Ontem, cumprimentei o José Luís Peixoto

17 Fev

Queria apenas cumprimentá-lo, esperar o momento justo, estender-lhe a mão e sentir do outro lado, uma pele igual à minha, mas feita de matéria diferente. Que ele nunca assumirá, mas que nós, que o lemos, sabemos ser distinta. Comigo, apenas o livro chamado livro, como defesa. Se me faltassem as palavras, podia simplesmente estendê-lo, e assim ganhar algum tempo, enquanto ele o assinasse.

“Olá, como te chamas”, perguntou enquanto estendia a sua mão, derrubando assim com quatro sons, a estratégia previamente definida.

Tive que falar.

Por sorte, desde pequeno decorei o meu nome, que nestas situações de aperto, confirma-se a utilidade.

Eu sei que o tempo não pára, eu sei.

Mas ali, parou.

Tinha parado também, se bem que de uma forma diferente, duas semanas antes, enquanto esperava um sim.

Essas duas experiência pessoais, levaram-me a derrubar fundamentos científicos, em apenas 15 dias. Nada mal para um pragmático como eu.

O dia fora passado em sobressalto.

No trabalho grandes mudanças se avizinhavam, merecedoras talvez de uma profunda reflexão. E eu ali, a pensar nas horas, nervoso, as que tinha ainda de riscar até às oito da noite.

Por várias vezes disse à Joana, que tinha dificuldade em me aproximar daqueles que mais admiro a obra. Nunca me considerei merecedor de tais confianças, capaz de desperdiçar com banalidades fonéticas o tempo de quem as transforma em relíquias. Mas ontem tinha de ser egoísta.

“É pá, o homem vem aqui a uma livraria, dois passos ao lado da tua casa e tu, escondes-te em pequenos pedaços? Estende-lhe ao menos a mão, cumprimenta-o, pode ser que qualquer coisa aprendas por osmose!” Esta voz, a da consciência, ou do pensamento, não sei bem, para além de inconveniente e pouco dotada do dom da palavra, é virulenta, alastra-se em ideias pelo corpo inteiro, e quando damos conta, estamos já infectados, prontos a ser comandados. Uma ideia é quase sempre coisa perigosa.

Contaminado de coragem, lá fui.

José Luís Peixoto.

Um livro chamado livro, aberto.

E uma caneta.

E depois foram palavras, coisas que disse, respostas a perguntas que simpaticamente me fazia. Contei-lhe que tinha pedido a Joana em casamento, em Barcelona, que o fiz através de um livro. Que reaprendi a escrever, no dia em que li as duas primeiras linhas do “Cemitério de Pianos”, que tal como ele era filho de um carpinteiro, e de uma pequena aldeia, daquelas onde o tempo passa mais devagar. Que era imigrante, e que reconhecia no livro chamado livro, a dificuldade da partida e a dor na indefinição da chegada. Se calhar disse-lhe mais coisas, mas agora já não me recordo.

Depois, calei-me por uns instantes, dando-lhe oportunidade de acabar a dedicatória no livro, que ele fazia questão de personalizar em cada página aberta que lhe era estendida. E muitos foram os que se aproximaram com páginas à espera de serem preenchidas.

Ele desenhou também um sol, de forma generosa, para que aquela ausência a que estamos sujeitos, enquanto deslocados – hoje apetece-me chamar-lhe assim – fosse suprimida. Talvez por desconhecimento, humildade mesmo, ele não sabia o calor que aquele livro chamado livro, já me havia trazido. O calor da minha aldeia, daquelas gentes que dizem palavras com o olhar de forma a não as gastarem tanto, o calor da chuva que aquece a alma, quando do alpendre vislumbramos os campos que ao longe lentamente se transformam em bruma.

Mas não lhe disse isso.

No final, quando me estendeu a mão, o tempo voltou a correr normalmente.

As minhas intenções mais egoístas, recordavam-me que eu poderia passar horas a conversar com o José Luís, apesar de ele não me conhecer e de eu não lhe trazer uma milionésima parte do que as suas palavras, escritas e pronunciadas, me trazem. No entanto, ele tinha que ser devolvido ao mundo.

Cruzei a porta de saída, com a esperança de que um dia, algo escrito por mim chegará às suas mãos, e que ele, nesse mundo de fantasia, abrirá as páginas uma a uma, e, calmamente sentados em cadeiras de madeira, me dará conselhos e palavras, que juntas com outras palavras formarão um texto.

Os escritores têm esta capacidade de comandar o tempo nos seus livros.

Eu desconhecia é que houvessem alguns capazes de o fazer também na vida real.

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