O Crime Perfeito – Manual de Sobrevivência

6 Nov

Imaginem que podem ficar ricos, muito ricos, sem que para isso tenham de apostar as vossas poupanças. Agora imaginem que as outras pessoas depositam as economias da sua vida nas vossas mãos e que, por ordens superiores, têm carta branca para investir esse dinheiro como bem entenderem desde que, obviamente, apresentem lucros. E será sobre esses lucros que receberão os vossos bónus milionários. A vossa fortuna é feita ‘virtualmente’, milhões para vocês, um crescimento assegurado de 3% nas contas poupança dos clientes, aquilo que em inglês se designa por win-win situation.

Mas porquê parar por aqui?
Os créditos são também uma óptima opção. Apelemos às necessidades primitivas de cada ser humano, a procura de um determinado status quo, a necessidade de ter casa ou carro próprio. Claro que podem sempre alugar casa mas, porque não aplicar o que pagam mensalmente de renda em algo que daqui a 10, 20 ou mesmo 30 anos pode ser deles? Entretanto temos o dinheiro assegurado e os juros equivalentes.
E que me dizem a um crédito para consumo pessoal? Roupas de marca, viagens, telemóveis de última geração, computadores, o céu é o limite. Nós emprestamos e ganhamos um cliente que paga religiosamente durante 20 anos, e se cair em incumprimento confiscamos os bens que comprou.

Mas, perguntam vocês, se emprestarmos dinheiro para os clientes pagarem a pronto os bens de que necessitam, o risco de ocorrer um desfasamento entre o dinheiro vivo em caixa e o virtual –  aquele que, em teoria, ainda vai ser pago – é elevado. Podemos enfrentar um problema de liquidez ou seja, teremos ou não a capacidade de honrar os nossos compromissos a curto e longo prazo. E aí está a beleza do sistema, o Estado permite a chamada ‘alavancagem financeira’. Nos EUA, por exemplo, e graças à intervenção de governos desde Ronald Reagan até ao de Bill Clinton o tecto de alavancagem foi sendo consecutivamente aumentado. Alguns bancos americanos chegam a ter um rácio de 1/30 entre o dinheiro vivo e os investimentos ‘virtuais’. Caros futuros milionários podem riscar mais um problema da vossa lista.

Mas o Estado pode intervir, tentar regular o mercado financeiro, criar legislações que impeçam o abuso de poder. Não desesperem, até para isso há solução.
Ao aceitarmos 3% de défice e endividamento externo dos países como uma boa média estamos a aguçar os apetites nacionais por mais créditos e investimentos. Certo que com ligeiras reestruturações (sobretudo quando comparadas com as exigidas actualmente) o défice facilmente desceria ou seria mesmo anulado. Mas isso em nada serve a nossa causa.
E porque não incentivarmos o endividamento? Sobretudo se as grandes instituições financeiras dão o seu aval pois, naturalmente, o crescimento do país será superior ao da dívida contraída.  Quando se fazem os balanços domésticos no fim do mês, um défice de 3% implica uma conta a zero ou com saldo negativo, o crescimento de 3% nas poupanças do agregado familiar não é assim tão linear.  Mas assim como a publicidade agressiva manipula os apetites dos consumidores por produtos que não precisam realmente, também os governos são tentados. E é só esperar que mordam o anzol, fazendo investimentos acessórios, estabelecendo parcerias publico-privadas abusivas com contrapartidas graves para o défice e PIB. E quanto mais endividados mais dependentes estarão, e quanto mais endividados mais desesperados e aí os juros do empréstimo aumentam exponencialmente. Afinal estamos a emprestar dinheiro a países que de outra forma cairiam em incumprimento e subsequente bancarrota, o risco para nós é elevado logo as contrapartidas terão que ser maiores.

Justiça? Quantos governantes conhecem que tenham sido responsabilizados criminalmente por desvio de fundos ou gestão danosa?

O povo vem para a rua, exigem-se referendos, democracia, uma política participativa. Mas é tarde demais. Estão TODOS enleados em dívidas: indivíduos, companhias, estados…

CHEQUE-MATE!

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Uma resposta to “O Crime Perfeito – Manual de Sobrevivência”

  1. Diogo Silva 6 de Novembro de 2011 às 8:31 PM #

    Muito bom! Short and simple 😉

    Parabéns!

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