“Há razões para acreditar num mundo melhor”

31 Dez

O ano de 2011 aproxima-se a passos largos do fim e o mundo prepara-se para receber 2012 com alguma desconfiança e muito cepticismo à mistura. Não me recordo de uma viragem de ano assim. Nas tradicionais mensagens desta época, já não se lê o habitual “próspero ano novo”. A maioria das pessoas limita-se a desejar “um 2012 que não seja pior do que 2011”. E mesmo assim, não parecem nada convictas de que tal seja possível.

Até uma simples publicidade da Coca Cola a mostrar que “há razões para acreditar num mundo melhor” gera manifestações de desagrado, surgindo outras versões mostrando uma outra realidade que não consta do vídeo da marca norte-americana.

De facto, 2011 é um ano que não deixa saudades para a grande maioria dos portugueses. As palavras “crise” e “austeridade” foram repetidas até à exaustão. A mudança de governo, não inverteu, nem de perto nem de longe, a tendência para os responsáveis políticos continuaram a exigir sacrifícios ao comum dos portugueses. O memorando de entendimento com a “troika” tem degradado as condições de vida de milhões de portugueses, conduzindo a um progressivo empobrecimento da nossa população.

E, tal como no passado recente, nada nos garante que tudo isto valerá a pena. A conjuntura internacional ameaça colocar tudo em causa a qualquer momento. A Europa é incapaz de se unir e encontrar uma solução para os problemas que põem em causa o processo de integração que assegurou a paz no “Velho Continente” ao longo das últimas décadas.

De facto, o cenário não é animador. E apesar da tentação ser forte, 2011 não poderá ser, de maneira nenhuma, um ano para esquecer. Os erros cometidos ao longo deste e de outros anos devem estar bem presentes na nossa memória colectiva.

Em primeiro lugar, deveremos ter a consciência de que os graves problemas que enfrentamos não poderão ser resolvidos de um dia para o outro. Portugal e a Europa sofrem as maiores reestruturações e ajustamentos orçamentais de que há memória desde a II Guerra Mundial. Tudo em nome de uma solução para a crise das dívidas públicas e da sustentabilidade do sistema financeiro. O crescimento económico foi subalternizado e esquecido em prol dessas prioridades.

Costuma-se dizer, em jeito de brincadeira, que nem Deus fez tudo num só dia. Se há lição que a situação grega nos ensinou ao longo deste ano é que não será possível proceder a alterações tão profundas da noite para o dia. Porque corremos o risco de destruir toda a economia. Porque atiramos para a pobreza milhões e milhões de pessoas a quem é roubada a sua dignidade. Porque dessa forma, como afirmou há tempos o professor Adriano Moreira, “substituímos o valor das coisas, pelo preço das coisas”. Porque, em última análise, colocamos em causa a própria democracia ao substituir a política pela tecnocracia e ao sermos governados por programas que não elegemos e não conhecemos.

As consequências começam-se a fazer sentir mesmo a nível geopolítico. A Europa, como um todo, é um continente em decadência, cada vez menos relevante na cena internacional. Tudo, porque esqueceu os valores que estiveram na sua origem e contribuíram para a sua reconstrução. Esqueceu a importância da solidariedade entre Estados. Esqueceu a importância do desenvolvimento e do crescimento económico assegurado pelo Plano Marshall. Foi precisamente o investimento público, e não a austeridade, que fez da Europa um espaço de prosperidade. E não se consta que Marshall fosse comunista ou sequer de Esquerda, para perfilhar esta orientação.

O ano de 2011 mostra-nos, porém, que nem tudo está perdido, e que o nosso contributo pode ditar o rumo dos acontecimentos no ano que vem. A distinção do “manifestante” como personalidade do ano pela Revista TIME, bem como a atribuição do Prémio Nobel da Paz e do Prémio Sakharov a cidadãos comuns que fizeram a Primavera Árabe, prova que nada está determinado e todos temos uma palavra a dizer no nosso futuro. Afigura-se como essencial o exercício de uma cidadania cada vez mais activa e de uma maior consciencialização acerca dos processos que a todos nos dizem respeito. Mais do que nunca não nos podemos demitir da defesa dos valores da justiça, da dignidade humana e da reivindicação de uma verdadeira igualdade de oportunidades para todos. Se não o fizermos, ninguém o fará por nós.

Cabe a cada um de nós, saber de que lado quer fazer parte no tal anúncio da Coca Cola que vai fazendo sucesso nas redes sociais. E recorrendo à linguagem financeira que vai dominando os nossos dias, não nos esqueçamos do que o escritor francês Joseph Joubert nos disse um dia: “a esperança é um empréstimo que se pede à felicidade”.

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