«O ponto de viragem da crise é indesmentível pelos factos»
«Ajustamento acima das expectativas»
«Receios de uma recessão mais profunda» em 2011 revelaram-se infundados.
Não são frases de um sonhador. Não são desejos de um lunático. Não são expressões de um autista. Quem enunciou estas análises foi o ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Parece que, se não estamos no melhor dos mundos, para lá caminhamos. Acho que já todos percebemos que não é bem assim. Aliás, nem pouco mais ou menos. Aqui e ali, há manifestações de preocupação, mesmo que muito tímidas. Até Miguel Relvas finalmente veio assumir que os 15,3 por cento (taxa oficial) lhe tiram o sono. Esperava-se no entanto mais do CDS e da sua carga de preocupação social para puxar por Passos Coelho e por todo este Governo no combate a este drama, porque é de drama que se trata.
Não vale a pena elaborar muito mais sobre as palavras de Gaspar, as preocupações de Relvas ou a falta de acção de Pedro Mota Soares e Álvaro Santos Pereira. Vale sim a pena olhar para as ruas. Hoje, por volta da meia-noite, voltava a pé de uma sessão de cinema (a convite, claro) no El Corte Inglés, em Lisboa, e para cortar caminho até casa atravessei o topo do Parque Eduardo VII e ruas circundantes do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho. Já se sabe que é zona de prostituição, feminina e masculina, mas em alturas de Feira do Livro o negócio costuma fugir dali. No entanto estava redondamente enganado. Não só a profissão mais velha do mundo não tirou férias como ganhou muita oferta.
Já trabalhei numa rádio na zona há uns anos e durante alguns meses saí depois das duas da manhã. Habituei-me à fauna nocturna. Mas agora, em 2012, o negócio cresceu, e cresceu muito. São dezenas de mulheres e homens, de poucos em poucos metros, em todas as ruas.
Os carros de luxo, de alta cilindrada, continuam a circular, embora em menor número. Não estará esta gente desesperada, assolada pela miséria e pela destruição de vidas, para recorrer e cair nesta solução, ao mesmo tempo tão fácil e tão difícil?
A SIC exibiu recentemente uma grande reportagem que indicava que a prostituição feminina aumentou nas ruas devido à crise e que muitas daquelas que tinham conseguido finalmente fugir a vender o corpo viram-se forçadas a regressar. ‘Sensacionalismo. Eles querem é vender escândalos. Querem é audiências’, ouviu-se na altura. Tive a prova viva esta noite que, de facto, há muito mais pessoas na rua a tentar ganhar dinheiro vendendo prazer. Se a causa é a crise? É altamente provável que sim.
É nas ruas que vive esta pobreza com cada vez com menos vergonha, mas cada vez mais envergonhada do que se tornou.
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