AUTO DA BOA-FÉ (Parte 2)

20 Abr

O GABINETE

Quem o ocupava, tinha o poder.

Revestido com peças de cara extravagância, aquele espaço era um museu onde outras governações haviam deixado a sua marca. Um lastro bem mais visível do que aquela que haviam deixado no País.

O gabinete do Primeiro-Ministro, qual árvore genealógica democrática, começava-se a redesenhar com os primeiros e irreverentes raios de sol, que as grandes janelas não podiam evitar. Sobre o pesado sofá, um corpo despertava rendido àquela inconveniente intrusão luminosa. O governante máximo acordava de um sonho ligeiro, feito de matérias isentas de qualquer tipo de preocupação. Um revitalizador de uma consciência que, em breve voltaria a despertar arrastando consigo a leveza, que arduamente e a custo aquelas horas de descanso haviam conquistado.

O vulto levantou-se, e com ele, o peso do País. Assim descrito a todos os conselheiros e colegas de governo, com enfatização sonora para aqueles nos quais via brilhar na retina a esperança na sua sucessão.

A porta mal deu conta de si e das três pancadas que se fizeram sentir. O autor, entrou relutante, tão confiante quanto o martelar infligido na madeira que mal se ouvira no interior do gabinete. O governante perguntou-lhe inclusive porque tinha entrado sem bater.

Ele bateu Sr.Primeiro-Ministro, nós que daqui vos observamos, e com palavras relatamos este nascer do dia, podemos confirmar que ele bateu.

O Sr.Primeiro-Ministro não nos ouve, é certo. Primeiro porque isso é geralmente uma condição inerente à sua função. Depois, porque existe uma barreira temporal e espacial criada entre o narrador e a personagem. Apesar de neste caso se mostrar desvantajosa, tem geralmente grandes mais-valias, nomeadamente quando um personagem se revolta pelo destino a que é sujeito pelo narrador e decide passar à violência física.

O que não será este o caso, visto que coisas mais importantes ocuparão neste momento a mente do governante máximo. Ou pelo menos assim esperamos.

Continuemos então a narração, deixando de parte este desvio egoísta e claramente estranho, pois diz o manual que, não só o narrador se deve focar exclusivamente na historia, como também deverá perder este hábito bizarro de falar na terceira pessoa – coisa observada algumas linhas acima, e que não beneficia de forma alguma a fluidez narrativa.

Deixámos à pouco o Sr.Primeiro-Ministro irritado com a intrusão do jovem serviçal politico. Não se pense no entanto que este governante é alguém de difícil trato. Antes pelo contrário. Acontece porém que pequenas coisas insignificantes, tomam geralmente dimensões desmesuradas quando absorvidas por um espírito ainda em processo sonolento.

É essa a particularidade das manhãs. Se lhes escapamos, por culpa do corpo que rejeita a evidência de que o dia nasceu, é como se perdêssemos uma parte da vida, não apenas uma parte do dia. Como se saltássemos etapas na pressa de chegar a uma meta – que neste caso mais não seria do que a noite. Este fast-forward quotidiano deixa o corpo, que abraça o dia mais tarde do que o aconselhável, envolto num limbo de acidez estranha, sensível ao palato da mente.

Se em cada manhã nasce o dia, a perda deste parto astral – se consumida em exageradas doses – pode levar à perda de ligação com o mundo onde se habita.

Menos trágicas foram certamente as perguntas inúteis que o inseguro jovem foi disparando: acerca da qualidade do descanso, da dureza do sofá, do sol que aparecia mais cedo anunciando a chegada da estação quente. Aborrecido pelo conteúdo ou pelo tom da voz, quem sabe pela irreversível manhã que não se pode perder – como previamente foi evangelizado – o político mandou calar o aspirante a governante.

Pobre criança. O seu Pai havia-o avisado do mau génio do Primeiro-ministro, no entanto isso era o preço a pagar por uma futura ascensão política, pelo menos ele assim o pensava. Contudo a observação partia de um pressuposto errado – o carácter inflamável do governante máximo. Um mito que surgiu num dia em que um incompetente fora tratado como um incompetente. Reacção em cadeia, outros incompetentes foram passando a mensagem, no intuito de prevenir que um futuro tratamento igual pudesse ser desresponsabilizado pelo aparente mau feitio do governante. O jovem assessor acedia, receoso, calando-se, respondendo apenas quando interrogado, mergulhado na triste confirmação do que ouvira dos seus pares.

Após pesados minutos de silêncio o governante, recuperado pela evidência de que o dia impunha acção, pôs em prática aquela extraordinária capacidade que os seres humanos têm – a de transformar palavras perdidas nas encruzilhadas da mente em sons entendiveis a uma outra mente.

Sim senhor, tenho os dossiers comigo. Não, ela não está cá. Porquê, ora porque hoje é sábado Sr.Primeiro-Ministro, ela não trabalha aos fins-de-semana.

Curto e directo. O aspirante mostrava que aprendia rápido. Pena que o governante não prestasse a mínima atenção a esse facto.

Ela não trabalha aos fins-de-semana, repetiu para si mesmo o receptor das palavras. E tu, que fazes aqui então?

Eu, gaguejou o assessor procurando palavras em somas e subtracções mentais, eu…. eu sacrifico-me pelo meu País assim como o meu caro Primeiro-Ministro. Se o senhor não descansa, eu também não tenho o direito de descansar.

Foi de difícil construção, mas havia conseguido elaborar uma frase que o deixava orgulhoso. É óbvio que observada a esta distância, que nos separa daquele espaço onde político e aspirante respiram o mesmo ar, tudo soe a uma pieguice de difícil digestão. A verdade é que o autor daquele pedaço prosaico e determinista sentiu-se crescer alguns centímetros após espirrar tais palavras, e o Sr.Primeiro-Ministro – o líder por quem se deveria sacrificar – uma certa comoção por tamanho espírito de missão.

Estavam feitas as pazes entre o jovem assessor, agora confiante e sorridente mas que se fartara de mingar desde que entrara na sala, e o máximo governante.

Eu durmo no gabinete porque a minha mulher não me deixa dormir em casa, partilhou em tom de mútua comunhão, fixando depois os olhos no pavimento.

O jovem, pouco interessado no que navegava na alma do Primeiro-Ministro – a menos que a ele lhe dissesse respeito – balbuciou qualquer coisa imperceptível como que tentando desviar o assunto.

Irritado pelo desabafo com um simples assessor, o governante tentou recuperar a pose e o discurso mais rígido.

Secamente, pediu para que saísse, e, em coerência com o tom das próprias palavras, virou costas dirigindo-se à janela. Confuso se aquele momento, em por instantes tocara a intimidade do seu chefe de fila, tinha sido positivo ou negativo, o assessor saiu do gabinete fechando a porta, abrindo depois uma outra na sua cabeça. Reveria durante todo o resto do dia aquela situação matinal.

O Governante endireitou as costas, mas o peso não se soltou. Da Janela a vida corria em tons de primavera precoce, pois o Inverno ainda estava marcado nos calendários.

O telefone tocou. Por várias vezes e sem mostrar qualquer tipo de desistência perante a indiferença a que era vetado. Por fim o governante cedeu.

Do outro lado a voz do Vice-Primeiro-Ministro.

Estava explicada a insistência. Só ele conhecia os seus problemas matrimoniais, e só ele suspeitava do seu refúgio nocturno.

Muito bem, trabalhando até tarde em prol da nação. Em tom jocoso, como usualmente, o amigo dava-lhe os bons dias.

Perante a ausência de resposta, e para evitar silêncios constrangedores, a voz do outro lado encarreirou pelo que realmente interessava.

Tens visto as notícias?

Sim, ele via as noticias todos os dias. Em formato de papel ou em formato de um apresentador televisivo lendo um teleponto.

A menos que tenha acontecido algo de extraordinário ontem à noite, disse, posso-te confirmar aquilo que já sabes, que sim, que tenho visto as notícias.

Escapou-te a homilia de sexta-feira à noite.

Silêncio novamente. Ser por vezes espirituoso bem cedo de manhã, pode levar a um desperdício inútil de munições. Nada que desencoraja-se o Vice-Primeiro-Ministro.

E então, viste a homilia?

O Primeiro-Ministro mostrava-se impaciente. Aquela voz para além de o começar a irritar, falava-lhe por palavras nas quais ele se sentia perdido.

Antecipando o perigo, o amigo acrescentou que algo havia acontecido no programa do jovem comentador político.

Qual deles?

Aquele do ar impoluto, o que constantemente fala de corrupção e que vasculha na porcaria que a nossa máquina política por vezes vai deixando para trás!

Esse miúdo ainda tem tempo de antena!

Sim, muito! E depois de ontem…

Irritado com a frase em suspenso, o governante pediu que lhe explicasse então o que havia perdido, ao trocar o sofá pela televisão nocturna.

Tradicionalmente, poderiam ser referidos uma série de aspectos que, prolongando a acção, incorreriam num efeito muito pretendido por escritores, pretendentes e argumentistas – o de criar uma tensão até ao momento em que a personagem revela algo substancialmente interessante à narração. No entanto, dada a falta de detalhes – e na verdade a falta de paciência para os descrever – avançaremos para a conclusão deste capítulo – pois na verdade o primeiro-Ministro já nós olha furioso de lado, tal a demora que se vem verificando nesta espécie de epílogo telefónico.

Foi então com prontidão e temor, com a aparentemente boa disposição inicial encerrada em qualquer parte de si, que o Vice-Primeiro-Ministro explicou a razão de tão aflita chamada, uma revolução meu caro, uma revolução em marcha!

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