Somos já muitos ‘qualquer coisa’

14 Mar

A coisa até prometia. Visto o anúncio da Festa do desempregado no Facebook, toca de partilha, enviar para alguns amigos também nesta infeliz condição e combinar então o programa de Sábado à noite no Lusitano Clube, em Alfama, Lisboa. Acabámos por ser três.

A D., a mais desanimada, e com razão porque anda há um ano nisto, foi quase arrastada e a muito custo. A R., sempre muito animada e eléctrica, achou que esta festa era uma coisa mais para o número do que propriamente algo eficaz que nos ajudasse a ultrapassar esta fase muito difícil.

Andei entusiasmado toda a semana mas fui esmorecendo até ao dia. É complicado manter a moral lá em cima quando não há um indício, mesmo remoto, que as coisas possam mudar a curto trecho.

Lá fomos, cedo como nos aconselharam, para encontrarmos as paredes forradas a anúncios de emprego, a maior parte das quais a D. já tinha visto. À entrada forneceram-nos, mediante pagamento de dois euros (sim, porque os desempregados também desembolsam) um envelope com papéis para assentar as ofertas e um autocolante para colar ao peito com a característica que nos definisse profissionalmente. A D. sugeriu, bem disposta, ‘pau para toda a obra’.

Eram poucos aqueles interessados nas ofertas coladas nas paredes. A maior parte, de copo na mão, conversava, ria e dançava, ironicamente ao som de ‘Boys don’t cry’, dos The Cure (versão piegas?). Confesso que fiquei ainda mais desanimado. Ou os presentes não estavam mesmo preocupados com o desemprego (e se calhar ando eu a consumir-me em demasia), ou não não estão desempregados, ou então estão resignados a que nada vai mudar… Mas custou-me ainda mais ver um homem nos seus quarentas, acompanhado pela filha, com um ar cabisbaixo e com um autocolante a dizer apenas ‘qualquer coisa’. Somos já muitos ‘qualquer coisa’.

Enquanto a R. era entrevistada para um jornal, e não houve muita cobertura mediática, vistoriei todas as paredes. Pouca coisa, coisa pouca, os CV’s já foram enviados, com a noção que as probabilidades de boas notícias são zero.

À entrada deixámos os nossos currículos, com a garantia da organização que serão enviados a empresas. Ao canto, duas miúdas, tão novinhas que me fizeram sentir velho aos 30, lamentavam que não gostavam de ter de emigrar para poder trabalhar. E de lá saímos, de cabeça baixa, pelo menos a D. e eu, ao som de ‘Blister in the sun’, dos Violent Femmes. Consta que Gabriel, o Pensador, não esteve por lá, com a sua ‘Dança do Desempregado’.

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