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“Há razões para acreditar num mundo melhor”

31 Dez

O ano de 2011 aproxima-se a passos largos do fim e o mundo prepara-se para receber 2012 com alguma desconfiança e muito cepticismo à mistura. Não me recordo de uma viragem de ano assim. Nas tradicionais mensagens desta época, já não se lê o habitual “próspero ano novo”. A maioria das pessoas limita-se a desejar “um 2012 que não seja pior do que 2011”. E mesmo assim, não parecem nada convictas de que tal seja possível.

Até uma simples publicidade da Coca Cola a mostrar que “há razões para acreditar num mundo melhor” gera manifestações de desagrado, surgindo outras versões mostrando uma outra realidade que não consta do vídeo da marca norte-americana.

De facto, 2011 é um ano que não deixa saudades para a grande maioria dos portugueses. As palavras “crise” e “austeridade” foram repetidas até à exaustão. A mudança de governo, não inverteu, nem de perto nem de longe, a tendência para os responsáveis políticos continuaram a exigir sacrifícios ao comum dos portugueses. O memorando de entendimento com a “troika” tem degradado as condições de vida de milhões de portugueses, conduzindo a um progressivo empobrecimento da nossa população.

E, tal como no passado recente, nada nos garante que tudo isto valerá a pena. A conjuntura internacional ameaça colocar tudo em causa a qualquer momento. A Europa é incapaz de se unir e encontrar uma solução para os problemas que põem em causa o processo de integração que assegurou a paz no “Velho Continente” ao longo das últimas décadas.

De facto, o cenário não é animador. E apesar da tentação ser forte, 2011 não poderá ser, de maneira nenhuma, um ano para esquecer. Os erros cometidos ao longo deste e de outros anos devem estar bem presentes na nossa memória colectiva.

Em primeiro lugar, deveremos ter a consciência de que os graves problemas que enfrentamos não poderão ser resolvidos de um dia para o outro. Portugal e a Europa sofrem as maiores reestruturações e ajustamentos orçamentais de que há memória desde a II Guerra Mundial. Tudo em nome de uma solução para a crise das dívidas públicas e da sustentabilidade do sistema financeiro. O crescimento económico foi subalternizado e esquecido em prol dessas prioridades.

Costuma-se dizer, em jeito de brincadeira, que nem Deus fez tudo num só dia. Se há lição que a situação grega nos ensinou ao longo deste ano é que não será possível proceder a alterações tão profundas da noite para o dia. Porque corremos o risco de destruir toda a economia. Porque atiramos para a pobreza milhões e milhões de pessoas a quem é roubada a sua dignidade. Porque dessa forma, como afirmou há tempos o professor Adriano Moreira, “substituímos o valor das coisas, pelo preço das coisas”. Porque, em última análise, colocamos em causa a própria democracia ao substituir a política pela tecnocracia e ao sermos governados por programas que não elegemos e não conhecemos.

As consequências começam-se a fazer sentir mesmo a nível geopolítico. A Europa, como um todo, é um continente em decadência, cada vez menos relevante na cena internacional. Tudo, porque esqueceu os valores que estiveram na sua origem e contribuíram para a sua reconstrução. Esqueceu a importância da solidariedade entre Estados. Esqueceu a importância do desenvolvimento e do crescimento económico assegurado pelo Plano Marshall. Foi precisamente o investimento público, e não a austeridade, que fez da Europa um espaço de prosperidade. E não se consta que Marshall fosse comunista ou sequer de Esquerda, para perfilhar esta orientação.

O ano de 2011 mostra-nos, porém, que nem tudo está perdido, e que o nosso contributo pode ditar o rumo dos acontecimentos no ano que vem. A distinção do “manifestante” como personalidade do ano pela Revista TIME, bem como a atribuição do Prémio Nobel da Paz e do Prémio Sakharov a cidadãos comuns que fizeram a Primavera Árabe, prova que nada está determinado e todos temos uma palavra a dizer no nosso futuro. Afigura-se como essencial o exercício de uma cidadania cada vez mais activa e de uma maior consciencialização acerca dos processos que a todos nos dizem respeito. Mais do que nunca não nos podemos demitir da defesa dos valores da justiça, da dignidade humana e da reivindicação de uma verdadeira igualdade de oportunidades para todos. Se não o fizermos, ninguém o fará por nós.

Cabe a cada um de nós, saber de que lado quer fazer parte no tal anúncio da Coca Cola que vai fazendo sucesso nas redes sociais. E recorrendo à linguagem financeira que vai dominando os nossos dias, não nos esqueçamos do que o escritor francês Joseph Joubert nos disse um dia: “a esperança é um empréstimo que se pede à felicidade”.

A Esquerda e a Direita

8 Out

Em Bruxelas, de visita ao Parlamento Europeu, acompanhei, através dos canais internacionais de televisão, vários acontecimentos importantes que tiveram a capacidade de unir as pessoas num elogio comum e sincero: a morte de Steve Jobs, o 80º aniversário do Arcebispo Desmond Tutu e a atribuição do Prémio Nobel da Paz a três grandes mulheres que tanto têm feito pelo reconhecimento da dignidade do seu género.

Vi e ouvi acerca destes assuntos opiniões unânimes: o sentimento de perda universal pela partida de um génio como Steve Jobs que tanto nos ensinou, o elogio à coragem de um bispo que se opôs ao Apartheid de uma forma tão determinada como Desmond Tutu e o reconhecimento da ousadia daquelas mulheres que em condições extremamente difíceis não desistem de desafiar aqueles que as julgam um sexo menor.

Tudo isto vai de encontro a um debate que faço várias vezes com muitas pessoas e até comigo próprio: até onde vai a clivagem Esquerda-Direita? Até que ponto o combate de ideologias é  uma necessidade ou um obstáculo?

Não tenho uma resposta para nenhuma destas perguntas, porque para qualquer uma delas há várias respostas com argumentos e exemplos válidos. Mas penso saber uma ou duas coisas que me parecem ser importantes, tendo em conta aquilo que se tem passado nos últimos tempos.

O facto de Esquerda e Direita terem ideias muito diferentes sobre diversos assuntos não quer dizer que as preocupações sejam assim tão diferentes. É importante ter a capacidade de perceber isso para que não se caia no erro de menosprezar o que outros dizem e falam sobre um determinado tema, numa atitude de arrogância que em nada contribui para a solução dos problemas que enfrentamos.

No entanto, é fundamental que Esquerda e Direita mostrem aos cidadãos as suas propostas e os seus modelos de desenvolvimento e de sociedade. Só assim é possível o debate com substância que não se reduza à espuma dos dias como vemos acontecer com frequência. Só assim é possível que se faça política a pensar nas próximas gerações ao invés de pensar nas próximas eleições.

Sinto que foi a profissionalização da política que mais contribuiu para o esvaziamento do debate ideológico que assistimos hoje em dia. E isso é péssimo. Temos políticos que não encaram a política como um serviço mas como uma profissão, escondendo-se por detrás das empresas em que se transformaram os partidos onde o objectivo passa apenas e só por conseguir ganhar eleições. É natural que desta forma o debate se resuma a casos mediáticos que se perdem no tempo e em nada contribuem para o futuro de um país.

Tudo isto sem prejuízo de várias excepções que felizmente existem em todos os partidos e que muito nos honram e fazem pensar. Excepções essas que várias vezes se unem, apesar das suas diferenças, para dizer ‘basta!’ à falta de sentido de serviço que parece ter tomado conta da política.

Vi isso acontecer quando Nelson Mandela chamou De Klerk para seu Vice Presidente em 1994. Vi isso acontecer quando deputados de todos os grupos políticos do Parlamento Europeu se empenharam numa petição contra a corrupção. Vi isso acontecer quando Rui Tavares, Ana Gomes e Carlos Coelho se uniram contra o Acordo de Transferência de Dados para os EUA. Vi isso acontecer quando Helmut Kohl dizia que é do interesse da Alemanha apoiar a Grécia. Vi isso acontecer quando João Semedo e Isabel Galriça Neto se batiam na Assembleia da República pela aprovação de projectos de lei idênticos sobre uma rede de cuidados paliativos.

E o que quer isto dizer? Que estes são políticos de plástico que se unem a outros de cores políticas diferentes e por isso não têm qualquer coerência? Penso que é exactamente o contrário.

O debate ideológico deve ser descomplexado e não pode ter preconceitos. Não se é bom porque é de Esquerda ou mau porque se é de Direita e vice-versa, ao contrário do que hoje certos partidos querem fazer passar para opinião pública dizendo os mais à Esquerda são uns irresponsáveis sem qualquer sentido de Estado e os de Direita um bando de servidores do grande capital que apenas se preocupam em ganhar dinheiro e poder.

Para que esse debate aconteça é fundamental que haja coragem política e ousadia na acção. Aquilo que hoje em dia falta a grande parte dos líderes europeus e que não permite o combate de ideias a médio e longo prazo, porque os mesmos vivem apenas do e para o curto prazo. A coragem e ousadia que permite a vários políticos de Esquerda e de Direita que acima citei serem exemplos a seguir por não se absterem de tomar decisões difíceis com visão de futuro.

Não estão em causa as capacidades intelectuais dos políticos que nos governam. O que está em causa é essa mesma coragem e ousadia que tiveram Steve Jobs, Desmond Tutu e as vencedoras do Nobel da Paz, obrigando pessoas de todos os quadrantes políticos a reconhecer o seu valor. Venha ela de onde vier, da Esquerda ou da Direita, essa coragem e ousadia política será sempre bem vinda. Porque só ela permite o verdadeiro combate de ideias!

Uma década depois, sabemos como prevalecer!

10 Set

Assinala-se amanhã o décimo aniversário dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Nos últimos dias, os jornais e as televisões têm dado muita atenção a este tema, num exercício exaustivo, mas compreensível, de forma a perceber o modo como olhamos para aquele dia e o que ele mudou nas nossas vidas.

O 11 de Setembro foi provavelmente, até hoje, o dia que mais marcou o século em que vivemos. Devem ser poucos aqueles que não se recordam do que estavam a fazer nesse dia ou com quem estavam. As imagens a que assistimos nas televisões eram chocantes.

O refrão da música “Fragile” que Sting posteriormente dedicou às vítimas dos atentados traduz quase na perfeição o sentimento de milhões de cidadãos comuns que passaram a temer a ameaça do terrorismo no seu dia a dia.

“Nous Sommes Touts Americans” escrevia o Le Monde na sua capa no dia que se seguiu aos atentados. O mundo unia-se contra a barbárie que causara mais de três milhares de vítimas mortais.

Mas se os atentados trataram de unir as nações e os povos, o presidente norte-americano George W. Bush, por sua vez, preferiu lançar a “guerra contra o terror” numa atitude de retaliação e vingança sem olhar a meios para atingir os fins.

Dessa forma, Bush aliou-se verdadeiramente à Al Qaeda e aos fundamentalistas islâmicos, dado que ambos defenderam a ideia da inevitabilidade de um “choque de civilizações”, ideia proposta por Samuel Huntigton e que tem tanto de cega como de injusta.

Ao 11 de Setembro, ao 11 de Março e ao 7 de Julho, os norte-americanos e os seus aliados responderam com uma invasão ao Iraque e os tratamentos degradantes e inadmissíveis em Abu Ghraib e Guantanamo numa espiral de “olho por olho, dente por dente”.

Felizmente, dez anos depois, verificamos que esta forma de ver o mundo não prevaleceu e que o 11 de Setembro, expoente máximo desse tal “choque”, não foi suficiente para que se começasse a olhar para as religiões e para as diferentes culturas como um obstáculo intransponível.

Não poderia ser de outra forma! Porque se olharmos atentamente para o que se passou ao longo dos anos percebemos que os valores que estão em causa não são exclusivos de nenhum povo.

O terrorismo continua a ser um fenómeno global como provam os recentes atentados de Oslo e a persistência de organizações como a ETA na nossa vizinha Espanha.

A invasão ao Iraque , sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, contou com a forte oposição da França e da Alemanha, para além da Igreja Católica, que recentemente, foi também uma voz crítica da intervenção da NATO na Líbia.

As recentes manifestações no mundo árabe, que emergiram do interior dos próprios países, provam efectivamente que a justiça, a liberdade e a democracia são desejos universais.

Finalmente, a tão ansiada execução de Osama Bin Laden não tornou, de todo, o mundo mais livre ou mais seguro.

Por isso, vendo o 11 de Setembro com o distanciamento de uma década, podemos dizer que existe uma resposta face a este tipo de atentados cobardes e desumanos: a Justiça!

E felizmente, há lideres mundiais que já tiveram a capacidade de perceber que essa é a reposta. Prova disso, foi a reacção do Primeiro Ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, aos atentados do passado dia 22 de Julho quando afirmou que “esta violência não irá reduzir a nossa capacidade de ser uma sociedade aberta, livre e democrática”.

Só assim podemos enfrentar a ameaça de frente e prevalecer sobre ela.

Começar de novo

3 Set

A Teoria do Caos diz-nos que o bater de asas de uma simples borboleta pode influenciar o curso natural das coisas em todo mundo com consequências inimagináveis. Não sei se Mohammed Bouazizi tinha conhecimento desta teoria quando, num acto de desespero, decidiu pôr termo à sua vida. Mas a verdade, é que o seu acto desencadeou uma enorme onda de revolta por parte de uma geração que decidiu definitivamente lutar pela sua própria dignidade.

Bouazizi era um jovem tunisino com estudos que vivia do mercado ambulante de hortaliças de forma a sustentar a sua mãe e os seus cinco irmãos. O facto de não ter licença fez com que a polícia o proibisse de vender retirando-lhe a única fonte de subsistência. Cansado de tantas humilhações e da ausência de perspectivas para um futuro melhor, decidiu imolar-se pelo fogo. Antes, deixou uma mensagem no Facebook dirigida à sua mãe com um pedido: “culpe a era em que vivemos, não me culpe a mim.”

Talvez este acto, aparentemente tresloucado, tenha acordado as mentes e os corações de uma geração mais aberta ao mundo, com estudos e onde o acesso à Internet fez a diferença. Uma geração cansada de regimes ditatoriais e corruptos e de sociedades demasiado desiguais, onde a liberdade não passava de uma utopia.

Aquilo que muitos pensaram ser protestos meramente ocasionais, facilmente controláveis com o recurso à repressão, arrastaram-se à grande maioria dos países do Norte de África e Médio Oriente com uma força nunca antes vista que levou ao derrube de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto e à fuga de Abdullah Saleh, líder do Iémen, para a Arábia Saudita.

O seu sucesso constituiu uma inspiração e criou um sentimento de solidariedade que não conheceu fronteiras para surpresa da grande maioria dos líderes mundiais.

A “Primavera Árabe”, como já é conhecida, arrastou-se também à Líbia do todo poderoso Muammar Khadafi, no poder há 42 anos. As reivindicações eram comuns: mais liberdade, mais democracia, mais respeito pelos direitos humanos e menos pobreza. No fundo, tudo se consubstancia numa única aspiração: o desejo de tomar o destino pelas próprias mãos e a vontade de poder decidir o próprio futuro.

O caso da Líbia talvez tenha sido o mais preocupante do ponto de vista humanitário visto que Khadafi nunca se inibiu de ordenar às suas forças para saquear e bombardear indiscriminadamente as cidades onde a revolta se começou a formar, numa acção que quase roça o genocídio.

Perante tal brutalidade era inadmissível que a comunidade internacional não agisse, apesar de nos primeiros tempos ter feito vista grossa ao fenómeno que começava a emergir no mundo árabe. A Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU legitimou a intervenção externa que se seguiu com vista a depor o líder líbio. Uma intervenção que não está isenta de erros graves e que nem sempre esteve bem.

Mas hoje, vários meses depois, a saída de Khadafi é um dado certo e a Líbia tem uma nova oportunidade para se reerguer e virar a página. Os desafios são imensos, sobretudo depois de sabermos que neste conflito perderam a vida cerca de 50 mil pessoas.

Pouco a pouco vamos conhecendo uma face ainda mais dura do anterior regime, com a revelação de vários crimes contra a Humanidade onde constam torturas, violações, assassinatos em massa e desaparecimentos forçados. A descoberta destas monstruosidades pode levar a indesejáveis excessos dos rebeldes que têm que ser refreados o quanto antes.  Para tal é essencial a reforma do sistema judicial líbio, que respeite os princípios do Direito Internacional e a realização de julgamentos justos e humanos, se necessário através do Tribunal Penal Internacional que já emitiu mandatos de captura contra alguns dirigentes do regime de Kadhafi.

Só assim será possível uma reconciliação plena que ajude a Líbia a construir uma democracia que seja de todos e para todos. O segundo passo, passa por reforçar a economia, desenvolver o país e assumir uma voz própria no cenário internacional.

Este não será o “fim da História” que Francis Fukuyama teorizou e onde defendeu a prevalência total das democracias e do Estado de Direito. O próprio já o admitiu recentemente em Portugal, quando participou nas “Conferências do Estoril”. Os próximos tempos serão conturbados e marcados por tensões a vários níveis. A transição não será fácil e será marcada por vários avanços e recuos.

No entanto, é indiscutível que o acto de Mohammed Bouazizi naquele dia 17 de Dezembro de 2010 trouxe uma nova esperança a milhões de jovens que decidiram sair para a rua movidos por uma enorme fome de liberdade. Naquele dia, abriu-se uma nova janela de oportunidades que se estendeu as vários países. Neste momento, cabe à Líbia decidir o seu próprio futuro, com prudência e cautela, mas sem atraiçoar milhares de pessoas que deram a vida por uma causa.

A actuação dos poderes ocidentais, nomeadamente da União Europeia, é também ela essencial neste processo. O Ocidente deve, de uma vez por todas, assumir o combate na primeira linha pelos valores democráticos, abandonando a política de “um peso e duas medidas” e as várias ambiguidades que têm caracterizado as suas posições externas.

A solução passa por ajudar a Líbia a seguir um caminho próprio, recusando a tentação de a tornar num simples protectorado à semelhança do Iraque, e ajudar os milhões de manifestantes que persistem em outros países, nomeadamente na Síria.

Há tempos, um resistente sírio disse a um jornalista internacional o porquê de não abandonarem os protestos. “Nós não temos dinheiro, não temos liberdade, não temos direitos nem temos segurança. Mas também já não temos medo!”

Não é altura de nos escondermos e sermos cúmplices. Os tempos que vivemos exigem que se tomem posições corajosas. Façamos a nossa parte.

“Mais democracia, mais humanidade”

30 Jul

Os atentados do passado dia 22 de Julho na Noruega continuam a ser notícia. Vamos conhecendo a conta gotas os contornos deste ataque inesperado e selvagem idealizado e concretizado por Anders Behring Breivik.

É difícil compreender o ódio manifestado nos documentos escritos pelo norueguês e a sua frieza perante o horror que causou junto de tantas famílias. Sabemos também que Portugal era outro dos alvos de Breivik que certamente terá seguidores dispostos a defender os mesmos ideais racistas e xenófobos deste militante de extrema-direita.

A brutalidade dos atentados e os dados de que agora dispomos sobre aquilo que aconteceu devem-nos chamar a atenção para este tipo de fenómenos que não se podem voltar a repetir. Não podemos permitir que o sangue de inocentes volte a ser derramado em nome de uma “Europa pura”.

A Europa e o mundo, mesmo em tempo de crise e incerteza, não podem recuar nos valores da tolerância, do multi culturalismo e do respeito pelos outros. Daí que seja fundamental erradicar este tipo de movimentos que põem em causa a liberdade. E esse é um combate que é, e deve ser, transversal da Esquerda democrática à Direita democrática.

A resposta tem que passar pela prevenção através da educação para os Direitos Humanos junto dos mais jovens e dos mais velhos e através da implementação de fortes medidas de segurança, sempre no respeito pela justiça e pela lei internacional.

Nestes dias tenho-me lembrado de uma história contada por João Paulo II. O papa polaco contava que na II Guerra Mundial se havia encontrado casualmente com o homem mais sábio que alguma vez conheceu e que vivia num quarto escuro, suspenso entre a vida e a morte.

“E esse homem – disse Wojtyla – não era um filósofo, era um santo!”. Sobre o horror vivido na Polónia e no mundo por essa altura, o velho homem disse-lhe: “Vencereis com o amor, não com as armas.” O jovem polaco não conseguia acreditar em tais palavras e perguntou-lhe: “Como é que consegue dizer isso com os nazis mesmo à porta?”. Como resposta, o ancião disse-lhe: “O nazismo acabará, porque o mal devora-se a si mesmo. Mas se o amor não triunfar, o nazismo voltará com um outro nome qualquer.”

A História provou que o velho homem polaco tinha razão. E sessenta e seis anos depois do final da II Guerra Mundial, a Noruega chora neste momento as vítimas da pior tragédia depois do Holocausto. Tranquiliza-me por isso a lucidez do Primeiro Ministro norueguês, Jens Stoltenberg, que na primeira reacção aos atentados não teve dúvidas em afirmar que “a resposta à violência é mais democracia, até mesmo mais humanidade, mas nunca ingenuidade”.

São esses os valores que têm que prevalecer perante o racismo, a xenofobia e a intolerância que estão por trás destes ataques.

Vencer a ameaça com a justiça

23 Jul

Na semana passada escrevi sobre o contributo de Mandela para um mundo melhor. Falei da importância do perdão que ele defendeu e pôs em prática sem esquecer um forte sentido de justiça, que nos interpela a recusar a vingança nos juízos que fazemos, por muito que à partida esse seja um sentimento compreensível.

Ontem assistimos a um duplo atentado terrorista que roubou a vida a cerca de noventa pessoas na Noruega. Nada o fazia prever. No país que anualmente entrega os Prémios Nobel da Paz reina, pelo menos aparentemente, uma paz social onde os valores da tolerância e do pacifismo tinham e têm um papel central na sua política interna e externa.

É certo que não será uma política isenta de erros e defeitos. Mas como escreve Manuel Tavares no editorial do Jornal de Notícias de hoje “o que é que correu mal para não termos sido capazes de erradicar este fenómeno de desprezo pela vida humana?!”

A brutalidade das imagens e do número de vítimas faz-nos ter dúvidas. Estaremos a ser demasiado tolerantes para com aqueles que não partilham os valores da democracia e dos direitos humanos? Ou por outro lado, não estaremos nós desatentos perante os problemas sociais de que padecem as nossas sociedades?

Tanto uma como outra são dúvidas legítimas perante actos que nos mostram o quão frágeis podemos ser. Mas mesmo sabendo que não há sociedades perfeitas, nada justifica a cobardia e a barbárie que consiste em roubar vidas inocentes. Pois a democracia, tal como afirmou Winston Churchill, “é o pior sistema de governo… excepto todos os outros.”

Se acreditamos nisto, só temos uma solução: reforçar a democracia, responder à injustiça com a justiça e resistir ao apelo de trocar a liberdade pela segurança.

Ao longo dos tempos, o mundo e os desafios que se colocam à democracia têm mudado. Cabe aos eleitos pelos povos encontrar a cada momento a melhor resposta para defender as populações e corresponder às suas aspirações. O que não deve mudar são os valores que devem guiar essas respostas.

Recusar a chantagem dos terroristas deverá ser o primeiro passo a tomar. Isto sem esquecer a dor das vítimas e a segurança dos demais cidadãos. Julgando quem deve ser julgado e condenando quem deve ser condenado por ofensa a valores tão fundamentais como são inviolabilidade da vida humana e o respeito pelos outros.

Combatendo as causas e os meios do terrorismo será possível prevenir o mesmo. Sempre no cumprimento da lei. Caso não o façamos, apenas estaremos a legitimar e a aumentar os danos desses actos de terror. Estou certo de que a Noruega e o mundo, dez anos depois do 11 de Setembro, já terão aprendido que essa não é a melhor resposta a este fenómeno.

O exemplo de Mandela

16 Jul

Nelson Mandela festejará na próxima segunda-feira, dia 18 de Julho, o seu 93º aniversário, certamente com o sentimento de dever cumprido por ter sido um dos homens que mais contribuiu para um dos maiores avanços que a Humanidade conheceu no final do séc. XX: o fim do apartheid.

O preço a pagar por essa conquista foi duro: sessenta e sete anos de dedicação a um mundo melhor, vinte e sete deles passados na cadeia. Clint Eastwood no filme Invictus retrata o momento em que François Piennar, capitão da selecção sul africana de Rugby, na véspera da tão aguardada final do Campeonato do Mundo de 1995, se pergunta a si próprio “como é possível passar quase trinta anos numa prisão e sair pronto a perdoar aqueles o puseram lá dentro?”.

Nelson Mandela foi juntamente com João Paulo II um dos homens que introduziu o conceito do perdão na política dos Estados e nas Relações Internacionais. Estes dois homens foram capazes de nos mostrar que desde que haja vontade política é possível ultrapassar aquilo que nos divide, movidos pelo bem comum e pela ideia de um mundo habitado e habitável por seres humanos que têm o direito à felicidade.

“Não há paz sem perdão!” disse um dia o Papa polaco. A vida de Nelson Mandela é a prova viva dessa afirmação. Correndo o risco de ir contra os sectores mais fundamentalistas do ANC e da grande maioria da população negra, Nelson Mandela procurou a reconciliação que impediu que o país entrasse numa guerra civil.

A nação “arco-íris” que Madiba teorizou e concretizou não é nenhum oásis no deserto, nem sequer uma sociedade mais perfeita do que as outras. Tem os seus problemas e luta para superar os seus desafios num tempo de grandes mudanças. Mas conseguiu ultrapassar o critério da cor da pele para avaliar o carácter de uma pessoa.

Pode isso parecer-nos algo de banal nos dias de hoje, sobretudo quando temos um afro-americano como Chefe de Estado dos Estados Unidos da América. Mas o caminho percorrido até aqui foi doloroso e deixou muitas marcas. Nesta fase de grande crise mundial, económica e de valores, é bom não esquecer isso. Não podemos permitir que se recue nesta área.

Ainda não tive a oportunidade de acabar de ler o livro “Arquivo Íntimo” que a Fundação Nelson Mandela lançou no ano passado com as cartas e conversas trocadas por Madiba com os seus ente queridos mais próximos. Neste livro, Mandela revela-se como homem entre os homens, com todas as suas dúvidas, tristezas e hesitações. O seu auto-reconhecimento nesta fase avançada da sua vida, quando é provavelmente a pessoa mais consensual à face da Terra, é uma prova de grande humildade.

Uma humildade que confirma a sua santidade, no contexto que ele próprio teorizou: “um santo não passa de um pecador que simplesmente não desiste de tentar melhorar”.

Não esqueçamos que Mandela, defendeu em tempos a luta armada em detrimento da não violência e preparou sabotagens contra alvos “inimigos” do ANC. Foi capaz de perceber que esse não era o caminho, procurou o perdão e foi capaz de perdoar.

A sua história é uma lição. Para a vida e para a política.

Sejam então os nossos políticos capazes de defender os princípios pelos quais deverão desejar viver, mas pelos quais não deverão ter nenhuma hesitação em morrer, tal como afirmou Mandela no julgamento que o condenou a prisão perpétua.

Parabéns Madiba!

Um corte na estação parva

9 Jul

A crise económica financeira que afecta os países do Sul da Europa levou a um corte inesperado neste Verão. Não estou a falar do fim das “borlas” em Agosto na Ponte 25 de Abril que já se tinham tornado numa tradição lá para os lados da capital.

Estou a falar da chamada “silly season” – a estação parva. Por esta altura, em outros anos, era natural darmos algum descanso aos neurónios, apreciarmos nas páginas das revistas cor de rosa as viagens dos nossos políticos enquanto que o Parlamento ia de férias e as polémicas dos grandes jogadores de futebol enquanto se aguardava a tão badalada transferência.

O resto das notícias resumia-se ao combate dos bravos bombeiros aos incêndios que iam assolando as florestas portuguesas, uma ou outra tragédia balnear e mais uns quantos “fait-divers” que iam enchendo as páginas dos jornais.

Eis que chegou o FMI e tudo mudou: o Parlamento já não vai de férias, a chuva e as baixas temperaturas não são muito convidativas para ir a banhos e há que poupar o subsídio de férias até porque o 13º mês vai ser pela metade.

Aos inúmeros cortes previstos no memorando da “troika” juntou-se o corte na “silly season”.

As televisões foram obrigadas a manter a sua grelha de programação, prescindindo da repetição de programas já velhos e gastos que se voltassem mais uma vez para o ar levariam as acções dos grupos económicos que as detém para o nível de lixo, classificado não por uma qualquer agência de rating, mas pelo bom senso do comum dos mortais.

Não estamos habituados a esta situação e ainda nem sabemos bem como reagir. “É o chamado murro no estômago” diz o Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho. E quantos não temos levado nos últimos tempos. Já nem umas férias a sério nos são permitidas.

“Vocês são lixo!” dizem-nos “escandalosamente” uns mercados mal dispostos e traiçoeiros a quem nem sequer reconhecemos o rosto. É algo que dá cabo do equilíbrio de qualquer um. Pusemo-nos a jeito, e é bem verdade. Reconhecer isso é uma prova de humildade e só nos faz bem depois de anos em que nos endividamos envoltos num “novo riquismo” a quem agora conhecemos a outra face.

Não gastamos nas necessidades, o que seria legítimo, mas nos desejos. E como quem tudo quer, tudo perde, eis que chegamos a este momento em que parecemos marionetas das agências de rating. Agências sem o mínimo de credibilidade, mas com as quais temos que levar. Afinal entramos no jogo delas.

Prometem-nos agora uma agência de rating europeia e falam-nos da necessidade de fazermos o trabalho de casa de modo a realizar as necessárias mudanças que o país já deveria ter feito sem recurso a qualquer resgate.

E eu, que tal como o Jorge Palma, me tornei num “optimista céptico”, só espero que este corte inesperado na estação parva não nos deixe ainda mais parvos. Veremos.

Os independentes e a política

2 Jul

“Agora está na moda ser independente”, disse Pedro Marques Lopes na última edição do programa Eixo do Mal num tom crítico e irónico. Surpreenderam-me essas palavras num programa em que os protagonistas são personalidades independentes com um pensamento livre e descomprometido. Exemplo maior dessa evidência é o Daniel Oliveira que, apesar de militante do Bloco de Esquerda, tem vindo a fazer forte críticas a Francisco Louçã.

Nos últimos tempos temos vindo a assistir a uma presença cada vez mais forte dos independentes na política: multiplicam-se as candidaturas independentes nas eleições autárquicas, Fernando Nobre teve uma forte votação nas últimas eleições presidenciais e foram vários os cabeças de lista independentes nas eleições legislativas de 5 de Junho nos dois principais partidos que foram a votos.

Depois disso houve a polémica com a eleição de Fernando Nobre para a Presidência da Assembleia da República, a ruptura do eurodeputado Rui Tavares com o Bloco de Esquerda e a constituição do XIX Governo Constitucional com quatro ministros independentes em pastas importantes como as Finanças e a Economia.

Há quem não goste desta preponderância crescente dos independentes na política, muitos deles sem qualquer tipo de experiência político-partidária. Mas destes factos sobressai uma evidência: a de que os partidos políticos atravessam uma crise profunda da Esquerda à Direita. Os partidos políticos deixaram de conseguir com que as pessoas aderissem aos seus projectos e aos seus ideais e procuram abrir-se à Sociedade Civil chamando personalidades reconhecidas.

O problema é que os partidos políticos têm vindo a mostrar que não conseguem lidar bem com a sua presença no seu seio. E isso é algo que afasta ainda mais as pessoas da política e mostra que os partidos não se estão a conseguir reformar mesmo recorrendo as personalidades da Sociedade Civil. Tal como escreveu o Luís Osório num artigo sobre Mário Sottomaior Cardia “os partidos políticos são, ao mesmo tempo, espaços de liberdade e do mais desprezível autoritarismo”.

É importante perceber que a política não é uma actividade exclusiva dos partidos e que o facto de alguém não ser militante de um partido não diminui essa pessoa politicamente nem a torna menos consciente do que aqueles que são filiados. Os sindicatos, as associações de estudantes, as comissões de trabalhadores, os movimentos cívicos e as organizações não governamentais são alguns dos movimentos onde também é possível fazer política e exercer os nossos direitos de cidadania. E possivelmente de uma forma mais livre e convicta ao mesmo tempo.

Por outro lado, pela parte dos independentes, é importante que para lá do seu respeitado percurso académico e profissional eles tenham noção de que também devem ter uma orientação política clara e bem estruturada. Os independentes que entram na política activa não se devem olhar ao espelho pensando que são a solução tecnocrática para os problemas que os incompetentes dos políticos não conseguem resolver. Essa é uma visão que em nada contribui para a credibilização da política, uma das actividades mais belas do ser humano.

Consta-se que Francisco Sá Carneiro pediu a um Secretário de Estado para abandonar um Conselho de Ministros depois de este lhe ter respondido a uma questão dizendo em tom marialva que não era político. Sá Carneiro pediu-lhe que saísse lembrando-o que estava num Conselho de Ministros e que esse era um lugar destinado a políticos.

E lembro este episódio porque entendo que é possível ser independente e ter um pensamento político estruturado e porque também entendo que é possível ser militante de um partido e reconhecer que a representação política não se esgosta neles próprios, sendo sempre necessário encontrar um equilíbrio entre o pragmatismo indispensável à solução dos problemas com que nos confrontamos e os princípios inegociáveis que devem pautar a nossa actuação cívica.

Um percurso exemplar posto em causa pela política

25 Jun

Sempre acreditei que a política é uma das actividades mais nobres do ser humano. Mais do que as visões realistas da procura e manutenção do poder e da luta pela sobrevivência, sempre vi a actividade política como uma forma de contribuir para o bem comum e para a felicidade das pessoas.

É possível fazer política de muitas formas: nos partidos, em organizações não governamentais, em instituições públicas e privadas, exercendo os direitos de cidadania que cada vez mais nos interpelam nos dias de hoje. Continuo a acreditar que a participação cívica e consciente é a única forma de ultrapassarmos a difícil situação que atravessamos. Como disse Platão, “a penalização por não participares na política é acabares por ser governado pelos teus inferiores”.

É público que fui Mandatário Distrital por Viana do Castelo da Candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Ele é certamente um dos portugueses que mais admiro. Conheci-o pessoalmente ainda antes de se lançar na política activa, quando era apenas reconhecido por ser o Fundador e Presidente da AMI. Durante muito tempo, li os seus livros e acompanhei o seu percurso.

Sei que em todos os cantos do mundo há alguém que deve algo a Fernando Nobre. Alguém que já salvou vidas em mais de 150 países em missões humanitárias tendo como pano de fundo os piores cenários de dor que podemos imaginar, deve merecer de todos nós respeito e consideração. Sejamos sérios: quantos teríamos a coragem de o fazer sacrificando a nossa vida familiar e a nossa saúde para acorrer a vítimas de genocídios, conflitos sangrentos e catástrofes naturais? Graças a ele, a Fundação AMI é uma das instituições que mais prestigia Portugal em todo o mundo e mesmo dentro de portas tem dado um contributo importante para o combate à pobreza com os seus Centros Porta Amiga.

Fernando Nobre não pode ter passado de bestial a besta em tão pouco tempo. Fernando Nobre ao sujeitar-se a uma exposição mediática tão grande nos últimos meses apenas demonstrou as suas qualidades e os seus defeitos, características inerentes a qualquer ser humano. Tal como disse um dia Nelson Mandela, “na vida real lidamos, não com deuses, mas com seres humanos normais como nós: homens e mulheres cheios de contradições, que são constantes e instáveis, fortes e fracos, famosos e infames”.

Apoiei Fernando Nobre sem reservas na sua campanha eleitoral para as Presidenciais. Um campanha em condições extremamente difíceis a todos os níveis. Muitos foram os oportunistas que se afastaram quando viram que a estrutura era frágil e as sondagens rondavam os 3 por cento. A cobertura da comunicação social foi também ela tendenciosa (embora não tenha sido apenas com Fernando Nobre).

E há que admitir que houve também erros internos, próprios de um processo de aprendizagem de muitas pessoas que nunca antes se tinham envolvido na política. Sem esses erros, o resultado poderia ter sido muito melhor. Nem sempre a mensagem passou da melhor forma. Não foi uma campanha contra os partidos, mas sim contra os seus piores vícios. Não foi uma campanha contra a classe política, mas sim contra os maus políticos.

O resultado de 14 % surpreendeu e a partir daí, muitos dos que antes o desprezaram, começaram a procurar Nobre e tudo terminou como sabemos: candidatura como Cabeça de Lista do PSD por Lisboa às últimas eleições legislativas, promessa da Presidência da Assembleia da República, que falhou na passada segunda-feira após duas votações insuficientes para a sua eleição.

As suas afirmações de que nunca se candidataria por um partido político, durante e depois das eleições presidenciais, foram um erro. É certo que só os burros é que não mudam de opinião, mas também é certo, que na vida pública as palavras devem ser muito bem medidas. Além do mais, a comunicação da candidatura pelo PSD por parte de Fernando Nobre e Passos Coelho foi mal conseguida.

Para além disso, a sua candidatura tinha sido completamente transversal a toda a sociedade portuguesa e a todos os quadrantes políticos. Compreendo pois, que muitos se tenham sentido desiludidos. Pela mensagem da campanha eleitoral, pelas afirmações categóricas de que nunca faria o que veio a fazer.

Afirmei que no lugar de Fernando Nobre não seguiria esse caminho e continuo e pensar da mesma forma. Mas nem por isso me achei mais sério do que ele por tomar esta posição.

Entristecem-me os insultos de que foi alvo e certas acusações estapafúrdias feitas por alguns dos antigos apoiantes e adversários. São visíveis as contradições do seu discurso e que nem sempre foram bem explicadas. Mas não acredito que nesta candidatura houvesse alguma tentativa de transferir os votos das presidenciais para as legislativas ou alguma fome insaciável por um lugar ao sol. O voto é secreto e pertence a cada um de nós, não constituindo nenhum tipo de amarra ao que se fez no passado. Pelo contrário, o voto é um acto de liberdade onde somos chamados a depositar ou retirar a nossa confiança naqueles que se sujeitam ao nosso julgamento.

Penso que se não tivessem havido todas estas contradições, todos nós ficaríamos felizes por haver um independente a presidir à Assembleia da República. Hoje temos uma mulher, algo que também me deixa satisfeito, embora tenha sido uma segunda escolha e tenha que vir a conviver com isso.

Saúdo a dignidade e a coragem de Pedro Passos Coelho em manter o seu compromisso, mesmo sabendo que poderia começar a legislatura com uma importante derrota política. Precisamos de governantes que tenham essa coragem. No entanto não tenho dúvidas de que a não eleição de Fernando Nobre constitui também uma vingança do sistema que não lhe perdoou a denúncia corajosa dos seus vícios e dos seus interesses. Não tenho sequer dúvidas que essa vingança é transversal e inclui também certos elementos do PSD.

Quanto a Nobre, mantenho o respeito pela sua magnífica obra de vida e a minha amizade com ele. Certo que, tal como no passado, nem sempre estarei de acordo com as suas posições e decisões, mas essa é também a beleza e a importância da democracia nos dias de hoje.