AUTO DA BOA-FÉ (parte1)

13 Abr

ELE

Ele era pequeno, de aspecto frágil e por vezes pouco cuidado. Tinha inveja dos vizinhos, mas sabia ser impossível viver ser eles. Era praticamente desconhecido pelos demais, mas nem sempre tinha sido assim. Houve tempos em que era associado a grandiosidade. Nos dias que corriam, as poucas referências ao seu nome vinham quase sempre acompanhadas por adjectivos pouco desejáveis.

Ele vivia dentro de um parêntesis do tamanho de uma fronteira, sendo que o essencial parecia-lhe por vezes acessório.

Ele arrastava-se entre aparentes espasmos de incontrolável euforia, e uma densa camada de pessimismo crónico.

Ele vivia em dívida.

Consigo próprio e com os que o rodeavam.

Ele queria ser bem mais do que a sua própria sombra projectada no chão.

Ele era um País.

BOA NOITE

O apresentador das notícias encerrava aquela meia hora de trágica homilia para dar lugar aos analgésicos que socorreriam as poucas mentes que, ainda acordadas pelos trinta minutos de carnificina noticiosa, ousariam talvez questionar o destino do País, entre dois anúncios a pensos higiénicos e um outro a uma cadeia de supermercados. A medicação consistia em doses irreais de lixo televisivo, empacotado em forma de miúdas magras e enredos mais básicos do que a mais pobre Franciscana história infantil.

O Industrial desligou a televisão.

Sincronizados, a última palavra do jornalista e o seu dedo sobre o telecomando.

Não há sofrimento necessário!

No mesmo instante, o Comentador-Político preparava-se para entrar em cena, em todas aquelas televisões que estivessem solidariamente sintonizadas para o receber.

No espelho a sua imagem reflectida. Alto, bem vestido, confiante. Ajeitar os cabelos era apenas uma formalidade sem sentido, mas repetida como se o seu desempenho dependesse dessa ligação espiritual estabelecida com o foro capilar.

O seu público escutava-o religiosamente nos dias em que o seu programa era emitido. Era como uma droga, chegara-lhe a dizer uma vez um espectador atento. E ele, era o traficante dessa matéria feita de palavras. Influenciar, através de uma ideia plantada bem no fundo de quem o escutava, era uma forma de poder extraordinária. Limpa, sem desgaste, corrosiva para as suas vítimas, mas tonificante para si mesmo.

Todavia naquela noite tudo seria diferente.

Fora incumbido de uma missão.

A contagem decrescente para o início do programa, através da voz rouca do produtor, assinalava que esta estava prestes a ser cumprida.

O Industrial manuseava papeis e números, numa espécie de transe que muitos chamariam de trabalho. Ele chamava-lhe religião.

Adoptara a designação que o seu amigo escultor um dia lhe transmitira. Um artista que detestava artistas, que nunca aparecia nas inaugurações das suas exposições, que nunca aparecera numa revista ou concedera uma entrevista a um jornal. Um amigo, das poucas pessoas a quem tinha paciência para escutar, que um dia lhe dissera que o que ele fazia não se designava por trabalho. Isso é algo que as pessoas comuns fazem, numa rotina de fazer inveja à constante passividade das estações, onde um verão nunca surgiu antes de uma primavera, mas sempre depois. Tu transformas, dizia-lhe, uma ideia em matéria. Adormeces a pensar em soluções, e acordas desperto por novos problemas. Dentro de ti, não é o sangue que corre nas veias, assim como não é de comida que te alimentas. Sentes o ar rarefeito de cada vez que as barreiras parecem intransponíveis, e só respiras melhor quando te encontras já do outro lado do obstáculo. E aí, em vez de alcançares com a vista o que ficou para trás, em acto de mero regozijo pessoal, olhas apenas em frente, à procura da próxima barreira a ser transporta. Isso, concluiu, não se chama certamente trabalho. No entanto, as minhas limitações como escultor não me permitem encontrar a palavra que defina esse estado de espírito. Mas se quiseres mesmo que lhe dê uma rotulagem, chama-lhe religião. Grande mal não deverá advir de tal assombro semântico!

Uma noite.

E o Industrial possuído por essa força sem designação, alheio do ambiente que o rodeava, flutuando em si mesmo, fora de si mesmo.

Na caixa de voz do seu telemóvel, uma mensagem tão confusa, quanto o tom de voz do emissor. O Escultor dizendo que se um estranho o visitasse, que perdesse tempo a escuta-lo pois ele mesmo o enviara.

No estúdio de televisão o Comentador chegava ao fim da sua missão. O apresentador, ainda não refeito do choque que aquelas palavras haviam provocado, bebia sofregamente água tentando libertar o nó que na sua garganta se formara. A equipa de produção entreolhava-se incrédula. Os telefones começavam a tocar frenéticamente.

Antes que alguma palavra lhe fosse dirigida, o Comentador levantou-se, saudando os demais, dirigindo-se em direcção à porta.

O Estranho a quem praticamente não vira a cara na noite anterior, deveria estar naquele momento feliz com a conclusão da missão de que o havia incumbido. Das sombras, que haviam encoberto o seu rosto, apenas as palavras interessavam. E essas, haviam sido agora repetidas em pleno horário nobre perante todo o País. Ele que sempre se orgulhara da sua capacidade intelectual e poder de dissuasão, havia sido arrebatado por quinze minutos de conversa, com alguém a quem nem sequer vira o rosto. E para quem se tornava agora, no mais fiel soldado.

No seu apartamento, o Industrial via porém o rosto do Estranho que se apresentava, não sobre as trevas, mas sim debaixo da luz incandescente que iluminava todo aquele espaço.

Um rosto duro e pesado, incapaz de encerrar em si a profundidade daquilo que a sua boca se preparava para dizer.

O Industrial esperava curioso.

Apenas um pequeno detalhe o deixava constrangido.

Sem explicação aparente o individuo que se encontrava à sua frente e debaixo da mesma luz, não projectava nenhuma sombra.

 

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