O que correu mal?

15 Fev

Tenho 30 anos. Mal ou bem medidos já os tenho. Não que pense muito nisso. Nunca liguei muito a datas, números redondos, aniversários ou o que seja. A verdade é que o BI (ainda sou old school) não mente. Olho para trás, olho para a frente, e a visão é a mesma: um grande vazio, um precipício onde não se vê o fundo. Tirei o meu curso como qualquer pessoa deve fazê-lo. Fui tendo os meus contactos profissionais. Fui tendo alguma experiência em Portugal e lá fora (seis meses em Paris) e chego aos 30 anos como se ainda não tivesse arrancado. Por motivos pessoais que me ultrapassaram cheguei por duas vezes à barreira do terceiro contrato numa empresa e fui dispensado. Da primeira vez apanhado numa guerra surda entre clãs (e passados anos com o pedido de desculpas de quem me julgou mal na altura mas que foi responsável pela minha saída). Da segunda pela subserviência ao poder, pelo ficar bem na fotografia. Tem sido um percurso aos caídos, literalmente. Sinto-me constantemente no intervalo de um filme que teima em não entrar em velocidade de cruzeiro. Já por muitas vezes me fizeram duvidar da minha competência e das minhas capacidades. Por demasiadas vezes me pareceu a explicação lógica para ver muitos aos quais não reconheço maior valor do que a mim me passarem à frente. Os dias são sufocantes e ao mesmo tempo vazios. Procurar empregos online, enviar CV’s, puxar pela cabeça, chatear e incomodar amigos e contactos, fazer planos sempre no fio da navalha. E perceber ao final do dia que nada tem valido a pena. São golpes de sorte que nos colocam em determinadas posições. E que a fábula do trabalhador de sol a sol recompensado é coisa de filmes e de reportagens romanceadas sobre casos de sucesso.
‘Mexe-te!’ ‘Arranja o teu negócio!’ ‘Emigra!’ São muitas as expressões quase paternalistas que vou ouvindo aqui e ali. Como se fosse tão fácil como falar. O ‘mexer’ está intimamente ligado com a sorte. Nem todos temos de ser empreendedores e nem todos temos competências para tal. E ir lá para fora não é o mundo cor-de-rosa que se pinta nas revistas, onde só se fala dos que vingaram, esquecendo os milhares que nunca o conseguiram.
Estou cansado que me olhem como desempregado por vontade, por incompetência ou por inércia. E assim vão passando os dias de mão estendida. Até quando não sei.

Anúncios

9 Respostas to “O que correu mal?”

  1. Sahba Sanai 16 de Fevereiro de 2012 às 12:18 AM #

    Somos a geração André e está tudo dito.

  2. fernando fernandes 16 de Fevereiro de 2012 às 11:09 AM #

    O que correu mal? Simples Educação e cultura Profissional neste pais. Geração ….??? …não, é somente a fotocópia de 30 ou mais anos de falta do simples. Em geral nunca este pais teve uma geração apta e competente para o trabalho, só que os mesmos na laqueação mantemos no poder de decisão.

  3. Tabanika 16 de Fevereiro de 2012 às 1:14 PM #

    Ola Pedro!
    Sou um seguidor deste espaço e não podia deixar passar esta oportunidade em dar-te a conhecer algo que, pelo menos, te poderá deixar um pouco mais animado.
    Não estou a dizer que é algo definitivo mas sim algo diferente.
    http://tabanika.stiforpbuilder.com/
    ou
    http://tabanika.myopportunityplus.com/

    entra em contacto cmg para mais esclarecimentos. Pelo menos para part-time é muito bom…. abraço e td de bom

  4. Ricardo 17 de Fevereiro de 2012 às 7:47 PM #

    Caro,

    Peço desculpa mas tenho dificuldades em perceber o seu problema, mais ainda quando me parece que “chuta” um pouco a responsabilidade da sua situação para a sociedade. Isto não é uma questão de “como se fosse tão fácil como falar”. É uma questão de atitude, e a sua está, no mundo actual em que vivemos está completamente errada. Qual o problema de emigrar? Tem risco? É chato estar longe do nosso país? Eu sei, mas se quer mesmo, oportunidades lá fora não faltam. Existem dezenas de países no mundo com falta de mão-de-obra qualificada que patrocinam vistos com muita facilidade. Não se fala de todos os que falham todos os anos e voltam para trás mas de quem não se fala de certeza é dos que nem tentam. Já para não falar de que não percebo o que é isso de falhar…?! Ter que voltar passado um ano? Falhar é não tentar! E mesmo em Portugal, acha que já fez o suficiente? Se calhar a coisa não resulta com o envio de 10 CV’s, se calhar são precisos 50, ou 100 ou 200 ou 1000, ou ir à empresa falar com o director de recursos humanos, ou com o CEO, ou enviar um vídeo, ou acampar à porta da empresa a dizer que não sai de lá sem uma entrevista que lhe deixe provar o seu valor..após fazer isso tudo, passa para a próxima…tenho a certeza que alguma vai ficar interessada em saber mais de si. O problema é que julgamos todos que uma folha de papel standard a que chamamos CV, e que as empresas recebem às centenas por dia é suficiente, e que mandamos 30 ou 40, não obtemos resposta, e pronto, cruzamos os braços. Não são as empresas que têm que ver o valor de cada um num papel…somos nós que temos que lá ir provar o nosso valor. As regras do jogo mudaram, ninguém quer é perceber isso…até porque tudo isto dá muito trabalho. A sorte procura-se. E a sorte é 10% da coisa, tudo o resto é trabalho, preparação, inteligência. Ainda por cima tem 30 anos…com 50 ou 60 ainda percebia. Basta olhar para o mercado, está tudo aí, tudo o que é preciso. Há certas engenharias com 100% de empregabilidade. Se não for como o tipico português que não quer trabalhos “da ralé”, existem cursos técnicos de 1 ou 2 anos que uma pessoa sai de lá a cobrar 50 ou 60€ à hora.

    É tudo uma questão de atitude, mas não essa parece-me. “Boa sorte”

  5. Gonçalo Fortes 17 de Fevereiro de 2012 às 8:20 PM #

    Tenho 31 anos. Nunca tive um emprego. Nunca me queixei, é opção. É diferente de dizer que nunca trabalhei. Há uma confusão em massa sobre a expressão “direito ao trabalho”. Porque aliás, trabalhei, e fazem parte do risco profissional provações diárias. A expressão sol a sol ganha um novo significado quando se é empreendedor, não é de nascente a poente, é 24/7. E, de facto, nem toda a gente pode ser empreendedora. Mas não se pode esperar de mão estendida que tomem conta de nós. Até vai contra o manifesto deste blog. Melhora-se Portugal fazendo obra que o leve para a frente. Pegando nos comentários que aqui estão à geração e à política: somos a geração com mais capacidade para ser bem-sucedida. A globalização abre as portas às nossas ideias. Nunca foi tão fácil chegar a tantos com tão pouco. E não ficar à espera que o Estado tome conta de nós. Até porque o ficar de mão estendida só vai fazer com que a insustentabilidade seja cada vez maior. Não tirei um curso, como toda a gente devia tirar. E nunca senti que desafiassem as minhas competências. Não pretendo estar aqui a validar-me, simplesmente acho que é sempre o mesmo discurso derrotista e pedinchão.
    Já escrevi sobre isto tudo anteriormente, fica aqui o meu contributo: http://oevangelhodocoiote.com/2011/10/14/a-historia-repete-se-sempre-duas-vezes-a-primeira-como-tragedia-a-segunda-como-farsa/
    E só para finalizar: “imigrados”, todos estamos!

    • Ricardo 18 de Fevereiro de 2012 às 12:11 AM #

      ”Vou porque ganho mal, e não por sentido cívico e cidadania“. Umbigos em queixumes, culturas burguesas e uma pitada de ignorância política.
      Não me ocorre que tenhamos perdido o direito ao emprego ou à educação. Não basta estalar os dedos, é preciso tomar boas decisões e criar estruturas. Gostaria de ver se toda esta energia também serve para votar, criar empresas ou até fazer voluntariado numa causa concreta.”

      Gonçalo, uma palavra sobre o artigo que escreveu: parabéns.

      • Gonçalo Fortes 18 de Fevereiro de 2012 às 6:48 PM #

        Pena que, seis meses volvidos, continue a ser muito válido. Obrigado!

  6. Andre Benjamim 22 de Fevereiro de 2012 às 1:51 AM #

    Faço muitas vezes a mesma pergunta. Diz-se que só quem passa por um mesmo problema percebe. Tenho amigos (da vida real), na frança, alemanha, suiça… nenhum pergunta como andam as coisas por aqui… No entanto os amigos gregos (que nem sequer conheço da vida real, apenas das redes sociais), fartam-se de perguntar…

  7. Rabbit 28 de Fevereiro de 2012 às 6:55 PM #

    Tu n me digas q estás outra vez nessa situação?! Revejo-me em tudo o que disseste. Eu com 32…n tive outra hipótese senão aprender a mexer-me, despertar o empreebdedorismo e emigrar. Quem sabe a solução é mesmo essa. De qualquer forma, digo-te eu que bem o sei, a culpa n é tua. Descobri isso qdo comecei a ver esse país cá de longe. Boa sorte!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: