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I wish i looked like Cindy Crawford

12 Jan

“I wish i looked like Cindy Crawford”

Quem o disse? A própria Cindy Crawford. Porquê?

Experimentem procurar “Killing us softly” no Youtube.

“Killing us softly”, com direito a vários vídeos, mostra-nos a mulher na publicidade dos dias de hoje. A mulher na publicidade para a incrível maquilhagem que esconde todas as chamadas imperfeições e nos convida a experimentar mais um creme, mais uma auto-bronzeador, mais uma base, mais um qualquer produto que nos faça parecer irrealistas e bonecas de porcelana. A mulher na publicidade da cerveja x e y que de tão machista que é chega a ser engraçada para alguns e quase ninguém repara que é altamente opressora. A mulher na publicidade que se transforma, literalmente, num qualquer objecto que um homem usa e vai, obviamente, comprar com gosto.

Isto não é marketing, não é forma de publicitar coisa nenhuma, isto é a objetificação clara do corpo, da auto-estima, da estabilidade física e emocional de todas as mulheres.

Engraçadas são até as campanhas da famosa PETA, (coisa que também muitos olhos atentos não reparam) que por muito que lutem por causas importantes, pecam pela fortíssima objectificação da mulher.

Pensar e reagir: o machismo, a mulher como objecto sexual, a desumanização, violência e a discriminação com base no género não desapareceu, camuflou-se nos lugares mais comuns, esperados e inesperados.

Parece que voltei ao activo aqui no belo blog do povo.

Pequena carta às e aos feministas

30 Jun

Muita boa, e muito bom, feminista tem atacado a forma como a Slutwalk foi organizada e apresentada nas ruas de Lisboa. Começo por dizer que vos respeito e adoro opiniões divergentes, e por isso informo-vos da minha aqui.

Desde já aviso que sou queer feminista (numa corrente mais pós-estruturalista, pelo que tenho vindo a conhecer de mim própria) e fui slutwalker. Levei os meus mini-mini-calções rosa choque brilhante que me ofereceram o Verão passado. Trouxe os meus calções à rua, não para provocar, mas para afirmar que, (e atenção feministas que isto é importante) como pessoa que sou, eu apresento-me como eu quiser, seja numa manifestação política ou numa discoteca. Se eu andasse com aqueles calções todos os dias, diriam vocês também que eu não era feminista, ou que era menos feminista, por mostrar as minhas pernas? Ou iriam vocês mais longe, e mais correctamente, afirmar que eu tinha suficiente auto-confiança para quebrar esses mesmo estereótipos e aparecer de perna à mostra porque realmente se eu quero, é porque posso?

Quando eu fui à slutwalk dei a cara com, e por, todas as mulheres agredidas (sexualmente ou psicologicamente) pelo machismo que impera na sociedade das mais variadas formas; dei a cara com, e por, todas as mulheres que se sentem oprimidas e desvalorizadas aqui, no Canadá, na Índia, no Brasil, onde for, porque a minha luta é internacional e o meu mundo não tem fronteiras. Dei a cara porque sou uma delas, de uma maneira ou outra.

Não fui porta-voz de coisa nenhuma, tal como ninguém foi; simplesmente saímos à rua para afirmar que o nosso corpo não é mercadoria, e que não temos medo de falar nele ou sequer de o mostrar. E não temos medo porque ele é nosso, e temos poder total sobre ele, eu digo quando “sim é sim” e quando “não é não”.

Mas a autodeterminação e a luta contra a sociedade patriarcal, como é lógico, não se fica por aqui, e espero contar com os mesmos e as mesmas feministas que concordam ou discordam desta luta, nas próximas; porque falar é fácil, mas estar lá a derrubar a sociedade machista, normativa e patriarcal, é outra coisa.

O meu decote não é um convite

23 Jun

Inicio a minha publicação com um gigante pedido de desculpas pela minha ausência nas últimas semanas.

 

Slutwalk em Lisboa dia 25 de Junho às 17h30, Largo de Camões

O que é a Slutwalk? A slutwalk é uma marcha que começou em Toronto a 3 de Abril deste ano e desde então corre as cidades de todo o mundo contra a ideia de culpabilidade que é apontada às vítimas de agressão sexual pela maneira de se vestirem e consequente desresponsabilização do agressor. Tudo despoletou com as alegações de Constable Michael Sanguinetti, um polícia de Toronto, onde, num fórum sobre segurança na Universidade de York , teve a semelhante paragem cerebral ao proferir a seguinte frase: “Women should avoid dressing like sluts in order not to be victimized”. Que é como quem diz: As mulheres devem evitar vestir-se como badalhocas, fáceis, putas, galdérias e desavergonhadas na medida de deixarem de ser vítimas.

Sou slut se sou uma mulher que decide sobre o seu corpo, sou slut se me visto da maneira que me agrada ou apetece, sou slut se quiser colocar um baton vermelho porque realmente gosto da cor e acho que me fica bem, sou slut se não quero ser agredida sexualmente porque sempre achei que tinha uma palavra a dizer se quisesse envolver-me com alguém, e sou slut se não gosto de piropos sexistas e heteronormativos. Então, saiu de casa com a minha pouca vergonha e saia curta para reivindicar o meu direito a ser como eu quiser no sábado à tarde.

 

Transcrevendo do manifesto da Slutwalk Lisboa:

Se ponho um decote… Não é Não!

Se pus aquelas calças de que tanto gostas… Não é Não!

Se uso burqa… Não é Não!

Se durmo com quem me apetece… Não é Não!

Se sou virgem… Não é Não!

Se passo naquela rua… Não é Não!

Se vamos para os copos… Não é Não!

Se me sinto vulnerável… Não é Não!

Se sou deficiente… Não é Não!

Se saio com xs maiores galdérixs…Não é Não!

Se ontem dormi contigo… Não é Não!

Se sou trabalhadora sexual… Não é Não!

Se és meu chefe… Não é Não!

Se somos casadxs, companheirxs, namoradxs… Não é Não!

Se sou tua paciente… Não é Não!

Se sou tua parente… Não é Não!

Se sou imigrante ilegal… Não é Não!

Se tenho relações poliamorosas… Não é Não!

Se sou empregada de hotel… Não é Não!

Se tens dúvidas se aquilo foi um sim, então… Não é Não!

Se és padre, imam, rabi ou poojary… Não é Não!

Se beijo outra mulher no meio da rua… Não é Não!

Se sou brasileira, cabo-verdiana, angolana ou de outro país que sofreu colonização… Não é Não!

Se tenho mamas e pila… Não é Não!

Se disse sim e já não me apetece… Não é Não!

Se sou empregada doméstica… Não é Não!

Se adoro ver pornografia… Não é Não!

Se ando à boleia… Não é Não!

Se estamos numa festa swing, numa sex party ou numa cena BDSM… Não é Não!

Se já abrimos o preservativo… Não é Não!

Es.Col.A do Alto da Fontinha

12 Maio

Es.Col.A: Espaço Colectivo Autogestionado

A palavra auto-gestão assusta todos os sistemas de poder. O sinal de subversão e de tomada de decisão por parte de quem trabalha realmente os espaços públicos não deixou de ser mal vista por parte da governação do nosso querido Porto.

A Escola da Fontinha deixou de ser um estabelecimento de ensino há cerca de 5 anos, e desde aí tornou-se num dos vários edifícios abandonados que temos pelo nosso país: inutilizado, desvalorizado, morto.

Dia 10 de Abril um corajoso grupo de pessoas decidiu mudar o degradante rumo da escola. Arrumaram, limparam, repararam, dinamizaram. Com decisões tomadas em assembleia juntamente com a vizinhança, fizeram grupos de trabalho, dividindo as quantidades de vida que iriam dar àquele lugar.

As actividades que lá existiram a partir de Maio iam desde aulas de guitarra a aulas de geografia, desde yoga a círculos de estudos de desenho e pintura. Gratuitas. O horário pode ser visto aqui: http://www.agendadaescola.blogspot.com. O dia não acabava antes das 22h, mas o barulho cessava às 20h30. A vizinhança juntava-se, alegremente, a este grupo e às suas actividades.

A Escola da Fontinha voltava a existir, com toda a inocência e vivacidade das suas crianças.

Era sensacional o espírito de mudança, a vontade de dar a uma escola abandonada pela câmara municipal e respectivas autoridades competentes, o verdadeiro significado dela, letra a letra. Como eles próprios dizem: Libertar espaços, criar alternativas.

Porém, dia 10 de Maio, exactamente um mês após a ocupação da escola, foram violentamente despejadas as pessoas que reconstruíram aquela escola.

A polícia agrediu um dos ocupantes, pois resistiu pacificamente. Repito: pacificamente. E refiro também que resistiu pacificamente, na minha opinião de forma louvável, a um despejo que era ilegal e violentíssimo! Uma gigante ilegalidade típica do nosso caro presidente da câmara Riu Rio, que recorrendo a forças policiais retirou os ocupantes e dinamizadores da escola da fontinha sem qualquer aviso de ordem de despejo.

Como o Jornal de Notícias referiu, num testemunho da vizinhança “(…) Fátima enchia os pulmões: ‘Parecia que vinham prender o Bin Laden. Do meu lado era de pistola em punho. É um disparate. Antigamente eram seringas, drogas, tudo e desde que este grupo veio para aqui foi uma limpeza. Tínhamos professores que vinham dar aulas às crianças gratuitamente’ (…)”.

Foram detidos sete ocupantes numa acção com 20 agentes da polícia.

Mas o movimento não morreu!

As assembleias gerais continuam a acontecer, desde vez no largo da fontinha, que se tornou o espaço de realização de todas as actividades que foram impedidas de acontecer na Es.Col.A.

Foi decidido avançar com uma queixa crime contra a acção policial de dia 10 de Maio. “O dia que começou com repressão, acabou em democracia”.

Deixo aqui também um vídeo da RTP sobre o sucedido http://ww1.rtp.pt/noticias/?t=Ex-okupas-da-escola-da-Fontinha-querem-continuar-a-desenvolver-atividades.rtp&headline=20&visual=9&article=440901&tm=8.

Aplaudo de pé estas pessoas, alguns até amigos meus (tinha, obviamente, de mostrar o meu gigante orgulho por eles), que, com enorme vontade de ver o mundo mudar, realizaram este projecto fantástico.

Estou presa em Lisboa com uma semana de exames pela frente. Mas não me deixo ficar. Dia 20, juntarei as minhas mãos às deles. Com todo o amor e admiração que tenho por estas iniciativas.

Em honra dos nossos camaradas Homens da Luta, faço-lhes também uma referência, pois isto sim é a melhor demonstração que a luta… a grande luta, é alegria!

Segue a petição de apoio: http://www.petitiononline.com/escolafo/

A coisa ainda mexe…

5 Maio

Uma boa notícia! A luta de todas as gerações não parou com o gigantesco protesto a que todos presenciamos e no qual participamos, deu-nos força para continuar… Juntas-te a nós?

“Os organizadores da manifestação de 12 de Março em Lisboa e no Porto, associados aos movimentos de trabalhadoras/es precárias/os FERVE, Precários Inflexíveis e Plataforma dos Intermitentes do Espectáculo e do Audiovisual lançaram uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos designada ‘Lei Contra a Precariedade’ que incide sobre três das principais formas de precariedade: o trabalho temporário, o falso recibo verde e o abuso na contratação a termo.

Esta Iniciativa Legislativa de Cidadãos será entregue na Assembleia da República, após estarem recolhidas as 35 mil assinaturas necessárias! Para tal, precisamos da tua colaboração!

COMO PODES ASSINAR:

– Apartado: Em anexo, segue a folha de assinaturas que deves imprimir frente e verso (obrigatoriamente); depois de recolhidas as assinaturas, a(s) folha(s), envia para o nosso apartado: Apartado 7008. EC Augusto Luso-Porto. 4051-901 Porto.

– Presencialmente: Existem pontos de recolha de assinaturas a decorrer nas ruas, que são apresentados no facebook em Lei contra a Precariedade e em www.leicontraaprecariedade.net. Se quiseres/puderes, organiza uma recolha na tua cidade e comunica-nos para colocarmos no site.”

21 Abr

DR

Como diria Sérgio Godinho, hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar e quanto mais eu penso, mais eu vejo que esta grande obra de reconstrução parece mas é uma acção de despejo.

Nacionaliza-se a dívida e privatiza-se o lucro. Acha-se a entrada do FMI inevitável e um mal menor. Abana-se a cabeça quando se noticia que esse mesmo fundo monetário internacional irá lucrar 520 milhões com Portugal, assim como os países europeus irão lucrar outros 1060 milhões. Dá-se razão ao discurso normativo e irrealista que são os trabalhadores que vivem acima das suas possibilidades. Não se sai à rua para reivindicar direitos porque “não resolve nada”, e até se remata com um “ide mas é trabalhar”.

Este descrédito social face ao corrompimento do poder e ao abuso financeiro e económico por parte dos bancos chega-me a dar vontade de ir para a rua gritar contra o povo. Infelizmente, esse estigma de impotência e auto-flagelo não é novo, é quase inevitável e involuntário, é fruto desta crise política internacional que nos faz crer na culpa individual e colectiva dos cidadãos/ãs trabalhadores/as, estudantes, reformados/as, precários/as e desempregados/as. Senão, porque estaria um Estado, ou até uma cambada de reguladores financeiros internacionais que teoricamente percebem tanto do assunto, a tirar o dinheiro do bolso dos/as portugueses/as se não fomos nós a criar esta crise?

A verdade é que não fomos. Mas somos nós que pagamos pelos erros dos bancos. Porquê? Porque somos governados/as pelos mercados; já não somos pessoas, somos números, estatísticas, variáveis de um rating qualquer feito pelos maiores bancos mundiais.

Faz sentido pagarmos pela dívida portuguesa? Não. 75% da dívida externa pertence aos privados e 25% ao Estado. A culpa do decrescimento económico é nossa? Não. Os grandes grupos económicos portugueses pertencem a sectores não-transaccionais, isto é, sectores que impossibilitam exportações; por exemplo: luz, água, etc.

O FMI injectará dinheiro na banca, mas isso não combate o endividamento, como é lógico. O endividamento somente desaparecerá com um salto económico, o que acontece através de emprego e criação do mesmo, com evolução nas empresas nacionais e nas exportações, ao invés de importações.

Nunca se resolverá a situação desgastante da economia portuguesa retirando dinheiro aos/às portugueses/as. Mas isso até uma criança de 7 anos consegue perceber, não? Vejamos… Descemos os salários e aumentamos os preços, logo, descemos a procura e o poder de compra. Como cresce uma economia sem poder de compra? Não cresce. Aumenta a recessão. Aumenta a pobreza. Aumenta a precariedade. Aumenta a emigração. Perdemos crescimento económico. Perdemos poder de compra. Perdemos salários e ajudas sociais. Perdemos subsídios. Perdemos trabalhadores e postos de trabalho. Entramos numa crise política, económica e social sem fim.

Na Islândia, o povo disse “NÃO” ao pagamento da dívida da banca e está em processo a condenação a pena de prisão dos seus banqueiros. Na Grécia, o povo continua a lutar contra as políticas do FMI que os empurram para este novo panorama de trabalho que quase se consegue intitular como “nova escravatura”.

E nós, que fazemos? Vamos deixar que esta intervenção internacional nos sugue a vida e nos coloque sob uma política austera e autoritária onde o capital se protege mais que a vida humana?

Não podemos aderir à apatia, acabemos com ela! A realidade não é estática, nem inevitável. A realidade molda-se e revoluciona-se.

Eu amanhã posso não estar aqui mas também, para o que eu aqui repeti… É que eu não sou o único que acho que a gente o que tem é que estar unida.