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Em manutenção

16 Abr

Por motivos alheios à nossa vontade o Standard’s & People, Pá! encontra-se em fase de manutenção. Assim que possível retomaremos a programação.

Com um sorriso no fim do caminho

21 Nov

Numa época do bota-abaixo e do dizer mal por dizer (coisa tão lusitana, ou se calhar tão humana mesmo, sem fronteiras), gosto de me armar em advogado do Diabo e colocar-me do outro lado da barreira. Aliás é uma tendência de sempre, de educação ou de génio, a de me colocar na pele do outro.

Isto porque nos últimos dias entrevistei duas pessoas, uma deputada e um estudioso do Teatro, que me despertaram para mais uma dimensão (esta é a parte boa do jornalismo, a de nos levar a navegar por várias águas, a de fugir à agenda e à ditadura da notícia pura e dura, escola americana, serviço de telex).

Ora dizia-me a deputada, Anabela Freitas, que desde Segunda-feira está no parlamento em representação do distrito de Santarém, em substituição de João Galamba, que goza um mês de licença de paternidade, que reconhece que chegou a São Bento numa altura conturbada. Ainda está fresco na memória o lamentável episódio no largo em frente à Assembleia da República há uma semana, e quando se adivinham mais horas difíceis quando o Orçamento do Estado para 2013 for votado na Terça-feira. Mas mais que isso, e quando lhe perguntei porque é que achava que os políticos e o povo andavam de costas voltadas, Anabela Freitas começou por dizer que as pessoas andavam nervosas e com muita razão. Mas que também os políticos tinham culpa, e até mais que os portugueses, porque muitas vezes não sabem como chegar às populações, como descer dos gabinetes e como chegar às pessoas. Quem vem das estruturas locais, como é o caso da nova deputada, que é de Tomar, parece-me ter uma maior ligação ao povo, considera-se um deles, e não se isola na bolha dourada e marmórea que é um gabinete de um cargo de poder. A ver vamos se esta crise que é também ética e moral (ou sobretudo isso) não serve também para uma melhoria da relação eleitor/eleito (e escolho escrever eleitores e não portugueses porque sabemos que a disparidade numérica entre uns e outros, essa sim, é colossal).

Já Tiago Bartolomeu Costa, crítico de teatro, estudioso da área, enfim, especialista dos palcos (e não gosto da palavra especialista, que foi banalizada e já não distingue quem é de facto especialista em algo, o que é de facto o caso), que por estes dias é comissário de um debate no Teatro São Luiz sobre Cultura e Economia, reconhece também ele que quem exerce o poder está muitas vezes alheado da realidade, fechado na gaiola protectora do gabinete. No caso da Cultura, e foi isso que entrevistei Tiago Bartolomeu Costa, é preciso entender que não vai haver mais dinheiro, diz o visado, e que o que importa é seguir por um diálogo construtivo, de perceber onde podem ser aplicadas as verbas. Porque quem manda pode estar no alto da torre, até insensível a quem é mandado, mas se quando coloca o nariz de fora e pede opiniões e ajuda apenas se depara com protestos, bota-abaixo e exigências, sem alternativas ou soluções, a coisa é capaz de não correr bem (a última leitura é minha e não de Tiago Bartolomeu Costa).

Em resumo, não basta dizer o que está mal. Isso é fácil até para uma criança de oito anos. Sejamos construtivos. Em todos os momentos da vida. Em todas as situações do percurso. A União faz a Força, já diz o povo e muito bem, e o Povo Unido jamais será vencido.

Ou então…

 

A que concerto irá Passos assistir no próximo sábado?

25 Set

Gosto do simbólico, exatamente porque a mensagem pode ser forte e pode, desde logo, antecipar o que se seguirá. A meio deste mês tivemos um anúncio, em tom grave, de novas medidas de austeridade. Novos ajustamentos que, na prática, representam menos dinheiro no bolso da generalidade dos portugueses dado que terão de entregar mais ao Estado papa-bolos. Nada de muito novo à exceção de uma novidade nesta austeridade: a Taxa Social Única, que anteciparia um esforço tremendo a somar aos múltiplos esforços que têm sido impostos à generalidade dos portugueses. Para lá da anuência que tem sido evidenciada por cidadãos ordeiros, convirá relembrar que estes são, antes de mais, pessoas. Particularidade deste momento de “revista à portuguesa”: a coisa foi tão mal pensada e desenhada que conseguiu unir patrões e sindicatos. A rede social de nada serviu para desmontar a trapalhada. A subsequente entrevista só demonstrou o óbvio.

Poucas horas depois pudemos ver o cidadão Passos Coelho eufórico a assistir a um concerto, naturalmente rodeado de seguranças, em pose quiçá descontraída, como aliás pedia a situação. Pergunto-me se um primeiro-ministro que estabeleça alguma empatia com os seus concidadãos é capaz de ter vontade de assistir a um concerto depois da golpada que anunciou nesse mesmo dia. Já nem vamos à compaixão. A coisa podia correr mal e correu. O simbolismo do momento vai mais longe: tratou-se de um concerto do Paulo de Carvalho, a voz de uma das senhas do 25 de Abril. A seguir, foi o que se viu: desta os portugueses protestaram a sério e mostraram a sua força pelas ruas do país. A TSU caiu. Resta saber qual o desenho da “nova” austeridade. Face à chamada da CGTP para próximo sábado, pergunto que concerto estará na mente de Passos. Coisa para distrair naturalmente, enquanto vai e não vai.

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As voltas do ciclismo

29 Ago

Não se espere mais do que uma análise simples de um problema realmente complexo. O caso Armstrong é só mais um exemplo da revolução que clama o ciclismo desde há muito. Sim, será preciso uma grande volta, baralhar e dar de novo, retirar algumas cartas do jogo, instituir novas regras. Até esse dia, não valerá a pena levar demasiado a sério os resultados, fique-se pela beleza do desporto em si.

O caso Armstrong é excepcional porque percebe-se que foi alguém que teve proteção junto dos organismos que governam a modalidade, concretamente a União Ciclista Internacional (UCI). Contudo, ao longo dos anos, somaram-se os escândalos sem que na verdade fossem eliminadas as perversões do sistema. Festina (1998), San Remo (2001), Puerto (2006), Landis (2006), Rasmussen (2007), Contador (2010) ou Armstrong (2012), estes são alguns dos marcos trágicos, sem que grandes mudanças tenham derivado daí e antecipem um futuro melhor. Normativos mais exigentes precisam-se. Esta é também uma questão que implicará o instituir de uma outra cultura.

Na prática, as regras não são iguais para todos e não têm sido aplicadas a todos da mesma forma. Sim, desta forma o doping é tolerado. Depois, esse é um assunto tabu, que implica penalizações e ostracização logo no seio do próprio pelotão. Pasme-se mas a luta não é contra o próprio doping, mas sim contra os que o denunciam. Várias vidas se perderam entretanto. Mais de dez anos depois, o contributo e a coragem de Christopher Bassons não motivaram quase ninguém. É mais fácil e mais compensador aceitar uma penalização de dois anos e assim manter os proveitos resultantes de, digamos, não competir limpo. Os demais não conseguirão um contrato numa equipa. Os grandes nomes, os que ganham e fazem as manchetes nos media, nunca falam abertamente destas questões. No meio, toda a gente sabe de tudo.

Na prática, ao ciclista coloca-se um dilema de fundo. Sim, poderá fazer 30 mil quilómetros numa época e nada ganhar ou não ser relevante. Pior, poderá não ter hipótese sequer de ombrear com os que dispõe de melhores recursos. Se não se destacar, não terá proveitos. Se investir, aceita ainda mais riscos, saúde inclusive, mas pode ter sorte. Roda na mesma 30 mil quilómetros ao ano, mas poderá estar no top. O top gera ganhos. Como noutras esferas, este é um círculo potenciado por múltiplos interesses económicos associados à modalidade.

Voltando a Armstrong, também esta é uma questão em que a abordagem é, desde há muito, maniqueísta. De um lado, estão os defensores a qualquer custo, que acreditam e refutam qualquer evidência. Do outro, aqueles que nunca acreditaram no texano. Haverá, porventura, um pequeno grupo intermédio que dirá, de viva voz, ninguém corria limpo naquele tempo de exageros, este foi o melhor do lote por sete vezes na competição mais importante da modalidade. Isso levanta uma questão: ainda valerá tudo? Os meios justificam os fins? É este o legado a deixar a futuras gerações? Ou estará a destruir-se uma modalidade em que cada vez mais ninguém já acredita? A escassez de patrocinadores não poderá ser efeito apenas da crise económica que se vive, mas uma questão de bom nome desde logo.

Um facto: variadíssimos nomes “caíram” entretanto, nomeadamente Jan Ulrich, um eterno segundo (5 vezes) durante o reinado de Lance Armstrong. Ulrich não foi um qualquer ciclista, tinha capacidades bem acima da média. Isto apenas para lembrar que faltava apenas cair Armstrong. Este desvario colectivo obriga ao recorrente reescrever dos cadernos de resultados da Volta a França. Isso é, também, reescrever a história à conta de tais homologações de resultados. Por estes dias, discute-se assim a possibilidade de o oitavo classificado (!) de uma das edições ser aclamado vencedor. Para quem gosta de ciclismo, estes são dias tristes. Haverá heróis no ciclismo sim, mas não os mais os mais óbvios e não necessariamente os que cortam a meta em primeiro lugar.

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Quando os génios esquecem

8 Jul

Gabriel García Márquez não voltará a escrever. Infelizmente a memória também tem prazo de validade nos génios.

Deixo-vos o discurso que proferiu aquando a cerimónia de entrega do Prémio Nobel em 1982

A SOLIDÃO DA AMÉRICA LATINA
‘Antonio Pigafetta, navegador florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem em volta do mundo, escreveu, na ocasião de sua passagem pelas terras do sul de nossa América, um relato minuciosamente apurado, mas que na verdade parece mais um delírio fantasioso.Nessa viagem, ele diz que viu porcos com umbigos nas ancas, pássaros sem garras cujas fêmeas botavam os ovos nas costas de seus parceiros, e ainda outros, lembrando pelicanos deslinguados, com bicos feito colheres.

Ele disse ter visto uma criatura desengonçada, com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo e pernas de veado, que relinchava como cavalo. Descreveu como o primeiro nativo encontrado na Patagônia se olhou no espelho, e em seguida, o impassível gigante, perdeu a razão, aterrorizado com sua própria imagem.

Este curto e fascinante livro, que já naquela época continha as sementes de nossos atuais romances, é sem dúvida o mais pungente relato da realidade nossa daquele tempo.

Os cronistas das Índias nos deixou outros incontáveis relatos. Eldorado, nossa terra ilusória e tão avidamente procurada, apareceu em numerosos mapas durante anos, deslocando-se de lugar e de forma de acordo com a fantasia dos cartógrafos.

Em sua procura pela fonte da eterna juventude, o mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca explorou o norte do México por oito anos, numa iludida expedição cujos membros devoraram uns aos outros e, dos seiscentos que foram, apenas cinco voltaram.

Um dos muitos mistérios inimagináveis daquela época é o das onze mil mulas, cada uma carregando cinqüenta quilos de ouro, que um dia deixaram Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram ao seu destino. Depois disso, no tempo das colônias, galinhas vendidas em Cartagena de Índias eram criadas em terrenos de aluviões e em suas moelas eram encontradas pequenas pepitas de ouro.

A cobiça de ouro de nossos fundadores nos perseguiu até recentemente. No fim do último século [XIX], uma missão alemã, indicada para estudar a construção de uma ferrovia inter-oceânica, através do istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com uma condição: que os trilhos não fossem feitos com aço, que era raro na região, mas com ouro.

Nossa independência da dominação dos espanhóis não nos pôs fora do alcance da loucura. O general Antonio López de Santana, três vezes ditador do México, providenciou um magnífico funeral para a perna direita que ele perdera na chamada Guerra dos Pastéis. O general Gabriel García Moreno governou o Equador por 16 anos como um monarca absoluto; em seu velório, o corpo ficou sentado na cadeira presidencial, vestido com o uniforme completo e decorado com uma camada protetora de medalhas.

O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teosófico de El Salvador, que teve 30 mil camponeses aniquilados num massacre selvagem, inventou um pêndulo para detectar veneno em sua comida, e mantinha as lâmpadas das ruas envolvidas em papel vermelho para vencer uma epidemia de escarlatina. A estátua do general Francisco Morazán, na praça principal de Tegucigalpa, é na verdade do marechal Ney, comprada num depósito de esculturas de segunda mão em Paris.

Onze anos atrás [1971], o chileno Pablo Neruda, um dos brilhantes poetas de nosso tempo, iluminou este público com suas palavras. Desde então, os europeus de boa vontade – e às vezes aqueles de má vontade também – têm sido arrebatados, com cada vez mais força, pelas novidades fantásticas da América Latina, esse reino sem fronteiras de homens alucinados e mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda.

Não temos tido sequer um minuto de sossego. Um prometéico presidente, entrincheirado em seu palácio em chamas, morreu lutando contra um exército inteiro, sozinho; e dois suspeitos acidentes de avião, ainda por explicar, abreviaram a vida de um grande presidente e a de um militar democrata que tinha ressuscitado a dignidade de seu povo.

Já ocorreram cinco guerras e dezessete golpes militares; surgiu um diabólico ditador que está realizando em nome de Deus o primeiro etnocídio da América Latina de nosso tempo. Nesse ínterim, 20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de completar um ano de vida – mais do que as que nasceram na Europa desde 1970.

Os desaparecidos pela repressão chegam a quase 220 mil. É como se ninguém soubesse onde foi parar a população inteira de Uppsala. Várias mulheres presas grávidas deram à luz nas prisões argentinas, e ainda ninguém sabe do paradeiro e da identidade de seus filhos, que foram furtivamente adotados ou enviados para orfanatos por ordem das autoridades militares.

Porque tentaram mudar esta situação, quase 200 mil homens e mulheres morreram em todo o continente, e mais de cem mil perderam suas vidas em três pequenos e malfadados países da América Central: Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se fosse nos Estados Unidos, seria o equivalente a um milhão e seiscentos mil mortes violentas em quatro anos.

Um milhão de pessoas abandonaram o Chile, um país com tradição de hospitalidade – ou seja, doze por cento da população. O Uruguai, pequenina nação de dois milhões e meio de habitantes, que se considerava o país mais civilizado do continente, perdeu para o exílio um em cada cinco de seus cidadãos.

Desde 1979, a guerra civil de El Salvador vem produzindo quase um refugiado a cada vinte minutos. O país que se poderia criar com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina teria uma população maior que a da Noruega.

Ouso dizer que é esta desproporcional realidade, e não apenas sua expressão literária, que mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade não de papel, mas que vive dentro de nós e determina cada instante de nossas incontáveis mortes de todos os dias, e que nutre uma fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, da qual este errante e nostálgico colombiano não passa de mais um, escolhido pelo acaso.

Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e canalhas, todas as criaturas desta indomável realidade, temos pedido muito pouco da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios concretos para tornar nossas vidas mais reais. Este, meus amigos, é o cerne da nossa solidão.

E se estas dificuldades, cuja essência compartilhamos, nos atrasa, é compreensível que os talentos racionais desta parte do mundo, exaltados na contemplação de sua própria cultura, se encontrem sem meios apropriados de nos interpretar.

É simplesmente natural que eles insistam em nos medir com o mesmo bastão que medem a si mesmos, se esquecendo de que as intempéries da vida não são as mesmas para todos, e que a busca pela nossa própria identidade é tão árdua e sangrenta para nós quanto foi para eles.

A interpretação de nossa realidade em cima de padrões que não são os nossos serve apenas para nos tornar ainda mais desconhecidos, ainda menos livres, ainda mais solitários.

A venerável Europa talvez pudesse ser mais perceptiva se tentasse nos ver em seu próprio passado. Se ela recordasse simplesmente que Londres levou 300 anos para construir seu primeiro muro, e mais 300 para ter um bispo; que Roma labutou numa penumbra de incertezas por 20 séculos, até que um rei etrusco a fizesse entrar para a história; e que a pacífica Suíça de hoje, que nos deleita com seus leves queijos e simpáticos relógios, derramou o sangue da Europa como soldados mercenários, no final do século XVI. Mesmo no alto da Renascença, 12 mil lansquenetes pagos pelo exército imperial saqueou e devastou Roma e trespassou oito mil de seus habitantes na espada.

Não quero incorporar as ilusões de Tonio Kröger, cujos sonhos de unir um casto norte a um sul apaixonado foram exaltados aqui, há 53 anos, por Thomas Mann. Mas realmente acredito que aqueles europeus esclarecidos que lutaram, inclusive aqui, por um lar mais justo e humano, pudesse nos ajudar muito melhor se reconsiderassem sua maneira der nos ver.

A solidariedade com nossos sonhos não vai nos fazer menos solitários, enquanto isso não for traduzido em atos concretos de apoio legítimo às pessoas que aceitam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.

A América Latina não quer, nem tem qualquer razão para querer, ser massa de manobra sem vontade própria; nem é meramente um pensamento desejoso que sua busca por independência e originalidade deva se tornar uma aspiração do Ocidente. No entanto, a expansão marítima que estreitou essa distância entre nossas Américas e a Europa parece, ao contrário, ter acentuado nosso distanciamento cultural.

Por que a originalidade nos foi agraciada tão prontamente na literatura e tão desconfiadamente nos foi negada em nossas difíceis tentativas de mudanças sociais? Por que pensar que a justiça social perseguida pelos europeus progressistas aos seus próprios países não pode ser um objetivo da América Latina, com métodos diferentes em condições desiguais?

Não: as incomensuráveis violência e dor de nossa história são o resultado de antigas iniqüidades e amarguras caladas, e não uma conspiração tramada a três mil léguas de nossa casa.

Mas muitos líderes e intelectuais europeus têm pensado assim, com a infantilidade de seus antepassados que se esqueceram do proveitoso excesso de sua juventude, como se fosse impossível chegar a outro destino que não o de viver entre a cruz e a espada. Isto, meus amigos, é o tamanho exato de nossa solidão.

Apesar disso, à opressão, ao saque e abandono, respondemos com vida. Nem enchentes nem pragas, nem fome nem cataclismos, nem mesmo as eternas guerras, séculos após séculos, foram capazes de subjugar a persistente vantagem que a vida tem sobre a morte. Uma vantagem que cresce e acelera: todo ano, há 74 milhões de nascimentos a mais do que mortes, número o suficiente de novas vidas para multiplicar, a cada ano, a população de Nova York sete vezes.

A maioria desses nascimentos ocorre em países de menos recursos – incluindo, claro, os da América Latina. Contraditoriamente, os países mais prósperos se realizaram acumulando poderes de destruição, com força o bastante para aniquilar, num total de cem vezes, não apenas todos os seres humanos que já existiram até hoje, mas também todos os seres vivos que um dia respiraram neste planeta infeliz.

Um dia como hoje, meu mestre William Faulkner disse: “Eu me recuso a aceitar o fim da humanidade”. Não seria digno de mim estar num lugar em que ele esteve se eu não tivesse plena consciência de que a tragédia colossal que ele se recusou a reconhecer, 32 anos atrás, é agora, pela primeira vez desde o começo da humanidade, nada além de uma simples possibilidade científica.

Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.

Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.’
tradução retirada daqui, se quiserem ler o original em castelhano podem fazê-lo aqui

Os salários milionários dos desportistas

20 Jun

Segundo a revista Forbes, que publica anualmente a lista dos desportistas mais bem pagos do mundo, o futebol não é  o desporto mais bem pago do planeta. Ao todo, onze modalidades estão representadas nesta lista sendo o futebol americano, o boxe, o golfe, o ténis, o basquetebol e o futebol os desportos mais representados. As duas primeiras posições são ocupadas, imagine-se, por dois boxistas, sendo que o mais bem pago recebe nada mais nada menos do que o dobro de Cristiano Ronaldo que figura no 9º lugar da lista. No mundo do futebol David Beckam é o mais bem pago, Ronaldo o segundo e Messi o terceiro.

A Eurodieta

14 Jun

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Os cartoons são muito mais a especialidade da Joana Ferraz, mas mesmo assim não resisto a deixar aqui este.

Clear path for mister Romney

11 Abr

Foi quando não se esperava que o inevitável aconteceu. Rick Santorum anunciou que desistiu de tentar a nomeação republicana para as eleições presidenciais norte-americanas marcadas para Novembro.

Santorum sofreu um duro revés na semana passada, quando perdeu o Wisconsin, o que a juntar às derrotas copiosas em Maryland e District of Columbia, reforçou ainda mais a posição já avassaladora de Mitt Romney. Mas o ultra-conservador jurou que ia continuar na corrida e manteve os ataques ao candidato mórmon. Aliás, durante o fim-de-semana, houve movimentações no comité republicano do Texas de forma a tornar aquele estado em ‘winner take all’, ao invés de distribuição proporcional dos 155 delegados (o maior, apenas superado pela Califórnia, feudo de Romney). Desta forma, e ambicionando ainda vitórias na Carolina do Norte, Arkansas, Kentucky, Indiana, Dakota do Sul e Nebraska, a campanha de Santorum manteria a esperança viva. Isto, claro, dando por adquirido que a Pennsylvania estava ganha. Pois não estava e as últimas sondagens até indicavam que Romney podia muito bem conquistar o estado natal do ultraconservador. Foi tendo isto em consciência que levou Rick a abandonar a corrida. Já perdera uma eleição local em 2006 de forma humilhante e não podia arriscar fazê-lo outra vez (e desta vez a derrota significaria um sério revés para as primárias de 2016). Cai o pano. Rick Santorum vai agora preparar-se para daqui a quatro anos.

Acontece que o agora ex-candidato teve uma saída amarga. Não declarou o apoio a Mitt Romney, o mais que certo candidato (contrastando com Newt Gingrich, que já disse que lutaria por Romney da mesma forma que o faria por ele próprio), e embarcou num silêncio ruidoso. As agendas pessoais falam mais alto, ao que parece. Não é o silêncio que fica mal (uma das filhas de Santorum viu o seu estado de saúde agravado e é essa a prioridade de Rick). É o não apoio expresso. O caminho a sós que o ultra-conservador escolheu só prova, mais uma vez, que o quadro de candidaturas republicanas em 2012 é dos mais fracos da memória recente.

Barack Obama, muito vulnerável, agradece, e perante o ‘bluff’ que tem sido o seu mandato, talvez venha a conseguir uma vitória pouco merecida a 6 de Novembro. There is no room for Romney.

Somos já muitos ‘qualquer coisa’

14 Mar

A coisa até prometia. Visto o anúncio da Festa do desempregado no Facebook, toca de partilha, enviar para alguns amigos também nesta infeliz condição e combinar então o programa de Sábado à noite no Lusitano Clube, em Alfama, Lisboa. Acabámos por ser três.

A D., a mais desanimada, e com razão porque anda há um ano nisto, foi quase arrastada e a muito custo. A R., sempre muito animada e eléctrica, achou que esta festa era uma coisa mais para o número do que propriamente algo eficaz que nos ajudasse a ultrapassar esta fase muito difícil.

Andei entusiasmado toda a semana mas fui esmorecendo até ao dia. É complicado manter a moral lá em cima quando não há um indício, mesmo remoto, que as coisas possam mudar a curto trecho.

Lá fomos, cedo como nos aconselharam, para encontrarmos as paredes forradas a anúncios de emprego, a maior parte das quais a D. já tinha visto. À entrada forneceram-nos, mediante pagamento de dois euros (sim, porque os desempregados também desembolsam) um envelope com papéis para assentar as ofertas e um autocolante para colar ao peito com a característica que nos definisse profissionalmente. A D. sugeriu, bem disposta, ‘pau para toda a obra’.

Eram poucos aqueles interessados nas ofertas coladas nas paredes. A maior parte, de copo na mão, conversava, ria e dançava, ironicamente ao som de ‘Boys don’t cry’, dos The Cure (versão piegas?). Confesso que fiquei ainda mais desanimado. Ou os presentes não estavam mesmo preocupados com o desemprego (e se calhar ando eu a consumir-me em demasia), ou não não estão desempregados, ou então estão resignados a que nada vai mudar… Mas custou-me ainda mais ver um homem nos seus quarentas, acompanhado pela filha, com um ar cabisbaixo e com um autocolante a dizer apenas ‘qualquer coisa’. Somos já muitos ‘qualquer coisa’.

Enquanto a R. era entrevistada para um jornal, e não houve muita cobertura mediática, vistoriei todas as paredes. Pouca coisa, coisa pouca, os CV’s já foram enviados, com a noção que as probabilidades de boas notícias são zero.

À entrada deixámos os nossos currículos, com a garantia da organização que serão enviados a empresas. Ao canto, duas miúdas, tão novinhas que me fizeram sentir velho aos 30, lamentavam que não gostavam de ter de emigrar para poder trabalhar. E de lá saímos, de cabeça baixa, pelo menos a D. e eu, ao som de ‘Blister in the sun’, dos Violent Femmes. Consta que Gabriel, o Pensador, não esteve por lá, com a sua ‘Dança do Desempregado’.

Tops Musicais!

10 Mar

Pelo final de cada ano, deparamo-nos com a maçadora experiência da eleição dos melhores temas do ano. Nunca acreditei nessa coisa do melhor ou da melhor. Não gosto da ideia do melhor amigo ou da melhor amiga. Há coisas que simplesmente não existem. Não existe o melhor filme dado que isso implica comparar o incomparável. Existem filmes que são muito bons, apenas e só e por aí adiante. Contudo, precisamos de categorizações para viver.
Isto para dizer que não acredito em Tops Musicais, como tenho a convicção de que a selecção dos melhores temas é descabida se realizada em cima do acontecimento. Significa isto que deve deixar-se que exista uma maturação, algum distanciamento. Isto é dizer, também, que as categorias existentes já não fazem sentido, não sabemos onde começa o Rock e termina o Jazz. Contudo, sempre precisamos de umas quantas “caixas” onde encaixar as ideias, umas tipificações que permitam pôr ordem no caos.
Nesse sentido, acho que devem ser redesenhadas as categorias. Para quê procurar o melhor álbum de Soul ou Rythm and Blues se se pode pensar simplesmente no melhor “groove”? Bem mais fácil de promover uma selecção, sem correr-se o risco de, por exemplo, classificar como Pop algo que é tudo menos Pop, mas tem de ser encaixado em tal caixa porque é a menos má das soluções? Escreve isto quem percebe quase nada de música, mas se dá ao luxo de discordar. Não é, todavia, só dizer mal: uma solução é apresentada. Nesse sentido, segue aqui uma sugestão para a categoria de (plural!) melhores álbuns de 2008: .