App Anti-Corporativismo

29 Jun

É uma aplicação que dá muito jeito.

Está ainda em fase testes mas promete revolucionar o mercado da televisão, nomeadamente os blocos informativos.

Ainda não registei a patente, e também ainda não sei se irei contratar chineses ou indianos para o desenvolvimento do software.

Eu pelo menos já o testei e os resultados são animadores.

É uma espécie de filtro anti-corporativista que se instala no computador ou na televisão, e que quando um dirigente corporativista fala, ouvimos o que ele realmente deveria dizer em vez do que ele realmente diz.

Fiz o teste hoje de manha.

Primeira notícia, acerca de mais um detido pelo SEF que acabou por escapar, desta vez de uma forma menos espectacular que o outro que se escapou na semana passada, em pleno aeroporto. Desta vez, a culpa foi da empresa de segurança privada (o SEF contrata a privados aquilo que deveria providenciar?), assim como a aventura no aeroporto ficou-se a dever à falta de condições das instalações onde o recluso se encontrava. Todos sabemos quão precárias são as instalações aeroportuárias, se há sitio onde o controlo aos passageiros não é apertado, é certamente num aeroporto.

Mas ainda bem que se tratam apenas de indivíduos procurados internacionalmente, portanto pouco perigosos. Era pior se tivesse escapado algum activista da Escola da Fontinha, esses sim, grandes ameaças para a segurança pública, segundo a PSP.

Ora bem, foi portanto aqui, ouvindo o representante do SEF a explicar-se, que pude accionar pela primeira vez a minha App Anti-Corporativismo. Ao contrário dos restantes telespectadores que ouviram que a culpa tinha sido da empresa de segurança privada, eu ouvi o senhor dizer que a culpa estava dependente de diferentes factores. Desde o facto de quem estava de serviço (privado ou não) se desleixou, que provavelmente subestimaram o prisioneiro e que talvez, o facto do jogo da Selecção estar a passar na televisão naquele momento também possa ter influenciado a trágica conjectura.

Gostei.

Gostei da sinceridade, pena foi que tamanha amplitude espírito tivesse sido forçada pela minha recente invenção.

As noticias continuaram.

Um escândalo com médicos.

Semana passada, o SNS que tinha sido lesado em 50 milhões por uma burla relacionada com a prescrição de receitas de medicamentos que não chegavam às mãos dos doentes, mas que eram posteriormente vendidos.

Hoje, a suspeita da existência de um grande número de baixas fraudulentas!

Bom pensei, de certeza que vêm ai uns minutinhos de brilhante consternação por parte do Bastonário da Ordem dos Médicos. Que excelente oportunidade para testar a minha App!

Como sempre, se há um individuo que não nós defrauda as expectativas, ele é certamente o Bastonário da Sagrada e Muy Nobre Ordem dos Médicos.

Sobre a burla ao SNS, os telespectadores ouviram apenas que indivíduos pouco profissionais, esses existiam em todas as profissões.

O que eu ouvi através da minha app, foi que a Ordem iria estar atenta a este tipo de comportamentos e caso a suspeita fosse provada, iria aplicar uma sanção disciplinar tão forte e pouco usual, de forma a precaver situações semelhantes.

Acerca das baixas fraudulentas (que nenhum de nós tem conhecimento, são apenas mitos urbanos) o que os meus restantes compatriotas escutaram de voz tão sabia e indignada, foi que era um abuso que suspeitas estivessem a ser levantadas, sem que provas concretas fossem apresentadas.

Eu porém, sortudo por possuir tão extraordinário software, ouvi o que deveria ter sido dito. Que a própria ordem iria intensificar a fiscalização, de forma a promover uma campanha contra estes comportamentos abusivos.

Contente com o que tinha ouvido, rapidamente entrei em estado depressivo, do género daqueles momentos tipo Bruno-Alves-manda-a-bola-à-trave. É que com a minha app, passaríamos a viver num mundo de fantasia, onde deixaríamos de aligeirar as nossas próprias responsabilidades.

Afinal de contas sabemos que ser porta-voz de algo implica ter uma concepção particular da realidade.

Sabemos também que no livrinho “How to be a Bastonário for Nerds”, está explicito no terceiro capítulo que em caso ALGUM os nossos representados tiveram alguma responsabilidade em actos que lhes são imputados por terceiros. Existe também a recomendação (capítulo 7) que o pretendente a tão valoroso cargo deva possuir de preferência uma tonalidade de voz irritante, e acima de tudo, usar óculos, porque segundo o livro, mesmo quando as coisas correm mal ninguém tem coragem de bater em alguém com óculos.

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