Considerações…

16 Dez

É pequeno, mas muito esperto. Respira com os olhos.

Sentados sobre uma das dunas que ainda restam, de uma praia qualquer, de uma vila qualquer, olhando este oceano que é igual em todo lado. Apenas o temperamento é diferente. Um rectângulo à beira-mar plantado!

Se fomos plantados, dizia eu ao pequeno, quem nos plantou? Ou será que nascemos como ervas daninhas? Alguns religiosos dizem que uma virgem apareceu a certa altura neste grande pomar e que tinha um desígnio para nós. Isso no fundo, é acreditar que fomos semeados por alguém divino!

O pequeno olhou para mim. Sorriu com um sorriso simpático. Sabia que ele tinha pena de mim, por todas aquelas banalidades que tinha acabado de dizer.

Porque é que vocês todos têm sempre uma opinião acerca de todos e de tudo o que se passa no vosso País?”

Como assim?”, perguntei.

Mas era tarde. Eu já tinha acusado o toque, e sabia bem onde ele queria chegar.

Vês ali aquele café! Se entrares neste momento, ouvirás um senhor explicar porque o País está mal. Para ele é simples o diagnóstico, assim como a solução. Atentamente a ouvi-lo está uma senhora que posteriormente lhe falará do seu estado de saúde. Inumerará com uma voz cansada todo o tipo de agruras que tem sofrido por parte do seu corpo. Mas antes de falar, ela própria já se auto-diagnosticou. Atrás, estão dois senhores mais velhos pousando em cima da mesa ritmicamente pedaços de cartão com símbolos coloridos. Ambos discutem e sabem por instinto que fariam melhor do que o treinador do seu clube de futebol, que tarda em apresentar resultados. E para eles é tão simples, tão básico como aquele ritual estranho em que se envolvem todas as tardes. Junto ao balcão, duas mulheres. A mãe escuta a filha que reclama contra a vizinha, a amiga da vizinha, a amiga da amiga da vizinha, e tantos outros desconhecidos, que lhe roubaram a oportunidade de agarrar o trabalho que sempre quis. Revolta-se contra a “cunha” que a tem prejudicado, que tem posto interesses pessoais à frente das suas competências. O que ela ainda não sabe, é que dentro de momentos o Pai entrará por aquela porta, e lhe dirá que o seu amigo cujo nome não interessa neste momento ao relato, quer empregá-la na sua companhia. Convidará esposa e filha para almoçar, orgulhoso do favor com que se fez retribuir. A filha esvaziará o peito de toda aquela amargura que tentara transformar em rostos, e encherá com as palavras que a voz da mãe debita, que aquilo não é um favor, porque na verdade ela merece, porque é melhor que os outros que poderiam ocupar aquela posição.”

Espirrei com voz de quem não ficou satisfeito com a caricatura, mais duas ou três banalidades, tentando-o convencer que afinal aquilo que ele tinha dito (apesar de verdadeiro) afinal não era bem assim. Uma espécie de auto-convencimento, que mais não era do que um qualquer resíduo de um patriotismo ferido. Disse-lhe que generalizações não eram um bom ponto de partida para análises mais rigorosas, mas à medida que ia debitando sons em forma de palavras, mais me sentia parecido com aquelas figuras do Bordalo Pinheiro.

O politicamente correcto, é tão enfadonho quanto a falsa modéstia. É falso. Alguém que pense sempre assim, tem ou um atraso ou então é beatificavel.” E levantou-se, seguindo em direcção ao triciclo. Segui-o, mas uma parte de mim ficou ali sentada, apática.

Ah” exclamou, olhando para trás mostrando aquele rosto insolente de miúdo, “Da próxima vez cria-me como alguém mais velho, talvez um ancião. É triste, para não dizer estranho, ter que explicar a alguém mais velho que no fundo as palavras só fazem sentido, quando acompanhadas de actos.”

E partiu pedalando.

Voltei-me e fui buscar o resto de mim que ainda olhava o oceano.

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