A crise na Arquitectura

25 Nov

O mundo da arquitectura vive uma dupla crise: de trabalho e de valores.

A crise de trabalho está obviamente relacionada com a falta de mercado para tantos arquitectos que ano após ano se vão formando.

A crise de valores está unicamente ligada ao carácter, ou à falta dele, dado o baixo nível de humanidade de quem contrata, gere e dá a cara pelos gabinetes.

Isto porque se aproveitam do desespero de quem procura um estágio, de quem procura o primeiro emprego e de quem, olhando à sua volta e não vendo condições melhores, aceita aquilo que os próprios proponentes nunca aceitariam nem nunca aceitaram durante toda a sua vida.

O mundo da arquitectura em Portugal é uma espiral de desorganização.

Por norma, o arquitecto chefe (patrão, coordenador, ou lá o que o quiserem chamar), chega ao escritório por volta das 10:00 da manhã. Obviamente, qualquer colaborador que tenha a intenção de começar a trabalhar bem cedo, ao final de vários dias a sair sempre tarde do trabalho, repensará toda a sua abordagem. E é aqui que começa a espiral.

Os colaboradores chegam tarde, saem tarde. Perdem parte da sua vida familiar, ou então evitam mesmo ter uma. Saem cansados e chegam no dia seguinte ainda mais cansados. Acumulam frustrações – as inerentes ao trabalho, comuns a todas as profissões, e as inerentes à sua própria vida – que estão inequivocamente relacionadas… com o trabalho.

Na faculdade quiseram-me ensinar que para se ser arquitecto é preciso sofrer continuamente. Esta apologia da dor chateia de tão cristãzinha que é! Como se adquiríssemos ao entrar na faculdade o estigma de ter construído qualquer coisa errada numa vida passada, e que, a única forma de salvação é o sofrimento até ao final dos nossos tempos. Mas, o cocktail é ainda mais explosivo, pois para além das sacrossantas agruras, deve-se juntar a isto a ideia de que somos todos artistas!

As nossas faculdades especializaram-se em formar arquitectos artistas, ou “completos” como muitos lhe chamam. Quer isto dizer que um arquitecto formado em Portugal tem em geral mais sensibilidade do que um outro congénere europeu, em determinadas matérias como desenho, proporção, integração no local, no fundo, todos os aspectos relacionados com concepção. No entanto não se especializam por norma em mais nada. Conhecem os detalhes construtivos usados pelo gabinete e pouco mais fazem do que repetir durante quase toda a vida as mesmas receitas. Em geral na Europa existem vários tipos de perfil de arquitecto, que se adaptam às diferentes fases do projecto, desde os mais criativos aos puramente técnicos. Ao nível da adaptação ao mercado e às novas realidades, os escritórios portugueses estão ainda parados no tempo do PREC.

Ora, este imenso mar de gente que faz a mesma coisa e da mesma forma (obviamente que uns melhorzinho do que outros) acaba explorada por um colega mais velho, que tem um escritório cujo orçamento paga 3 pessoas, mas onde trabalham 10. Este colega mais velho, também artista só que mais experiente, vive cada dia que passa como um autentico calvário : o empreiteiro não fez o que deveria ter feito, o cliente não pagou a tempo, o pessoal do escritório não trabalha motivado, a câmara cria problemas, etc, etc, etc.

Isto leva-nos à conclusão final que no fundo não se aplica apenas ao mundo da arquitectura, e que reflecte muitos dos problemas estruturais do nosso País: A constatação de que uma grande percentagem de todos os Arquitectos que hoje são patrões, nunca o deveriam ter sido. Deveriam ter enveredado pelo caminho da auto-flagelação solitária cuja abordagem à profissão lhes possibilita, não contaminando assim gerações de entusiastas, que mal acabam a faculdade são arrastados para um mundo do antigamente, onde algumas práticas são de uma profundidade Jurássica e surrealista.

N.B: Já trabalhei em Portugal, já desenhei, e já construí com as minhas próprias mãos o que outros desenharam. Actualmente trabalho fora do País. Não me movem portanto qualquer tipo de interesses ou ressentimentos mesquinhos. Escrevo o que escrevo, quando constato que ainda não há sequer sindicato para arquitectos, e quando vejo reflectida em muitas pessoas que estimo, a barbárie de um sistema exploratório mas descaradamente auto-penitencial.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: