O Homem que nasceu duas vezes – A história de Cavaco

10 Fev

Eram duas vezes um homem chamado Cavaco. Duas vezes, porque corria o rumor de que aquele homem, por artes até hoje desconhecidas, havia nascido em dose dupla.
Naquele País, que alguns geómetras pouco cuidados apelidavam de rectângulo, nasceu um dia, e pela primeira vez, uma criança, que mais tarde se tornou um adolescente, e mais tarde ainda um adulto. No seu percurso por aquelas estradas mais curvas do que rectas, que alguns apelidaram de política, embora à revelia de Platão, que quando ouviu tal comparação se revirou três vezes no túmulo, Cavaco procurou sem descanso aquilo a que nos livros alguns apelidaram de – honestidade. Dizia-se que as gentes daquele pobre País, eram incapazes de aceder a tão afortunado dom divino, e que se um dia alguém encontra-se o caminho para tal virtude, asseguraria um lugar de destaque entre os demais. O nosso herói, revestido de uma capacidade de sacrifício incomum, dificilmente adjectivável por parte daqueles que viviam em decadência, procurou incessantemente a fonte de extraordinária capacidade. Mas em vão. Se o percurso se adivinhava espinhoso, mais ainda se tornava se, nas indicações dos que o rodeavam confiasse. Cavaco, procurou, por veredas e caminhos, muitas vezes ao engano de malfeitores que se diziam companheiros, a porta que lhe anunciasse o fim de tão valorosa demanda.
Anos foram passando, sucedendo-se a outros iguais, um acumulado de tempo calendarizado.
“Ao que vais?”, perguntavam-lhe os estranhos que o abordavam nas ruas.
“O que procuras?”, insistam perante a ausência de respostas.
Cavaco ignorava-os, pois achava-os incapazes de perceberem, pois quem não compreendia a dimensão do fim, jamais entenderia o esforço da procura. A assim foi somando passos e pegadas, num emaranhado de locais e rostos, todos eles sempre distantes do que o movia.
Até que um dia, um dia de estranho nevoeiro, daqueles que dão muito jeito a quem relata histórias ou contos dada a intensidade dramática da cena em si mesma, Cavaco encontrou um estranho, que não lhe fez nenhuma pergunta, apenas lhe apontou o caminho.
Dias depois, quando foi anunciado que Cavaco havia morrido, que se tinha evaporado juntamente com  bruma que o havia parido, o País festejou. Estavam livres de personagem tão caricato, pouco dado a conversas, e de uma sobranceria existencial que incomodava a mais pacata das estátuas. Mas por pouco tempo. Os festejos acabaram com o rebentar do último foguete atirado nessa mesma noite.
Descobriram ao sabor daquela ressaca matinal, que afinal ele tinha voltado a viver.  Desta vez mais forte do que nunca. Havia nascido duas vezes, e com ele a capacidade que tanto ansiara – era finalmente o Homem mais honesto daquele rectângulo. A seu lado, personagens bíblicas envergonhavam-se com a resplandecência de tal virtude.
Tomou o poder de vez, e com ele todos aqueles que à sua mercê e pedindo sua esmola, o haviam seguido nessa sua busca incessante. Tudo lhes era permitido, pois Cavaco, o mais humilde, atestava por eles. E contra tão valorosa palavra, nada havia a fazer. Ele era a voz da moralidade, aquele a quem ninguém ousava contradizer.
O País, governado por tão valoroso soldado, apenas podia esperar dias de extraordinário crescimento. O futuro, outrora monocromático apresentava-se colorido, com céus límpidos e noites estreladas. Cavaco, o homem que nascera duas vezes, rescreveu a história do País que outrora foi, e que cada vez mais se arrisca a deixar de o ser.
Bem haja a Cavaco!

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Uma resposta to “O Homem que nasceu duas vezes – A história de Cavaco”

  1. z 11 de Fevereiro de 2012 às 1:25 AM #

    entendi mas não entendi

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