Ser agência de rating é mais fácil que escrever neste blog

24 Jul

A receita é simples. Teorizar sobre banalidades para construir uma espécie de contexto. Procurar grandes verdades políticas na Wikipédia. Encontrar números grandes, daqueles que só 50 por cento da população lê. Não interpretar esses números. Usar um dicionário de sinónimos para substituir palavras que toda a gente entende por outras que ninguém conhece. Acrescentar meia dúzia de conceitos financeiros, económicos ou tecnocratas. Pôr um carimbo no canto da página, enviar às redacções e publicar online.

Et voilá, somos uma agência de rating.

A agência Moody’s colocou em perspetiva “negativa” o rating de AAA da Alemanha, da Holanda e do Luxemburgo, o primeiro passo para um eventual corte na notação que lhes é atribuída no gráfico de “bom comportamento económico”. O relatório, em que a agência de notação norte-americana explica porquê, tem 14 páginas.

Comportamento económico europeu (por Maria Inês Marques)

Ora, eliminem-se as banalidades, como “a Europa atravessa uma grave crise económica”. (A sério?!) Dispensem-se as lições disponíveis na maior enciclopédia do mundo virtual, como “a dívida soberana deve permanecer estabilizada frente ao PIB”. (Disse-me a Moody’s e disse-me a Wikipédia.) Interpretem-se os números, leiam-se as entrelinhas, pense-se nas consequências. Escreva-se para toda a gente (em vez de só para alguns). Tire-se o carimbo. E sem carimbo não há entrada nas redacções nem se azucrina a cabeça à Merkel, ao Juncker e ao Barroso.

Et voilá, somos um blog.

Desculpem-me a falta de humildade, mas basta-me ler os jornais para saber que houve um aumento geral da dívida pública na Zona Euro, divulgado pelo Eurostat esta semana, e que isso significa que mesmo as economias mais saudáveis da Europa estão menos “estáveis” e, portanto, sujeitas a perspectivas mais “negativas”.

Sabemos todos que se vive um período de  “incerteza na união monetária”; que a crise financeira teve “impacto em alguns dos Estados-membros”; que “a possível saída da Grécia da moeda única colocaria uma ameaça concreta ao euro”; que mesmo que a Grécia não saia da Zona Euro, os encargos assumidos pelos Estados-membros mais fortes aumentarão com o pagamento dos resgates das economias mais fragilizadas; que as coisas como estão – com cinco países a pedir ajuda externa – “poderão levar a uma série de choques, que poderão ganhar força com a persistência da crise”.

É isto, tal e qual, que diz o tal relatório complicadíssimo de 14 páginas que uma agência especializada escreveu esta madrugada.

Com este texto, a Moody’s pôs o presidente do Eurogrupo e primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, a fazer um controlo de danos e o Ministério alemão das Finanças (com mais meia-dúzia de políticos) a justificar o relatório com outras vulgaridades e a prometer que a Alemanha nos vai salvar a todos.

Por causa do relatório de uma agência de rating que mora do outro lado do Atlântico a Grécia foi imediatamente (leia-se, no mesmo dia em que o texto foi publicado) pressionada pela Alemanha para tomar medidas de austeridade mais duras, desistir das renegociações dos prazos para cumprir as metas do défice e esquecer a hipótese de receber mais dinheiro.

Um economista disse à Bloomberg que “a posição central da Alemanha na Zona Euro faz com que a ideia de que poderia ser, de alguma maneira, isolada da deterioração geral da área, não seja realista.” Por isso, “a descida parece lógica.” Lá está. Diria mais: óbvia.

Financial Times explica que as críticas da Moody’s podem agravar a posição pouco favorável que a Alemanha e outros países têm em relação às opiniões das agências de rating. Já vão tarde. Explica também que podem produzir um impacto negativo no público alemão, que está preocupado com o custo para o país, e consequentes esforços do seu povo, no fortalecimento da Zona Euro. Mas só agora, depois de uma agência de rating, em vez de um blog qualquer, lhes dizer que também lhes toca a eles…

Já se disse muita coisa em torno deste assunto, com análises muito mais complicadas e relevantes, neste blog. Mas nós não temos carimbo. Só de “agência de rating do povo”. E neste rating os países não têm medo de má figura.

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2 Respostas to “Ser agência de rating é mais fácil que escrever neste blog”

  1. voza0db 24 de Julho de 2012 às 9:49 PM #

    No final quem está a ADORAR tudo isto são as Famílias e os seus respectivos Bancos, que nem sequer são alvo da atenção… Provocaram tudo isto, e recebem em troca muitos triliões… Estão no Paraíso do Sistema Monetário, que eles próprios controlam…

    Abraços 😉

  2. Tia Ivy 25 de Julho de 2012 às 12:22 PM #

    Obrigada pela receita. Agora, vou abrir uma agência de modelos com o mesmo modelo.

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