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Há quem queira tudo

5 Dez

1) Há quem queira tudo. A Feira Popular voltou tímida a Lisboa, ao tradicional descampado de Entrecampos. Sim senhor, muito bem, mas queríamos isto maior, dizia um, e todo o ano, dizia outro, e como dantes, acrescentava um terceiro. Pois que todos gostaríamos de tudo isso. Mas como não podemos ter tudo em Lisboa, há que pelo menos apreciar um IMI mais baixo, um IVA que vai ser devolvido em parte às famílias alfacinhas e uma Derrama mais favorável para as empresas. Mas claro que o um o outro e o terceiro queriam era a Feira Popular o ano inteiro. E já agora que voltassem à Rotunda do Marquês de Pombal como era, com mais poluição e carros e percurso de porta a porta, ele que se calhar mora no Saldanha e trabalha nas Amoreiras. Mas ai Jesus se não pode levar o pópó e que chato é o António Costa que dificultou o trânsito no Marquês. Se calhar até convém que este um, outro e o terceiro soubessem que um relatório publicado este semana indica que Lisboa desceu na lista das cidades com melhor qualidade de vida exactamente por causa do excessivo congestionamento de trânsito.

2) Há quem queira tudo. Estávamos num centro comercial em Lisboa, à espera do elevador. Chegou, mas como ia a subir e nós queríamos descer, optámos por aguardar pelo próximo. Chegam duas senhoras e esbaforidas perdem o elevador por microssegundos. Uma delas queixa-se que hoje já ninguém se respeita nem espera pelos outros. Alguém sugere então que tomem as escadas rolantes. A que se queixou abre o casaco e mostra uma barriga redondinha, de poucos meses, num corpo bem torneado, e diz sarcástica: ‘É que eu estou grávida e tudo me custa’. Vivemos nos tempos em que tudo nos custa, queremos tudo, e em que gravidez é doença e incapacidade.

3)  São apenas dois exemplos do dia a dia, bem corriqueiros e comuns, do facilitismo que é mandar vir por tudo e por nada. Muitos de nós temos razão ao bater o pé ao assalto fiscal que nos aguarda. À maquilhagem da organização do trabalho, com cortes de feriados mas tolerâncias de ponto, com aumento das horas de trabalho do soldado raso sem perceber que é no topo que está o erro. Com cortes cegos a torto e a direito, sem estudar de forma sustentada. Com o atirar de barro à parede com várias propostas para a mesma questão para ver qual é que cola, o que só mostra que quem manda não sabe mesmo o que anda a fazer. Para evitar que nesta casa onde há cada vez menos pão todos ralhem sem razão, porque não movimentos de cidadãos independentes na Assembleia da República? A ideia pode não ser nova mas está aqui:

Movimento Independente para a Representatividade Eleitoral

Vamos a isso?

Mas afinal qual é o caminho?

28 Nov

Aprovado o Orçamento mais austero de que há memória, com um ‘aumento fortíssimo’ de impostos, mas com ‘ética na austeridade’, pegaremos nas calculadoras para rapidamente fazermos contas para daqui a um mês, mas também nos questionamos se tudo isto era mesmo necessário. De um lado temos aqueles que, envolvidos numa fé inabalável, dizem que sim, que não podia ser de outra forma, mas que são, uma e outra vez, desmentidos pelos resultados. Por outro temos aqueles que dizem que não, que há outro caminho, que basta de nos tentarem convencer que vivemos acima do que podíamos.

Sobre as nossas possibilidades e as nossas realidades, apenas duas notas. É verdade que houve quem aforrasse, vivesse de acordo com o que podia, sem grandes loucuras, com conta peso e medida. Até pode ter sido a maioria dos portugueses. Mas quando vemos duas reportagens com poucos dias de distância, uma sobre as promoções do Freeport (em que, ufanos, os entrevistados confessaram gastar 150 euros de cada vez que lá iam, o que presumimos seja mais que uma), outra sobre uma feira de casamentos (em que a casadoira parece não ter problemas em revelar que vai gastar 1500 euros num vestido), dá que pensar ‘safa, há quem mereça mesmo os apertos que tem que fazer’.

Quanto ao outro caminho, aquele que faria com que não tivéssemos que apertar o garrote até ficar quase sem pinga de sangue, quantas vezes o Partido Socialista tem repetido, até à exaustão, que tem outro caminho, uma alternativa? Mas, passado um ano e meio de governo passista, que alternativa é essa? Que caminho é esse? António José Seguro sabe explicar por A + B porque razão há que seguir esse trilho e não outro? Penso que falo por muitos quando também eu desejo outro caminho que não obrigue a este esbulho (como cortar ainda mais em salários pornográficos de 500 ou 600 euros?). Mas eu não sou economista, não sou político, não sou gestor, não fui chamado a governar ou a representar os portugueses. Espera-se que quem ocupa estas premissas tenha algo concreto para dizer e não apenas desejos, esperanças e manifestações de interesse. António José Seguro, qual é então o caminho alternativo? François Hollande também prometeu que o tinha mas parece que deu o dito pelo não dito e fez aprovar o que o próprio apelidou de ‘orçamento mais austero dos últimos 30 anos’. Afinal não tinha caminho? Ou foi obrigado por quem manda mais que ele a seguir pela austeridade pura e dura?

Ver o debate do Orçamento do Estado nos últimos dias foi de uma tristeza atroz. Insultos, birras, faltas de respeito e educação, insensibilidade, enfim, um degredo humano no palco da Assembleia da República. E é esta gente que, por uma lado, diz que este é o caminho e que não há outro, e que por outro propõe que haja outro trilho, mas não diz qual é porque não sabe ou não o tem?

 

Com um sorriso no fim do caminho

21 Nov

Numa época do bota-abaixo e do dizer mal por dizer (coisa tão lusitana, ou se calhar tão humana mesmo, sem fronteiras), gosto de me armar em advogado do Diabo e colocar-me do outro lado da barreira. Aliás é uma tendência de sempre, de educação ou de génio, a de me colocar na pele do outro.

Isto porque nos últimos dias entrevistei duas pessoas, uma deputada e um estudioso do Teatro, que me despertaram para mais uma dimensão (esta é a parte boa do jornalismo, a de nos levar a navegar por várias águas, a de fugir à agenda e à ditadura da notícia pura e dura, escola americana, serviço de telex).

Ora dizia-me a deputada, Anabela Freitas, que desde Segunda-feira está no parlamento em representação do distrito de Santarém, em substituição de João Galamba, que goza um mês de licença de paternidade, que reconhece que chegou a São Bento numa altura conturbada. Ainda está fresco na memória o lamentável episódio no largo em frente à Assembleia da República há uma semana, e quando se adivinham mais horas difíceis quando o Orçamento do Estado para 2013 for votado na Terça-feira. Mas mais que isso, e quando lhe perguntei porque é que achava que os políticos e o povo andavam de costas voltadas, Anabela Freitas começou por dizer que as pessoas andavam nervosas e com muita razão. Mas que também os políticos tinham culpa, e até mais que os portugueses, porque muitas vezes não sabem como chegar às populações, como descer dos gabinetes e como chegar às pessoas. Quem vem das estruturas locais, como é o caso da nova deputada, que é de Tomar, parece-me ter uma maior ligação ao povo, considera-se um deles, e não se isola na bolha dourada e marmórea que é um gabinete de um cargo de poder. A ver vamos se esta crise que é também ética e moral (ou sobretudo isso) não serve também para uma melhoria da relação eleitor/eleito (e escolho escrever eleitores e não portugueses porque sabemos que a disparidade numérica entre uns e outros, essa sim, é colossal).

Já Tiago Bartolomeu Costa, crítico de teatro, estudioso da área, enfim, especialista dos palcos (e não gosto da palavra especialista, que foi banalizada e já não distingue quem é de facto especialista em algo, o que é de facto o caso), que por estes dias é comissário de um debate no Teatro São Luiz sobre Cultura e Economia, reconhece também ele que quem exerce o poder está muitas vezes alheado da realidade, fechado na gaiola protectora do gabinete. No caso da Cultura, e foi isso que entrevistei Tiago Bartolomeu Costa, é preciso entender que não vai haver mais dinheiro, diz o visado, e que o que importa é seguir por um diálogo construtivo, de perceber onde podem ser aplicadas as verbas. Porque quem manda pode estar no alto da torre, até insensível a quem é mandado, mas se quando coloca o nariz de fora e pede opiniões e ajuda apenas se depara com protestos, bota-abaixo e exigências, sem alternativas ou soluções, a coisa é capaz de não correr bem (a última leitura é minha e não de Tiago Bartolomeu Costa).

Em resumo, não basta dizer o que está mal. Isso é fácil até para uma criança de oito anos. Sejamos construtivos. Em todos os momentos da vida. Em todas as situações do percurso. A União faz a Força, já diz o povo e muito bem, e o Povo Unido jamais será vencido.

Ou então…

 

Amadurecendo

14 Nov

Escrevo umas horas depois de Angela Merkel ter voltado para a Alemanha. Para além da espuma do dia, do folclore, dos discursos mais ou menos vazios do país dos Descobrimentos, ou mais ou menos iguais do nein mais tempo nein mais dinheiro, do relato ao minuto, do papão de ovos e outras coisas que tais, ficam algumas reflexões.

A preocupação real e que não deve ser negligenciada do apelo aos portugueses de considerarem a desobediência civil. Foi hoje no Largo de Camões em Lisboa, feito por pessoas aparentemente pacíficas, mas que pelos vistos já dizem abertamente que podem partir para agressão. Que não é mais que o recurso dos pobres de espírito. Eu percebo a revolta, todos percebemos. A angústia, a raiva até. Mas violência nunca. Nada de bom vem da guerra e da agressão. Chamem-nos de brandos costumes (uma grande treta histórica). Chamem-nos de patós. Chamem-nos de moles e de fracos. Mas um gesto de violência é prova de descontrolo e de falta de razão.

Quem me conhece e quem comigo convive todos os dias sabe que sou muito crítico de Passos Coelho, de Vítor Gaspar, da troika, da austeridade excessiva e de Angela Merkel. Não participei em nenhuma manifestação mas demonstro o que penso e como vejo as coisas e o mundo de várias formas. Chegado o dia de Merkel, que os gregos apelidaram de Dia da Raiva quando a chanceler alemã lá foi, um exagero mas que nós, no nosso canto apesar de tudo protegido não devemos julgar, vesti-me de negro. Chamaram-me radical, ridículo até. Conversei com algumas pessoas sobre a visita de Merkel e sobre como acho que a Alemanha nos anda a tratar. Reafirmei que Angela é demasiado intransigente, que a Alemanha nos está a castigar em demasia, e que acho que falta espírito de solidariedade aos alemães. Portugueses, e muitos outros povos, perdoaram à Alemanha as dívidas de Guerra, sentimento solidário que levo à construção da União Europeia, mas que Merkel parece esquecer. Houve quem me dissesse que se perdoámos o problema é nosso, não o tivéssemos feito e não venhamos agora reclamar a benesse em troca. Solidariedade? Só no Bairro do Amor, na Terra dos Sonhos, diria eu. Houve também quem me dissesse que não se pode comparar um país devastado pela Guerra com um país que escolheu fazer auto-estradas e estádios de futebol. Pois bem. Eu diria, se calhar de forma, exagerada, que a Alemanha também escolheu a guerra. E que a Polónia, a Grécia, a Hungria, a Roménia, a Itália, mas também Paris e Londres ficaram destruídas pela guerra.

Chegados aqui, deu-me para pensar: Merkel, devemos agradecer a quem nos está a emprestar dinheiro? Ou devemos questionar porque é que a quem perdoamos as dívidas da II Guerra não tem agora o mesmo gesto de solidariedade, uma das traves-mestras da União Europeia? E foi este o pensamento que dominou o meu dia. Respostas não tenho. Apenas que aprendi mais uma lição hoje, a de ‘desradicalizar-me’ e a de ‘pragmatizar-me’.

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Duas notas ainda, muito rápidas.

Isabel Jonet. Em tempos desesperados precisamos de heróis mas precisamos também de bruxas para queimar nas fogueiras e de criminosos para colocar na cruz. Isabel Jonet está a ser alvo de todas as acusações e campanhas difamatórias, algumas de mesmo muito mau gosto. Isabel Jonet disse coisas acertadas, mas num tom errado. Temos que repensar como vivemos sem dúvida. Mas viver com restrições não pode ser encarado como castigo que temos que pagar. Trata-se de uma consequência, até que possamos de novo, um dia, viver de novo em melhores condições. O facto de ter sido Isabel Jonet, uma dondoca que nunca teve nem terá que fazer contas à bolsa pessoal, e ainda bem para ela, é que levou a que muitos se indignassem. Mas não é pela bitola dos outros que nos devemos medir. Isabel Jonet sabe que há pobreza, sabe que há miséria em Portugal, e cada vez mais. Mas preferiu mudar o discurso do reaprender a viver. Claro que num tom de caridadezinha cristã, que aliás é o tom do Programa de Emergência Social do governo, mas esse sempre foi o tom de Isabel Jonet. Há que moderar a sensibilidade à flor da pele e retirar o que é bom de retirar, discernir o trigo do joio do que é dito.

Convenção do Bloco de Esquerda. É triste e lamentável ver gente do PS e do PSD no Facebook a gozarem com o BE. Uns dizem que não são um partido a sério e não são para ser levados a sério (esta atitude de condescendência já provou ser errada por várias vezes ao longo da História), outros dizem que a Convenção mostrou porque é que o consumo de produtos de higiene pessoal diminuiu em Portugal. Enfim, MRPP, meninos rabinos que pintam paredes? Eles ou os outros?

É muito simples

27 Jun

‘Qual o papel da Alemanha para aumentar as exportações desses países?’

Logo que estes produtos se tornem mais baratos, a Alemanha compra.  É muito simples.

 

Esta singela resposta pertence a Roland Berger, presidente honorário da Roland Berger Strategy Consultants e antigo conselheiro do anterior chanceler alemão, Gerhard Schröder, numa entrevista a Nicolau Santos, publicada no caderno de Economia do expresso do passado Sábado. O que Berger diz pode desconcertar mas é a mais pura das verdades. Esta Alemanha comandada por Angela Merkel não está na União Europeia pelo lado solidário da comunidade. O que conta é o dinheiro e as vantagens que um mercado aberto pode garantir, como se o mais barato, qual produto da Indonésia ou da China, não significasse mão-de-obra a preços de saldo e em condições pouco dignas.

Angela Merkel parece esquecer-se que a solidariedade foi uma das fortes vertentes que presidiu à constituição da então Comunidade Económica Europeia em 1957, numa perspectiva até de ajuda e estender de mãos a uma Alemanha devastada pela guerra e humilhada pelos julgamentos de Nuremberga. Mas a actual chanceler, austera luterana, parece acreditar que o metal conta mais que o espírito de união e que a mesquinhez do dinheiro lucrado é superior ao sentimento de ajuda partilhada. Há até quem diga que Merkel está enganada e que não é a Grécia a dever a Alemanha mas sim o contrário, devido a dívidas da II Guerra Mundial, quando os nazis ocuparam Atenas. Mas isso são contas de outro rosário.

Roland Berger diz também que não acha que ‘este países (em dificuldades) precisem de mais dinheiro. Do que podem precisar é de crescimento económico. Os países que precisam de recuperar a sua competitividade devem fazer estas reformas, o que significa uma desvalorização interna, reduzindo os custos, porque estavam a crescer excessivamente nos últimos dez anos em comparação com a Alemanha.’ Será que Berger quer dizer que nenhum país pode crescer mais que a Alemanha na União Europeia? Depois de Ave Caesar temos Ave Merkel?

Num aspecto Berger tem toda a razão. Relata a certa altura o consultor que ‘estive de férias na Grécia e paguei tanto como em Tóquio. Estes tipos são loucos. Posso dizer-lhe que a filial grega da Deutsche Telekom paga mais aos seus empregados de escritório do que em Bona. Enquanto existirem estas disparidades óbvias entre a realidade e, neste caso, salários e preços, isto não funciona.’ Pois não funciona não senhor. Há que reequilibrar o que está torto. Mas que não se pense que é apertando ao máximo o nó que estava desfeito que o trapezista vai andar na corda sem cair. Afinal não é assim tão simples.

 

É nas ruas

9 Maio

«O ponto de viragem da crise é indesmentível pelos factos»

«Ajustamento acima das expectativas»

«Receios de uma recessão mais profunda» em 2011 revelaram-se infundados.

Não são frases de um sonhador. Não são desejos de um lunático. Não são expressões de um autista. Quem enunciou estas análises foi o ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Parece que, se não estamos no melhor dos mundos, para lá caminhamos. Acho que já todos percebemos que não é bem assim. Aliás, nem pouco mais ou menos. Aqui e ali, há manifestações de preocupação, mesmo que muito tímidas. Até Miguel Relvas finalmente veio assumir que os 15,3 por cento (taxa oficial) lhe tiram o sono. Esperava-se no entanto mais do CDS e da sua carga de preocupação social para puxar por Passos Coelho e por todo este Governo no combate a este drama, porque é de drama que se trata.

Não vale a pena elaborar muito mais sobre as palavras de Gaspar, as preocupações de Relvas ou a falta de acção de Pedro Mota Soares e Álvaro Santos Pereira. Vale sim a pena olhar para as ruas. Hoje, por volta da meia-noite, voltava a pé de uma sessão de cinema (a convite, claro) no El Corte Inglés, em Lisboa, e para cortar caminho até casa atravessei o topo do Parque Eduardo VII e ruas circundantes do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho. Já se sabe que é zona de prostituição, feminina e masculina, mas em alturas de Feira do Livro o negócio costuma fugir dali. No entanto estava redondamente enganado. Não só a profissão mais velha do mundo não tirou férias como ganhou muita oferta.

Já trabalhei numa rádio na zona há uns anos e durante alguns meses saí depois das duas da manhã. Habituei-me à fauna nocturna. Mas agora, em 2012, o negócio cresceu, e cresceu muito. São dezenas de mulheres e homens, de poucos em poucos metros, em todas as ruas.

Os carros de luxo, de alta cilindrada, continuam a circular, embora em menor número. Não estará esta gente desesperada, assolada pela miséria e pela destruição de vidas, para recorrer e cair nesta solução, ao mesmo tempo tão fácil e tão difícil?

A SIC exibiu recentemente uma grande reportagem que indicava que a prostituição feminina aumentou nas ruas devido à crise e que muitas daquelas que tinham conseguido finalmente fugir a vender o corpo viram-se forçadas a regressar. ‘Sensacionalismo. Eles querem é vender escândalos. Querem é audiências’, ouviu-se na altura. Tive a prova viva esta noite que, de facto, há muito mais pessoas na rua a tentar ganhar dinheiro vendendo prazer. Se a causa é a crise? É altamente provável que sim.

É nas ruas que vive esta pobreza com cada vez com menos vergonha, mas cada vez mais envergonhada do que se tornou.

 

 

 

Miguel de Abril

25 Abr

Quis o calendário que o meu texto desta semana calhasse a 25 de Abril, ‘o dia mais feliz da minha vida’, dizem muitos que o viveram. Aos 30 hoje, nasci uns anos mais tarde que a Revolução. Gostava de ter vivido esse dia, essa madrugada, que descrevem como a do alívio, do respirar, do renascer e do reviver. Faz-me confusão quem se refere com cara enjoada ao 25 de Abril, o ’25 do 4′, como lhe chamam, mas cada um terá as suas razões, e aliás também foi para isso que existiu a Revolução, para que cada um se pudesse exprimir livremente.

Este ano o 25 de Abril é mais triste. Triste porque o país está de joelhos esfolados, o desemprego descontrolado, a economia parada, a confiança dos consumidores a zeros, o crescimento uma miragem e o sentimento geral descolorido de um cinzento amargo. E ao início da noite de 24 chegou a notícia da morte do Miguel. Foi mais um soco no estômago. Por se tratar de uma morte. Por se perder alguém para uma doença tão cruel como o cancro. Por ser o Miguel.

No ano passado, enquanto jornalista do i, acompanhei a campanha eleitoral do Bloco de Esquerda para as eleições legislativas. Criámos um grupo muito castiço entre os enviados das várias televisões, rádios e jornais e fomos recebidos pela equipa do Bloco de forma calorosa. Durante duas semanas lá andámos, para norte e para sul, de escola em estação de correio, de fábrica em feira, de bar em restaurante, numa gincana animada. Francisco Louçã, Fernando Rosas, Luís Fazenda, João Semedo, Daniel Oliveira, José Manuel Pureza, Marisa Matias, só para referir os mais óbvios, fizeram parte daqueles dias. E, claro, o Miguel. Sempre bem disposto, nunca negando um sorriso, sempre com piadas de algibeira e não só, com chapéus e sandálias que só ele. Contacto fácil com as populações e com os jornalistas, deixou-nos a todos uma lembrança muito positiva. E são essas memórias que hoje temos partilhado, quase todos em choque.

Lembro-me que na altura uma colega na redacção do i me acusou todos os dias de estar comprado pelo Bloco e de estar a fazer ‘o jogo deles’. O que ela não percebeu, e que muitos não percebem, é que na política há politiquices, mexericos e coisas sem a mínima importância. E depois há pessoas como o Miguel.

PS: E por falar em politiquices, que falta de elegância, mais uma vez, as acusações de Passos Coelho a Mário Soares, Manuel Alegre e aos Capitães de Abril por faltarem às comemorações oficiais. Haja gente que ainda tem espinha dorsal e se recusa a estar ao lado daqueles que estão a afundar o que outros conquistaram.

Clear path for mister Romney

11 Abr

Foi quando não se esperava que o inevitável aconteceu. Rick Santorum anunciou que desistiu de tentar a nomeação republicana para as eleições presidenciais norte-americanas marcadas para Novembro.

Santorum sofreu um duro revés na semana passada, quando perdeu o Wisconsin, o que a juntar às derrotas copiosas em Maryland e District of Columbia, reforçou ainda mais a posição já avassaladora de Mitt Romney. Mas o ultra-conservador jurou que ia continuar na corrida e manteve os ataques ao candidato mórmon. Aliás, durante o fim-de-semana, houve movimentações no comité republicano do Texas de forma a tornar aquele estado em ‘winner take all’, ao invés de distribuição proporcional dos 155 delegados (o maior, apenas superado pela Califórnia, feudo de Romney). Desta forma, e ambicionando ainda vitórias na Carolina do Norte, Arkansas, Kentucky, Indiana, Dakota do Sul e Nebraska, a campanha de Santorum manteria a esperança viva. Isto, claro, dando por adquirido que a Pennsylvania estava ganha. Pois não estava e as últimas sondagens até indicavam que Romney podia muito bem conquistar o estado natal do ultraconservador. Foi tendo isto em consciência que levou Rick a abandonar a corrida. Já perdera uma eleição local em 2006 de forma humilhante e não podia arriscar fazê-lo outra vez (e desta vez a derrota significaria um sério revés para as primárias de 2016). Cai o pano. Rick Santorum vai agora preparar-se para daqui a quatro anos.

Acontece que o agora ex-candidato teve uma saída amarga. Não declarou o apoio a Mitt Romney, o mais que certo candidato (contrastando com Newt Gingrich, que já disse que lutaria por Romney da mesma forma que o faria por ele próprio), e embarcou num silêncio ruidoso. As agendas pessoais falam mais alto, ao que parece. Não é o silêncio que fica mal (uma das filhas de Santorum viu o seu estado de saúde agravado e é essa a prioridade de Rick). É o não apoio expresso. O caminho a sós que o ultra-conservador escolheu só prova, mais uma vez, que o quadro de candidaturas republicanas em 2012 é dos mais fracos da memória recente.

Barack Obama, muito vulnerável, agradece, e perante o ‘bluff’ que tem sido o seu mandato, talvez venha a conseguir uma vitória pouco merecida a 6 de Novembro. There is no room for Romney.

Uma manifestação por dia não sabe o bem que lhe faria

3 Abr

Uma tarde de um fim-de-semana normal, tranquilo, de início de Primavera. Um café combinado no Bairro Alto para ir visitar uma amiga que conseguiu desencantar um emprego numa altura em que eles escasseiam. Está a trabalhar num café com um salário pequenino (pouco mais que o ordenado mínimo nacional), seis dias por semana. Mas está a trabalhar.

Retomando a essa tarde, combinámos em frente à Brasileira, no Chiado. Pelo caminho o aviso que se estava atrasado devido a uma manifestação na Avenida. E no meu percurso dei de caras com um comício no Largo de Camões, da CGTP-Interjovem, com intervenção de Arménio Carlos. Trabalho, emprego, remuneração, um futuro, eram as palavras de ordem. Também é o que peço, um irónico ‘deixem-nos trabalhar’. Enquanto esperava, soam o hino da CGTP, ‘Unidade do Trabalho contra o Capital’, a Internacional, ‘De pé ó vítimas da fome’, e o Hino Nacional, ‘Heróis do Mar, Nobre Povo!’.

Entretanto chega o resto do grupo. Comparadas impressões sobre as manifs, afinal não eram as mesmas. Na Avenida desfilaram autarcas contra a reforma do poder local e a fusão de freguesias. Isto uma semana depois de mais uma greve geral convocada pela CGTP, com os lamentáveis incidentes com a PSP. E algum tempo depois da manifestação dos Anonymous. E ainda a demonstração um ano depois do 12-M, da Geração à Rasca. E esta. E aquela. E aqueloutra.

As manifestações parecem fazer agora parte do quotidiano de Lisboa. Ainda não passou um ano desde o início da aplicação da receita troikiana mas já estamos de rastos. O desemprego está fora de controlo (e o próprio Governo o admite), a Economia não cresce nem dá sinais que o vá fazer, começam a surgir notícias alarmantes na área da Saúde (sobretudo no que diz respeito aos medicamentos oncológicos), o preço dos combustíveis aumentou 38 vezes desde 1 de Janeiro (sim, 38 vezes, embora isto não tenha necessariamente que ver com o programa de ‘auxílio’), as previsões fiscais não batem certo com a realidade (não há consumo, não há actividade económica, logo não há impostos a receber, crescem os pagamentos sem factura para fugir ao IVA, enfim, não era preciso ser mago para calcular que isto iria suceder) e, o mais assustador, é o primeiro-ministro vir transmitir a Judite Sousa numa entrevista na TVI, sereno, que depois de batermos no fundo só podemos subir (La Palisse não diria melhor).

Cada dia é mais um dia e vamos sentindo, pouco a pouco, as areias movediças do pântano a subir-nos pelas plantas dos pés, pelos tornozelos, pelas canelas, pelos joelhos e por aí adiante. Mas não há que estar preocupado! Quando chegar ao lábio superior e ameaçar o nariz, por golpe de magia, vamos voltar a crescer. O que é preciso é fé! Assunção Cristas rezou para que chovesse… e choveu. Passos Coelho diz que depois de bater no fundo isto resolve-se. Mais descansados portanto. E quando isso acontecer…

A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação. É só isto.

Não vamos perder a esperança, vamos ter razão e vamos ter coração

28 Mar

Se o futebol fosse um jogo justo, estaria triste como estou, mas poderia estar um pouco menos do que o que efectivamente acontece.

O Benfica, o Glorioso, perdeu 0-1 com o Chelsea na primeira mão dos ‘quartos’ da Champions.  O todo poderoso Chelsea, representante da toda poderosa Inglaterra, com os todos poderosos rublos/dólares provenientes do petróleo e outras riquezas minerais da Rússia do todo poderoso Abramovich. O Benfica, remediado, para não dizer pobrezinho, de um país coxo, em regime de intervenção pelo FMI, sem jogadores portugueses em campo, visto como patinho feio do futebol europeu há quase duas décadas, desde a última final na então Taça dos Campeões Europeus em 1990.

Perdemos, com um golo contra a corrente do jogo, já que o Benfica estava com sinal mais, fraquinho, mas positivo. Aliás o resultado final que encaixava melhor era um zero a zero, e a haver vencedor, seria o Benfica, por margem mínima. Mas não. O árbitro, cabeleireiro de profissão, resolveu dar umas tesouradas no Benfica, daquelas que não matam mas moem, e a pastilha elástica de Jorge Jesus lá levou umas valentes ferroadas.

Nesta Europa do futebol, nas fases mais avançadas, o dinheiro parece contar muito. Não interessa ter um clube de um país falido a vencer outro de um país dominante. Claro que podem alegar que o APOEL do Chipre também chegou aqui e até venceu os franceses do Olympique de Lyon, mas até tem uma certa graça um colorido étnico.

Se o Benfica tivesse sido pior e tivesse merecido perder, hands down, já que não sou daqueles adeptos que acha que o seu clube jogou sempre melhor que o adversário. Mas até nos desenrascámos bem, muito provavelmente devido à posição provinciana do ‘vem lá o bicho-papão’, ‘um colosso da Europa’! É verdade que o Jesus fez duas substituições que mataram o Benfica, deram o golo ao Chelsea e se calhar resolveram a eliminatória. É verdade que o Emerson não tem qualidade para jogar na Luz. É verdade que os adeptos não ajudaram ao claramente apontarem ainda mais as fraquezas do brasileiro. Mas jogámos bem! Por isso perder assim custa mais, dói mais, até porque o dia foi difícil.

Visto isto, carrega Benfica! Vamos acreditar que é possível dar a volta daqui a uma semana. Não vamos perder a esperança, vamos ter razão e vamos ter coração. Vamos ignorar a dança da galinha do Drogba e os comentários jocosos de sportinguistas e portistas, deliciados com a derrota do Benfica.

Somos Benfica, somos Paixão. Somos a Glória, a Voz mais Alta de uma Nação!