Em 1843, depois de Kant, Borne, Hess e outros falarem do seu poder narcótico, Marx escreveu que “a religião é o ópio do povo”. No tempo dos nossos avós surgiram os cientistas sociais e as suas teorias fatalistas sobre a alienação do povo pelo futebol. Depois, na altura dos nossos pais (que o mundo agora diz que evolui depressa), como afinal se descobriu que as mulheres também pensam, criam, são força de trabalho e até já votam, acrescentou-se à lista de hipnóticos malvados a televisão, que em vez de transmitir informação passava novelas.
A geração que está agora na casa dos 20 acusa a reality tv. Aqueles programas que encabeçam todas as noites a tabela de audiências, que vendem publicidade a preço de ouro e que toda a gente vê em segredo. E quando se é apanhado justifica-se que “é para perceber de que tanto se fala, ver o retrato deste país de ignorantes, descontrair, rir-me daqueles desgraçados e pobres de espírito, que toda-a-gente-sabe-que-o-Presidente-da-República-se-chama-Aníbal-e-que-‘África’-não-é-um-país-ora-essa!”.
Mas – corrijam-me se estiver errada -, a conversa de café, a tertúlia nos jantares de família, as palavras trocadas nas viagens de elevador e na pausa para cigarrinho e café a meio do dia de trabalho (para os poucos sortudos que ainda o têm), estão carregadinhas da palavra “crise”.
Não tento reinventar a roda, mas se há alguma coisa que me aliena neste momento, é a chata da crise. A crise pôs-me no desemprego, a crise tirou-me os subsídios, a crise pôs o país de tanga, a crise privatizou empresas públicas, a crise fechou empresas privadas, aumentou impostos e diminui o poder de compra.
Ai! A quantidade de vezes que dou por mim a fazer este raciocínio falacioso!
– “Bom dia, como está? E o seu filho?”
– “Oh, está desempregado, coitadito.”
– “Pois, é a crise…!”
Não é nada a crise. É o Estado. E o Estado somos nós. E nós, em vez de andarmos a pagar ao Estado, andamos a pagar ao Governo para nos ensinar o demónio que é a crise. Dizia Marx que “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”. E digo eu que o homem faz a crise, a crise não faz o homem.
Marx disse ainda que “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”. E o que tem sido esta crise se não uma entidade que nos castiga pelos nossos excessos e contra quem nos revoltamos pelas privações a que outros – os reais – nos obrigam?
“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de uma situação sem alma. A religião é o ópio do povo.” escreveu Marx. A crise é o ópio do povo, escrevo eu.
Mas este povo já demitiu a crise, que afinal o mundo evolui depressa: vê-se gente na rua, marcam-se manifestações, inundam-se as redes sociais de críticas ao Governo, exige-se mudança. O povo aprendeu muito com a religião, o futebol, as telenovelas e os reality shows. Nem que seja a gritar!
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