Uma manifestação por dia não sabe o bem que lhe faria

3 Abr

Uma tarde de um fim-de-semana normal, tranquilo, de início de Primavera. Um café combinado no Bairro Alto para ir visitar uma amiga que conseguiu desencantar um emprego numa altura em que eles escasseiam. Está a trabalhar num café com um salário pequenino (pouco mais que o ordenado mínimo nacional), seis dias por semana. Mas está a trabalhar.

Retomando a essa tarde, combinámos em frente à Brasileira, no Chiado. Pelo caminho o aviso que se estava atrasado devido a uma manifestação na Avenida. E no meu percurso dei de caras com um comício no Largo de Camões, da CGTP-Interjovem, com intervenção de Arménio Carlos. Trabalho, emprego, remuneração, um futuro, eram as palavras de ordem. Também é o que peço, um irónico ‘deixem-nos trabalhar’. Enquanto esperava, soam o hino da CGTP, ‘Unidade do Trabalho contra o Capital’, a Internacional, ‘De pé ó vítimas da fome’, e o Hino Nacional, ‘Heróis do Mar, Nobre Povo!’.

Entretanto chega o resto do grupo. Comparadas impressões sobre as manifs, afinal não eram as mesmas. Na Avenida desfilaram autarcas contra a reforma do poder local e a fusão de freguesias. Isto uma semana depois de mais uma greve geral convocada pela CGTP, com os lamentáveis incidentes com a PSP. E algum tempo depois da manifestação dos Anonymous. E ainda a demonstração um ano depois do 12-M, da Geração à Rasca. E esta. E aquela. E aqueloutra.

As manifestações parecem fazer agora parte do quotidiano de Lisboa. Ainda não passou um ano desde o início da aplicação da receita troikiana mas já estamos de rastos. O desemprego está fora de controlo (e o próprio Governo o admite), a Economia não cresce nem dá sinais que o vá fazer, começam a surgir notícias alarmantes na área da Saúde (sobretudo no que diz respeito aos medicamentos oncológicos), o preço dos combustíveis aumentou 38 vezes desde 1 de Janeiro (sim, 38 vezes, embora isto não tenha necessariamente que ver com o programa de ‘auxílio’), as previsões fiscais não batem certo com a realidade (não há consumo, não há actividade económica, logo não há impostos a receber, crescem os pagamentos sem factura para fugir ao IVA, enfim, não era preciso ser mago para calcular que isto iria suceder) e, o mais assustador, é o primeiro-ministro vir transmitir a Judite Sousa numa entrevista na TVI, sereno, que depois de batermos no fundo só podemos subir (La Palisse não diria melhor).

Cada dia é mais um dia e vamos sentindo, pouco a pouco, as areias movediças do pântano a subir-nos pelas plantas dos pés, pelos tornozelos, pelas canelas, pelos joelhos e por aí adiante. Mas não há que estar preocupado! Quando chegar ao lábio superior e ameaçar o nariz, por golpe de magia, vamos voltar a crescer. O que é preciso é fé! Assunção Cristas rezou para que chovesse… e choveu. Passos Coelho diz que depois de bater no fundo isto resolve-se. Mais descansados portanto. E quando isso acontecer…

A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação. É só isto.

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