Síria: Granadas de Esperança

16 Mar

 

Na quinta-feira, a edição do Le Monde, trazia na capa A imagem da resistência a um ano de terror na Síria. Um homem, de um nome incapaz de ser guardado na memória ou mesmo pronunciado desde lado do mundo, erguia as duas mãos, fazendo o sinal de vitória, perante a objectiva do fotógrafo. A sua mão direita, intacta,  relembrava-me apenas a repetição daquele sinal tão presente, mas sempre repleto de esperança, para quem o ousa fazer. Uma catarse, para todos aqueles que acreditam que não se luta apenas por uma ideia, mas sim por um fim – o objectivo alcançado, ou mesmo o seu próprio fim às mãos de tiranos, mas com o espírito repleto de uma força que não pode ser vergada. A mão esquerda, erguia-se incompleta, desfeita. Daquela massa que outrora ergueu, talvez mesmo, as paredes que enquadravam aquela foto, restavam apenas dois dedos – os dois mais pequenos. O polegar, o indicador e aquele outro -tanta vez usado como sinal de desobediência- foram desfeitos por um engenho explosivo, que fora obrigado a segurar, numa abjecta e abominável sessão de tortura em que esteve envolvido. Os dois dedos mais insignificantes, aqueles a que fora reduzida a mão, dignamente erguidos, de uma força imensurável, demonstrando aquilo que nenhum tirano aprendeu até hoje. Que não existe insignificância na vontade dos mais pequenos, mesmo naqueles que nunca ousarão subir a escadaria branca que normalmente leva ao poder. Que não existe insignificância naqueles que nunca aprenderam a conjugar verbos com adjectivos, ou a vestir uma cara com contornos diferentes daqueles que realmente navegam dentro de si mesmo, mentindo em cada aperto de mão, poluindo a cada palavra debitada. Os mais invisíveis, possuídos pelo desejo de serem donos do seu destino, são como aqueles dois dedos. Há quem vomite que são apenas fantoches movidos pela embriaguez de algo que se assemelha a liberdade, e que no fim serão apenas cartas recicladas nas mãos de outros iguais aos antecessores. Talvez assim seja, mas nessa acidez de quem não vê mais do que a vista alcança a partir do sofá, não cabe a percepção de que há quem viva nesse limiar do risco – o de desejar viver uma vida mais significante do que aquela a que sempre foram subjugados.

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