As voltas do ciclismo

29 Ago

Não se espere mais do que uma análise simples de um problema realmente complexo. O caso Armstrong é só mais um exemplo da revolução que clama o ciclismo desde há muito. Sim, será preciso uma grande volta, baralhar e dar de novo, retirar algumas cartas do jogo, instituir novas regras. Até esse dia, não valerá a pena levar demasiado a sério os resultados, fique-se pela beleza do desporto em si.

O caso Armstrong é excepcional porque percebe-se que foi alguém que teve proteção junto dos organismos que governam a modalidade, concretamente a União Ciclista Internacional (UCI). Contudo, ao longo dos anos, somaram-se os escândalos sem que na verdade fossem eliminadas as perversões do sistema. Festina (1998), San Remo (2001), Puerto (2006), Landis (2006), Rasmussen (2007), Contador (2010) ou Armstrong (2012), estes são alguns dos marcos trágicos, sem que grandes mudanças tenham derivado daí e antecipem um futuro melhor. Normativos mais exigentes precisam-se. Esta é também uma questão que implicará o instituir de uma outra cultura.

Na prática, as regras não são iguais para todos e não têm sido aplicadas a todos da mesma forma. Sim, desta forma o doping é tolerado. Depois, esse é um assunto tabu, que implica penalizações e ostracização logo no seio do próprio pelotão. Pasme-se mas a luta não é contra o próprio doping, mas sim contra os que o denunciam. Várias vidas se perderam entretanto. Mais de dez anos depois, o contributo e a coragem de Christopher Bassons não motivaram quase ninguém. É mais fácil e mais compensador aceitar uma penalização de dois anos e assim manter os proveitos resultantes de, digamos, não competir limpo. Os demais não conseguirão um contrato numa equipa. Os grandes nomes, os que ganham e fazem as manchetes nos media, nunca falam abertamente destas questões. No meio, toda a gente sabe de tudo.

Na prática, ao ciclista coloca-se um dilema de fundo. Sim, poderá fazer 30 mil quilómetros numa época e nada ganhar ou não ser relevante. Pior, poderá não ter hipótese sequer de ombrear com os que dispõe de melhores recursos. Se não se destacar, não terá proveitos. Se investir, aceita ainda mais riscos, saúde inclusive, mas pode ter sorte. Roda na mesma 30 mil quilómetros ao ano, mas poderá estar no top. O top gera ganhos. Como noutras esferas, este é um círculo potenciado por múltiplos interesses económicos associados à modalidade.

Voltando a Armstrong, também esta é uma questão em que a abordagem é, desde há muito, maniqueísta. De um lado, estão os defensores a qualquer custo, que acreditam e refutam qualquer evidência. Do outro, aqueles que nunca acreditaram no texano. Haverá, porventura, um pequeno grupo intermédio que dirá, de viva voz, ninguém corria limpo naquele tempo de exageros, este foi o melhor do lote por sete vezes na competição mais importante da modalidade. Isso levanta uma questão: ainda valerá tudo? Os meios justificam os fins? É este o legado a deixar a futuras gerações? Ou estará a destruir-se uma modalidade em que cada vez mais ninguém já acredita? A escassez de patrocinadores não poderá ser efeito apenas da crise económica que se vive, mas uma questão de bom nome desde logo.

Um facto: variadíssimos nomes “caíram” entretanto, nomeadamente Jan Ulrich, um eterno segundo (5 vezes) durante o reinado de Lance Armstrong. Ulrich não foi um qualquer ciclista, tinha capacidades bem acima da média. Isto apenas para lembrar que faltava apenas cair Armstrong. Este desvario colectivo obriga ao recorrente reescrever dos cadernos de resultados da Volta a França. Isso é, também, reescrever a história à conta de tais homologações de resultados. Por estes dias, discute-se assim a possibilidade de o oitavo classificado (!) de uma das edições ser aclamado vencedor. Para quem gosta de ciclismo, estes são dias tristes. Haverá heróis no ciclismo sim, mas não os mais os mais óbvios e não necessariamente os que cortam a meta em primeiro lugar.

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Uma resposta to “As voltas do ciclismo”

  1. Frederico Brandão 3 de Setembro de 2012 às 2:57 PM #

    É triste de facto… Pena que o ciclismo seja constantemente atacado com histórias deste tipo. Fico a aguardar uma crónica sobre a organização da Volta a Portugal e qual (se é que há alguma solução a curto-prazo) a melhor solução para reavivar a qualidade desta prova!!

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