Zeca, sempre!

22 Fev

Quase que posso dizer que me lembro perfeitamente daquela tarde em que ouvi um vinil de Zeca pela primeira vez. Tinha os meus 12 ou 13 anos, talvez menos. Depois da escola, recordo-me de estar na minha antiga casa e de algo me ter motivado a abrir o armário de vinis do meu pai. A memória é pouco nítida, mas creio que foi a Grândola, Vila Morena –  que na altura já devia conhecer – que me chamou a atenção para o Cantigas do Maio. Retirei-o do armário. Com todo o cuidade coloquei-o no leitor a tocar e longe de mim imaginar o impacto que este pequeno gesto iria ter dali para a frente.  Não faço ideia o que me terá levado a tal acto. Há coisas que não se conseguem explicar e mesmo os mais cépticos nas teorias do além têm dificuldades em manter certezas inabaláveis nestes momentos. Adorei o vinil e ouvi-o umas quantas vezes nessa mesma tarde. Umas horas depois, contei ao meu pai que tinha ouvido o disco. Acho que ficou entusiasmado. Logo de seguida pôs a tocar o Contos Velhos Rumos Novos e explicou-me quem tinha sido José Afonso. Já não gostei tanto de ouvir este segundo álbum. Ou então já não tinha assim tanta disponibilidade. Pouco interessa. O primeiro passo já tinha sido dado. Já não havia volta a dar. A partir desse momento Zeca tornou-se uma enorme referência para mim.

Desde então ouvi-o vezes sem conta. Decorei as suas letras e cantei inúmeras vezes as suas canções em festas e manifestações. Li e ouvi inúmeras histórias sobre a sua vida. Arrepiei-me e fiquei com pele de galinha com a sua voz nos momentos marcantes da sua carreira e admirei a sua personalidade humilde ao evitar um mais que merecido lugar de destaque. Passei por várias fases, claro. Comecei por ouvir as mais políticas, e depois com o tempo, fui ouvindo todas as outras.  Ainda canto religiosamente a Grândola à meia-noite de 24 para 25 de Abril e consigo impressionar por saber umas quantas letras do início ao fim sem vacilar.

Também um pouco inspirado pelo Zeca decidi ir estudar para Coimbra e viver numa república. E foi com especial orgulho que vivi no chamado quarto do Zeca, na Boa Bay Ela, durante cerca de 1 ano dos meus 4 naquela casa e naquela cidade. Um quarto baptizado assim porque, segunda a lenda, Zeca costumava ficar nesse quarto muitas vezes quando passava pela República. É aí, que ainda hoje resiste o tesouro mais precioso da casa, um poema escrito pela mão dele – o Tecto do Mendigo – que foi e é uma mais-que-merecida homenagem à hospitalidade daquela casa. A referência às camisas lavadas é porventura o verso mais marcante do poema, uma vez que Zeca, como nunca tinha dinheiro, costumava vestir as camisas lavadas de quem lá vivia (o Lima Fernandes se não estou em erro, mas houve diferentes momentos da sua passagem lá por casa).

A dada altura da minha experiência Coimbrã, pouco antes da casa celebrar os seus 50 anos enquanto República, decidimos escrever a história oficial da Boa Bay Ela. O projecto teve muito mais coração do que cabeça (até aos dias de hoje o livro ainda não chegou a ver a luz do dia), mas de qualquer forma foi uma experiência extraordinária. Entrevistámos dezenas de antigos repúblicos, debruçámo-nos sobre a história da cidade, das repúblicas, das crises académicas e do 25 de Abril. Conhecemos imensa gente e imensa gente nos conheceu e com isso conquistamos – enquanto República – mais uma vez o respeito da cidade. O Zeca, como uma das maiores referências de Coimbra, foi uma personagem muito importante neste processo. Conheci muitos contemporâneos seus que me contaram imensas histórias. Soube por exemplo que tinha sido no quarto acima referido que o Zeca tinha passado a noite, juntamente com Adriano Correia de Oliveira e Lima Fernandes, na véspera de gravar o seu primeiro LP o Menino de Oiro numa editora – já não me recordo o nome – que ficava no Largo da Portagem. Contou-me também o Monteiro da Costa (Monteiral para os repúblicos) que o Zeca costumava passar as tardes no Café Mandarim na Praça da República (hoje o Mc Donalds) onde pedia um café e como nunca tinha dinheiro, ficava à espera que chegasse alguém conhecido para o pagar. Outra história engraçada contou-me o João Barros Madeira, também ele um homem do fado, que segundo me disse tinha o hábito de andar com um bloco de notas e uma caneta para apontar os versos que o Zeca de vez em quando criava. Creio que era o Barros Madeira que tinha uma motorizada e que o levava consigo. Como a inspiração não tem hora, ele tinha de parar muitas vezes e apontar o que estava na cabeça do Zeca, dado que ele se esquecia imediatamente.

Faz amanhã 25 anos que desapareceu o rosto da utopia, vítima de uma doença fatal que lhe retirou a vida aos 57 anos. Nunca é demais recordá-lo. Nunca é demais escrever sobre ele. Ele é intemporal. José Afonso é sem dúvida uma das maiores referências de sempre da cultura portuguesa. Ele marcou e continuará a marcar gerações. Ele continuará a ser recordado, a ser cantado, a ser estudado. Zeca continuará a ser um símbolo para muitos de nós. Zeca, sempre!

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Uma resposta to “Zeca, sempre!”

  1. Isabel Venâncio 22 de Fevereiro de 2012 às 8:54 PM #

    Muito bem, João.
    Para mim, serás sempre o João. Não seria com esta idade, quase a do Zeca, que ia começar a chamar-te de outra maneira.
    Fiquei emocionada com as tuas memórias do Zeca. Imagino bem a satisfação do teu pai, perante a tua curiosidade. E imagino a tua mãe, também.
    Continuo a trazer o sorriso dela comigo, sempre. Amizade é para a eternidade!

    Bem, avancemos.
    Isto para te dizer que também eu tive o gosto imenso de ter um filho que foi uma alma gémea do Zeca. Também ele, o David, adorava o Zeca Afonso. Foi ele, aliás, quem me deu a conhecer mais profundamente as sonoridades especiais de certas músicas menos ouvidas – Era um redondo vocábulo \ Canção da paciência.
    A seguir, o David apaixonou-se pelos seguidores do Zeca. O Fausto, o Zé
    Mário Branco, o Sérgio Godinho, o Adriano Correia de Oliveira têm lugar cativo nas estantes (ainda dele).

    Tenho pena que não tenhas tido oportunidade de assistir ao projecto do David “Tributo ao Zeca – 20 anos depois”. Foi uma homenagem do Steel Drumming, com participação do Miguel Guedes, JPSimões e Sofia Ribeiro. Produção do David.
    Estreou na Casa da Música, no dia 25 de Abril de 2007. Percorreu quase todo o país e vai, cinco anos depois, ser apresentado no L’Auditori, em Barcelona. Mais uma homenagem ao Zeca.
    Criada com muita paixão pelo David Sobral, admirador incondicional, como tu do Zeca Afonso.

    O Zeca morreu novo, o David morreu ainda um jovem.
    Mas a homenagem dele ao Zeca continua … Além fronteiras.

    E eu vou estar em Barcelona, no próximo dia 25, Sábado.
    No rasto das luzes e da paixão pelos valores de Abril que o David encarnou.
    Um abraço muito terno e solidário

    Isabel Venancio

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