AUTO DA BOA-FÉ (Parte 3)

4 Maio

SEM SOMBRA

À sua frente o Homem-sem-sombra parecia levitar no espaço como se de uma visão se tratasse. O seu aspecto fechado e sombrio, talvez por força da monocromia com que se apresentava vestido e do seu rosto de ângulos profundamente marcados, contrastava claramente com a impressão de leveza que a sua presença parecia transmitir ao Industrial.

Entre ambos nenhuma palavra era trocada.

E os segundos foram-se acumulando em forma de minutos.

Mania, essa a do tempo, de se fazer sentir mais presente quando as vozes se fazem menos sentir. Como se precisasse desses pequenos momentos de tensão para nós fazer lembrar a sua existência. Os olhos, no entanto, estabeleciam um diálogo diferente, e muito parecia ser dito para além do silêncio que pintava aquele espaço. Duas almas que se mediam para além do horizonte daquela sala. Ambos de olhares carregados, perfurantes, tentando perceber que adversário respirava à sua frente.

O Industrial sentia-se fascinado pelo facto de não conseguir ler, como fazia geralmente com toda a gente, o individuo que à sua frente desafiava as básicas leis da física. Nem a primeira camada se desmoronava perante o seu olhar inquisidor.

A porta,e o som de metal a ranger.

Em segundos, passos e uma respiração pesada, aproximando-se. O Estranho não voltou o olhar.

Nas suas costas um vulto entrando na sala acompanhado de mais passos, de uma nova presença que se apressava a fechar a pesada porta. Esta última, uma passada que o Industrial conhecia, tão espessa quanto as palavras que normalmente saiam daquele corpo, que o encarava agora debaixo da mesma luz.

Dois homens ladeando o Homem-sem-sombra.

O Comentador.

O Escultor.

Do primeiro o espanto de uma primeira apresentação silenciosa, feita sem palavras. Apenas a sua voz e a sua imagem entravam naquele apartamento, nas poucas vezes em que a televisão se mantinha ligada. Alguém que o Industrial nunca pensara travar conhecimento, pelo simples facto de que o Comentador nunca lhe suscitou nenhum outro sentimento para além de indiferença. Fazia parte de um grupo de rostos com vozes que viviam dentro de um mundo feito para entreter as massas. Para consolar aqueles que não sabiam lidar consigo mesmos nos momentos em que os seus corpo não estavam, ora a repetir um processo ensaiado até à exaustão, ora tomados pelo descanso, dormindo alheios ao peso da própria existência.

O seu amigo Escultor era claramente o responsável pela visita dos outros dois elementos, e rápido rompeu o silencio, transformando ideias em sons.

Está na hora de acabarmos com este País, disse de uma forma tão ligeira e descontraída, que o conteúdo parecia claramente desajustado.

O Comentador soltou um leve sorriso, como que confirmando a ideia geral.

O Homem-sem-sombra, mantinha-se de expressão imutável e de palavras tão presentes quanto a sua própria sombra.

Ao Industrial era claro que, não apenas aqueles três indivíduos estavam comungados de interesses comuns, como também aquele estranho personagem era a chave de tão bizarra proposta que, sabia estar prestes a ser desvendada.

Há muito que este País não existe, continuou o Escultor, apenas sobrevive.

O Comentador, contente com a direcção que a conversa tomava, decidiu acrescentar – devemos então prepararmo-nos para um novo parto!

O Industrial, que por norma detestava subtilezas linguísticas tais como as metáforas, parecia no entanto bastante interessado no que ainda havia para ser dito. O Escultor, decidiu retomar o pulso da conversa, interrompendo o Comentador, que claramente não estava avisado para o espírito pouco paciente do seu amigo. Ele sabia bem que o Industrial acreditava que tudo o que não era dito de forma directa e frontal, pouco valor tinha. A roupagem excessiva das palavras apenas as fragilizava. Geralmente tinha pouca tolerância a pessoas que gastassem muitas palavras.

Meu caro amigo, chegou a hora de tomarmos o poder.

O Comentador e o Escultor entreolharam-se fraternalmente, após o espanto que tal afirmação provocara no rosto do Industrial. Claramente haviam conquistado o momento. Apenas o Estranho continuava de rosto fechado e praticamente imóvel.

O visitado sentou-se calma e lentamente.

Abriu uma fenda no tempo.

Ele tinha esse poder de deixar normalmente pouco desconfortável quem com ele debatia, mesmo antes de dizer alguma palavra.

Portanto, começou em tom brando e amigável fitando o amigo, tu vens-me aqui hoje acompanhado por alguém que ganha a sua vida na televisão vendendo palavras e juízos, influenciando quem se sente cansado demais para pensar e fundamentar as suas próprias ideias. Depois à tua direita, alguém que ainda não tive o prazer de ouvir a voz, e que pela postura, não apenas vos prometeu esse assomo de poder, como os meios para o conseguir.

O ambiente carregou-se e o comentador sentiu o seu bom nome pisado em frente ao homem que o encarregara da missão. Não teve porém tempo para falar, na medida em que a voz do Industrial continuou a ressoar naquelas quatro paredes cada vez mais apertadas.

Se eu não soubesse que já interiorizaste completamente essa ideia, provavelmente dir-te-ia que transformaste-te na matéria com que revestes as tuas próprias esculturas – a insanidade. Assim sendo, apenas te tenho a desejar boa sorte.

As palavras, quando bem direccionadas, têm o dom de criar danos invisíveis, alojando-se em pequenas fissuras na mente de quem foi atacado. A fragmentação dá-se quando a vítima, em silêncio organizando pensamentos, tropeça nesses pequenos detritos dos quais não se soube defender na altura própria. Esse momento de lúcida percepção, é aquele que geralmente dá origem ao que convencionalmente apelidamos de vingança.

De ideias e mente contaminadas, o Escultor e o Comentador limitaram-se apenas a arrumar a confusão que aquelas palavras lhes haviam criado.

Apenas o Homem-sem-sombra parecia ileso de ataque tão cirúrgico e devastador.

Nós, concluiu em tom de solidariedade após a tempestade criada, não precisamos de refundar ou mudar o País. Não precisamos de destruir ou criar novas estruturas. Nós precisamos é de mudar de povo!

As palavras continuaram a flutuar no ar, em frente aos que as escutavam, demorando-se a desvanecer na sua própria essência que mais não é do que um som com significado. A custo, o rasto transformou-se novamente em silêncio.

As mentes do Escultor e do Comentador estavam já de saída, fechando consigo a pesada porta de metal, enquanto os corpos permaneciam imóveis, focando o Industrial. Apenas voltaram ao local de partida, pois pela primeira vez o Estranho avançou, e com ele a ausência da sua própria sombra.

Deixa-me te contar, disse, fazendo durar o momento em que aquela voz pela primeira vez ecoava na sala, como é que nós vamos mudar de povo.

Os espíritos dos dois homens que previamente o ladeavam, voltaram a tempo de ficarem ainda mais perdidos.

Obviamente, quando havia falado individualmente com cada um deles, aquele estranho não lhes tinha desvendado a totalidade dos seus planos.

Entretanto começara a chover.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: