Homofobia

30 Mar

Eu e a minha Companheira descíamos do autocarro. Atrás de nós, uma longa viagem, que consumiu todas as horas da nossa primeira noite, no País em forma de bota. O primeiro avião, havia aterrado na Capital das miúdas magras . O segundo avião, que nos levaria à Capital do Renascimento, onde deveríamos passar um ano das nossas vidas, nunca chegou a levantar. Foi um autocarro, em forma de arca cheia de esperanças e expectativas, que nos transportou ao destino, sem que antes se perdesse em pequenos incidentes, que todos juntos, levaram a que uma viagem de 3 horas, demorasse 6.

Toda esta introdução para dizer que, que na primeira hora em que pisamos um chão diferente daquele da casa dos Pais, após uma viagem em que a noite rapidamente se transformou em dia, tínhamos à nossa espera um amigo, amigo de um amigo, amigo de um amigo. No essencial, um estranho, de quem praticamente nem sabíamos bem o nome, acolhia-nos e abria-nos a porta de sua casa. O meu alarme suou logo em tons de negro. A minha brilhante mente havia logo ali, num primeiro relance, descortinado toda aquela tramóia. “O gajo”, devem ter sido estas as palavras que cruzaram o meu pensamento, “é larilas, e vai-nos acolher em sua casa até que encontremos uma. Tou fodido!”.

A minha educação num lugar onde a religião ainda tem um papel importante, como filtro de um mundo que aparentemente somos incapazes de apreender por nós próprios, traçou claramente o meu plano de acção para as próximas horas – sair dali para fora o mais rápido possível. Ele mostrou-nos o quarto onde nos instalaríamos, disse para descansarmos, e fechou a porta desejando-nos uma estadia feliz. Fixei a minha Companheira, que não parecia minimamente afectada pelo quadro em que estávamos envoltos.

Dei-lhe a entender a minha preocupação.

Ela mandou-me dormir.

Soltei mais duas ou três palavras.

Ela ignorou.

Fui dormir.

Acordei algumas horas depois.

A minha Companheira ainda dormia, e levantando-me para ir à casa de banho vi o nosso anfitrião que dormia no chão do corredor, num pequeno colchão que parecia tão desconfortável quanto o próprio pavimento em si.

Foi nesse momento que compreendi.

Ele tinha-nos deixado o seu próprio quarto.

Senti um soco no estômago, do tamanho de toda a porcaria que me havia consumido a mente desde o primeiro momento que o conhecemos.

Mais tarde, todos de olhos bem acordados, quisemos reverter a situação. Ele deveria voltar ao seu quarto e nós arranjaríamos outra solução. Eu não queria ficar em dívida.

Não, éramos jovens, primeira vez fora da casa dos Pais, num País desconhecido, tínhamos de estar pelo menos confortáveis, para superarmos todos esses factores negativos. Assim insistia. E assim continuou a dormir no corredor. Segundo soco no estômago.

Levou-nos a conhecer a cidade, ajudou-nos no que pedíamos e no que não pedíamos, pois no fundo sendo Portugueses, a herança genética obriga-nos a tentar incomodar o menos possível. Ele deve-se ter apercebido disso, pois diluía toda a trabalheira que tinha connosco, numa espécie de aura que não nós levava a sentir o estorvo, que afinal éramos.

Foi cinzento o dia em que nos mudámos para o novo apartamento.

Ele tinha sido um irmão, um Pai, uma Mãe, acima de tudo um amigo que transformou toda aquela avalanche cultural tão distinta da nossa, num lugar onde por muitas vezes nos sentimos em casa. Continuamos a nos encontrar, infelizmente sem a mesma frequência que outrora. Nunca nos cobrou pelas mensagens que nos esquecemos de responder, ou pelas vezes em que tivemos que cancelar um jantar, ou pelas vezes em que nos esquecemos do seu aniversário, ou simplesmente quando nos esquecíamos de dizer obrigado.

Um ano mais tarde, quando voltei numa outra missão escolar, embora por um curto período de tempo, lá estava à nossa espera, com o mesmo sorriso nos lábios, com a mesma vontade de nos fazer sentir felizes e aconchegados.

Por isso, meus caros, sempre que vejo alguém negar a um homossexual o acesso aos mesmos direitos básicos que um heterossexual tem, é a ele, ao meu amigo, a quem vejo isso ser renegado. Quando oiço vozes carregadas de ódio e medo, de hipocrisia e mesquinhez, sei que é a ele que os cobardes atacam.

Sei que é o rosto dele que é martirizado de cada vez que um crime é cometido com base numa descriminação sexual.

Sei que é ele que é perseguido, enquanto que nós, mesmo que no fundo nos sintamos indignados, temos dificuldade em o verbalizar, não vá também a sociedade nos rotular.

Sei que ele é a base das piadas com que por vezes me rio.

Sei que basta!

Basta de olharmos para o lado e nos fazermos passar por tolerantes, mas mesmo assim não movermos um dedo sequer para apontar a quem ainda ousa se reger por valores e ideias pré-históricas.

Basta deste receio de interromper o discurso a quem se baseia em ideias, que no fundo e de forma racional podem ser consideradas criminosas.

Ninguém deixaria a que um irmão lhe fossem negados os direitos mais básicos, nem ninguém permitiria que o maior amigo fosse alvo de chacota.

Eu pelo menos não o permitiria, nem permitirei.

 

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