Democracia e Capitalismo – uma relação em fim de vida?

9 Nov

Quando no início da década de 90 se profetizou o fim da história, acreditava-se que democracia e capitalismo teriam um futuro risonho à sua frente. As forças do mal (as ditaduras e as economias planificadas) seriam paulatinamente reduzidas a pó por esta poderosa coligação e os povos do mundo viveriam finalmente em paz e prosperidade. Não demorou muito tempo para que tudo isto fosse posto em causa. A ascensão da China enquanto potencia global e a proliferação do islamismo radical, só para citar os exemplos mais flagrantes, abalaram os fundamentos da referida tese. Os últimos desenvolvimentos na Grécia e na Itália deram porventura a uma forte machadada e indiciam que o fim de ciclo se aproxima. Democracia e capitalismo cortaram relações.

Wallerstein, um dos maiores intelectuais do séc. XX, numa entrevista dada recentemente, avança com algumas ideias. Para ele a questão central agora não é saber se o capitalismo sobreviverá como sistema, mas sim saber qual o sistema que o substituirá. O capitalismo sobreviveu bem durante 500 anos e soube, muito mais do que os sistemas anteriores, dar respostas às necessidades. Contudo, como todos os sistemas tem as suas contradições e terá um fim. Esse fim, segundo ele, começou nos anos 70 e terminará em 20 ou 30 anos. Estamos então numa bifurcação ou num ponto de viragem onde as opções são avançar para um modelo mais igualitário e mais democrático ou para um sistema mais desigual, explorador e menos democrático. Seguindo a linha de pensamento da velha escola marxista, o produto final será naturalmente aquele que sair como resultado da relação de poder entre as forças em conflito (leia-se classes, sub-classes ou pós-classes de acordo com a revisão histórica que mais se gostar do conceito de luta entre os interesses contraditórios de exploradores e de explorados).

Mikis Theodorakis, um outro intelectual embora de outras áreas (quem não gosta deste concerto?), lançou em Maio um apelo aos povos da europeus para se levantarem contra o regresso do fascismo, desta vez sob a forma de ditadura dos mercados. Para ele, il n’y pas d’autre solution que de remplacer l’actuel modèle économique européen, conçu pour générer des dettes, et revenir à une politique de stimulation de la demande et du développement, à un protectionnisme doté d’un contrôle drastique de la Finance. Si les Etats ne s’imposent pas sur les marchés, ces derniers les engloutiront, en même temps que la démocratie et tous les acquis de la civilisation européenne. Theodorakis estava certo. Não foi preciso esperar muito tempo para se ver uma proposta de referendo colocar em sentido toda a Europa. 

Mas nem só de más notícias se vive actualmente. Parece que para os lados de Itália, os mercados estão a conseguir resolver de forma bem rápida e eficaz um problema chamado Berlusconi. Bastaram uns meses de pressão sobre a dívida italiana para que o governo italiano fosse encostado às cordas. É certo que nesta conjuntura qualquer futuro governo em Itália terá de aplicar um pacote de austeridade bastante duro, o que terá um impacto duríssimo sobre os ombros dos italianos. No entanto, só o facto de estar anunciada a saída de cena de um dos maiores embustes da política do séc. XXI (só mesmo batido por George Bush), já dá algum animo às hostes europeias. As garrafas de champanhe vão finalmente poder sair. 

 

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