Solidariedade e transferências entre gerações

27 Dez

A propósito da eleição do Fado como património imaterial da humanidade, uma iniciativa louvável que devia ser acompanhada de replicações noutras áreas que ajudassem à criação de um espírito menos dado à “autoflagelação”, porque não pensar-se por instantes no que são os legados e as transferências intergeracionais.
De facto, este estatuto é uma conquista que se pretende ser útil hoje e constituir um legado para gerações futuras. Chamou-nos a atenção esta nomeação para o facto de as transferências não serem necessariamente materiais, do domínio do tangível.
Estas transferências entre gerações seguem, assim, duas vias fundamentais: materiais e imateriais. Depois, seguem-se dois caminhos possíveis: existem legados interpessoais dados pelas heranças (que podem até ser taxados pelo Estado, numa formulação simplista penalizando quem acede a determinado bem sem que tenha trabalhado para o obter) e os patrimónios coletivos. O Fado já seria uma património coletivo estando inscrito na nossa cultura, com este reconhecimento tal inscrição pode dizer-se estar formalizada. Destes patrimónios coletivos e para que se perceba a importância dos elementos imateriais, pense-se por exemplo no conhecimento científico, porventura a única vantagem relativa atual detida pelo ocidente.
Naturalmente do património coletivo fazem parte, também, todas as realizações materiais, de maior ou menor porte, de maior ou menor importância. Portanto, o fetiche pela “obra feita” e pelo descerrar de placas alusivas em inaugurações tem um mote muito próprio, sendo que é uma parte importante do nosso desenvolvimento coletivo que tem sido sobrevalorizada. Elementos como monumentos, pontes, hospitais, estradas, aeroportos, linhas férreas, túneis, escolas, universidades, inscrevem-se neste grupo. A lista é interminável.
Todos estes elementos, sejam materiais ou imateriais, implicam determinadas “doses” de utilidade no presente e/ou futuro. Casos há em que poderá ser nula, é a verdade. De qualquer forma, a utilidade, por muito difícil que seja de medir, será um indicador mais do interesse para o coletivo de qualquer investimento.
Estas realizações por parte do Estado implicam um pagamento que, como se sabe, tem sido inúmeras vezes diferido. De outra forma, realizações do presente que supostamente devem acarretar efeitos positivos nas vidas das pessoas implicam uma transferência de custos para gerações futuras, não respeitando princípios de sustentabilidade. Como alguns Estados são ávidos de gastar mais do que aquilo que reúnem nos impostos cobrados anualmente aos seus cidadãos, emitem dívida pública para se financiarem. Essa é pois mais uma forma de legado que se pode facultar às gerações futuras. Para lá da separação entre público/privado, explícito/implícito, todo o cidadão português que nasça no ano que se avizinha recebe tal prémio à cabeça, algo para o qual se espera que preste a sua solidariedade em momento oportuno.

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