Fogo no quintal do vizinho

7 Out

A Sr. Ângela vivia no bairro há tanto tempo que era tida por todos como o último recurso em momentos de aflição. Com o seu grande quintal impecavelmente limpo e ordenado, dava conselhos e distribuía hortaliças frescas por toda a vizinhança de cada vez que a sua horta produzia em excesso – e isso acontecia frequentemente.

Ao seu lado viva o Sr. Nicolas – um velho reformado, casado com uma mulher mais nova, que por sinal – segundo o que o Sr. Sílvio dizia pelo bairro – tinha sido modelo para uma revista de moda. Nada que pudesse ser confirmado, mas isso também não era o cerne da questão. Ângela, Cristã convicta e apaixonada pela manutenção dos bons costumes, desaprovava por completo qualquer tipo relação que saísse fora dos parâmetros que ela tinha alfabeticamente ordenados na sua mente, e que, eram uma espécie de bíblia das boas maneiras.

Nicolas, sabia que a velha amiga reprovava a relação, mas dentro das quatro paredes da sua casa, outras razões existiam que lhe faziam rapidamente esquecer esse pormenor. Entre a casa de Ângela e a de Nicolas, havia uma pequena casa, com um pequeno quintal, de um casal que se desentendia constantemente. Dada a assiduidade das discussões, Ângela abriu uma vez um parêntesis mental chegando a dizer mesmo ao seu velho amigo reformado – “se calhar o melhor, era que estes dois se divorciassem. Qualquer dia ainda se acabam por matar um ao outro”.

Na parte de cima da rua, viviam uns casais muito simpáticos, mas muito pouco conversadores. Ângela achava que eram demasiado obcecados com o trabalho e que em geral não se preocupavam com o destino do bairro. Todavia, evitava qualquer comentário acerca deles com os restantes vizinhos, pois no geral não havia nada neles que pudesse ser verdadeiramente criticável Ao contrario daqueles que viviam no fundo da rua, bem a sul do bairro. Esses sim, “gente preguiçosa, e pouco disposta a limpar os quintais”. Dizia em tom de beato sofrimento, “Nicolas, já viu o estado a que chegaram aqueles jardins! As flores quase todas murchas, as hortas com as plantações todas cheias de bicho! Eu bem vejo a alegria quando lá lhes vou levar alguns legumes. Não fosse eu e aquela gente ainda morria de fome.” “Pois”, retorquia Nicolas enquanto mastigava um pedaço de biscoito, acrescentado depois, ainda com algumas migalhas nos lábios, “aquele outro, o Sílvio, a sorte dele é a fortuna que os Pais lhe deixaram, senão estaria já de certeza na miséria, tendo em conta o dinheiro que ele gasta em prostitutas e vinho!”. Mas, em apenas dois segundos Nicolas arrependera-se do que havia dito, não só pelo ar escandalizado de Ângela, mas também porque de cada vez que a palavra vinho ressoava nos seus pensamentos, temores antigos invadiam o seu subconsciente. Divagava já pelo sofrimento que foram todos aqueles dias de recuperação depois que abandonou a bebida, quando se apercebeu que Ângela prosseguia já com a conversa. “. “E então ele no outro dia bateu-me à porta”. “Ele quem?”, perguntou o velho reformado já perdido no enredo, “O Sílvio, não era dele que estávamos a falar! Bom, bateu a porta e muito educadamente perguntou-me se eu não tinha uns pepinos, umas courgettes e umas bananas, porque ia fazer uma receita que aprendera que se chamava… Deixa lá ver… Era um nome estranho…” “ BungaBunga?” perguntou Nicolas. “É isso, BungaBunga! Você conhecia a receita?” “Ah, a minha Carla costuma-me fazer lá em casa, mas normalmente leva muito menos vegetais, mas enfim, deve ser outra forma de preparar o prato.” “Bom”, continuou Ângela, “e enquanto eu estava a colher os legumes na horta, ele esteve-me a contar que os vizinhos dele estão muito mal a nível monetário”. Nicolas acrescentou sem qualquer tipo de relutância: “Pudera! Aquele, o do bigode branco, o Jorge, comprou carro novo, remodelou a casa TODA, deu carro aos filhos TODOS, vai de férias TODOS os anos, difícil era não estar endividado!”. “Pois”, exclamou Ângela, pensando se, apesar de lhes levar constantemente legumes da sua horta, não estaria a viver com mais dificuldades do que aqueles a quem prestava caridade. “Ele também me falou do outro vizinho, aquele muito simpático, o José Luís. Parece que também esta com dificuldades, ele e o outro do lado, o muito caladinho… o Pedro. Segundo o que o Sílvio me disse, todos eles pediram dinheiro emprestado a um agiota chamado Fernando Madeira Inácio Enfim, isso é lá com eles, eu só não quero é que me venham depois chatear com lamurias.”

O sol de fim de tarde, aquecia a alma caridosa de Ângela e fazia Nicolas se lembrar dos velhos tempos de adolescente, em que com os amigos faziam longas festas na praia, regadas com muito álcool Suspirou enquanto bebia o último trago de chá.

Esse momento de contemplação, quebrou-se com a chegada de David, um homem de negócios que vivia em frente numa casa com um enorme quintal e que pouco ou nada se envolvia nos assuntos do bairro. De forma pouco habitual, dirigiu-se aos dois, dizendo pausada e laconicamente: “O Quintal do Sr. Jorge, esta a arder. O melhor é chamarem os bombeiros.” E prontamente abalou, deixando sem reacção os dois vizinhos. “E eu que pensava que este aqui apenas sabia dizer bom dia e boa noite!” Dizia em tom jocoso Nicolas, enquanto Ângela se levantava olhando em direcção ao fundo da rua, procurando indícios de fogo.

(to be continued)

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