Miguel de Abril

25 Abr

Quis o calendário que o meu texto desta semana calhasse a 25 de Abril, ‘o dia mais feliz da minha vida’, dizem muitos que o viveram. Aos 30 hoje, nasci uns anos mais tarde que a Revolução. Gostava de ter vivido esse dia, essa madrugada, que descrevem como a do alívio, do respirar, do renascer e do reviver. Faz-me confusão quem se refere com cara enjoada ao 25 de Abril, o ’25 do 4′, como lhe chamam, mas cada um terá as suas razões, e aliás também foi para isso que existiu a Revolução, para que cada um se pudesse exprimir livremente.

Este ano o 25 de Abril é mais triste. Triste porque o país está de joelhos esfolados, o desemprego descontrolado, a economia parada, a confiança dos consumidores a zeros, o crescimento uma miragem e o sentimento geral descolorido de um cinzento amargo. E ao início da noite de 24 chegou a notícia da morte do Miguel. Foi mais um soco no estômago. Por se tratar de uma morte. Por se perder alguém para uma doença tão cruel como o cancro. Por ser o Miguel.

No ano passado, enquanto jornalista do i, acompanhei a campanha eleitoral do Bloco de Esquerda para as eleições legislativas. Criámos um grupo muito castiço entre os enviados das várias televisões, rádios e jornais e fomos recebidos pela equipa do Bloco de forma calorosa. Durante duas semanas lá andámos, para norte e para sul, de escola em estação de correio, de fábrica em feira, de bar em restaurante, numa gincana animada. Francisco Louçã, Fernando Rosas, Luís Fazenda, João Semedo, Daniel Oliveira, José Manuel Pureza, Marisa Matias, só para referir os mais óbvios, fizeram parte daqueles dias. E, claro, o Miguel. Sempre bem disposto, nunca negando um sorriso, sempre com piadas de algibeira e não só, com chapéus e sandálias que só ele. Contacto fácil com as populações e com os jornalistas, deixou-nos a todos uma lembrança muito positiva. E são essas memórias que hoje temos partilhado, quase todos em choque.

Lembro-me que na altura uma colega na redacção do i me acusou todos os dias de estar comprado pelo Bloco e de estar a fazer ‘o jogo deles’. O que ela não percebeu, e que muitos não percebem, é que na política há politiquices, mexericos e coisas sem a mínima importância. E depois há pessoas como o Miguel.

PS: E por falar em politiquices, que falta de elegância, mais uma vez, as acusações de Passos Coelho a Mário Soares, Manuel Alegre e aos Capitães de Abril por faltarem às comemorações oficiais. Haja gente que ainda tem espinha dorsal e se recusa a estar ao lado daqueles que estão a afundar o que outros conquistaram.

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