O que se escreve no Brasil sobre Portugal

20 Jan

 

Se eu pudesse comprava com certeza uma casa portuguesa, com quatro paredes caiadas e um cheirinho de alecrim. A hora é essa. Segundo a influente revista “Visão”, o país está à venda. O estado, os bancos, as empresas, as famílias, todos estão precisando de dinheiro. Daí a moda dos leilões, que se multiplicam como “uma das formas que os portugueses encontraram para suprir as suas necessidades imediatas”. Para pagar dívidas, leiloa-se tudo: “Desde objetos pessoais ao recheio da casa, entregando os apartamentos aos bancos por não cumprimento dos empréstimos.” Mais de 140 mil famílias encontram-se com as prestações da habitação em atraso. No terceiro trimestre de 2011, cerca de 600 mil pessoas não conseguiram saldar o que deviam (é mais do que a população da cidade de Lisboa). Também as empresas estão com as suas contas atrasadas: pelo menos 6% do crédito concedido a elas, ou 7 milhões de euros, não foram pagos.

Quanto ao estado, promove a liquidação de seu patrimônio para atender às drásticas medidas de austeridade impostas pela chamada Troika (Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu), que é quem manda hoje na economia dos países do euro. Portugal já vendeu no correr do martelo 80 mil imóveis e dez mil carros, sem falar nos artigos apreendidos em portos e aeroportos (obras de arte, equipamentos eletrônicos, máquinas, sofás e até carrinhos de bebês). Mas precisa arrecadar mais, pelo menos 5 bilhões de euros, e para isso terá que privatizar suas maiores estatais, nas quais algumas empresas brasileiras estão de olho. A Eletrobrás, por exemplo, se interessa pela EDP (Energias de Portugal) e a Andrade Gutierrez já declarou a intenção de participar ativamente desse rico processo de privatização.

Estranhamente, não aparece nenhum candidato brasileiro na lista dos quatro pretendentes da TAP que “Visão” publica: British Airways/Ibéria, Qatar Airways, TAAG (angolana) e Lufthansa. No entanto, a julgar pelo que pude apurar em minha última viagem a Lisboa, a preferência da simpática companhia aérea é por uma congênere brasileira. O ex-presidente Lula teria se oferecido até para tentar atrair para o negócio uma delas, a TAM. Mas pelo visto a mediação fracassou.

Enquanto isso, os portugueses continuam fugindo da crise e buscando o Brasil. Calcula-se que nos últimos cinco anos os vistos de trabalho aumentaram quase 70%, concedidos na maioria a jovens profissionalmente qualificados. Com 20% de desemprego lá e com a expansão da economia
aqui — boom da construção civil, perspectivas do petróleo, obras para Copa do Mundo e Olimpíadas — o Brasil virou um paraíso, por exemplo, para engenheiros, arquitetos e construtores. Essa onda migratória faz lembrar o velho “Fado Tropical”, de Chico Buarque. Com tantos portugueses se mudando para cá, o Brasil, quem sabe, “ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.

Zeunir Ventura é um soixante-huitard brasileiro que escreveu, entre outras coisas, o brilhante 1968: O ano que não terminou.

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