Médias

18 Out

Porque todos estamos fartos de crise, vamos falar um pouco mais dessa entidade. A Igreja tem estado especialmente activa na contestação às medidas de ajustamento estrutural tomadas e destacados elementos têm, publicamente e em vários momentos, criticado as opções tomadas pelo governo actual. Numa dessas intervenções, Pedro Passos Coelho foi chamado de aventureiro. Não sei o alcance de tal afirmação, não imagino sequer se se confirma. Contudo, existem sinais que nos dizem que não é uma pessoa totalmente preparada para a função que exerce.

A comparação entre a média salarial do sector público e do sector privado é abusiva e servirá para criar ruído. De facto, não se pode comparar o incomparável. Para o exercício ser correcto, teria de isolar-se as diferentes categorias profissionais de um lado e de outro para que fossem, dessa forma, comparadas situações homólogas de realidades diferentes. Ora, na abordagem simplista efectuada, em que se colocou tudo no mesmo saco e ainda se semeou uma guerra, é expectável que surjam desvios.

A média é um indicador que tem de ser utilizado com alguma parcimónia e implica algumas regras. Vejamos porquê. O Estado, de facto, tem sob sua alçada um conjunto alargado de profissionais altamente qualificados, parte dos quais sem qualquer representação no sector privado. Referimo-nos, por exemplo, a médicos, juízes, professores, gestores, entre muitos outros. Sendo profissionais altamente qualificados a exercerem funções de elevada responsabilidade, é natural que os seus vencimentos sejam elevados. Ao participarem no “bolo”, desviam a média dos vencimentos de todo o grupo para um valor mais elevado, transmitindo uma falsa ideia que, por sinal, serviu de premissa a uma decisão, a que depois se somou o princípio do mal menor: distribuir custos pelo colectivo (eliminação do subsídio de férias e do 13ª mês) do que a tomada de medidas drásticas num contexto já muito difícil (i.e. despedimento de funcionários). Portanto, cuidado é preciso quando se lançam números para o ar. Pode-se, contudo, discutir se foi um mero acaso.

Noutro sentido, se aparentemente estamos numa fase de elevado controlo sobre todos os processos em que o Estado, de alguma forma, participa, na verdade emergem outras situações em que tal controlo é despiciente. Veja-se o caso dado pelo último concurso para atribuição de bolsas de doutoramento conduzido pela FCT. Se o processo já de si é opaco, a verdade é que os critérios de selecção não abonam à erudita arte da selecção dos candidatos. De facto, existe pouca ciência nessa escolha. 16 valores é a referência. Uma média igual ou superior a este número garante um mínimo de atenção ao projecto de investigação apresentado. Não há diferenciação quanto a este indicador para as diferentes áreas disciplinares. Depois, não é efectuada qualquer tipo de ponderação. Na prática, temos algo do género daquilo que sucede com a análise da média salarial da função pública. Ou seja, com algum exagero para mais facilmente se perceber, 16 pode ser uma média garrafal, se todo o grupo considerado tiver uma média de 10, ou pode representar uma média banal se todo o grupo de referência tiver média de 16. Contudo, é preciso sempre perceber o comportamento da distribuição de valores. Isto para dizer que tem de ser tomado em linha de conta o contexto, serem contabilizados os percentis (e.g. pertencer aos 10% dos melhores alunos do ano em causa) ou rever o histórico de evolução da média de classificações de um determinado curso, por exemplo. A média dirá pouco se não for correctamente analisada e enquadrada. Isso sim, seria controlo. Não é só neste caso que se fomenta a injustiça: nos concursos públicos a regra é a mesma, conta o número apresentado, independentemente da instituição onde foi obtido.

Para se perceber os riscos da utilização abusiva desta medida, academicamente é comum o recurso a dois exemplos. Imagine-se uma aldeia em que todos são pobres. A certa altura, existe um magnata que muda a residência para tal aldeia. Quando vai a analisar o rendimento per capita, aquela é agora uma das zonas mais ricas do país devido ao novo habitante. Contudo, os demais não mudaram de condição com a vinda do magnata: continuam pobres, de jure e de facto. Outro exemplo: não havendo nada que indique o contrário, a grande maioria dos humanos tem dois braços e isso é óbvio, confirmamos isso a toda a hora. Contudo, se calculada a média de braços de todos os 7 mil milhões de habitantes da Terra, chegaremos à singela conclusão que a mesma não terá o valor 2. Será próxima, mas nunca 2. Isto porque sendo improváveis casos de humanos com 3 braços e contabilizados os amputados, então a média não pode mesmo ser 2. Controlo é, acima de tudo, a correcta e justa sustentação das opções tomadas.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: