Amadurecendo

14 Nov

Escrevo umas horas depois de Angela Merkel ter voltado para a Alemanha. Para além da espuma do dia, do folclore, dos discursos mais ou menos vazios do país dos Descobrimentos, ou mais ou menos iguais do nein mais tempo nein mais dinheiro, do relato ao minuto, do papão de ovos e outras coisas que tais, ficam algumas reflexões.

A preocupação real e que não deve ser negligenciada do apelo aos portugueses de considerarem a desobediência civil. Foi hoje no Largo de Camões em Lisboa, feito por pessoas aparentemente pacíficas, mas que pelos vistos já dizem abertamente que podem partir para agressão. Que não é mais que o recurso dos pobres de espírito. Eu percebo a revolta, todos percebemos. A angústia, a raiva até. Mas violência nunca. Nada de bom vem da guerra e da agressão. Chamem-nos de brandos costumes (uma grande treta histórica). Chamem-nos de patós. Chamem-nos de moles e de fracos. Mas um gesto de violência é prova de descontrolo e de falta de razão.

Quem me conhece e quem comigo convive todos os dias sabe que sou muito crítico de Passos Coelho, de Vítor Gaspar, da troika, da austeridade excessiva e de Angela Merkel. Não participei em nenhuma manifestação mas demonstro o que penso e como vejo as coisas e o mundo de várias formas. Chegado o dia de Merkel, que os gregos apelidaram de Dia da Raiva quando a chanceler alemã lá foi, um exagero mas que nós, no nosso canto apesar de tudo protegido não devemos julgar, vesti-me de negro. Chamaram-me radical, ridículo até. Conversei com algumas pessoas sobre a visita de Merkel e sobre como acho que a Alemanha nos anda a tratar. Reafirmei que Angela é demasiado intransigente, que a Alemanha nos está a castigar em demasia, e que acho que falta espírito de solidariedade aos alemães. Portugueses, e muitos outros povos, perdoaram à Alemanha as dívidas de Guerra, sentimento solidário que levo à construção da União Europeia, mas que Merkel parece esquecer. Houve quem me dissesse que se perdoámos o problema é nosso, não o tivéssemos feito e não venhamos agora reclamar a benesse em troca. Solidariedade? Só no Bairro do Amor, na Terra dos Sonhos, diria eu. Houve também quem me dissesse que não se pode comparar um país devastado pela Guerra com um país que escolheu fazer auto-estradas e estádios de futebol. Pois bem. Eu diria, se calhar de forma, exagerada, que a Alemanha também escolheu a guerra. E que a Polónia, a Grécia, a Hungria, a Roménia, a Itália, mas também Paris e Londres ficaram destruídas pela guerra.

Chegados aqui, deu-me para pensar: Merkel, devemos agradecer a quem nos está a emprestar dinheiro? Ou devemos questionar porque é que a quem perdoamos as dívidas da II Guerra não tem agora o mesmo gesto de solidariedade, uma das traves-mestras da União Europeia? E foi este o pensamento que dominou o meu dia. Respostas não tenho. Apenas que aprendi mais uma lição hoje, a de ‘desradicalizar-me’ e a de ‘pragmatizar-me’.

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Duas notas ainda, muito rápidas.

Isabel Jonet. Em tempos desesperados precisamos de heróis mas precisamos também de bruxas para queimar nas fogueiras e de criminosos para colocar na cruz. Isabel Jonet está a ser alvo de todas as acusações e campanhas difamatórias, algumas de mesmo muito mau gosto. Isabel Jonet disse coisas acertadas, mas num tom errado. Temos que repensar como vivemos sem dúvida. Mas viver com restrições não pode ser encarado como castigo que temos que pagar. Trata-se de uma consequência, até que possamos de novo, um dia, viver de novo em melhores condições. O facto de ter sido Isabel Jonet, uma dondoca que nunca teve nem terá que fazer contas à bolsa pessoal, e ainda bem para ela, é que levou a que muitos se indignassem. Mas não é pela bitola dos outros que nos devemos medir. Isabel Jonet sabe que há pobreza, sabe que há miséria em Portugal, e cada vez mais. Mas preferiu mudar o discurso do reaprender a viver. Claro que num tom de caridadezinha cristã, que aliás é o tom do Programa de Emergência Social do governo, mas esse sempre foi o tom de Isabel Jonet. Há que moderar a sensibilidade à flor da pele e retirar o que é bom de retirar, discernir o trigo do joio do que é dito.

Convenção do Bloco de Esquerda. É triste e lamentável ver gente do PS e do PSD no Facebook a gozarem com o BE. Uns dizem que não são um partido a sério e não são para ser levados a sério (esta atitude de condescendência já provou ser errada por várias vezes ao longo da História), outros dizem que a Convenção mostrou porque é que o consumo de produtos de higiene pessoal diminuiu em Portugal. Enfim, MRPP, meninos rabinos que pintam paredes? Eles ou os outros?

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