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Quando os génios esquecem

8 Jul

Gabriel García Márquez não voltará a escrever. Infelizmente a memória também tem prazo de validade nos génios.

Deixo-vos o discurso que proferiu aquando a cerimónia de entrega do Prémio Nobel em 1982

A SOLIDÃO DA AMÉRICA LATINA
‘Antonio Pigafetta, navegador florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem em volta do mundo, escreveu, na ocasião de sua passagem pelas terras do sul de nossa América, um relato minuciosamente apurado, mas que na verdade parece mais um delírio fantasioso.Nessa viagem, ele diz que viu porcos com umbigos nas ancas, pássaros sem garras cujas fêmeas botavam os ovos nas costas de seus parceiros, e ainda outros, lembrando pelicanos deslinguados, com bicos feito colheres.

Ele disse ter visto uma criatura desengonçada, com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo e pernas de veado, que relinchava como cavalo. Descreveu como o primeiro nativo encontrado na Patagônia se olhou no espelho, e em seguida, o impassível gigante, perdeu a razão, aterrorizado com sua própria imagem.

Este curto e fascinante livro, que já naquela época continha as sementes de nossos atuais romances, é sem dúvida o mais pungente relato da realidade nossa daquele tempo.

Os cronistas das Índias nos deixou outros incontáveis relatos. Eldorado, nossa terra ilusória e tão avidamente procurada, apareceu em numerosos mapas durante anos, deslocando-se de lugar e de forma de acordo com a fantasia dos cartógrafos.

Em sua procura pela fonte da eterna juventude, o mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca explorou o norte do México por oito anos, numa iludida expedição cujos membros devoraram uns aos outros e, dos seiscentos que foram, apenas cinco voltaram.

Um dos muitos mistérios inimagináveis daquela época é o das onze mil mulas, cada uma carregando cinqüenta quilos de ouro, que um dia deixaram Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram ao seu destino. Depois disso, no tempo das colônias, galinhas vendidas em Cartagena de Índias eram criadas em terrenos de aluviões e em suas moelas eram encontradas pequenas pepitas de ouro.

A cobiça de ouro de nossos fundadores nos perseguiu até recentemente. No fim do último século [XIX], uma missão alemã, indicada para estudar a construção de uma ferrovia inter-oceânica, através do istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com uma condição: que os trilhos não fossem feitos com aço, que era raro na região, mas com ouro.

Nossa independência da dominação dos espanhóis não nos pôs fora do alcance da loucura. O general Antonio López de Santana, três vezes ditador do México, providenciou um magnífico funeral para a perna direita que ele perdera na chamada Guerra dos Pastéis. O general Gabriel García Moreno governou o Equador por 16 anos como um monarca absoluto; em seu velório, o corpo ficou sentado na cadeira presidencial, vestido com o uniforme completo e decorado com uma camada protetora de medalhas.

O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teosófico de El Salvador, que teve 30 mil camponeses aniquilados num massacre selvagem, inventou um pêndulo para detectar veneno em sua comida, e mantinha as lâmpadas das ruas envolvidas em papel vermelho para vencer uma epidemia de escarlatina. A estátua do general Francisco Morazán, na praça principal de Tegucigalpa, é na verdade do marechal Ney, comprada num depósito de esculturas de segunda mão em Paris.

Onze anos atrás [1971], o chileno Pablo Neruda, um dos brilhantes poetas de nosso tempo, iluminou este público com suas palavras. Desde então, os europeus de boa vontade – e às vezes aqueles de má vontade também – têm sido arrebatados, com cada vez mais força, pelas novidades fantásticas da América Latina, esse reino sem fronteiras de homens alucinados e mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda.

Não temos tido sequer um minuto de sossego. Um prometéico presidente, entrincheirado em seu palácio em chamas, morreu lutando contra um exército inteiro, sozinho; e dois suspeitos acidentes de avião, ainda por explicar, abreviaram a vida de um grande presidente e a de um militar democrata que tinha ressuscitado a dignidade de seu povo.

Já ocorreram cinco guerras e dezessete golpes militares; surgiu um diabólico ditador que está realizando em nome de Deus o primeiro etnocídio da América Latina de nosso tempo. Nesse ínterim, 20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de completar um ano de vida – mais do que as que nasceram na Europa desde 1970.

Os desaparecidos pela repressão chegam a quase 220 mil. É como se ninguém soubesse onde foi parar a população inteira de Uppsala. Várias mulheres presas grávidas deram à luz nas prisões argentinas, e ainda ninguém sabe do paradeiro e da identidade de seus filhos, que foram furtivamente adotados ou enviados para orfanatos por ordem das autoridades militares.

Porque tentaram mudar esta situação, quase 200 mil homens e mulheres morreram em todo o continente, e mais de cem mil perderam suas vidas em três pequenos e malfadados países da América Central: Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se fosse nos Estados Unidos, seria o equivalente a um milhão e seiscentos mil mortes violentas em quatro anos.

Um milhão de pessoas abandonaram o Chile, um país com tradição de hospitalidade – ou seja, doze por cento da população. O Uruguai, pequenina nação de dois milhões e meio de habitantes, que se considerava o país mais civilizado do continente, perdeu para o exílio um em cada cinco de seus cidadãos.

Desde 1979, a guerra civil de El Salvador vem produzindo quase um refugiado a cada vinte minutos. O país que se poderia criar com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina teria uma população maior que a da Noruega.

Ouso dizer que é esta desproporcional realidade, e não apenas sua expressão literária, que mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade não de papel, mas que vive dentro de nós e determina cada instante de nossas incontáveis mortes de todos os dias, e que nutre uma fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, da qual este errante e nostálgico colombiano não passa de mais um, escolhido pelo acaso.

Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e canalhas, todas as criaturas desta indomável realidade, temos pedido muito pouco da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios concretos para tornar nossas vidas mais reais. Este, meus amigos, é o cerne da nossa solidão.

E se estas dificuldades, cuja essência compartilhamos, nos atrasa, é compreensível que os talentos racionais desta parte do mundo, exaltados na contemplação de sua própria cultura, se encontrem sem meios apropriados de nos interpretar.

É simplesmente natural que eles insistam em nos medir com o mesmo bastão que medem a si mesmos, se esquecendo de que as intempéries da vida não são as mesmas para todos, e que a busca pela nossa própria identidade é tão árdua e sangrenta para nós quanto foi para eles.

A interpretação de nossa realidade em cima de padrões que não são os nossos serve apenas para nos tornar ainda mais desconhecidos, ainda menos livres, ainda mais solitários.

A venerável Europa talvez pudesse ser mais perceptiva se tentasse nos ver em seu próprio passado. Se ela recordasse simplesmente que Londres levou 300 anos para construir seu primeiro muro, e mais 300 para ter um bispo; que Roma labutou numa penumbra de incertezas por 20 séculos, até que um rei etrusco a fizesse entrar para a história; e que a pacífica Suíça de hoje, que nos deleita com seus leves queijos e simpáticos relógios, derramou o sangue da Europa como soldados mercenários, no final do século XVI. Mesmo no alto da Renascença, 12 mil lansquenetes pagos pelo exército imperial saqueou e devastou Roma e trespassou oito mil de seus habitantes na espada.

Não quero incorporar as ilusões de Tonio Kröger, cujos sonhos de unir um casto norte a um sul apaixonado foram exaltados aqui, há 53 anos, por Thomas Mann. Mas realmente acredito que aqueles europeus esclarecidos que lutaram, inclusive aqui, por um lar mais justo e humano, pudesse nos ajudar muito melhor se reconsiderassem sua maneira der nos ver.

A solidariedade com nossos sonhos não vai nos fazer menos solitários, enquanto isso não for traduzido em atos concretos de apoio legítimo às pessoas que aceitam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.

A América Latina não quer, nem tem qualquer razão para querer, ser massa de manobra sem vontade própria; nem é meramente um pensamento desejoso que sua busca por independência e originalidade deva se tornar uma aspiração do Ocidente. No entanto, a expansão marítima que estreitou essa distância entre nossas Américas e a Europa parece, ao contrário, ter acentuado nosso distanciamento cultural.

Por que a originalidade nos foi agraciada tão prontamente na literatura e tão desconfiadamente nos foi negada em nossas difíceis tentativas de mudanças sociais? Por que pensar que a justiça social perseguida pelos europeus progressistas aos seus próprios países não pode ser um objetivo da América Latina, com métodos diferentes em condições desiguais?

Não: as incomensuráveis violência e dor de nossa história são o resultado de antigas iniqüidades e amarguras caladas, e não uma conspiração tramada a três mil léguas de nossa casa.

Mas muitos líderes e intelectuais europeus têm pensado assim, com a infantilidade de seus antepassados que se esqueceram do proveitoso excesso de sua juventude, como se fosse impossível chegar a outro destino que não o de viver entre a cruz e a espada. Isto, meus amigos, é o tamanho exato de nossa solidão.

Apesar disso, à opressão, ao saque e abandono, respondemos com vida. Nem enchentes nem pragas, nem fome nem cataclismos, nem mesmo as eternas guerras, séculos após séculos, foram capazes de subjugar a persistente vantagem que a vida tem sobre a morte. Uma vantagem que cresce e acelera: todo ano, há 74 milhões de nascimentos a mais do que mortes, número o suficiente de novas vidas para multiplicar, a cada ano, a população de Nova York sete vezes.

A maioria desses nascimentos ocorre em países de menos recursos – incluindo, claro, os da América Latina. Contraditoriamente, os países mais prósperos se realizaram acumulando poderes de destruição, com força o bastante para aniquilar, num total de cem vezes, não apenas todos os seres humanos que já existiram até hoje, mas também todos os seres vivos que um dia respiraram neste planeta infeliz.

Um dia como hoje, meu mestre William Faulkner disse: “Eu me recuso a aceitar o fim da humanidade”. Não seria digno de mim estar num lugar em que ele esteve se eu não tivesse plena consciência de que a tragédia colossal que ele se recusou a reconhecer, 32 anos atrás, é agora, pela primeira vez desde o começo da humanidade, nada além de uma simples possibilidade científica.

Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.

Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.’
tradução retirada daqui, se quiserem ler o original em castelhano podem fazê-lo aqui

The same old story

4 Mar

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São jovens licenciados. Acabam o curso, alguns com resultados brilhantes e, talvez ingenuamente, pensem que estes providenciarão boas oportunidades de emprego.
Depois, e utilizando a expressão de um caro amigo, ‘Apanham com a árvore de frente’.

Muitos têm de estagiar para as respectivas Ordens a preço zero ou de saldo, apenas para, posteriormente, pagarem uma mensalidade que poucas vantagens traz. Pagam-lhes 200 euros por mês, supostamente para ajudar nas despesas, mas mesmo estes míseros ‘subsídios de transporte e alimentação’ não são pagos a tempo, segundo alegações de problemas financeiros, crise – ‘Tentem compreender a situação, isto não está nada fácil’. Dizem-lhes para encararem o período de estágio como uma extensão da carreira universitária, um ano de investimento extra que seguramente trará benefícios. Ou então contratam jovens licenciados em regime de part time, 6 a 8 horas semanais que começarão a ser pagas somente 3 meses depois – actualmente numa escola perto de si. No processo ninguém comenta estas situações, ninguém denuncia as infracções à lei. O regime vigente é este, preto no branco, e não existem alternativas para quem não quer ou não pode recorrer à cunha.
Entretanto, e com salários entre os 500 e os 800 euros, os jovens vão prolongando a estadia em casa dos pais ou vivendo como estudantes em apartamentos partilhados. E a vida segue adiada. Casa própria, carro, casamento, filhos… tudo deixado para segundo plano. Alguns vão ensaiando novos cursos e formações na esperança que algo mude mas não são as competências de base ou as acrescidas que estão aqui em questão. É a mentalidade dos empregadores em Portugal, e noções básicas de respeito pelo trabalho dos outros e de custo justo no pagamento de serviços que permitam aos colaboradores uma vida digna e com perspectivas.
A critica aos empregadores não é fortuita, sei perfeitamente que não há emprego no país, que, de facto, a crise está aqui para ficar e que há situações complexas. Mas este tipo de contratações a prazo desresponsabiliza os empregadores que, por não terem contrapartidas, continuam a contratar pessoas muito para além da estabilidade orçamental da empresa. Empregar pessoas assim é viver a crédito, adquirindo um bem mesmo sabendo de antemão que jamais o poderão manter.

Ainda Cavaco

5 Fev

“Quando escrito em chinês a palavra crise compõe-se de dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade.”John Fitzgerald Kennedy

Uma das coisas extraordinárias dos portugueses é a criatividade que demonstram perante situações que poriam qualquer um às avessas. Sabemos que a capacidade de rirmo-nos de nós próprios é uma mais valia e o poder empreendedor, geralmente parco, é manifestado em situações cómicas como esta que vos trago agora.

(cliquem na imagem)

Oxalá este optimismo possa transbordar para outras áreas, num ano que se avizinha bastante difícil para a maior parte da população.

 

 

Começou a campanha

15 Jan

‘Standards & People, pá’ para blog revelação de 2011

E então vizinha? Como vai a vidinha?

8 Jan

De entre a extraordinária escolha a que a Reuters já nos acostumou para as melhores fotos do ano, queria salientar uma que nos toca a todos.

RAFAEL MARCHANTE, Portugal

“Reuters photographers in Portugal use an expression when we go out to take pictures of the economic crisis: “trekking and fishing” as they are often long days spent walking with our eyes wide open. The crisis in Portugal is difficult to photograph because there is nothing special happening on the streets. It is a crisis behind closed doors that for the time being the Portuguese live in intimacy. Our work must be subtle. We must always be attentive to looks, gestures or actions which allow us to guess the situation of the protagonists in our pictures. This photo was taken during a day of “trekking and fishing” in the neighborhood of Alfama. I was searching for a photo when I saw a woman talking to another leaning out of the window. In the middle of the conversation the woman in the street raised her arm. That was the picture of crisis.”

Canon EOS 5D, lens 50 mm, f1.8, 1/500, ISO 100
Caption: Two women talk in the Alfama neighborhood in Lisbon April 11, 2011. REUTERS/Rafael Marchante

A descrição de Rafael, como quase todos os bons fotógrafos, revela o olhar perspicaz  por detrás da câmara, que lhe permite não só captar belas imagens mas carregá-las de um sentido latente, algo que parece ultrapassar a mera bidimensionalidade do suporte e inundá-lo com significado, conter toda uma história num simples frame.

Esta é a imagem da crise, mas mais do que isso, é a imagem de como nós, enquanto povo, estamos a lidar com ela: o encolher eterno dos ombros, o ‘vai-se andando!’, é este o espírito do povo de brandos costumes, a resignação.

E não se pense que falamos só do povo, senão perguntem à classe política. ‘E então vizinho? Como vai este país?’

Para compreender a crise na Bélgica

4 Dez

Na Bélgica estão prestes a formar um novo governo, 535 dias depois das últimas eleições.

Fado: Património Imaterial da Humanidade

27 Nov

The Goldman Sachs connection

20 Nov

Esqueçam a Maçonaria, esqueçam a Opus Dei, ser tecnocrata é o que está a dar no século XXI. E nem têm de dissimular o envolvimento com os grandes grupos financeiros, tudo se desenrola mesmo debaixo dos nossos narizes.

Por toda a Europa os governos sucumbem à pressão gerada pelos elevadíssimos juros das dívidas soberanas e são substituídos por governos liderados por tecnocratas ou por simpatizantes, governos-fantoche de direita que respondem com uma vénia profunda e passadeira vermelha a todas as exigências económicas impostas por uma coligação franco-germânica.

Mas os mercados continuam ávidos por sangue, e agora que as pequenas manipulações deram frutos há que testar o poder adquirido com o ‘peixe graúdo’. A França, que até agora desempenhava o papel de professor exigente humilhando os maus alunos pelas suas más prestações, começa a sofrer as consequências da desregulamentação e falta de fiscalização dos mercados financeiros. Hasteiem a bandeira branca bem alto, rendam-se de uma vez por todas às evidências: fomos manipulados.

Um novo tipo de ditadura instalou-se na Europa. Os novos governos da Grécia e Itália são disso exemplo, ambos assumidamente tecnocratas, ambos no poder sem eleições. Incompetente ou não, Berlusconi ocupava o cargo de presidente do Conselho de Ministros por vontade expressa do povo, e essa liberdade de escolha faz parte dos direitos fundamentais dos cidadãos de qualquer estado de direito.

O sinal mais alarmante é que os mesmos que começam agora a ocupar os mais altos cargos políticos nos países europeus, sem eleições, encontram-se associados a uma das maiores instituições financeiras do mundo, um gigante da banca e um renomeado conselheiro financeiro de governos, a Goldman Sachs. Dir-se-ia que misturar poder político e um grande banco de investimento no mesmo saco seria potencialmente tóxico para o futuro da Europa, mas é esta a realidade. Cumpre-se o projecto Goldman Sachs, o domínio total sobre a Europa, tanto financeiro como político.

Vejamos alguns exemplos:

Mario Monti, sucessor de Berlusconi, tomou as rédeas do país com um governo de tecnocratas. Monti, aliás, referiu que a ‘ausência de políticos do Executivo, era uma forma de facilitar o trabalho governamental’. Monti é consultor sénior no Goldman Sachs.

Lucas Papademus, o actual primeiro ministro grego, foi governador do Banco da Grécia entre 1994 e 2002, precisamente na mesma altura a Goldman Sachs foi acusada de sistematicamente ajudar o Governo Grego a falsificar os dados da verdadeira dimensão da dívida grega (1998-2009).

O Banco Central Europeu apontado como tendo um papel fundamental na resolução da crise da dívida soberana europeia é gerido por Mario Draghi, sucessor de Jean-Claude Trichet. Draghi foi vice-presidente, director executivo da Goldman Sachs e membro da comissão de gestão na empresa entre 2002 e 2005.

Em 2010, António Borges foi nomeado Director do Departamento Europeu do FMI, cargo do qual se demitiu recentemente alegando problemas pessoais. De 1990 e 1993 representou funções de vice-governador do Banco de Portugal. E entre 2000 e 2008 foi vice-presidente do Concelho de Administração do banco Goldman Sachs International, em Londres. Mas para Borges este acumular de experiências pode revelar-se benéfico num futuro próximo. Imagine-se um governo cada vez mais fragilizado perante as flutuações das taxas de juro e pressões dos mercados financeiros, uma oposição que não desempenha verdadeiramente o seu papel e cria-se o cenário perfeito para que seja um homem forte da banca a assumir o papel do próximo primeiro ministro de Portugal.

Para reflectir

11 Nov

O Crime Perfeito – Manual de Sobrevivência

6 Nov

Imaginem que podem ficar ricos, muito ricos, sem que para isso tenham de apostar as vossas poupanças. Agora imaginem que as outras pessoas depositam as economias da sua vida nas vossas mãos e que, por ordens superiores, têm carta branca para investir esse dinheiro como bem entenderem desde que, obviamente, apresentem lucros. E será sobre esses lucros que receberão os vossos bónus milionários. A vossa fortuna é feita ‘virtualmente’, milhões para vocês, um crescimento assegurado de 3% nas contas poupança dos clientes, aquilo que em inglês se designa por win-win situation.

Mas porquê parar por aqui?
Os créditos são também uma óptima opção. Apelemos às necessidades primitivas de cada ser humano, a procura de um determinado status quo, a necessidade de ter casa ou carro próprio. Claro que podem sempre alugar casa mas, porque não aplicar o que pagam mensalmente de renda em algo que daqui a 10, 20 ou mesmo 30 anos pode ser deles? Entretanto temos o dinheiro assegurado e os juros equivalentes.
E que me dizem a um crédito para consumo pessoal? Roupas de marca, viagens, telemóveis de última geração, computadores, o céu é o limite. Nós emprestamos e ganhamos um cliente que paga religiosamente durante 20 anos, e se cair em incumprimento confiscamos os bens que comprou.

Mas, perguntam vocês, se emprestarmos dinheiro para os clientes pagarem a pronto os bens de que necessitam, o risco de ocorrer um desfasamento entre o dinheiro vivo em caixa e o virtual –  aquele que, em teoria, ainda vai ser pago – é elevado. Podemos enfrentar um problema de liquidez ou seja, teremos ou não a capacidade de honrar os nossos compromissos a curto e longo prazo. E aí está a beleza do sistema, o Estado permite a chamada ‘alavancagem financeira’. Nos EUA, por exemplo, e graças à intervenção de governos desde Ronald Reagan até ao de Bill Clinton o tecto de alavancagem foi sendo consecutivamente aumentado. Alguns bancos americanos chegam a ter um rácio de 1/30 entre o dinheiro vivo e os investimentos ‘virtuais’. Caros futuros milionários podem riscar mais um problema da vossa lista.

Mas o Estado pode intervir, tentar regular o mercado financeiro, criar legislações que impeçam o abuso de poder. Não desesperem, até para isso há solução.
Ao aceitarmos 3% de défice e endividamento externo dos países como uma boa média estamos a aguçar os apetites nacionais por mais créditos e investimentos. Certo que com ligeiras reestruturações (sobretudo quando comparadas com as exigidas actualmente) o défice facilmente desceria ou seria mesmo anulado. Mas isso em nada serve a nossa causa.
E porque não incentivarmos o endividamento? Sobretudo se as grandes instituições financeiras dão o seu aval pois, naturalmente, o crescimento do país será superior ao da dívida contraída.  Quando se fazem os balanços domésticos no fim do mês, um défice de 3% implica uma conta a zero ou com saldo negativo, o crescimento de 3% nas poupanças do agregado familiar não é assim tão linear.  Mas assim como a publicidade agressiva manipula os apetites dos consumidores por produtos que não precisam realmente, também os governos são tentados. E é só esperar que mordam o anzol, fazendo investimentos acessórios, estabelecendo parcerias publico-privadas abusivas com contrapartidas graves para o défice e PIB. E quanto mais endividados mais dependentes estarão, e quanto mais endividados mais desesperados e aí os juros do empréstimo aumentam exponencialmente. Afinal estamos a emprestar dinheiro a países que de outra forma cairiam em incumprimento e subsequente bancarrota, o risco para nós é elevado logo as contrapartidas terão que ser maiores.

Justiça? Quantos governantes conhecem que tenham sido responsabilizados criminalmente por desvio de fundos ou gestão danosa?

O povo vem para a rua, exigem-se referendos, democracia, uma política participativa. Mas é tarde demais. Estão TODOS enleados em dívidas: indivíduos, companhias, estados…

CHEQUE-MATE!