolta.

Arde no peito a imagem da(o) filha(o) a embarcar rumo ao desconhecido, um salto na escuridão que ainda assim parece mais reconfortante do que isto em que nos tornámos. Alguma esperança é sempre melhor que nenhuma esperança.

Portugal já não será! Para o ser, precisa de futuro, e esse tem embarcado nas portas de embarque  14, 15, 16 por esse país fora.

Alimentámos durante anos a ganância de uma escumalha medíocre e criminosa, elegendo governos constituídos por abutres e abastecendo o parlamento com inválidos. Tudo porque ora votamos neles, ora nem sequer perdemos tempo a votar. De uma forma ou de outra, contribuímos para a catástrofe.

Auto-estradas, Pontes, Exposições Universais, enfim PPP’s, obras de engenharia financeira com um único intuito – empobrecer muitos de forma a enriquecer uns poucos.

A justiça envolta por neblina tão espessa que é mais fácil e produtivo perseguir uma senhora que vende azeitonas sem luvas do que um corrupto.

E nas televisões, que espectáculo tão degradante! Ex-políticos, agora comentadores iluminados, que nos cospem na cara quando se passeiam por esses ecrãs como se não tivessem qualquer tipo de responsabilidade no estado a que isto chegou.

Nojo, é o que sinto quando os vejo.

A única solução pacifica que antevejo para que a situação se inverta, é apelar a que os prendam a todos. Porque exportá-los será impossível uma vez que ninguém quer receber de bom grado lixo tóxico.

A que concerto irá Passos assistir no próximo sábado?

25 Set

Gosto do simbólico, exatamente porque a mensagem pode ser forte e pode, desde logo, antecipar o que se seguirá. A meio deste mês tivemos um anúncio, em tom grave, de novas medidas de austeridade. Novos ajustamentos que, na prática, representam menos dinheiro no bolso da generalidade dos portugueses dado que terão de entregar mais ao Estado papa-bolos. Nada de muito novo à exceção de uma novidade nesta austeridade: a Taxa Social Única, que anteciparia um esforço tremendo a somar aos múltiplos esforços que têm sido impostos à generalidade dos portugueses. Para lá da anuência que tem sido evidenciada por cidadãos ordeiros, convirá relembrar que estes são, antes de mais, pessoas. Particularidade deste momento de “revista à portuguesa”: a coisa foi tão mal pensada e desenhada que conseguiu unir patrões e sindicatos. A rede social de nada serviu para desmontar a trapalhada. A subsequente entrevista só demonstrou o óbvio.

Poucas horas depois pudemos ver o cidadão Passos Coelho eufórico a assistir a um concerto, naturalmente rodeado de seguranças, em pose quiçá descontraída, como aliás pedia a situação. Pergunto-me se um primeiro-ministro que estabeleça alguma empatia com os seus concidadãos é capaz de ter vontade de assistir a um concerto depois da golpada que anunciou nesse mesmo dia. Já nem vamos à compaixão. A coisa podia correr mal e correu. O simbolismo do momento vai mais longe: tratou-se de um concerto do Paulo de Carvalho, a voz de uma das senhas do 25 de Abril. A seguir, foi o que se viu: desta os portugueses protestaram a sério e mostraram a sua força pelas ruas do país. A TSU caiu. Resta saber qual o desenho da “nova” austeridade. Face à chamada da CGTP para próximo sábado, pergunto que concerto estará na mente de Passos. Coisa para distrair naturalmente, enquanto vai e não vai.

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As voltas do ciclismo

29 Ago

Não se espere mais do que uma análise simples de um problema realmente complexo. O caso Armstrong é só mais um exemplo da revolução que clama o ciclismo desde há muito. Sim, será preciso uma grande volta, baralhar e dar de novo, retirar algumas cartas do jogo, instituir novas regras. Até esse dia, não valerá a pena levar demasiado a sério os resultados, fique-se pela beleza do desporto em si.

O caso Armstrong é excepcional porque percebe-se que foi alguém que teve proteção junto dos organismos que governam a modalidade, concretamente a União Ciclista Internacional (UCI). Contudo, ao longo dos anos, somaram-se os escândalos sem que na verdade fossem eliminadas as perversões do sistema. Festina (1998), San Remo (2001), Puerto (2006), Landis (2006), Rasmussen (2007), Contador (2010) ou Armstrong (2012), estes são alguns dos marcos trágicos, sem que grandes mudanças tenham derivado daí e antecipem um futuro melhor. Normativos mais exigentes precisam-se. Esta é também uma questão que implicará o instituir de uma outra cultura.

Na prática, as regras não são iguais para todos e não têm sido aplicadas a todos da mesma forma. Sim, desta forma o doping é tolerado. Depois, esse é um assunto tabu, que implica penalizações e ostracização logo no seio do próprio pelotão. Pasme-se mas a luta não é contra o próprio doping, mas sim contra os que o denunciam. Várias vidas se perderam entretanto. Mais de dez anos depois, o contributo e a coragem de Christopher Bassons não motivaram quase ninguém. É mais fácil e mais compensador aceitar uma penalização de dois anos e assim manter os proveitos resultantes de, digamos, não competir limpo. Os demais não conseguirão um contrato numa equipa. Os grandes nomes, os que ganham e fazem as manchetes nos media, nunca falam abertamente destas questões. No meio, toda a gente sabe de tudo.

Na prática, ao ciclista coloca-se um dilema de fundo. Sim, poderá fazer 30 mil quilómetros numa época e nada ganhar ou não ser relevante. Pior, poderá não ter hipótese sequer de ombrear com os que dispõe de melhores recursos. Se não se destacar, não terá proveitos. Se investir, aceita ainda mais riscos, saúde inclusive, mas pode ter sorte. Roda na mesma 30 mil quilómetros ao ano, mas poderá estar no top. O top gera ganhos. Como noutras esferas, este é um círculo potenciado por múltiplos interesses económicos associados à modalidade.

Voltando a Armstrong, também esta é uma questão em que a abordagem é, desde há muito, maniqueísta. De um lado, estão os defensores a qualquer custo, que acreditam e refutam qualquer evidência. Do outro, aqueles que nunca acreditaram no texano. Haverá, porventura, um pequeno grupo intermédio que dirá, de viva voz, ninguém corria limpo naquele tempo de exageros, este foi o melhor do lote por sete vezes na competição mais importante da modalidade. Isso levanta uma questão: ainda valerá tudo? Os meios justificam os fins? É este o legado a deixar a futuras gerações? Ou estará a destruir-se uma modalidade em que cada vez mais ninguém já acredita? A escassez de patrocinadores não poderá ser efeito apenas da crise económica que se vive, mas uma questão de bom nome desde logo.

Um facto: variadíssimos nomes “caíram” entretanto, nomeadamente Jan Ulrich, um eterno segundo (5 vezes) durante o reinado de Lance Armstrong. Ulrich não foi um qualquer ciclista, tinha capacidades bem acima da média. Isto apenas para lembrar que faltava apenas cair Armstrong. Este desvario colectivo obriga ao recorrente reescrever dos cadernos de resultados da Volta a França. Isso é, também, reescrever a história à conta de tais homologações de resultados. Por estes dias, discute-se assim a possibilidade de o oitavo classificado (!) de uma das edições ser aclamado vencedor. Para quem gosta de ciclismo, estes são dias tristes. Haverá heróis no ciclismo sim, mas não os mais os mais óbvios e não necessariamente os que cortam a meta em primeiro lugar.

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Ser agência de rating é mais fácil que escrever neste blog

24 Jul

A receita é simples. Teorizar sobre banalidades para construir uma espécie de contexto. Procurar grandes verdades políticas na Wikipédia. Encontrar números grandes, daqueles que só 50 por cento da população lê. Não interpretar esses números. Usar um dicionário de sinónimos para substituir palavras que toda a gente entende por outras que ninguém conhece. Acrescentar meia dúzia de conceitos financeiros, económicos ou tecnocratas. Pôr um carimbo no canto da página, enviar às redacções e publicar online.

Et voilá, somos uma agência de rating.

A agência Moody’s colocou em perspetiva “negativa” o rating de AAA da Alemanha, da Holanda e do Luxemburgo, o primeiro passo para um eventual corte na notação que lhes é atribuída no gráfico de “bom comportamento económico”. O relatório, em que a agência de notação norte-americana explica porquê, tem 14 páginas.

Comportamento económico europeu (por Maria Inês Marques)

Ora, eliminem-se as banalidades, como “a Europa atravessa uma grave crise económica”. (A sério?!) Dispensem-se as lições disponíveis na maior enciclopédia do mundo virtual, como “a dívida soberana deve permanecer estabilizada frente ao PIB”. (Disse-me a Moody’s e disse-me a Wikipédia.) Interpretem-se os números, leiam-se as entrelinhas, pense-se nas consequências. Escreva-se para toda a gente (em vez de só para alguns). Tire-se o carimbo. E sem carimbo não há entrada nas redacções nem se azucrina a cabeça à Merkel, ao Juncker e ao Barroso.

Et voilá, somos um blog.

Desculpem-me a falta de humildade, mas basta-me ler os jornais para saber que houve um aumento geral da dívida pública na Zona Euro, divulgado pelo Eurostat esta semana, e que isso significa que mesmo as economias mais saudáveis da Europa estão menos “estáveis” e, portanto, sujeitas a perspectivas mais “negativas”.

Sabemos todos que se vive um período de  “incerteza na união monetária”; que a crise financeira teve “impacto em alguns dos Estados-membros”; que “a possível saída da Grécia da moeda única colocaria uma ameaça concreta ao euro”; que mesmo que a Grécia não saia da Zona Euro, os encargos assumidos pelos Estados-membros mais fortes aumentarão com o pagamento dos resgates das economias mais fragilizadas; que as coisas como estão – com cinco países a pedir ajuda externa – “poderão levar a uma série de choques, que poderão ganhar força com a persistência da crise”.

É isto, tal e qual, que diz o tal relatório complicadíssimo de 14 páginas que uma agência especializada escreveu esta madrugada.

Com este texto, a Moody’s pôs o presidente do Eurogrupo e primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, a fazer um controlo de danos e o Ministério alemão das Finanças (com mais meia-dúzia de políticos) a justificar o relatório com outras vulgaridades e a prometer que a Alemanha nos vai salvar a todos.

Por causa do relatório de uma agência de rating que mora do outro lado do Atlântico a Grécia foi imediatamente (leia-se, no mesmo dia em que o texto foi publicado) pressionada pela Alemanha para tomar medidas de austeridade mais duras, desistir das renegociações dos prazos para cumprir as metas do défice e esquecer a hipótese de receber mais dinheiro.

Um economista disse à Bloomberg que “a posição central da Alemanha na Zona Euro faz com que a ideia de que poderia ser, de alguma maneira, isolada da deterioração geral da área, não seja realista.” Por isso, “a descida parece lógica.” Lá está. Diria mais: óbvia.

Financial Times explica que as críticas da Moody’s podem agravar a posição pouco favorável que a Alemanha e outros países têm em relação às opiniões das agências de rating. Já vão tarde. Explica também que podem produzir um impacto negativo no público alemão, que está preocupado com o custo para o país, e consequentes esforços do seu povo, no fortalecimento da Zona Euro. Mas só agora, depois de uma agência de rating, em vez de um blog qualquer, lhes dizer que também lhes toca a eles…

Já se disse muita coisa em torno deste assunto, com análises muito mais complicadas e relevantes, neste blog. Mas nós não temos carimbo. Só de “agência de rating do povo”. E neste rating os países não têm medo de má figura.

Relvas há muitos seu palerma!

17 Jul

Nada melhor que este artigo para resumir o que penso sobre o “caso Relvas”. Muito mais do que um caso isolado de falta de ética ou de trauliteirismo político, esta história é uma consequência natural da forma como evoluiu o nosso sistema democrático. Pedir a demissão de Relvas ou fazer auditorias às Universidades é pensar que se cura um cancro com chás de cebola e algum exercício físico.

Como resultado, alguns ficarão revoltados. Juram a si mesmos não mais acreditar na política e nunca mais meter os pés numa assembleia de voto. Ou então libertam a sua raiva ao sabor de umas Super Bocks e papagueiam a quem quiser ouvir que isto é tudo uma cambada de gatunos e que a única solução é pegar em armas.

A raiz é da questão é bem mais profunda. Está nas juventudes partidárias (não todas, é certo, e há excepções). Está nas associações de estudantes e na forma como sobem na hierarquia os seus dirigentes. Está na falta de cultura política do nosso povo e na desmoralização e desmotivação da sociedade que assiste a todos estes fenómenos com um passivo fatalismo. Como se tivesse de ser assim. Como se não houvesse nada a fazer.

Enquanto não se atacar estas causas o Relvismo continuará a dominar o país, seja neste governo ou noutro qualquer.

Padrinhos-e-Puros de José Reis Santos