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Arte Urbana em Lisboa

15 Ago

Boa noite!

Antes de mais, as minhas sinceras desculpas pela ausência prolongada. Estive a trabalhar em colónias de férias durante este tempo e não havia tempo nem possibilidade no local para acesso a internet – algo com que contava.

Regressado desse mês longe da civilização, apraz-me encontrar Lisboa com um aspecto novo em muitos dos locais que frequentei. Há muito que acho completamente desaproveitado o talento de muitos graffiters pelo nosso país. Por um lado, para se iniciarem necessitam (como em qualquer outra arte) de um sítio de experimentação e acabam por pintar prédios ou muros alheios com desenhos pouco dignos da designação de “arte” e mais dignos de vandalismo urbano. Por outro, para estes “artistas” terem a sua iniciação são necessários ateliers ou espaços em que possam criar esboços e executá-los (o que se torna difícil pela dimensão que estas obras de arte exigem). Algo que já me lembrei seria criar um atelier de arquitectura aliada ao graffiti que pudesse  começar por requalificar bairros sociais ou áreas suburbanas e avançasse depois para a criação de projectos mais ambiciosos.

No domingo passado pude visitar a Galeria de Arte Urbana de Lisboa (GAU) e devo dizer que é uma paragem obrigatória para quem queira visitar a baixa lisboeta. Os jovens que graffitam são, na sua maioria, oriundos de bairros sociais e, digo-o por conhecer a realidade, nestes locais as oportunidades raramente abundam. É curioso verificar que é precisamente num sítio destes (em que a probabilidade de conseguirem estudar durante 12 anos ser menor do que a média da população, em que a probabilidade de lhes ser recusado emprego apenas pela morada apresentada é maior do que a média da população, em que os indicadores de desenvolvimento humano são menos animadores em média) que a imaginação pode voar mais alto e aterrar numa parede para ser considerada Arte Urbana.

Foi com grande satisfação que vi esta oportunidade dada. Outra forma de aproveitar o talento dos artistas urbanos foi também a decoração de caixotes do lixo, que trouxe uma nova cor e dinamismo a algo comummente tão banal como um vidrão ou papelão.

A GAU é um exemplo a seguir pelo resto das cidades portuguesas. Ao contrário do que vejo (em geral) apregoar, não existem só maus exemplos pelo nosso Portugal fora.

P.S.: a propósito, um graffiti em Lisboa entrou nos top 10 do Mundo, vale a pena visitá-lo na Av. Fontes Pereira de Melo

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Parabéns, Passos Coelho

17 Jul

Muito boa tarde!

Estou a escrever este post num sábado, dia 16, após uma semana completa de quase ausência de noticiários no meu quotidiano, exceptuando os que consegui ir acompanhando pela rádio. No entanto, houve uma notícia que me surpreendeu pela positiva e pela negativa: a dispensa, no Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, do uso de gravata. Pela positiva, pois é algo que me parece bastante inteligente e um daqueles cortes simples mas que, juntando a outro tipo de medidas, cria um bom impacto. Pela negativa porque não se compreende como é que esta medida não foi tomada há mais tempo, juntamente com outras que enumerarei nesta crónica.

Apesar de me parecer ligeiramente populista (toda a medida política é populista na medida em que pretende agradar ao povo que elege os seus representantes – umas mais que outras), não me parece um mau populismo. Fala-se deste termo como se fosse uma diabolização

– aí estão eles a querer medidas só para agradar às pessoas

– está-se mesmo a ver por que é que fizeram isto, são todos iguais

entre outras expressões, são algo comum de ouvir na nossa sociedade. Não vejo, no entanto, mal nenhum em se ser populista desde que se seja também profissional no que se faz e não se vise apenas e só a satisfação dos cidadãos, mas também a sustentabilidade das medidas. Baixar o IVA para 0% seria uma medida populista mas que acabaria com o Estado num ápice se não viesse acompanhada de mais nenhuma medida que cortasse na despesa ou aumentasse a receita, por exemplo.

O Estado deve liderar pelo exemplo, como qualquer liderança em qualquer tipo de organização. Só assim se pode credibilizar novamente junto dos Portugueses, só assim pode explicar como agir, só assim teremos um bom Estado – aqui ou na China.

Estranho é que esta medida não tenha sido tomada mais cedo. A juntar à troca de bilhetes de avião de executiva para económica e ao corte nas regalias do Governo, temos um bom começo no que toca a dar o exemplo. São gastos supérfluos que já podiam ter sido banidos há mais que muito tempo e que, habitualmente, ficam escondidos sem passar para a opinião pública, curiosamente. Mais curioso é que os tenha mantido um Governo socialista e que os venha cortar um Governo social-democrata, mas isso são outras histórias.

Poder-se-á argumentar que não é suficiente, que a medida de Assunção Cristas deveria durar todo o ano (engenheiros de topo são conhecidos muitas vezes pela camisa desfraldada e ar pouco cuidado), que as despesas de representatividade ainda são imensas (porquê andar em Mercedes e BMW e não em Fiat ou até em carros eléctricos portugueses – que existem!), que se deveriam alargar estas medidas a todos os contextos e Ministérios. Concordo, mas compreendo também a precaução – estão-se a mexer em regalias que os deputados têm e que costumam defender acerrimamente desde há décadas, não é fácil de engolir este tipo de decisões no meio político. Espero ansiosamente que prossigam neste caminho e que a falta de força inicial para derrubar barreiras deste tipo se transforme numa enorme bola de neve que possa derrubar muitas mais, com um ímpeto cada vez maior.

Este tipo de medidas é de aplaudir, pois só assim – com a nossa intervenção activa em todos os passos – a democracia pode ser exercida e um Governo pode ganhar força em medidas que considero positivas. Todos têm direito à crítica construtiva ou destrutiva, mas lamento que neste País o primeiro coro que se venha fazer ouvir seja constantemente o das críticas destrutivas. Assim, ser-nos-á difícil avançar em qualquer direcção, em que época seja.

Para já, e apesar de não ter votado neste senhor (tornaria a não votar nele se houvesse hoje nova votação), tenho a dizer apenas um

– Parabéns, Passos Coelho.

O que nos falta?

10 Jul

Após anos de envolvimento entre este velho continente e o Mar, a classe política finalmente começa a acordar para esta situação.

No nosso país, a primeira estrutura criada foi a Comissão Estratégica dos Oceanos, em 2003, por durão barroso. Objectivo? Traçar uma verdadeira linha orientadora para este sector.  Do relatório de actividades constavam três grandes objectivos:

– Valorizar a associação de Portugal ao oceano como factor de identidade;

– Assegurar o conhecimento e a protecção do oceano;

– Promover o desenvolvimento sustentável das actividades económicas;

– Assumir internacionalmente em posição de destaque e de especialização em assuntos do oceano;

– Construir uma estrutura institucional moderna de gestão do oceano.

Apesar da visão futurista, pouco do trabalho desta comissão saiu do papel. Criou-se, no entanto, em 2005 – com o primeiro governo de josé socrates – a Estratégia Nacional para o Mar, passo importante na implementação prática da linha traçada pela Comissão. Nesta estratégia, sobressaem três pilares necessários para a construção de uma economia marítima próspera:

– conhecimento;

– planeamento e ordenamento espacial;

– defesa activa dos interesses nacionais.

Com a liderança mundial assumida nesta área desde a expo 98 à qual a comitiva portuguesa na ONU conseguiu aliar o ano internacional dos oceanos, não se torna depois surpreendente que o apoio dado a países emergentes nessa época tenha revertido em votos que nos elegeram para o conselho de segurança desta mesma organização.

O mesmo durão barroso, em 2004, enquanto presidente da comissão europeia, encarregou joseph borg, ex-ministro dos negócios estrangeiros de malta, para liderar a pasta dos assuntos marítimos e pescas, com vista à criação de uma política europeia. A mesma foi delineada no Livro Verde, criado em 2006, que não destoa em grande parte do que já estava escrito na Estratégia Nacional para o Mar, mostrando o bom trabalho já feito no nosso país. Terminada a consulta pública, a comissão europeia adoptou em outubro de 2007 o Livro Azul que ditava a Política Marítima Integrada de união europeia.

As seguintes medidas constavam deste livro:

– criação de um espaço comum de transporte marítimo europeu sem barreiras;

– elaboração de uma estratégia europeia para a investigação marinha;

– desenvolvimento de uma rede europeia de vigilância marítima;

– redacção de linhas directizes para a elaboração pelos estados-membros das suas políticas marítimas nacionais integradas;

– guião para o desenvolvimento pelos estados-membros do planeamento e ordenamento do espaço marítimo;

– estratégia de adaptação às alterações climáticas nas regiões costeiras na europa;

– redução das emissões de CO2 e da poluição causada por navios;

– eliminação da pesca pirata e das práticas destrutivas do arrasto de fundo, no alto-mar;

– rede europeia de clusters marítimos;

– reexame das exclusões previstas na legislação laboral da união europeia para os sectores do transporte marítimo e da pesca.

Termino com esta crónica o assunto, por agora. Espero que tenha compreendido a importância deste sector no panorama nacional, no reencontro connosco próprios e a identidade nacional. Por cá, são várias as associações como os SOS Salvem o Surf, o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente), entre tantas outras associações têm focado o seu trabalho nos oceanos. Estamos prontos para agir.

 O que nos falta?

 

Carpe Diem

Diogo

que usos dar ao Mar (e que estratégias estamos já a adoptar)?

3 Jul

Foi com esta interrogação que acabei a minha última intervenção.

Se te questionar(es)

– a que é que associas o Mar?

– barcos e pesca

– pois, passado

digo-te eu. Isso tratava-se do uso tradicional do Mar. Hoje, vamos mais além.

Devemos mudar o paradigma com estes novos significados:

– exploração offshore de gás e petróleo

– energias renováveis (marés, ondas, éolica offshore – um bom dossier sobre esta energia neste site)

– grandes reservas marinhas para a preservação da biodiversidade

– aquacultura onshore e offshore (para mais informações recomendo vivamente irem aqui), incluíndo algas para produzir biomassa e biocombustíveis ou até o fabrico de papel

– transporte de curta distância nas costas europeias

– prospecção e exploração dos fundos marinhos para obtenção de novos recursos naturais (desenvolvimento da biotecnologia marinha e sua aplicação na farmacêutica, cosmética e indústria alimentar)

– extracção de inertes

entre tantos outros usos, sem nunca esquecer, obviamente, a sustentabilidade (creio mesmo que esta é o valor fundamental de qualquer actividade humana na era actual).

– como concretizar esta mudança de paradigma

pergunta-me a/o leitora/leitor. Como frisa, tiago pitta e cunha no seu livro  Portugal e o Mar, À Redescoberta da Geografia, (já referido por mim anteriormente, numa edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Abril de 2011), “só quando aceitarmos a dissociação entre políticas e tutelas poderemos ter políticas que dependam de várias tutelas e haver tutelas que partilhem o exercício de uma mesma política”. É necessário nos assuntos do Mar uma política transversal, interministerial, mais do que um ministério pomposo ou uma secretaria de estado. Como muitas outras pastas, o alcance do Mar vai além de um ministério – envolve transportes, pescas, energias, planeamento territorial, entre tantos outros tópicos. Assim como não faz sentido um ministério da terra não faz sentido um ministério da terra que concentre a tutela das actividades terrestres, não faz sentido um ministério do Mar. É urgente criar uma pasta para os assuntos do Mar.

Nos próximos anos, dois grandes factores ganharão relevo:

– “ordenamento e planeamento espacial do Mar, para se poder fomentar desenvolvimento económico, com harmonia de usos do Mar e respeito pela integridade do ambiente marinho”

– “valoração dos serviços ecossistémicos que o ambiente marinho e costeiro nos prestam e começasm a ser vistos eles mesmos como um activo económico a preservar e explorar sustentadamente”

Se portugal se quer Portugal e um país de futuro, temos que criar uma imagem de marca e essa imagem pode muito bem ser o Mar. Como ouvi um dia um comentador político afirmar “o brasil pode ter favelas, milhões abaixo do limiar da pobreza, criminalidade, insegurança, mas a marca brasil é alegria, grandes praias, mulheres bonitas, um país de sonho, é isso que passa cá para fora e é isso que, em último caso, importa no comércio internacional – qualquer investidor gostaria hoje de investir no brasil”. O mau branding começa em nós quando falamos com estrangeiros e apenas mostramos uma imagem negativa do país.

– então e as estratégias nacionais e europeias já adoptadas ou a adoptar que nos tinhas prometido?

– para a semana, cara/caro leitora/leitor, para a semana.

Ate lá,

Carpe Diem

Diogo

Portugal é 18 vezes mais Mar do que terra, uma pequena lição de história

26 Jun

– o que é que aconteceu ao Mar

perguntar-se-ão vocês.

 

Começo esta minha primeira intervenção com um texto muito baseado no livro que estou a ler de momento – Pitta e Cunha, Tiago,  Portugal e o Mar, À Redescoberta da Geografia, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Abril de 2011. Neste ensaio, o antigo coordenador da Comissão Estratégica para os Oceanos disserta acerca do passado, presente e futuro deste recurso, outrora infindável, mas ainda escassamente aproveitado.

Posso começar a estória (ou será história?) com uma bela época recente do nosso país: o pós-25 de abril. Então aqui vai

– era uma vez um ditador. Este ditador governava um império, dizia ele, e esse império tinha como ponto central de ligação e identidade o mar: aquele oceano imenso que  rodeava o orgulhoso portugal, nos havia feito conquistar províncias além bojador e deter uns quantos molhos de escravos, que graças à nossa superior inteligência (ou terá sido às armas e exércitos colonialistas contra tribos desprotegidas?) estavam subjugados nos nossos territórios ultramarinos

(- novamente a palavra mar, até no nome do território)

– bem dito, caro leitor. Acontece que, um dia, o povo dominado em terras aquém e além mar se cansou do senhor ditador e os seus amigos, lhe deu um chuto no rabo (atalhando na estória) e instalou aquilo a que se chama democracia (o governo do povo). A senhora Democracia restituiu o debate livre à sociedade e trouxe de volta um valor há muito perdido – a liberdade de expressão. Essa mesma, aliada ao cansaço de anos de ditadura, levaram-nos, enquanto povo, a rejeitar o mar e querer europa, uma decisão de ruptura com pelo menos quinhentos anos de história de portugal. A percepção da importância estratégica do Mar havia sido descoberta ainda no decurso da primeira dinastia, quando o desígnio de um país independente recorreu ao mar para se demarcar de leão e castela.

Depois vêem anos e anos de histórias, estórias, lendas, navegadores e a europa desde a época de 80. Esta europa, levou-nos a pensar sermos um país periférico – como tantas vezes se diz e ouve, mas

que país pode ser periférico situando-se  na fronteira entre dois continentes, sendo a porta de entrada para a a mesma europa e o Mar mediterrâneo e com a maior zona económica exclusiva de um continente

pergunto eu. Este abandono era justificável para a época, mas não faz qualquer sentido hoje – e o próprio oceano tem-nos dado motivos para o apoiarmos agora, em época de crise, mais do que nunca. É urgente associar o Mar à inovação, ao futuro e a oportunidades económicas lucrativas e não a um passado, duras condições de vida e ausência de relevo económico. Mar = Império é uma associação que já não existe, apesar de insistimos em fazer perdurar.

Para vos elucidar dou apenas alguns números:

– 60% do pescado consumido em portugal é importado

– portugal é um dos países costeiros da europa com menos barcos de recreio por habitante (num país nórdico são cerca de 150 por mil habitantes, cá são 10)

– portugal gera no Mar um valor três vezes inferior ao da bélgica, que tem menos 100km de costa do que nós, ou seja, menos de um décimo da costa Portuguesa

– a dinamarca, com bastante menos população do que o nosso país, produz seis vezes mais valor no Mar e gera três vezes mais emprego

– somos 18 vezes mais Mar do que terra

chega?

Temos a obrigação de “passar a perspectivar-nos, não como o pequeno país terrestre que somos à escala mundial, mas como a grande nação oceânica mundial que também poderemos ser se soubermos aproveitar o Mar“, facto que nos ajudará a “reconciliarmo-nos com a nossa História, bem como a tirar partido da nossa centralidade e da nossa geografia, em vez de apenas nos lamentarmos dela“, diz-nos tiago pitta e cunha.

No entanto, como diz o mesmo, “saber explorar não significa explorar muito, mas explorar sustentadamente, porque, se a exploração económica não estiver baseada em rigorosos critérios de sustentabilidade, ela não será sequer admitida, muito menos bem sucedida“.

Ainda assim,

– que usos dar ao Mar e que estratégias estamos já a adoptar?

é a essa afirmação que responderei na próxima crónica.

 

Sejamos Mar,

e não mar.

 

Ate lá,

Carpe Diem

 

Diogo