Os 800 homens de Otelo

16 Nov

A personagem Otelo Saraiva de Carvalho tem tanto de carismático e apaixonante como de misterioso e desconcertante. Os seus comentários e opiniões, para o bem e para o mal, produzem efeitos na sociedade portuguesa e adquirem algum eco mediático. O da semana passada onde lembrou que bastavam 800 para tomar o poder pela força não foi excepção.

As reacções mais mediáticas foram, como seria de esperar, de profunda crítica ao proferido. O sistema actual apesar de estar doente, lembrou Vasco Lourenço, possui os mecanismos necessários para que a sociedade se organize numa base igualitária e para que a riqueza seja relativamente bem distribuída. Mais, este sistema possui também mecanismos formais para que ele próprio seja melhor afinado. Não há dúvida quanto a isto, embora se tal acontece na prática ou não já pode ser motivo de discórdia.  

Apesar do seu carácter no mínimo desconcertante, creio que estas declaracões foram importantes na medida em que lembram ao país o quão frágeis podem ser os sistemas políticos. Nada está adquirido. Os sistemas políticos, os impérios e até os sistemas económicos nascem, vivem e morrem como tudo o resto. Seria muita arrogância da nossa parte pensar que este sistema político vai perdurar para a eternidade. Outros virão certamente. Melhores esperemos nós, mas também não é certo que assim seja.

Os sistemas políticos sobrevivem e prosperam essencialmente se garantirem dois elementos fundamentais às suas populações: liberdades e bem estar. Aqueles que não garantam os dois, ou mesmo um ou outro, tendem a colapsar mais cedo ou mais tarde. Por liberdades entende-se tudo o que compreende desde os direitos mais básicos de liberdade de expressão, de participação na vida pública ou de associação até questões mais complexas como por exemplo a adopção de crianças por casais homossexuais. Por bem estar entende-se tudo o que engloba bens ou serviços desde os mais essenciais como habitação digna ou acesso à saúde e à educação até aos não tão essenciais como o acesso à cultura.

Actualmente, o sistema político actual passa por uma fase de enorme turbulência. Por um lado, o bem estar das populações está a definhar a uma velocidade estonteante quer como consequência da crise em si quer como resultado da austeridade aplicada para a combater. Por outro lado, as liberdades começam a ser subrepticiamente colocadas em causa como consequência da influência dos mercados na política. Até quando a situação se vai manter minimamente calma? Ninguém sabe. Será que em 2012 e 2013 as coisas vão melhorar? Veremos. 

O que me parece certo é que não se aguentará muito tempo nesta situação. Caso não apareçam sinais positivos nos próximos 1 ou 2 anos o sistema político poderá estar seriamente em causa. O que poderá vir daí será naturalmente incerto, mas estarão criadas as condições para mudanças profundas.

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