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Lucidez

12 Jun

Sou sincera, confesso que previamente o meu texto desta semana seria sobre as medidas, estipuladas pela troika, a implementar até ao final do ano. Aludia ao masoquismo, demonstrado democraticamente, do povo português e terminava com um bem hajam pelo voto útil.

Mas bastou-me ver este vídeo para mudar de direcção. A lucidez deste Senhor, o entusiasmo dele e ainda essa coisa rara de ter fé nos homens arrepiou-me. Não concordo com a abstenção como resposta aos problemas políticos, acho que o voto é uma arma que não podemos ignorar. Mas paralelamente nada nos impede de ir tentando alternativas, respostas ou mudanças ao sistema vigente.

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A paródia eleitoral

29 Maio

cartoon de Henrique Monteiro

Aqui vamos nós, mais uma campanha eleitoral, as mesmas caras de sempre, os mesmos discursos opinando sobre tudo e todos, atirando pedras à direita e à esquerda, discutindo tudo excepto o que realmente interessa: propostas políticas concretas e uma resposta para a crise que corroí o país.
E é vê-los, candidatos resplandecentes e sorridentes tal Misses Portugal, pavoneando-se entre o povo, distribuindo beijinhos e abraços e criticando tudo, desde a escolha da cor da camisa, às vidas pessoais e até feitio dos outros candidatos.

Paulo Portas, já reparou que para conseguir votos não deve recorrer a ataques pessoais, enquanto os outros candidatos se digladiam na praça pública (afinal de contas, o jogo da ‘supremacia moral’ funcionou tão bem com Cavaco!), Portas, de lição bem estudada, vai moldando os seus discursos à assembleia. E é vê-lo com bonés diferentes todos os dias, a comer enchidos e a beber uma bela malga de verde tinto às 10 da manhã enquanto critica o PS e o PSD pela incompetência ao mesmo tempo que se procura vender como a única alternativa credível ao bloco central. Quase esquecemos que este senhor, para além de forjar gráficos nos frente a frente com outros partidos, esteve no governo de 2002-2005, e que quando realmente teve oportunidade para somar propostas de lei e mudar algo, preferiu somar os casos muito mal contados dos submarinos e comprovar a sua conduta éticamente superior surripiando 60 mil páginas, nas quais estariam incluídos segredos de estado, que meticulosamente fotocopiou antes de abandonar as funções de ministro da Defesa e Estado. Antecipou-se a Assange perguntarão os leitores? Não, que se saiba o único beneficiário de tal informação foi o próprio.

Já Passos Coelho, a.k.a. MC Passos, afirmou ser ‘o mais africano de todos os candidatos ao Parlamento’ acrescentando ainda que terá casado com África. Ora numa altura em que todos os votos contam – sobretudo numa fase em que as sondagens registam empates técnicos ou diferença de escassos pontos percentuais entre PS e PSD – percebe-se a obsessão do candidato social-democrata pelas minorias,  já o facto de incluir a esposa e a filha no jogo político parece-me de intenção mais duvidosa. Os casos das críticas ao programa Novas Oportunidades e da revisão da lei do aborto (projecto lei pelo qual tinha votado a favor) foram mais um tiro no pé numa campanha que se tem revelado acidentada. O programa Novas Oportunidades conta com 1 489 845 inscrições e 456 716 certificações desde 2006 (Fonte: Agência Nacional de Qualificações (ANQ) em Novembro de 2010) logo, os inscritos que exercerem o direito de voto dia 5 de Junho não premiarão as criticas da parte do PSD. Já na questão do aborto, Passos Coelho poderá até conquistar os votos dos sectores da sociedade contra este mas perderá seguramente os do eleitorado flutuante das grandes cidades, sim, esses mesmos que geralmente resolvem as eleições.

José Sócrates contra atacou com a ‘contratação’ de imigrantes Paquistaneses e Indianos aos quais paga transporte e comida para que o sigam de comício em comício, enquanto oferece bilhetes para o Sea Life do Porto a militantes e apoiantes de Penafiel que o venham apoiar no comício portuense. Ninguém gosta de falar para uma sala vazia! Inicialmente, o PS afirmou que não iria fazer a tradicional campanha com outdoors. Numa altura em que o país estava em crise, o partido iria apostar numa ‘campanha com redução substancial de custos’. Estranhamente os outdoors vão aparecendo por aí e parece-me que PS e PSD devem ter sido ludibriados pelo mesmo designer gráfico que lhes impingiu uma promoção ao estilo pague 1 leve 2.

A uma imagem e discurso desgastado, Sócrates tem vindo a acrescentar falhanços consecutivos. No frente a frente com Passos Coelhos foi-se repetindo inúmeras vezes atacando o seu oponente com discurso do ‘bota-abaixismo’, do ‘always look on the bright side of life’, etc, etc. Corrijam-me se estiver enganada mas…acabamos de pedir ajuda externa por não termos capacidade de resolver os problemas internamente, estima-se que estiveram 300 mil pessoas nas ruas nas manifestações de 12 de Março e agora temos acampamentos em várias cidades do país. Suponho que para Sócrates estes sejam todos sinais de boa saúde democrática e optimismo?

Mas a verdade é que PS, PSD e CDS, foram, que eu saiba, os únicos partidos que assinaram o acordo com a troika formada pela Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu para uma ajuda financeira a Portugal de 78 mil milhões de euros a três anos. No entanto, e porque é sempre mais fácil atribuir culpas do estado lamentável a que chegamos a elementos externos, em período de campanha, os partidos sofreram um fulminante lapso de memória, e atacam-se mutuamente com a cartada da parceria com a troika. PS acusa o PSD por ter desencadeado o processo de pedido de ajuda, dito desnecessário, ao rejeitar o PEC IV. Por conseguinte, PSD contra-argumenta que, independentemente da aprovação, o país teria de pedir ajuda externa e atribui o Óscar de melhor actor a Sócrates pelo seu papel de prima donna destroçada pelo estado do país e o CDS critica PS e PSD como se nada tivesse assinado.

O PCP, com Jerónimo de Sousa igual a si próprio, lá vai repetindo os mesmos argumentos de sempre. As campanhas vão-se sucedendo mas o discurso continua o mesmo, centrado no desemprego, precariedade e salários. O caso das escadas monumentais em Coimbra terá sido o único acidente de percurso, com Eduardo Melo, presidente da AAC a lamentar “que esteja a ser danificado património da Universidade” num momento em que a instituição concorre com o conjunto arquitectónico da Alta a Património Mundial da UNESCO.

O BE de Francisco Louçã, ainda corre atrás do prejuízo criado nas últimas eleições presidenciais. A moção de censura ao governo surgiu como tentativa de purgar quaisquer resquícios remanescentes da associação com Manuel Alegre e PS. Segundo uma sondagem do Expresso os eleitores encararam a moção como uma jogada oportunista numa altura em que se sabia que a sua viabilização seria praticamente impossível e o BE, que deveria defender a aprovação da moção ia fazendo diagnósticos da sua rejeição. Alegre foi, sem dúvida, um erro crasso que os eleitores não estarão dispostos a esquecer tão cedo, uma estratégia infeliz que fez tremer a estrutura do Bloco e corrompeu a imagem de alternativa política à esquerda.
Paralelamente urge-se um programa económico concreto e viável dos partidos mais à esquerda, tanto BE como PCP apresentaram propostas semelhantes onde se denotam numerosas fragilidades. Não é o BE a favor da Europa? Então como se pode defender a reestruturação da dívida? Isso afastaria-nos do projecto europeu. Não podemos simplesmente pedir um estatuto excepcional no nosso caso – ‘Ora olhem lá para o lado durante uns aninhos enquanto indireitamos o nosso país com o vosso dinheiro e nós já voltamos!’ Não estou a dizer que é boa ou má solução, estou a dizer que as duas são incompatíveis. A imagem transmitida seria a de que a UE estaria a desintegrar-se.

A campanha eleitoral faz-me lembrar daquelas noites em que se muda de canal e o programa é sempre o mesmo. Se na SIC temos um reality show, então na TVI e na RTP1 vamos ter exactamente o mesmo modelo de ‘junk/ fast food TV’. Sem excepção, o discurso dos candidatos é, sensivelmente, o mesmo. As eleições em Portugal ganham-se não porque os projectos eleitorais são mais sustentáveis e coerentes do que os dos opositores, qualquer sondagem à boca das urnas revelaria que a maior parte das pessoas não faz ideia dos pacotes eleitorais propostos, mas pela quantidade de beijinhos, se o rapaz é simpático ou tem bom porte ou mesmo a capacidade como orador todos estes parâmetros são de análise prioritária e sobrepõem-se a qualquer medida apresentada.

De polémicas e argumentos para telenovelas está esta campanha repleta, resta saber ‘Onde pára a Política!’ e as sequelas deste filme já são muitas.

Não deveriam ser adoptados como temas centrais da campanha questões fracturantes como a dívida soberana, o défice ou o pedido de ajuda externa? E falar sobre propostas anti-corrupção, financiamento dos partidos mais transparente ou mesmo sobre o estado da justiça no nosso país? Mas acima de tudo, e antes de qualquer promessa eleitoral, deveriam clarificar, de uma vez por todas, que o papel de Portugal na UE já não é o de um estado soberano (se é que alguma vez foi) e que o que vai acontecer, independentemente do vencedor das legislativas, é que o nosso pais, à beira mar plantado, vai começar a ser governado via wi-fi. Mas esse discurso não ganha votos.

Revolution.com

22 Maio
 Numa altura em que o relatório anual da Amnistia Internacional põe em evidência os feitos democráticos no Médio Oriente e o papel das redes sociais no desenrolar das revoluções e mobilização de cidadãos, apeteceu-me falar do papel que a internet desempenha na política global. Informação é poder, mas a tecnologia do século XXI veio desencadear uma verdadeira revolução de informação.

Na última década, os movimentos de cidadãos foram, progressivamente, encontrando na internet uma forma para se fazerem ouvir. Desde há muito que o Facebook, Twitter, MySpace, YouTube deixaram de ser simplesmente plataformas de partilha para assumir um papel mais activo no seio das sociedades. São a plataforma, por excelência, para partilha de informação e, por conseguinte, armas de mobilização em massa. Os geeks e os bloggers assumiram o papel de dissidentes e nas redes sociais juntam-se forças de protesto e reinvidica-se justiça. Nada será igual. A dinamização e a proliferação do interesse na política, sobretudo da parte das gerações mais jovens, em muito se deve às actuais crises políticas mas também à facilidade de acesso à informação e à quantidade de meios de divulgação disponíveis.

 As eRevoluções começam com pequenos grupos de pessoas que procuram restaurar a dignidade do povo ao introduzir reformas, liberdade ou justiça social, a partir daí, o fenómeno torna-se incontrolável, a palavra passa, os amigos sugerem a página a outros amigos e o crescimento exponencial do movimento começa. Os intervenientes organizam-se, alinham ideias, discutem a logística dos eventos e tudo isto no conforto das suas casa ou empregos através do acesso a uma qualquer rede social.

Ao abraçar as novas tecnologias e combiná-las com uma estratégia de campanha pioneira, Obama foi talvez o primeiro a tirar proveito do universo .com. A orquestrada campanha de 2004 tornou-o no peso pesado político sobretudo devido à inovadora utilização das tecnologias e plataformas sociais na mobilização e aproximação ao eleitorado. A eficiência e rapidez de propagação do mundo virtual foi posta ao serviço dos problemas do mundo real. Não o tivesse feito, e estaria, certamente, outro candidato sentado na Casa Branca. Mas a pressão mediática e a cobertura da sua campanha foi tal que, eventualmente, acabaria por ser eleito nas primárias como candidato presidencial do partido democrata. E o resto entrou para os anais da história norte-americana.

Obama foi talvez o primeiro mas não o único a inteirar-se do poder das redes sociais. Basta olhar para a relação que governos ditatoriais, tirânicos ou déspotas têm com o Facebook ou o YouTube. O facto das páginas serem bloqueadas e alvo de censura contribui, ainda mais, para as mobilizações e revolta popular. Mas enquanto é fácil controlar e reprimir fisicamente uma manifestação, o mesmo não se aplica ao policiamento do ciberespaço. Para cada página censurada uma outra frequência ou banda é aberta. E quando não são reunidas as condições para os media internacionais fazerem a cobertura do evento, os tweets ou updates nas páginas do Facebook preenchem as lacunas de informação. A resistência faz-se através de computadores portáteis e telemóveis com acesso à rede global. A repressão total e eficiente deixou de existir.
Os sistemas no Médio Oriente estão a descarrilar e há indicadores de que a África subsariana irá trilhar o mesmo caminho. Os recentes acontecimentos são apenas o começo de um processo que vai mudar o Médio Oriente. Como Wael Ghonim, figura central na revolução egípcia, referiu ‘Se quiser libertar uma sociedade, basta dar-lhes a Internet.’

Paralelamente, o Wikileaks veio atiçar a chama democrática e o sentimento de injustiça popular, assim como a necessidade de decisões governamentais mais transparentes. O mediatismo do caso Wikileaks revelou-se crucial no processo que levou à queda dos regimes ditatoriais no Médio Oriente. Ao pôr a nu os escândalos políticos, a incompetência e os gastos desmessurados das famílias políticas, assim como o nepotismo por elas praticado, a plataforma de Julian Assange confirmou, através de documentos oficiais, o que muitos já suspeitavam. E deu provas concretas do abuso de poder exercido ao longo de anos.

As redes sociais surgem, assim, como uma espécie de controlo à autoridade e poder centralizado e a balança começa a pender para o lado dos cidadãos. Num mundo onde a informação deixa de ser exclusivamente controlada pelo poder instituído, os abusos deste tenderão a tornar-se cada vez mais escassos.
De ressalvar que, apesar do ciberespaço cumprir um papel central, no final do dia, continuam a ser as pessoas, a sua coragem, vontade de mudar, espírito de sacrifício, de comunidade e de acreditar num futuro melhor que fazem as revoluções. Foram e são elas que se envolvem em activismo de alto risco e arriscam muitas vezes tudo o que têm, inclusive as próprias vidas, para que uma mudança tenha lugar.

Para rematar deixo-vos aqui uma frase de Jon Stewart (comediante, comentador e activista norte-americano, figura central do Daily Show) que penso que ilustra bem, ainda que de uma forma bastante sarcástica, o poder transcendente das redes sociais no Médio Oriente: “If two speeches and a social media site is all we needed to spread democracy then why did we invade Iraq? Why didn’t we just, I don’t know, ‘poke’ them?”

Títulocracias e afins…

8 Maio

Caro Senhor… perdão… Senhor Engenheiro… peço imensa desculpa… Senhor Doutor? Ah, Senhor Professor Doutor… agora sim podemos começar.

Se perdêssemos menos tempo a procurar o título certo para nos endereçarmos a alguém e mais a discutir ideias, conceitos e projectos certamente este país seria bem diferente.
A pequenez dos gestos e mentalidades amplifica-se até atingir proporções desmesuradas.
João de Pina Cabral, antropólogo, descreve os títulos académicos como “símbolos de um novo estatuto burguês”, a par dos “casamentos pomposos, os BMWs pretos, as gravatas brilhantes, os cabelos louros, as férias no Brasil…” A sua linhagem histórica remonta aos “processos de constituição e de chegada ao poder da burguesia nos meados do século XIX”.
Num país onde o ensino superior se tornou amplamente acessível às massas, certas ‘tradições’ deveriam simplesmente cair. Infelizmente, mesmo a geração mais recente insiste em manter o seu status quo. Como se o facto de ser tratado por engenheiro, doutor ou arquitecto lhes desse automaticamente direito de acesso a um star system. Serão estes tão diferentes dos boys que tanto criticamos nos grupos políticos?
A titulo pessoal, uma vez concluído o curso superior, o banco onde possuía uma conta teve a gentileza (e isto sem que o tivesse solicitado) de inserir o título correspondente precedendo o meu nome. Após vários telefonemas onde afirmava veementemente que não utilizaria o cartão até que mo substituíssem oiço, do outro lado da linha: ‘Mas porquê? Qual é o problema? Nós começamos a fazê-lo automaticamente porque vários dos seus colegas nos ligavam a pedi-lo.’ Parece que retirar o Dr. Eng. ou  Arq. do cartão dá mais trabalho do que pô-lo lá. Por muito que se tente explicar que as pessoas valem pelo seu desempenho e valor próprio e não pelo título exibido no cartão, as grandes massas continuam a perpetuar uma situação que atinge dimensões cada vez mais absurdas.

Américo Amorim
Fernando Ulrich, líder do BPI
Rui Nabeiro, dono do império da marca Delta
Rodrigo Costa, Presidente da Comissão Executiva da ZON
Américo Fernandes, director-geral da DHL
António Saraiva, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP)

O que têm em comum para além do seu sucesso? O facto de nenhum deles ter uma licenciatura. Mas basta uma breve pesquisa google para nos apercebermos que os prefixos Dr. ou Eng. aparecem em qualquer colóquio ou evento em que participem.
Como o próprio António Saraiva referiu em entrevista a Ana Rute Silva. “As pessoas não admitem que estejamos em determinados lugares sem sermos doutores ou engenheiros. Cansei-me de dizer que não sou doutor e já me curei, libertei-me, dessa necessidade social”

Esta fixação cega pelos títulos é tal que não concebemos uma relação de respeito pelas hierarquias sem os tais prefixos. É impensável tratarmos um professor pelo nome próprio. Isto mesmo que seja seguido por um ‘João, como profissional de renome e na sua ampla experiência, pode-me explicar x e x?’ Sinal de falta de consideração? Não, chama-se a isto insensatez. Respeito e títulos não estão necessariamente entrelaçados e sobretudo não desta maneira obsessiva.

Parece-me que em Portugal se mede a importância dos indivíduos pela acumulação de prefixos. A ‘títulocracia’ é tão portuguesa como o bacalhau e o fado. Está enraizada de tal forma na nossa sociedade que mudanças de mentalidades parecem improváveis num futuro próximo. A distinção social precede sempre o nome de baptismo e muitos o justificariam como mera formalidade, mas há algo bem mais preocupante que se prende com estes coloquialismos.

A minha intenção não é a de diabolizar os títulos. Mediante as circunstâncias poderão ser aplicados ou não. O problema não são os títulos em si mas a interpretação destes. ‘Se não é Engenheiro, Doutor, Arquitecto ou Professor então é um Zé-ninguém’, infelizmente este é o sentimento generalizado. E é fácil confirmá-lo nos atendimentos em lojas, em bancos ou mesmo nos serviços públicos onde a primeira pergunta não é o nome mas o título. As pessoas sintonizam quando vêem o prefixo no cartão de crédito, e as mordomias associadas à informação acrescentada trazem, obviamente, benesses.
Ora para que tenhamos um desenvolvimento profissional sustentável, há que mudar mentalidades. Esta desvalorização de trabalhos ditos menores está a gerar clivagens entre a população, no respeito pelas profissões e desequilíbrio entre sectores.O desrespeito e desvalorização pelos trabalhos logisticos e artesanais leva a que os jovens procurem apenas cursos que lhes atribuam o grau de engenheiro ou senhor doutor.
As ditas ‘artes’ vão-se perdendo. Mas bons sapateiros, carpinteiros ou empregadas domésticas começam a ser de tal forma escassos que os preços pelos serviços vão sendo inflaccionados, de uma forma ou de outra, o equilíbrio entre profissões vai ser reestabelecido. Os títulos vão-se vulgarizar, os graus vão perder importância e, no final, o que conta não vão ser os graus, títulos ou distinções sociais mas o desempenho, o profissionalismo, o empreendedorismo.

A Europa numa encruzilhada

24 Abr

São inúmeras as razões para a formação de uma união europeia. Sejamos racionais, tudo isto não surgiu porque grandes humanistas e políticos nos decidiram juntar a todos numa grande nação harmoniosa a cantar o Kumbaya. Havia várias razões de ordem prática. A necessidade de prevenir outra guerra devastadora para o continente, a criação de uma super potência financeira, criada através da união de vários estados membros, e que poderia fazer frente ao gigante americano, o incentivo e facilidade de trocas comerciais internas, mobilidade física e económica.
Mas, por onde quer que se começasse, os valores de liberdade, igualdade, fraternidade eram ressalvados, hasteados como fundações incontornáveis, direitos fundamentais de todos os europeus. Convém sempre fazer boa publicidade a algo que inventamos, não?

Liberdade

O artigo 2 do Tratado da União Europeia refere que:

‘A União funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros, numa sociedade caracterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres.’

Actualmente, as políticas anti-imigração, preconceitos e desigualdades sociais destroem o próprio núcleo de valores que formou a União Europeia – política de vistos cada vez mais restritiva, barcos que patrulham fronteiras cada vez em maior número, guetos de minorias nas cidades ao invés da integração social e grupos políticos de extrema-direita, muitas vezes altamente populistas, ganham terreno.
Em França, pátria da Liberté, Egalité, Fraternité os ventos são de mudança, ou melhor, de regressão, no campo dos direitos fundamentais. A lei que proíbe o uso do véu islâmico integral nos espaços públicos entrou em vigor no dia 11 de Abril. Já alguns meses antes, a Julho 2010, a Europa assistia incrédula à repatriação dos ciganos pelo governo francês para a Bulgária e Roménia,  sendo o presidente Nicolas Sarkozy amplamente criticado por associar imigração e criminalidade no mesmo pacote de medidas. Mais recentemente, comboios de proveniência italiana foram bloqueados na fronteira francesa de Menton com o objectivo de impedir a entrada de imigrantes tunisinos. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (Front National), encabeça as sondagens para as eleições presidenciais de 2012 com 23% de intenções de voto, mas não é um caso isolado na Europa. Na Finlândia, o partido dos Verdadeiros Finlandeses (Perussuomalaiset), conseguiu o 3o lugar nas eleições gerais com 19% dos votos, fazendo uma campanha anti-europeísta e contra os pacotes de socorro financeiro a países em dificuldades, de notar que o partido mais votado obteve 20,4%. Na Bélgica, a Nova Aliança Flamenga (Nieuw-Vlaamse Alliantie ou N-VA), de Bart De Wever, ganha as eleições gerais de 13 de Junho do ano passado com 17,4% a nível nacional e 27,8% na Flandres. Fundada em 2001 a N-VA tem vindo a crescer junto do eleitorado flamengo com argumentos conservadores e nacionalistas defendendo, inclusive, a criação de uma república Flamenga independente.
Ora com argumentos de nacionalismo, conservadorismo e separatismo a ganhar terreno adivinha-se uma Europa confusa acerca dos seus problemas internos e deveres intrínsecos.

Como Orhan Pamuk referia num artigo para a New York Review of Books intitulado The Fading Dream of Europe Em tempos de crise é normal o re-emergir de nacionalismos, de proteccionismos que visam a preservação das grandes tradições europeias, assim como a manutenção das vantagens que a Europa adquiriu ao longo de tantos séculos de luta de classes, colonialismo e guerras internas. Mas o que significa ser proteccionista? Fechar-se sobre si mesma ou voltar-se para os valores basilares da sua génese, relembrando os direitos fundamentais que foram, em tempos idos, o centro de gravidade de todos os intelectuais do mundo.

A união faz a força, ou não será bem assim?

Todos nós vimos a velha Europa vergar-se e desviar o olhar enquanto Bush brincava às guerras no Iraque e passeava POWs (prisioners of war) pelo espaço aéreo europeu. As tomadas de posição inexistentes, tardias ou eternamente adiadas – até ao ponto de já não serem relevantes – acerca de temas fracturantes como as revoluções na Tunísia, Marrocos ou Líbia fragilizaram uma união da qual se esperava mais coluna vertebral.
Os interesses estratégicos e uma engrenagem burocrática bacoca, que não se parece querer revitalizar, imperam e é este peso precisamente que nos estrangula e nos limita enquanto união. Os processos a adoptar são extremamente morosos, o parlamento e comissão, sobredimensionados. O aparelho democrático está asfixiado e a necessitar urgentemente de uma reestruturação profunda, de uma reaproximação aos eleitores e cidadãos. Deixemo-nos de endeusar os organismos europeus para os chamar à razão, atribuam-se responsabilidades de uma vez por todas. A Europa está moribunda, é tempo de acordar antes que o sonho europeu se perca para sempre.

Igualdade

Se, matematicamente falando:
todos ≠, todos =  então Alemanha = França = PIIGS (acrónimo pejorativo, aplicado pelos media de língua inglesa, para designar as economias de Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha)

O papel hegemónico da França, mas sobretudo da Alemanha, na União Europeia tem vindo a aumentar as clivagens entre países periféricos e as grandes potências da Europa central. Talvez os interesses germânicos sejam o de substituir o seu predecessor americano ou mesmo de servir de fantoche aos interesses deste. As exportações alemãs sairão certamente beneficiadas de tal aliança. Qualquer que seja o interesse por detrás deste bullying uma coisa é certa, a igualdade entre estados membros não tem sido favorecida. E a falta de entreajuda no seio da União tem enviado claros sinais aos mercados financeiros, que se aproveitam desse facto para tentar insuflar o poder do dólar norte americano.

As agências de rating americanas emitem pareceres negativos acerca das economias europeias sem nunca analisar o próprio país, salvo raras excepções, favorecendo investimentos nos EUA, e tendo forte impacto nas políticas europeias. Claramente esta promiscuidade entre as agencias de rating mais cotadas e a política norte americana não pode favorecer os interesses europeus na  batalha dollar vs. euro. Mas apesar de ser do senso comum, os investidores continuam a olhar para os AAA das empresas americanas ou cotações perto do nível junk dos PIIGS como valores a seguir religiosamente.
Não se esqueçam que o Lehman Brothers teve avaliação de AAA a poucos dias de declarar falência. Investimento seguro?
Não seria de interesse comum a criação de uma grande agência de rating europeia? Como nos podemos considerar uma potência se deixamos nas mãos dos nossos rivais directos a cotação das nossas empresas e economias nacionais?

Fraternidade

Viagens em executiva ou em classe económica?

A falta de solidariedade dos deputados europeus para com os cidadãos que representam revelou-se, no mínimo, de uma falta de ética gritante. Face a pedidos para apertar o cinto e a esforços cada vez mais incomportáveis para muitas famílias, o desrespeito pelo outro e a recusa de partilha de esforços em tempo de dificuldades económicas revela-se, a meu ver, imoral.

Porquê votações?
Em época de cortes, ditos prementes, ninguém vai referendar os visados acerca da redução dos seu salários ou regalias supérfluas. Que se aplique automaticamente a medida. Urge-se uma mudança radical na mentalidade das classes políticas que nos representam. O tempo do feudalismo acabou.

Após tantas divagações uma questão põe-se:

Será a União Europeia um projecto falido?

Encontramo-nos hoje numa encruzilhada, esperam-se desenvolvimentos nos próximos capítulos.