Fim-de-semana em Barcelona, já há duas semanas, no rescaldo da morte de Khadafi e do fim da ETA. De forma óbvia as capas de todos os jornais nas bancas falavam nisso mas o que mais me chamou a atenção, e confesso que era o que me puxava mais pela curiosidade, passava pelos efeitos da crise.
Pela primeira vez em quase dez idas a Barcelona, vi um sem-abrigo a dormir de madrugada numa das ruas da cidade. Tapado por cobertores esburacados, parecia insensível à chuva que caía furiosamente na capital da Catalunha. Encontrei-o, ele ou ela, que a miséria acaba por tornar quem nela cai em seres iguais, numa travessa em Les Corts, não longe do Camp Nou, o majestático estádio do FC Barcelona. Não estamos portanto a falar de uma zona decrépita da cidade, onde poderia ser mais expectável encontrar um sem-abrigo, mas de todas as formas inaceitável.
Em conversa com amigos da Catalunha, uma delas contou-me que estava desempregada há mais de um ano. É apenas uma dos mais de cinco milhões que apontam os últimos números. Inés relatou o seu estado, mas de forma conformada, como se fosse uma inevitabilidade estar sem trabalho. Mais lá do que cá, não há FMI mas continua a viver de forma vergonhosa a mais elevada taxa de desemprego da União Europeia.
Num táxi, e sabemos como os taxistas são um belíssimo barómetro da sociedade, Portugal foi muito elogiado, porque sabemos cozinhar bacalhau como ninguém, porque todos falamos, e bem, inglês, e pela beleza do país e das praias. Barcelona é parecida com Lisboa, disse orgulhoso, «mas aqui os edifícios estão mais limpos». Taruz, que tem razão! Viola no saco e siga.
Por fim, ao final da tarde de Sábado, um passeio descendo as Ramblas e uma paragem para um sumo de maracujá no La Boquería. Tudo cheio e a abarrotar, qual crise qual quê. O objectivo era pôr os pés na areia e no Mediterrâneo e lá fomos até Barceloneta, a praia de Barcelona. Qual não é o espanto quando nos deparamos com gigantescos veleiros na marina, barcos nunca vistos em Vilamoura ou Cascais. Um amigo que viveu em Barcelona há uns anos exclamou que «no tempo dele» não havia barcos desta envergadura. Dizem que a crise é uma oportunidade? Eu digo é que não chega a todos.
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