Archive by Author

Entre a barbárie e a demência – o porquê de se exigir a demissão de Cavaco

25 Jan

Assinei a petição «Pedido de Demissão do Presidente da República» que anda a circular pela internet desde o fim de semana e que conta neste momento com mais de 32 mil signatários. Assinei-a não porque concorde especialmente com o texto da petição, mas sim, porque creio que Cavaco Silva não reúne as condições mínimas para exercer cargo de tal responsabilidade.  

A barbaridade proferida este fim-de-semana por Cavaco deixou o país perplexo e chegou mesmo a inspirar a veia poética do Orlando. No entanto, mais do que maldade ou alienação, o que estas declarações demonstram é que Cavaco está demente.

Diz-se nos corredores que o estado de saúde de Cavaco se tem agravado e que a perda de capacidades intelectuais é a consequência natural. Ora muito bem. Cavaco, como qualquer outra pessoa, tem direito a estar doente, tem direito a ser bem tratado, tem direito a uma velhice tranquila, tem direito a uma reforma digna, tem direito à sua privacidade e até tem direito a um prego de vez em quando. Até aqui completamente de acordo.

Agora já não me parece que faça sentido algum que uma pessoa visivelmente incapacitada exerça um cargo como o de Presidente da República. Cavaco é neste momento um fantoche demente e desarticulado nas mãos dos seus conselheiros. A sua comunicação é gerida com pinças.  Cada palavra, cada frase, cada expressão é ensaiada de forma a não haver margem para erro e nessa linha, qualquer pergunta fora do guião fica invariavelmente sem resposta. O que Cavaco faz neste momento como Presidente da República vale zero.

Por isso entendo que Cavaco, para o seu bem e para o bem de todos, se deve demitir.

Anúncios

O que se escreve no Brasil sobre Portugal

20 Jan

 

Se eu pudesse comprava com certeza uma casa portuguesa, com quatro paredes caiadas e um cheirinho de alecrim. A hora é essa. Segundo a influente revista “Visão”, o país está à venda. O estado, os bancos, as empresas, as famílias, todos estão precisando de dinheiro. Daí a moda dos leilões, que se multiplicam como “uma das formas que os portugueses encontraram para suprir as suas necessidades imediatas”. Para pagar dívidas, leiloa-se tudo: “Desde objetos pessoais ao recheio da casa, entregando os apartamentos aos bancos por não cumprimento dos empréstimos.” Mais de 140 mil famílias encontram-se com as prestações da habitação em atraso. No terceiro trimestre de 2011, cerca de 600 mil pessoas não conseguiram saldar o que deviam (é mais do que a população da cidade de Lisboa). Também as empresas estão com as suas contas atrasadas: pelo menos 6% do crédito concedido a elas, ou 7 milhões de euros, não foram pagos.

Quanto ao estado, promove a liquidação de seu patrimônio para atender às drásticas medidas de austeridade impostas pela chamada Troika (Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu), que é quem manda hoje na economia dos países do euro. Portugal já vendeu no correr do martelo 80 mil imóveis e dez mil carros, sem falar nos artigos apreendidos em portos e aeroportos (obras de arte, equipamentos eletrônicos, máquinas, sofás e até carrinhos de bebês). Mas precisa arrecadar mais, pelo menos 5 bilhões de euros, e para isso terá que privatizar suas maiores estatais, nas quais algumas empresas brasileiras estão de olho. A Eletrobrás, por exemplo, se interessa pela EDP (Energias de Portugal) e a Andrade Gutierrez já declarou a intenção de participar ativamente desse rico processo de privatização.

Estranhamente, não aparece nenhum candidato brasileiro na lista dos quatro pretendentes da TAP que “Visão” publica: British Airways/Ibéria, Qatar Airways, TAAG (angolana) e Lufthansa. No entanto, a julgar pelo que pude apurar em minha última viagem a Lisboa, a preferência da simpática companhia aérea é por uma congênere brasileira. O ex-presidente Lula teria se oferecido até para tentar atrair para o negócio uma delas, a TAM. Mas pelo visto a mediação fracassou.

Enquanto isso, os portugueses continuam fugindo da crise e buscando o Brasil. Calcula-se que nos últimos cinco anos os vistos de trabalho aumentaram quase 70%, concedidos na maioria a jovens profissionalmente qualificados. Com 20% de desemprego lá e com a expansão da economia
aqui — boom da construção civil, perspectivas do petróleo, obras para Copa do Mundo e Olimpíadas — o Brasil virou um paraíso, por exemplo, para engenheiros, arquitetos e construtores. Essa onda migratória faz lembrar o velho “Fado Tropical”, de Chico Buarque. Com tantos portugueses se mudando para cá, o Brasil, quem sabe, “ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.

Zeunir Ventura é um soixante-huitard brasileiro que escreveu, entre outras coisas, o brilhante 1968: O ano que não terminou.

Nota de imprensa: quarto dia de votações

19 Jan

Após dois primeiros de campanha intensa e quase fratricida, o processo eleitoral entrou numa fase de calmaria. Não houve até agora registo algum de nota no que toca a irregularidades no processo eleitoral. O primeiro posto continua, pelo menos para já, a ser nosso, embora desde a última nota de imprensa observamos com satisfação que o Pensar Lisboa arregaçou as mangas e tem-se feito à vida. A nossa estratégia passa agora por aproveitar a dinâmica do primeiro lugar e manter o ritmo de campanha a um nível constante. Estaremos no entanto atentos a qualquer tipo de chapelada que possa surgir até à meia-noite do último dia. Para já deixamos mais algumas notas:

1 – Os parabéns ao Pensar Lisboa pela eficiência da sua maquina eleitoral o que para um blog de dimensão local tem de ser louvado. O nosso respeito também ao André que a solo, num esforço hercúleo para não dizer quixotesco, tem conseguido manter-se no terceiro lugar assumindo-se assim como um sério candidato à segunda volta. É no entanto com uma certa apreensão que tomamos nota do rumor que liga o experenciado coordenador de campanhas autárquicas, Nuno Lacerda, aka Lapiz, ao Tapas na Língua. Tal facto ganha contornos cada vez mais plausíveis tendo em conta o crescimento contínuo desta candidatura nos últimos dias. De salientar também a luta que entretanto surgiu pela quinta posição (a última a dar acesso à segunda volta) entre o Come Chocolates Pequena, Come Chocolates e o 2 Dedos de Conversa (um blog revelação com 8 anos de vida segundo a camarada Helena). Tudo isto nos leva a crer que haverá mais entretenimento aqui do que nas primárias do Partido Republicano.

2 – O nosso desagrado perante o facto do nosso nome no boletim de voto estar incorrecto. Sabemos bem que temos sido alvo de tentativas de difamação e que a nossa vitória poderá não agradar a algumas personalidades blogosféricas. No entanto apelamos ao fair-play de todos e prometemos só fazer igual em caso de necessidade.

3 – O aviso aos nossos adversários de que lutaremos até ao fim. Estamos preparados para qualquer chapelada que possa surgir com centenas de eleitores em autocarros estacionados à porta da sede prontos a votarem em nós, em caso de extrema necessidade. Temos também pesos pesados da política, do desporto e da cultura prontos a darem o seu apoio público caso o cenário se torne negro.

4 – Em caso de tentativa de golpe de estado defenderemos de armas na mão a estabilidade e a ordem democrática. Para tal já encetamos contactos junto do Conselho de Segurança da ONU para a disponibilização de uma força de capacetes azuis. Tivemos naturalmente dificuldades em conseguir o voto favorável de alguns membros permanentes, mas com algum savoir faire conseguimos dar a volta à questão. Prometemos aos russos não voltar a dizer mal das suas sempre justas e livres eleições e prometemos aos chineses tratamento preferencial em caso de privatização do nosso blog. O mais notável aspecto da nossa capacidade diplomática foi o facto de termos conseguindo assegurar postos na administração para 3 dos nossos boys. Temos também um lobista permanente no quartel-general da NATO e temos como consultores especializados em questões militares antigos quadros do Pacto de Varsóvia, da Mossad, do EZLN e das FP25.

Boa sorte a todos e continuação de boa campanha!

PS: Por favor parem de clicar no gravatar da Joana Tadeu. Sabemos bem que a foto tem sex appeal mas garantimos-vos que não verão muito mais por clicarem lá.

PS2: Que tal um jantar da comunidade blogosférica?

PS3: Se alguém se esqueceu de votar por favor não se acanhe.

A Taxa sobre as Transacções Financeiras (TTF)

18 Jan

A ideia foi pela primeira vez referida por Keynes em 1936 no The General Theory of Employment, Interest and Money. O objectivo seria, segundo o mestre, impor uma pequena taxa sobre todas as transacções no mercado bolsista como forma de reduzir a instabilidade. Esta proposta surgiu no contexto do crash de 1929 e na observação de que a especulação era mais forte em Wall Street do que em Londres, onde o mercado bolsista era mais “supervisionado” pelo estado.

A TTF andou em banho-maria até James Tobin propor, nos anos 70, a aplicação de uma taxa, neste caso aplicada às transacções monetárias, com o objectivo de refrear os ataques especulativos às moedas nacionais. Mais tarde, em 1989, e no seguimento do mini-crash nas bolsas americanas de 1987, Joseph Stiglitz defendeu também a aplicação de uma taxa que travasse a especulação. Nos finais dos anos 90 a proposta ganha novo fôlego com a criação da ATTAC, em Dezembro de 1998, no seguimento do famoso editorial do Le Monde Diplomatique Désarmer les marchés e com o aparecimento dos movimentos alter-globalização em Seattle em 1999. A aplicação de tal taxa (apelidada de Taxa Tobin na época) tornou-se bandeira deste movimento não só pelo travão que iria impor ao capitalismo especulativo, mas também pela enorme receita que iria criar e que seria destinada a causas nobres como o combate à pobreza. Com o recuo dos movimentos alter-globalização na segunda metade dos anos 2000 a ideia perdeu novamente momentum.

É no entanto no seguimento da crise que estala em 2008, e mais concretamente na crise das dívidas soberanas que daí resultou, que a aplicação de uma TTF entra finalmente na política mainstream. Defendida hoje por personalidades tão díspares como Bill Gates, George Soros ou Sarkozy, parece que esta, de uma forma ou de outra, irá finalmente ver a luz do dia.

O Conselho Europeu liderado pela França e pela Alemanha solicitou à Comissão Europeia que apresentasse uma proposta concreta para a TTF. A Comissão fez o seu trabalho e após o estudo de impacto e apresentou a sua ideia.

A proposta da Comissão consiste basicamente na aplicação de uma taxa de 0.1% para transacções envolvendo acções e títulos e de 0.01% para transacções de produtos derivados. Há uma série de excepções previstas que visam evitar possíveis impactos negativos na economia real (mercados primários por exemplo) bem como evitar o aumento do custo do financiamento dos estados nos mercados internacionais (emissão de títulos de dívida pública por exemplo). De acordo com os peritos, o design da taxa é suficientemente forte para evitar a deslocalização de capitais para outras praças, uma vez que foi adoptado o residence principle (taxação no estado-membro onde o actor financeiro está estabelecido e não no local onde ocorre a transacção) e foram previstas uma série de outras medidas para evitar a evasão fiscal.

A proposta está neste momento em discussão no Parlamento Europeu, estando a votação final em plenário prevista para Junho. Se tudo correr bem a FTT pode logo ir ao Conselho no final de Junho. A proposta da Comissão prevê que esta, caso aprovada, entre em vigor em Janeiro de 2014.

Como muitas outras iniciativas no seio da UE o processo de decisão prevê-se lento, pesado, como se de um esforço titânico se tratasse. Após o fracasso da aplicação da TTF a nível global no último G20 em Cannes, dada a oposição de países como os EUA e o Canadá, as baterias viraram-se para a UE. Na lógica de que ou se aplica a nível global ou não há TTF o Reino Unido já veio dizer que não vai deixar passar a iniciativa no Conselho (como é uma taxa a decisão é tomada por unanimidade). A Suécia, pela má experiência que teve ao aplicar algo semelhante nos anos 90, juntou-se ao grupo dos contra e há alguns outros países renitentes.

No entanto a França, que se tem assumido como o principal proponente (e que talvez tenha pago recentemente a ousadia com a descida do seu rating) com o apoio da Alemanha, já veio dizer que fará tudo para avançar com a TTF e que em último caso a aplicará apenas nacionalmente. A posição poderá parece quixotesca mas na verdade o que Sarkozy defende, em véspera de eleições, é apenas o regresso de uma taxa que ele próprio aboliu em 2008. Por linhas tortas, é certo, mas o líder francês vai escrevendo direito. O Reino Unido também não é virgem nesta história. De facto, há mais de 25 anos que se aplica uma espécie de imposto de selo a alguns tipos de transacções financeiras na Bolsa de Londres.

Dado o mais que provável veto britânico o cenário realista aponta a Zona Euro como o espaço mínimo para a adopção da TTF. A ideia é dar o exemplo (e garantir receita, claro) e a partir daí levar a que outros estados sigam o mesmo caminho. Os EUA são naturalmente um dos mais importantes pontos da finança global contudo, em ano de eleições, Obama não se arriscará a lançar o debate nesta fase, apesar de haver vontade política de alguns sectores do Partido Democrata. Brasil e Argentina já disseram que apoiariam. Vamos ver.

A história promete ser longa e cheia de avanços e recuos. A TTF não será a solução milagrosa que tirará a Europa da crise profunda em que vive ou o remendo para salvar o capitalismo dos seus devaneios. Ainda assim, os seus efeitos são mais do que positivos e a receita arrecadada poderia ser um importante estimulante a injectar na economia real. Uma espécie de Plano Marshall pago pela finança global que faria muito mais pela retoma económica e que seria muito mais justo do que qualquer outra medida das que têm sido propostas.

Nota de imprensa: primeiro dia de votações

15 Jan

Queremos anunciar que é com satisfação comedida que vemos chegar ao fim este primeiro dia de campanha eleitoral e de votações. A procissão ainda vai no adro mas agradecemos desde já a todos aqueles e aquelas que votaram em nós. Aproveitamos também para saudar a invasão de visitantes que aqui chegaram nas últimas horas, curiosos, amigos, desconhecidos ou ciumentos da nossa posição.

Uma primeira análise dos resultados do dia indica que para já há três candidaturas em jogo para além da nossa: Ainda que os Amantes se Percam; Tapas na Língua e Pensar Lisboa. Não se pode descartar a possibilidade, no entanto, de qualquer uma das restantes a dada altura entrar nas contas da corrida.

Uma saudação especial à Jahmilla, do Tapas na Língua, há muito fora do radar e que aparece assim do nada a competir connosco. Um abraço ao André do Ainda que os Amantes se Percam que tem cacicado pelo facebook com toda a alma e com alguns resultados. E finalmente um voto de boa sorte à malta do Pensar Lisboa que não fazemos a mínima ideia de quem seja.

Não viraremos a cara à luta! Cada voto conta! O cacique informático é o caminho! Standard’s and People, Pá! para blog revelação 2011!

10 Jan

Os camaradas do Aventar lançaram o mote e o Standard’s and People, Pá! apresentou a sua candidatura a blog revelação 2011. Ao contrário do que acontece no Combate de Blogs, aqui toda a gente pode participar e como tal a cunha deixa de ser determinante para a nomeação (só assim se explica o embuste que foi um blog do estilo do Portugal Uncut ter sido nomeado no concurso acima referido).

Caso tudo corra bem as votações decorrerão entre 15 e 21 de Janeiro numa primeira fase e entre 23 e 28 de Janeiro numa segunda fase com os cinco mais votados de cada categoria. O nosso objectivo para já é o meio da tabela ou quem sabe um pouquinho acima. É preciso evitar a todo o custo um desprestigiante lugar de despromoção e nesse sentido prometemos cacicar com todas as nossas forças.

A lista de candidatos ainda não está fechada, mas do que se pode ver, para já, a concorrência não está muito forte. A campanha noutras bandas ainda vai mansa. Em condições normais teríamos algumas hipóteses de disputar os lugares cimeiros, mas como se trata de voto pela internet, vai ser mais difícil. Certamente que camaradas mais batidos em cacique informático trabalharão bem melhor do que nós. Ainda assim iremos à luta.

O comité central do Standard’s & People, Pá! reuniu e, em nome da transparência e como forma de dar o exemplo, decidiu apresentar a sua estratégia eleitoral publicamente. Para já a nossa acção passa pelo seguinte:

1 – Posts de apelo ao voto de 30 em 30 minutos no facebook;

2 – Solicitar o maior número de amizades no facebook, principalmente de mentes jovens facilmente influenciáveis;

3 – Oferecer o nosso apoio oficial a blogs concorrentes noutras categorias em troca do respectivo apoio à nossa candidatura (enviem propostas);

4 – Postar links de apelo ao voto nas caixas de comentários de jornais como o Correio da Manhã;

5 – Enviar mails e sms de apelo ao voto a todos os nossos contactos;

6 – Votar pessoalmente em cada computador disponível em bibliotecas, universidades, locais de trabalho, etc.

7 – Contratar um hacker informático que nos garanta um significativo número de votos;

8 – Atacar violentamente os nossos adversários;

9 – Bisbilhotar o passado político, profissional e pessoal dos nossos principais adversários de forma a lançar campanhas negras;

Em relação à estrutura de campanha várias ideias foram lançadas. Iremos pedir uns trocos aqui ali para tentar contratar o Vitor Pereira para director de campanha. Caso o Pinto da Costa teime em acreditar nele teremos o Renato Teixeira e o João Gomes de Almeida com segunda e terceira escolhas. Para a assessoria de imprensa a escolha recaiu sobre Daniel Oliveira. Em último recurso teremos sempre um tal de Martinez como solução a custo zero e que certamente não fará muito pior trabalho do que fez aqui. Para colar cartazes o nome escolhido foi um tal de Sapage na condição, segundo fontes seguras, de que este aceitará o trabalho caso o chamemos de algo do tipo vice-sub-secretário adjunto para a propaganda.

Estamos também a pensar convidar o Rodrigo Ferrão para mandatário para a cultura, Sam Bagel para as comunidades africanas e erasmus, Maria João Pinto para as questões sentimentais e Nuno Paz para a insularidade.

Em breve apresentaremos a nossa lista de apoiantes e traremos mais novidades.

Boa sorte a todos!

Até para o ano camaradas!

30 Dez

Já o devo ter dito por aqui algures mas posso repetir. A minha época do ano favorita é aquela que começa uns dias antes do 25 de Abril e termina pouco depois do 1 de Maio. Os motivos são óbvios: a televisão passa documentários da revolução, escuta-se mais Zeca Afonso e outros cantores de protesto e há um certo espírito de festa, de esperança e de combate no ar. Vamos a festas em associações, andamos de cravo na mão, na lapela ou noutro lado qualquer e participamos na manifestações que se realizam. A lágrima está sempre pronta a cair, basta haver um momento mais intenso que o normal, seja no cantar da Grândola à meia noite de 24 seja numa passagem mais romântica de qualquer documentário sobre a revolução. Em Portugal passa-se melhor, mas noutros sítios também não se passa mal. Há sempre comunidades portuguesas, associações culturais ou em último caso a internet.

A minha segunda época favorita do ano é aquela que começa pouco depois do Natal e termina pouco após a passagem de ano. O Natal pouco ou nada me diz, mas a passagem de ano e os dias que a antecedem têm o seu quê. O regresso a casa para quem está fora propicia reencontros que só acontecem nesta época. Cruzam-se temporariamente caminhos que a vida teima em separar. Partilham-se sonhos e projectos mas também tristezas e desilusões. Faz-se o balanço do ano, seja no capítulo pessoal seja no plano comum e coloca-se tudo em perspectiva. Como resultado de todo este processo surgem as resoluções para o ano seguinte.

O balanço de 2011 já começou aqui pela mão do Diogo Gaivoto. Mais virão provavelmente seja pela pena mordaz do Orlando Lopes de Sá, pelo rigor analítico do Francisco Freitas ou pelo espírito de missão do Carlos Alberto Videira. Também se espera muito da prosa profissional do Pedro Vaz Marques e da Joana Tadeu assim como da visão estético-política da Joana Ferraz e do olhar atento do Diogo Silva. Há muito que se aguardam também os regressos da Teresa Ferraz pela sua combatividade e da Beatriz Guimarães pelo seu toque científico. Da minha parte deixo algumas notas sobre o ano que está prestes a acabar.

Sou obrigado a concordar com a revista Time relativamente à escolha do activista anónimo como personalidade do ano. 2011 foi um ano onde as ruas se encheram com muita dinâmica. No mundo árabe caíram ditadores (incluindo Berlusconi) e no mundo ocidental colocou-se em causa a lógica do sistema económico. Na música, Parva que sou foi sem dúvida a canção do ano, quer pelo significado que teve quer pelo que originou a seguir. Na música, vai também uma menção honrosa para os Homens da Luta e um grande bem haja para a Cesária Évora. No cinema não consigo destacar nenhum nome bem acima dos restantes. Tivemos bons filmes do Woody Allen, do Almodóvar e do Nanni Moretti, mas o que mais gostei foi o do Robert Guédiguian. Em literatura foi um ano fraco para mim, li muito pouco e como tal não tenho nada de grande relevo a destacar.

2011 foi também um ano onde se observou em grande escala a subjugação do poder político face ao económico. De cima a baixo todas as figuras políticas demonstraram incapacidade para liderar em tempos difíceis. Desde Barack Obama que criou expectativas inimagináveis, a Angela Merkel, Durão Barroso ou Sarkozy que nunca criaram expectativa alguma, pouca coisa de bom há para salientar. Menção (des)honrosa vai para Fernando Nobre pelos motivos mais do que explorados neste blog. No futebol apenas uma referência: André Villas Boas. Se Nobre já nos tinha mostrado como é possível descer do céu ao inferno em meia dúzia de meses, Villas Boas provou que o estatuto de lenda ficará apenas reservado a José Mourinho.

Desejo um óptimo 2012 a todos. Certamente será um ano cheio de mudanças. Esperemos que seja para melhor!

PS: Que Andy Schleck ganhe finalmente o Tour.

PS2: Que o Porto seja campeão mas que despeça o Vitor Pereira e arranje um treinador a sério.

Mais duas banhadas eleitorais

7 Dez

Eleições fraudulentas, infelizmente, é coisa que ainda abunda. Esta semana foram mais dois casos a juntar-se à lista: Rússia e República Democrática do Congo (que de democrático só tem mesmo o nome).

Na RDC Kabila prepara-se para clamar vitória. A violência no país já matou cerca de duas dezenas de pessoas e pelo andar da carruagem a situação parece que vai mesmo descambar. Ontem e anteontem por exemplo a comunidade Congolesa residente em Bruxelas e em muitas outras partes do mundo manifestou-se de forma bastante agressiva na denúncia desta fraude eleitoral (ver também aqui).

Na Rússia o partido de Vladimir Putin, Rússia Unida, “venceu” as eleições. Observadores eleitorais, oposição e até Gorbachov denunciaram a fraude e pedem novas eleições. A isto Putin reage com repressão e prende centenas de opositores...

 

Quem ganha com o aumento da violência? A polícia? O governo? Os media?

30 Nov

Esta pergunta dá pano para muita manga mas a sua resposta poderá ajudar a perceber o que realmente está em causa. Os incidentes que decorreram durante a greve geral de 24 de Novembro têm sido amplamente difundidos e discutidos pela blogosfera. Exigem-se mais esclarecimentos, há que peça a cabeça de Miguel Macedo e de Guedes da Silva (Director da PSP) e difundem-se fotos de alegados agentes policiais infiltrados na manifestação responsáveis por desencadear confusão (algumas neste texto). Veja-se por exemplo aqui, aqui, aqui ou aqui.

A confirmar-se que de facto a polícia infiltrou agentes para desencadear distúrbios no seio da manifestação há responsabilidades que terão de ser assumidas.

Mas voltando à questão inicial, quem ganha com isto? A polícia que justifica assim ao poder político a necessidade de um orçamento mais generoso de forma a fazer face ao aumento da violência? O Governo que descredibiliza assim os manifestantes junto da opinião pública e ganha mais espaço para aplicar o seu programa? Os jornalistas mainstream que parecem adolescentes excitados em busca de uma pinga de sangue? Ou todos eles? 

O cúmulo da política de austeridade – o exemplo alemão – das deutsche Beispiel

23 Nov

Os alemães são pessoas porreiras mas no que toca a dinheiros reza o senso comum, muitas vezes comprovado pela realidade, que não são flor que se cheire. Já se sabe que o compasso de espera para sacar a carteira do bolso e pagar a conta é normalmente muito maior num alemão. Isto resulta, claro está, que nacionalidades com outra forma de ver o mundo e talvez menos paciência para este tipo de impasses acabem por arcar com a dita cuja. Também se sabe que não convém muito ser lesto a pagar rodadas quando há alemães ao barulho. O risco de quando chegar a vez do alemão pagar a rodada ser hora de ir embora é enorme.

Alguns dizem que é por isto que a Alemanha é o que é. Talvez seja. Mas não só. Recentemente uma interessante troca de correspondência entre um alemão e um grego veio pôr a nu algumas nuances e colocar em causa verdades ditas absolutas. Vale mesmo a pena ler.

Mas tudo isto não é nada comparado com o caso que vou agora relatar. Fiquei boquiaberto. Reinhilt Weigel é uma rapariga alemã de 38 anos. Em 2003 decidiu meter a mochila às costas e foi parar à Colombia. Juntamente com mais sete companheiros de viagem foi raptada pelo ELN quando passava a noite na Cidade Perdida em Serra Nevada de Santa Marta. Passou ao todo 76 dias de cativeiro  (brilhantemente relatados no filme My Kidnaper) até ser finalmente libertada. Uns tempos depois, após voltar a casa, recebeu um presente inesperado: o estado alemão apresentou-lhe a factura da viagem de helicóptero alugado para a ir buscar! O caso foi parar à justiça e após vários avanços e recuos, a mais alta instância da justiça alemã condenou Reinhilt ao pagamento de 12,640.05 Euros alegando que foi decisão dela viajar para um país com elevado risco de sequestro. 

Bizarro, não? Mas talvez isto nos diga muito sobre a tal Europa que os alemães querem liderar.