Uma espécie de blogonovela I (1)

28 Set

É assim. As sociedades democráticas possuem mecanismos bem mais eficazes e subtis de repressão e censura do que os regimes totalitários. Para quê matar, torturar ou prender se basta apenas lançar uma campanha negra, manobrar factos, comprar algumas pessoas e qualquer inimigo do status quo está feito. A sua credibilidade rasará as águas sujas do rio Douro e nunca mais poderá representar um perigo para o sistema. O regime norte-coreano e outros que tais têm ainda muito a aprender com a democracia. Uma boa campanha negra nos media vale bem mais que mil prisões e torturas do sono. Evita as chatices do martírio, da Amnistia Internacional, das condenações internacionais e dos sempre incómodos Nóbeis da Paz…

Era nestas coisas que pensava José Manuel Antunes de Oliveira nessa manhã sentado na sua poltrona. Tinha-se levantado cedo como era seu hábito e logo tinha descido ao café do Sr. Henriques para o galão e a torrada tradicionais do seu pequeno-almoço. Contudo, nessa manhã, não conseguiu resistir aos olhares penetrantes dos clientes habituais, nem o próprio senhor Henriques conseguiu disfarçar o incómodo de o ter ali. A sua cara estava em todos os jornais e os noticiários desdobravam-se em comentários sobre a sua carreira e vida. Novos elementos apareciam a um ritmo certo, pautado, como que maquiavelicamente orquestrados por profissionais da maledicência. Se esta gente aplicasse as suas brilhantes capacidades a construir algo de positivo em vez de criarem intriga, o mundo estaria sem dúvida bem melhor, remoeu ele desgostado.

José Oliveira não conseguiu tocar no pequeno almoço. Deixou uma nota no balcão e sem esperar o troco, talvez para evitar mais um contacto doloroso com o dono do estabelecimento, deu meia volta e subiu para casa. O seu hábito matinal de ler os jornais e de se colocar a par das últimas novidades na internet teve de ser alterado. Oliveira queria a todo o custo esquecer-se da realidade. Aquela confusão inventada dava-lhe uma dor de alma incontrolável e ele não era pessoa de resistir a estas coisas. Era muito pesado. Ao longo da sua vida teve naturalmente momentos de enorme dificuldade. Foi alvo de traições, de jogos de intrigas e de facadas nas costas, como quase toda a gente que se move nos meios políticos. Mas aquela história era diferente. Vinha de onde mesmo o político mais precavido e experenciado jamais esperaria. Desde o primeiro momento em que a faísca estourou que o seu coração ficou como que entalado entre músculos de betão e desde então nunca mais conseguiu que a pressão fosse aliviada. Jamais, em toda a sua longa vida, tinha sentido algo semelhante, de forma a que nesses dolorosos momentos tentou a todo o custo aliviar, por um pouco que fosse, a tensão interior.

Dirigiu-se à sua biblioteca mecanicamente. Ao longo da sua vida habituou-se a procurar refúgio para as suas amarguras na literatura e nessa manhã foi exactamente o que fez. Passou os livros técnicos de ciência política, direito, economia e nem se dignou a olhar para os autores portugueses. O seu olhar foi direito ao seu canto favorito onde guardava as obras fundamentais da sua formação pessoal e política. Passou os olhos pelas capas de Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa, Jorge Amado e Manuel Vasquez Montalban e hesitou uns instantes. Já os tinha lido todos, alguns mais do que uma vez, e achou que talvez fosse pouco estimulante reler um destes livros. Chegou a pegar no Cem Anos de Solidão e no Capitães da Areia mas não conseguiu decidir-se a lê-los. Isto hoje não está fácil, pensou ele, que hei-de fazer? Ao olhar no vazio deparou-se com uma pilha de livros que tinha recebido no seu aniversário. A maioria deles ainda não tinha lido e apesar de muitas péssimas escolhas de quem insistia em dar-lhe livros sem perceber nada do assunto, acedeu a dar uma vista de olhos mais atenta. Fiz bem, pensou depois, já me tinha esquecido que me tinham oferecido o último livro do Leonardo Padura do enorme detective Mário Conde. Não era particularmente fã de policiais. Aliás, poucos tinha lido ao longo da sua vida, mas aquele género de policial, digamos mais social e político, era um vício para ele. Claro que o Mário Conde de Padura não se comparava nem poderia comparar ao Pepe Carvalho de Montalban, ainda assim era uma personagem bem interessante. Sem dúvida bem melhor do que o Jaime Bunda do Pepetela, que valia basicamente pela intenção.

Foi com este livro na mão que se sentou na sua poltrona gasta de muitas horas de meditação e se decidiu a passar um bom bocado a ler. Ainda conseguiu manter a concentração por algumas páginas, mas logo o seu pensamento se evadiu das páginas que se forçava a ler para o tema que o aterrorizava. Tentou várias vezes voltar à leitura mas cada vez menos conseguia desviar a atenção. Desistiu. Não valia a pena. A sua mente ia lá bem longe…

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